Garantiram-me que o ainda ministro Mendonça não é apenas um expert em TGV, mas em todo o tipo de comboios. Na imagem, pode ver-se como não se atrapalha a mudar o pneu furado de uma locomotiva tradicional.
O ministro-guru
jmmcc,
Gari Melchers, Mural da Paz, 1896
… põe-se em guarda. Não está habituado à coragem quase desafiadora da pomba frágil que finge ignorá-lo.
— O melhor é ficar quieto e manter-me de sobreaviso — pensa o animal feroz. — Isto não me cheira nada bem.
— Acho que já o assustei — pensa a pomba. — Está na hora de chamar o pombal inteiro e mostrar-lhe com quantos paus se faz uma canoa.
Bolo de casamento “Ensitel”.
Este bolo é especialmente dedicado a noivos que recebam prendas compradas na Ensitel. Se os produtos não funcionarem adequadamente, façam como faria a Ana Gomes: agarrem-se às canelas da Ensitel.
A gente precisa mais do FBI.
Quando falta informação, vai-se buscá-la. Vai-se? Reparem na entrada desta notícia: «Um fogo de grandes dimensões destruiu um mosteiro medieval situado na abadia de Rochefort, na Bélgica, muito conhecida pela produção de cerveja.» Um mosteiro numa abadia? Pode ser que sim. Na Abadia de Rochefort? Mas conhecida pela cerveja é a abadia ou a região? Segundo a própria notícia logo adiante, nem uma nem outra: «o mosteiro do século XIII atingido pelas chamas é muito popular pela produção da cerveja Rochefort Trappist»; mosteiro e abadia são, nesta história, a mesma coisa, apesar da confusão que começa por colocar um no interior da outra.
Na verdade, trata-se da Abadia de Nossa Senhora de Saint-Rémy, fundada em 1230 e situada na província belga de Namur, perto da cidade de Rochefort. É nessa abadia que está instalada uma fábrica de cerveja, a Brasserie des Pères Trappistes de Rochefort. Os monges residentes em Saint-Rémy, actualmente em número de 15, iniciaram o fabrico da cerveja em 1595.
Em suma: a notícia é curta e não houve vítimas. Quanto ao resto, as imprecisões e faltas de informação são graves? Nem por isso, enquanto não forem as mesmas cabecinhas a dar tratamento a notícias, por exemplo, de alguma cimeira europeia sobre os países em crise ou de algum comunicado do ministro Mendonça sobre os avanços irregulares do seu TGV. Aí é que a coisa muda dramaticamente de figura.
Desta vez, o DELITO DE OPINIÃO recebeu um Blog d’ Ouro atribuído pel’ A Nossa Candeia. Agradecemos à Ana Paula Fitas o prémio e a amizade, com o apreço que sempre nos tem merecido a sua contribuição para uma blogosfera viva e saudável.
«Mais de metade das empresas municipais teve prejuízos em 2009 e vive em dificuldades. O Governo aponta casos de facilitismo e garante que irão acabar.» Segundo José Junqueiro, secretário de Estado da Administração Local, tal facilitismo “aconteceu em alguns casos de que agora vamos tendo conhecimento“. Junqueiro até já acha que «há empresas municipais a mais».
Pelos vistos, o Governo está surpreendido e começa agora a achar aquilo que toda a gente já sabe há muito, o que é mau. Mas o pior é o governo prometer que o facilitismo vai acabar, o que deve significar exactamente o contrário, como é costume.
… o homem de Neandertal, extinto há 30 mil anos, já se alimentava de carne e de vegetais e cozinhava o que comia? Pois parece que sim, porque é esta a conclusão de um estudo agora publicado na revista científica norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences que teve por base a análise de partículas de alimentos contidas nas placas de tártaro dos dentes de ossadas do homem de Neandertal descobertas em sítios arqueológicos do Iraque e da Bélgica.
Foi através dessas análises que se descobriram grãos de amido provenientes de várias plantas, entre as quais uma erva selvagem, e vestígios de tâmaras, amidos e diferentes legumes, raízes e tubérculos, os quais teriam de fazer parte da alimentação desses nossos antepassados, que antes se pensava serem sobretudo caçadores e, portanto, carnívoros. Além disso, os vestígios demonstraram que alguns desses alimentos tinham sido modificados por efeito de cozedura, o que também confirma que eles dominavam o fogo. Ainda nem todos os alimentos estão identificados, mas já deu para perceber que os grãos ingeridos não eram previamente moídos e que nem sequer dispunham de utensílios de pedra para o efeito, o que faz supor que eles não se dedicavam à agricultura.
Uma coisa é certa: apesar da alimentação saudável de vegetais, cozidos e grelhados lhes proporcionar uma vida feliz — como este simpático e sorridente casal apanhado há mais de 30 mil anos quando ele piscava o olho à sua amada (foto da esquerda), ou a família que prepara um barbecue no campo longe da poluição de Bagdad e de Bruxelas (foto do topo), ou a evidente elegância das suas silhuetas (foto do meio) — não conseguiram sobreviver até hoje. Podemos, portanto, tirar os cavalinhos da chuva com essas tretas todas que andam a impingir-nos sobre dietas e longevidade.
Quanto ao resto, não fica ainda provado que o homem de Neandertal do Iraque tenha protagonizado uma espécie de reencontro com as origens naquela atracção fatal de George W. Bush pelos iraquianos. Porém, fica mais que provado que o homem de Neandertal da Bélgica nos legou uma linhagem ainda hoje influente: parte dos seus descendentes actuais continua a abominar a agricultura. E Portugal, sempre na linha da frente da obediência às directivas dos homens de Bruxelas, conseguiu livrar-se dessa arrelia que é fomentar a cultura da terra e a produção alimentar, pois toda a gente sabe que é muito melhor e mais fácil esperar que a comidinha nos caia do céu.
N.B. — Sobre o post aqui mesmo por baixo, os nossos leitores atentos já devem ter reparado que o resultado da “licença sabática” do nosso Paulo Gorjão foi deixá-lo menos atento. Era só deixar este blogue deslizar mais um bocadinho para baixo…
O DELITO DE OPINIÃO é o Melhor Blogue do ano, na habitual lista de escolhas do João Severino. A lista dos “Melhores Paus de 2010” está aqui e também inclui os nossos Pedro Correia (Melhor Jornalista) e Bandeira (Melhor Cartoonista), entre mais de meia centena de escolhidos.
A comunicação social anda de facto a navegar numa crise gritante. Vejam só como o Diário Digital (que atribuiu a notícia à Lusa) escreveu (mal) que «a menina de 13 anos, de Vagos, que estava desaparecida desde a noite de Natal foi entregue esta segunda-feira à família», com os detalhes que são do conhecimento público, e não encontrou melhor título para o dizer do que este: «Vagos: menina de 13 anos já apareceu sã e salva».
Na verdade, uma criança de 13 anos que desaparece pelo seu pé de casa dos pais na madrugada do dia de Natal, que deixa «um bilhete aos pais a dizer que ia para Lisboa com um homem chamado Manuel que teria prometido ajudá-la a seguir a carreira de cantora», que os pais dizem acreditar que «tivesse sido seduzida por alguém através da Internet», que é encontrada pela GNR a quilómetros de casa três dias depois e «acompanhada do namorado, um pouco mais velho, que também estava desaparecido» — uma criança assim está «sã e salva»?
Sim, a GNR afirmou que «os dois adolescentes estão bem e já foram entregues às respectivas famílias», mas é suposto que o jornalismo crie hábitos de raciocínio um palmo acima de alguns agentes rurais. Por mim, só o tom ligeiro com que se trata uma menina de 13 anos por adolescente já me choca. Mas adiante. Claro que é uma tentação recorrer à gasta expressão «sã e salva»: pois se ela está viva, não parece doente e foi encontrada, para quê quebrar a cabeça, não é? Errado.
Uma menina de 13 anos que não espera pela boneca de Natal (que talvez nem tivesse), que passeia pela Internet sem controlo paterno, que toma a iniciativa de informar que parte para o desconhecido atrás de um sonho numa idade em que se sonha entre os lençóis e a almofada, que tem namorado e que vive em condições que levam os pais a considerar que pode ter sido seduzida por um adulto — uma criança assim pode estar tudo menos «sã e salva». Só nas cabeças ocas que lançam estas parvoíces nos media.
A criança regressou a um quadro de vida claramente inadequado e de risco, mas podem todos respirar de alívio: está sã e salva. Tanto quanto esta espécie de jornalismo sem exigência. Ou seja: não está. Porque a notícia, ó gente bacoca, não é que a menina de 13 anos está sã e salva e foi entregue à família, mas sim que a menina de 13 anos foi encontrada longe de casa após três dias com um “namorado”.
«A estreia de Manuela Moura Guedes na SIC, que marca o seu regresso à televisão, é aguardada com expectativa. O formato não é ainda conhecido, mas este pode ser sinónimo de boas audiências para a estação de Carnaxide segundo especialistas ouvidos pelo JN.» Tenho de admitir: se, para uns, essa estreia não implica qualquer expectativa e nem sequer está a ser aguardada, é possível que, para outros, seja «aguardada com expectativa». Só estranho que, nestes tempos difíceis, o JN não tenha preferido publicidade paga em vez da notícia (?) que publicou.
Mais estranho ainda é ler que «o formato não é ainda conhecido», mas que «pode ser» um sucesso, «segundo especialistas ouvidos pelo JN». Especialistas em quê? Será gente dos Especialistas Anónimos? Não importa. Deixo aqui o meu desafio: quem não achar que «pode ser» que levante o braço. Mas não vale depois de consultar especialistas, ok?