RTP: o mau português


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Era suposto ser bom em tudo. O programa matinal da RTP-1 Bom Dia Portugal tem um apontamento chamado “Bom Português”. Ensina (?) a escrever em conformidade «com o novo acordo ortográfico». Por exemplo:
– “hectare ?”
– “hetare ?”

Depois de testar gente na rua, o apontamento diz como é e conclui invariavelmente que «assim se escreve em bom português».

Porém, valia a pena que o(s) autor(es) do apontamento e toda a hierarquia da RTP Informação soubessem escrever bom português: não existe um espaço antes de um ponto de interrogação (ou ponto de exclamação, ou vírgula, ou ponto final, ou ponto e vírgula, etc.) — bom português é saber escrever: “hectare?”

Este é um erro que a RTP ensina (?) diariamente no seu mau português escrito.

Portugal pode safar-se?


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Na China, «o Ministério do Transporte Ferroviário garantiu ir solucionar os problemas de fornecimento de energia e outras deficiências do serviço de alta velocidade entre Pequim e Xangai inaugurado no início do mês.» Nos 1318 quilómetros do percurso, os cortes de energia (e não só) têm constituído uma enorme dor-de-cabeça para as autoridades e ilustram bem os contrastes da China de hoje, entre a modernidade galopante e a incapacidade para ultrapassar um passado que se arrasta e conserva.

Esta incompatibilidade dramática na actual vida dos chineses parece que está a levar o Ministério do Transporte Ferroviário a ponderar a possibilidade de convidar para Pequim o ex-ministro Mendonça — não tanto por este poder liderar uma política de desenvolvimento permanente, mas pela prática que tem para garantir que o desenvolvimento avança às segundas, quartas e sextas, embora fique suspenso às terças, quintas e sábados.

Com um ex-primeiro-ministro em Paris, um ex-ministro em Nova Iorque e um ex-ministro em Pequim, assistimos aos primeiros sinais de que Portugal talvez se safe — não tanto pelo prestígio que eles levam, mas pela distância que os separam de nós.

D. Duarte e al-Assad avançam juntos


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O presidente da Síria, Bashar al-Assad, é “um homem muito bem-intencionado” — afirmou ontem em Damasco o duque de Bragança. O pretendente ao trono de Portugal conseguiu assim, espantosamente e de uma assentada, destruir todo o empenho que colocou há uns anos a favor do povo timorense então subjugado pela ditadura indonésia. E pouco importa que benefícios o duque foi agora buscar à capital síria, porque esta história cheira a prato de lentilhas que até chateia.

É útil saber que D. Duarte de Bragança se deslocou à Síria para contactos com o regime de Damasco e a convite do próprio Bashar al-Assad, o homem que recebeu do pai a presidência daquele país de partido único e que a conserva desde 2000. Ainda assim, D. Duarte não se conteve sem declarar que al-Assad não só “tem tentado democratizar e humanizar a política” como até “já conseguiu grandes avanços“.

Há algo nesta nova e estranha face do duque de Bragança que começa a assemelhar-se perigosamente com a triste figura do ex-ministro Mendonça: o TGV também não avançava, mas havia sempre grandes avanços…

A sério que o cão mordeu o dono?


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Entro na sala, viro os olhos para a televisão ligada na SIC-N e leio um rodapé que passa: «Assis está contra a especulação das agências de rating». Ora, eu sempre disse que o corajoso Francisco Assis ainda havia de ir longe, mas nunca tinha reparado que a SIC não o ajuda.

Dizer que Assis está contra a especulação das agências de rating é o mesmo que dizer que o cão mordeu o dono. Se a SIC descobrisse uma figura pública portuguesa a favor da especulação das agências de rating, nem seria preciso que o dono mordesse o cão: a SIC teria então entendido a diferença entre noticiar e encher pneus.

Carga e descarga


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Certo, certo é que as coisas estão a mexer, lá isso estão. Inevitavelmente: a gestão orçamental do governo cessante na primeira parte do ano dá para os profissionais do cepticismo perceberem por uma vez o desastre (habitual) que teria sido o chamado PEC 4, se algum dia fosse aprovado.

Porém, tudo acaba por ter um lado bom — como que o reverso da medalha. No caso da carga que temos agora por inevitável, a contrapartida mais feliz é ter sido possível correr com o governo do “animal feroz”. Tardia, mas sempre foi uma descarga.

Não há saloiadas grátis


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Quando se passa meia vida no PSD e um dia se quer bater o pé, o melhor é pedir primeiro explicações ao Pacheco Pereira, que tem grande estaleca a trabalhar com os pés.

Sim, que andar a oferecer bombons ao adversário é uma ideia de que o Pacheco Pereira nunca se lembraria. Bate-se o pé, rompe-se uma sola, mas mais nada além disso. Menos ainda ensaiar aproximações ao adversário, que é atitude própria de um valentíssimo saloio.

Qualquer mimo oferecido ao adversário há-de sair caro e acabar mal. Tão caro e tão mal que depois é melhor nem ver o resultado.

Peter Falk (1927–2011)


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Peter Michael Falk teve muitos papéis no cinema, mas a minha geração (e não só) há-de continuar a lembrar-se dele com simpatia, por ter sido o impagável protagonista da premiada série televisiva norte-americana Columbo.

 

 

Como Columbo, fica a figura do peculiar inspector que conduzia um velho Peugeot 403 cabriolet dos anos 50 e do seu companheiro Dog, um inseparável Basset. Como Peter Falk, fica a memória de um homem que sofria de Alzheimer há cerca de dez anos e que morreu ontem, 23 de Junho, com 83 anos. Muito estimados entre nós, Columbo e Falk.

Blogue da semana


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Podem acusar-me de ser tendencioso, de ser pelos amigos, de ser pouco independente. Acusem-me, vá lá. Já me acusaram? Ok. Têm razão, ouviram bem? Por isso é que o blogue da semana, desta vez, é um que esteve recentemente interrompido pelo servidor, foi retomado pelo seu único autor e este é um amigo. Sim, já disse que sou pelos amigos e não alimento a mais pequena ponta de independência nisso: sou descaradamente por eles. Enfim, gosto do Pau Para Toda a Obra. Gosto dele ainda mais do que da Sopa do Mar, em Angra, onde acabo de chegar (só por três dias, que ainda não é desta que estou de regresso).

Ainda por cima, o bom do João Severino é um homem reconhecido, bem ao contrário do Lavoura (descupa-me, José Maria, mas a culpa é mesmo dele e é muito anterior à tua escolha), o qual vai já pelo cano por ter andado a fingir que nem tinha reparado.

Para o chá de despedida


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Como sabem, tenho sido um fã assumido do demissionário ministro Mendonça e não seria capaz de vê-lo partir, seja lá para onde for, sem lhe desejar que mande de lá saudades, que é coisa que cá não deixa.

 

 

À laia de lembrança pelos bons tempos que agora terminam (felizmente, tempos bem mais curtos do que ele esperava), aqui fica a minha oferta especial: uns bolinhos TGV fresquinhos para o último chá com a família governamental. O chá, esse, não posso oferecer: ou já se tem, ou não se tem definitivamente.

O que gostei e o que não gostei


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Gostei especialmente de ouvir da boca dos líderes da nova aliança governamental duas palavras: ética e exemplo. Foram ditas mais do que uma vez.

 

Não gostei de ouvir durante as negociações que Paulo Portas poderá não ser ministro da Agricultura e das Pescas, sectores que precisam urgentemente de ser recuperados. Ainda alimento a esperança de que o chapelinho à agricultor e o casaquinho à agricultor, tal como as beijocas às peixeiras, não tenham sido encenações teatrais.

A cirurgia que Chávez perdeu


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O presidente da Venezuela foi operado ontem de urgência em Havana (Cuba) a um abcesso pélvico. Foi pena Hugo Chávez não ter vindo submeter-se à cirurgia a Valadares (Vila Nova de Gaia). Partindo do princípio de que um abcesso pélvico ou na virilha é praticamente a mesma coisa e que a suposta especialista Virgínia Evangelista ainda lhe teria feito uma bela epilação a uma perna inteira, Chávez teria ganho uma axila totalmente gratuita. E convenhamos que regressar a Caracas com três axilas iria deixar roídos de inveja tanto os seus inúmeros inimigos como o seu amigo Sócrates.

Os azares da chanceler


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As coisas vão de mal a pior para Angela Merkel: está praticamente de costas voltadas para os gregos, ajudou a fazer a vida negra aos irlandeses, os portugueses estão-lhe com uma raiva incontida e os espanhois não lhe perdoam as mais recentes acusações.

Como se isto não fosse bastante, a chanceler alemã está agora incompatibilizada com todos os descendentes do famoso pai de Carlos Magno, mais conhecido por Pepino, o Breve. E não parece que a zanga esteja para acabar em breve.

Nervosos


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O presidente do Iémen poderá ter deixado definitivamente o país e a oposição parlamentar já apelou à comunidade internacional no sentido de obter ajuda para evitar a guerra civil.

Por um lado, a confirmar-se tudo isto, Ali Abdullah Saleh torna-se o terceiro líder árabe a cair perante a vaga de contestação popular que tem varrido os déspotas do Médio Oriente e do Norte de África. Por outro lado, a notícia há-de voltar a tirar o sono a José Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente, Vasco Graça Moura e mais alguns conhecidos zeladores da nossa democracia e da ditadura de outros lá longe.

Espero que tais zeladores consigam amanhã votar sem que o nervoso miudinho pelas mudanças no mundo lhes provoque tremedeira nas mãos. Todo o cuidado é pouco: se as cruzinhas ficarem muito tremidas, os boletins de voto serão considerados nulos.

Adeusinho


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Consta que a locomotiva estacionada este fim-de-semana à porta do Ministério das Obras Públicas tem despertado alguma curiosidade. O DO foi saber e está em condições de informar que a máquina e o respectivo vagão estão ali para carregar as peças do TGV na próxima segunda-feira e levá-las para longe, como já andamos a prever aqui há bué de tempo.

É com este fim triste e inglório que acaba o TGV em kit encomendado pelos dois últimos ministros das Obras Públicas. Mas é sempre mais triste assistir ao fim inglório dos dois homens que quiseram meter a política nacional entre carris sem conseguirem raciocinar para lá da bitola estreita que se sabe.

Então adeus, sim?