D. Duarte e al-Assad avançam juntos


jmmcc,

O presidente da Síria, Bashar al-Assad, é “um homem muito bem-intencionado” — afirmou ontem em Damasco o duque de Bragança. O pretendente ao trono de Portugal conseguiu assim, espantosamente e de uma assentada, destruir todo o empenho que colocou há uns anos a favor do povo timorense então subjugado pela ditadura indonésia. E pouco importa que benefícios o duque foi agora buscar à capital síria, porque esta história cheira a prato de lentilhas que até chateia.

É útil saber que D. Duarte de Bragança se deslocou à Síria para contactos com o regime de Damasco e a convite do próprio Bashar al-Assad, o homem que recebeu do pai a presidência daquele país de partido único e que a conserva desde 2000. Ainda assim, D. Duarte não se conteve sem declarar que al-Assad não só “tem tentado democratizar e humanizar a política” como até “já conseguiu grandes avanços“.

Há algo nesta nova e estranha face do duque de Bragança que começa a assemelhar-se perigosamente com a triste figura do ex-ministro Mendonça: o TGV também não avançava, mas havia sempre grandes avanços…

22 comentários em “D. Duarte e al-Assad avançam juntos”

  1. Noto alguma coerência no D. Duarte. Pelo menos defende regimes monárquicos: Assad filho sucedeu ao Assad pai, comprovando que a Síria “republicana” é afinal uma monarquia~.
    Pela mesma lógica, deve elogiar mais ainda o regime norte-coreano, onde o júnior sucedeu ao sénior e já há outro ainda mais júnior pronto a ascender ao trono reservado à dinastia Kim. O trono é vermelho, pormenor irrelevante em tudo isto.
    O importante é que fica tudo em família. O recém-casado príncipe Alberto do Mónaco, que parece pouco fadado para a vida familiar, tem muito a aprender com estes ditadores amigos do nosso simpático duque de Bragança.

  2. A actual situação no norte de África é algo a que tenho estado atento, mas não particularmente no caso da Síria. Por outro lado, tenho vindo a interessar-me por D. Duarte e surpreendeu-me a sua acção em prol dos direitos humanos (muito para além da questão de Timor) e em prol da emancipação da sociedade civil, com ideias concretas e válidas sobre. p. ex, educação. Descobri ainda que fazem do senhor uma caricatura demasiado desajustada da realidade. Enfim, quero com isto dizer que não posso entrar numa troca de argumentos profundos por não estar suficientemente informado sobre o tema da Síria. Mas também que me recuso a acreditar no “prato de lentilhas”, visto que o duque de Bragança já deu provas de integridade quando teve oportunidades bem menos notórias para a quebrar.
    Por outro lado, D. Duarte é um democrata e acérrimo defensor da auto determinação dos povos. Daí que duvide bastante que, estando ele a avaliar o cenário no terreno, viesse publicamente mostrar o seu apoio a um ditador se este não estivesse mesmo empenhado numa transição para a democracia, ainda que forçada pelos acontecimentos ocorridos naquela região.
    Não estou a defender ninguém, muito menos a desvalorizar a opinião do autor do post , mas apenas a salientar a nossa condição de receptores de uma informação possivelmente filtrada numa versão oficial.

    1. Meu caro, filtrada ou não e oficial ou não, esta versão (mais-coisa-menos-coisa) já vi confirmada pelo próprio na SIC-N, sentado ao lado do Mário Crespo.

      Já quanto ao “prato de lentilhas”, talvez valha a pena saber como andam as contas da Casa de Bragança. Pode ser que isso explique melhor como é que um democrata defende o empenho de um ditador subitamente empenhado na democracia.

      O empenho mais simples (depois de onze anos de ditadura própria a completar os anos de ditadura do pai) talvez fosse abdicar, promover eleições, defender uma Constituição e outros detalhes do género, não acha?

      1. Caro Joao, se ainda por cima viu a entrevista (e nao so o titulo do artigo da Lusa, transcrito por toda a imprensa Portuguesa), acho muito estranho que mantenha essa posicao, a nao ser que a sua unica intencao seja tentar atacar a figura de D. Duarte.

        Neste seu ultimo comentario tenta apresentar esta visita como uma simples manifestacao de apoio de D. Duarte a al-Assad, mas depois vai buscar as razoes que ele apresentou na entrevista para expor a “sua opiniao”.

        Se tiver prestado atencao ao que ouviu, tera percebido que D. Duarte promoveu a nova Constituicao que esta a ser desenhada (muito a imagem da nova Constituicao Marroquina), onde constam os direitos fundamentais a emergencia da democracia. Diz tambem o Duque de Braganca que esta Constituicao visa a realizacao de eleicoes livres para uma transicao democratica e pacifica – com ou sem al-Assad.

        Faz ideia, por acaso, quais sao as alternativas que existem neste momento (imediato) a al-Assad? Nao prefere contemplar a possibilidade sugerida e promovida por D. Duarte, em vez da demissao imediata e consequente caos, nao so na Siria, mas em toda a regiao? E que nao tenha duvidas que seria esse o desfecho!

        Por isso, e pela referencia completamente despropositada e nao-fundamentada as contas da Casa de Braganca, parece-me que a sua intencao era de facto, tao simplesmente, atacar a figura de D. Duarte. Quando, pelo contrario, devia ter orgulho (ou pelo menos reconhecer) da sua enorme influencia na diplomacia internacional.

        Um abraco

        1. 1. Meu caro, faça como eu: não perca tempo a saber se alguém dispara sobre o pretendente ao trono, porque ele cuida disso sozinho. Bashar al-Assad deve ter ganho já um passaporte para o Tribunal Penal Internacional pelo massacre do seu próprio povo a que o duque de Bragança fez vista grossa.

          2. Continuo a sentir o matraquear das palavras: al-Assad «tem tentado democratizar e humanizar a política e já conseguiu grandes avanços». Mas fico a cismar na leitura detalhada que o duque fez da suposta futura Constituição síria. Será aí que já estão escrever-se (muito lentamente, sem pressas escusadas, por certo) os direitos que o duque referiu?

          3. Serão constitucionais os «grandes avanços» mencionados»? Duas dúvidas: o que estará a impedir que esses «grandes avanços» demorem tantos anos a ver a luz do dia e que outras surpresas linguísticas nos reservará o duque, agora que sabemos como ele parece dominar bem os textos constitucionais em árabe?

          4. A propósito da entrevista televisiva a que V. alude, reparou como o duque foi razoavelmente habilidoso a não responder ao Mário Crespo sobre a Líbia de Khadafi? Caro Felipe, acredite que eu gostava de readquirir um certo respeito pelo duque de Bragança, mas não sou diferente da maioria das pessoas que têm comentado a atitude dele em toda esta história (que tem contornos inconfessáveis, por muito que lhe custe): é um caso indigno que me deixa entre o triste e o revoltado. A si não deixa? Está no seu pleno direito.

          1. Caro Joao, obrigado pela sua resposta e, se me permite, respoderei entao ponto a ponto.

            1. (Nao que faca qualquer diferenca para a discussao em causa, mas) “Perco tempo” com discussoes que me interessem; como Portugues e monarquico, interessam-me as discussoes em torno do Duque de Braganca, e como vivo no Libano, interessa-me muito a questao Siria. Quanto ao passaporte de al-Assad para o TPI, talvez tenha razao. Nao tomo, no entanto, todas as noticias que tem saido como factos incontestaveis, ate porque ja tive ocasiao de verificar muitas falsidades em relacao aos relatos dos movimentos de contestacao na Siria. Por outro lado existe a questao da responsabilidade individual de al-Assad nos massacres que tem ocorrido, responsabilidade essa que voce se lhe apressa a atribuir. Tendo realmente responsabilidade nesses actos (algo que admito como forte probabilidade), isso tera de ser provado.

            2. Admitindo (faca o esforco) que al-Assad tenha a intencao de democratizar o pais -o que nao lhe retira, repito, qualquer responsabilidade por actos ja cometidos- nao considera esta ser a melhor forma de o fazer, com conversacoes com a oposicao e aconselhamento externo? Este tera de ser um processo relativamente lento e abrangente, de forma a poder ser legitimado pela aceitacao de uma maioria, caso contrario seria uma constituicao inevitavelmente a prazo, a cair sincronizada com o regime. E sim, mantendo-se o essencial da constituicao tal como D. Duarte descreveu (i.e. a semelhanca da de Marrocos), sera ai que se estao a escrever os direitos a que o Duque de Braganca se referiu.

            3. Sem duvida que os acontecimentos recentes no mundo Arabe, se nao despoletaram, pelo menos certamente aceleraram as revoltas na Siria, mas e muito importante ter em conta que ha maus elementos (mesmo assim – maus elementos) que se estao a aproveitar desta “onda” para os seus proprios fins obscuros, que estao muito, mas muito mais longe de qualquer semelhanca com a democracia que alguns julgam ser o seu proposito. Atente as declaracoes de D. Duarte a este respeito e sabera do que estou a falar.

            4. Pareceu-me D. Duarte muito frontal em relacao a Khadafi. Disse que, apesar de com ele nao ter quaisquer relacoes, se fosse por ele chamado a Libia, que iria, sem problemas, caso considerasse que pudesse de alguma forma ajudar o pais a sair da situacao em que se encontra. De resto da mesma forma com que foi a Siria, assim que lhe foi pedido.

            Continuo sem ver nada de indigno, triste ou revoltante nesta historia. Pelo contrario, vejo muita dignidade da parte de quem voce diz ter perdido o respeito e vejo finalmente alguma esperanca para se alcancar alguma estabilidade nesta regiao.

            Abraco

          2. Caro Felipe, tenho muita estrada e isso já me fez perder mais ingenuidade do que eu queria. Porém, é fácil perceber outra coisa que nos distancia: sou incapaz de aceitar (mesmo com reservas) que alguém diga que um ditador conhecido como facínora «é um homem muito bem-intencionado».

            Resta-me dizer-lhe, como já deve ter percebido, que conservo com respeito a sua opinião e que retribuo o abraço.

      2. Caro João Carvalho, a versão oficial a que me refiro é a dos acontecimentos na Síria, e não particularmente ao caso do duque de Bragança, essa parece-me clara e não havia muito por onde a deturpar. D.Duarte está de facto a apoiar al-Assad na sua transição democrática , e se um sistema democratico na Síria for mais eficazmente implantado pelas mãos do ditador a prazo, então que assim seja, e é aqui que volto a salientar a nossa condição de receptores de uma versão oficial. Talvez a abdicação de al-Assad resultasse mesmo no caos e levasse a uma ditadura disfarçada por parte de outros. Vou informar-me bem sobre o tema para aqui voltar com argumentos mais concretas 🙂

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