O presidente do Iémen poderá ter deixado definitivamente o país e a oposição parlamentar já apelou à comunidade internacional no sentido de obter ajuda para evitar a guerra civil.
Por um lado, a confirmar-se tudo isto, Ali Abdullah Saleh torna-se o terceiro líder árabe a cair perante a vaga de contestação popular que tem varrido os déspotas do Médio Oriente e do Norte de África. Por outro lado, a notícia há-de voltar a tirar o sono a José Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente, Vasco Graça Moura e mais alguns conhecidos zeladores da nossa democracia e da ditadura de outros lá longe.
Espero que tais zeladores consigam amanhã votar sem que o nervoso miudinho pelas mudanças no mundo lhes provoque tremedeira nas mãos. Todo o cuidado é pouco: se as cruzinhas ficarem muito tremidas, os boletins de voto serão considerados nulos.

Há sempre quem defenda os mais repugnantes ditadores. Esta semana, no ‘Avante!’, lá vem a dose do costume. A favor do ditador Kadhafi, que tem uma colossal fortuna amealhada em bancos europeus, o jornal critica a “criminosa guerra de agressão imperialista à Líbia”: nada muito diferente do que devem proclamar as folhas-de-couve impressas pela ditadura líbia, que vigora há 42 anos. E também a favor do ditador Assad, responsável pela morte de pelo menos mil opositores desde que os actuais protestos populares começaram em toda a Síria: o jornal do PCP lamenta que a UE e os EUA tenham “imposto novas sanções” aos principais responsáveis do regime de Damasco, que se concretizam fundamentalmente na imobilização das enormes contas bancárias que esses responsáveis têm em bancos europeus.
Eis uma contradição de base do ‘Avante!’: o jornal afinal gosta de milionários. Desde que acumulem com a condição de ditadores e tenham dado já sobejas provas de repressão, tortura e morte de muitos dos seus próprios cidadãos, indefesos perante a força bruta.
Em suma: os comunistas portugueses continuam a prestar vassalagem aos ditadores mais distintos por via da repressão, tortura e morte dos seus concidadãos. Mas que também saibam roubar à grande aos seus povos, que os tempos estão difíceis.