Défice democrático


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“Considero que as autoridades só podem tomar uma decisão: anular os resultados das eleições e organizar nova votação.” Estas palavras sobre o processo eleitoral na Rússia são do ex-presidente russo Mikhail Gorbatchev, personalidade de peso que teve um papel decisivo na democratização do país. Mas parece que essa democratização ainda sofre de um défice considerável.

Pode ser uma maldade tentar encontrar uma semelhança entre o trânsito eleitoral na Rússia e em Timor-Leste, mas a receita aparentemente comum a Vladimir Putin e a Xanana Gusmão devia deixar-nos desconfortáveis, como portugueses.

Xangai: momentos de nostalgia


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À Diana e ao José Maria

Cultivo uma loucura nostálgica por duas cidades que me perdem e onde me deixo perder e que estou sempre pronto a revisitar, as duas por igual: Xangai e Praga.

 

 

Por qualquer razão, associo sempre o filme E Tudo o Vento Levou à ocupação da China pelos japoneses, que invadiram Xangai e provocaram, em 1941, a debandada desesperada dos elegantes bairros de ocidentais. (A foto acima documenta que, também em 1941, o filme estava igualmente no Queen’s Theatre, em Hong Kong.)

Era nesses bairros que pontuavam as famílias americanas e europeias, que tinham introduzido aí uma indústria e comércio de pujança sem paralelo, a par de um insólito modo de vida ocidentalizado de que os xangainenses ainda hoje conservam alguma herança.

À chegada dos japoneses, Gone With The Wind estava num imenso cartaz no frontispício de um dos cinemas mais bem frequentados de Xangai (aparece em alguns trabalhos publicados e é visível no filme O Império do Sol).

 

 

Por esses dias, o Tema de Tara era a grande moda e tocava-se no melhor salão da cidade, no mais conhecido hotel em pleno “Bund” (a área histórica dos belos edifícios de arquitectura ocidental, junto ao rio), onde ficou famosa a banda de jazz que aí enchia as noites.

 

 

Já agora, para terminar e a talhe de foice: hoje em dia, vários edifícios do “Bund” voltaram a ser hotéis e bancos; alguns deles estão ocupados por estabelecimentos McDonald’s, Kentucky Fried Chicken, Pizza Hut, etc., onde fervilham milhões de chineses, numa espécie mais do que suspeita de regresso aos tempos áureos, uma forma de glorificação desse passado pujante que os americanos, como sempre, puxam a si.

 

 

Ainda isto: quando referi milhões de chineses nas lojas não foi a brincar. A longa, enorme, Avenida de Nanquim, na Baixa de Xangai, é indescritível e costuma ser considerada a artéria urbana mais movimentada do mundo…

(Publicado aqui)

Se não beber… (34)


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… tente conduzir.*

 

* — Este sinal alternativo de estrada perigosa é pouco comum no nosso país: por um lado, só raramente nos cruzamos com alguma caravana de veículos de intervenção policial ainda em condições de circular e, quando muito, um ou outro submarino a deslocar-se à superfície; por outro lado, com o país em paz, sem que se preveja qualquer invasão estrangeira e com as obrigações da NATO, deve ter-se isso em conta nos transportes militares e não recorrer a concursos internacionais para aquisição de veículos grandes e gastadores só para treinar uns tiros e praticar todo-o-terreno.

Transportes públicos? (18)


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Os transportes militares precisam de ser pensados racionalmente, para não aumentarem a despesa pública sem necessidade. Por exemplo: com o país em paz, sem que se preveja qualquer invasão estrangeira e com as obrigações da NATO, o transporte de tropas deve ter isso em conta e não recorrer a concursos internacionais para aquisição de veículos grandes e gastadores para deslocar a módica soldadesca…

Sabrina, a ilha da discórdia – 1


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A décima ilha açoriana veio à tona há 200 anos, precisamente em meados de 1811. À socapa, os ingleses plantaram-lhe uma bandeira e chamaram-lhe sua. Gerou-se um conflito diplomático, mas o caso resolveu-se no mesmo ano: ainda hoje, dois séculos volvidos, os Açores continuam com nove ilhas.

 

 

Foi exactamente há dois séculos. A Corte portuguesa estava refugiada no Brasil desde 1807, corria em Portugal a Guerra Peninsular (1807–1814). Com a ajuda (interessada e interesseira) dos ingleses, o nosso país sofria desde 1810 a terceira e última das Invasões Francesas, a que procurava resistir (como resistiu).

Logo no início de 1811, foram avistados sinais de emissão de gases no mar, próximos da costa sudoeste da ilha de São Miguel, em frente da Ponta da Ferraria (freguesia dos Ginetes), acompanhados de actividade sísmica. O fenómeno deu mostras de acalmar após umas semanas, ainda antes de terminado o mês de Fevereiro, mas a agitação das profundezas voltou com mais força a partir de Maio. Houve várias casas afectadas nos Ginetes e as falésias e rochas mais elevadas da orla marítima partiram-se e ruíram.

No dia 10 de Junho, a uns dois quilómetros da costa, o sismo gerou uma fortíssima erupção submarina e, poucos dias depois, nascia uma nova ilha ao largo da Ponta da Ferraria. Começou por ser uma ilhota arredondada, que ganhou depressa cerca de dois quilómetros de perímetro e uns 90 metros de altitude no topo, aberta ao centro numa laguna (muito semelhante ao anel do ilhéu de Vila Franca do Campo, também na costa sul de São Miguel).

Por essa altura, passava pelo mar dos Açores o HMS Sabrina, um barco de guerra inglês de três mastros armado com vinte peças de artilharia. (O mesmo veleiro veio a estar destacado na defesa costeira de Portugal e Espanha entre 1812 e 1815, por causa da Guerra Peninsular.)

 

 

A 12 de Junho, com a missão de vigiar possíveis movimentações de forças napoleónicas junto do arquipélago, o Sabrina navegava em torno das ilhas sob o comando do capitão James Tillard, que avistou ao longe uma quantidade de fumo que se soltava das águas e que confundiu com um confronto naval, rumando então ao local. Só com a aproximação é que Tillard deu conta do engano. (Mais tarde, veio a descrever o cenário que encontrou num artigo publicado no anuário Philosophical Transactions of the Royal Society, em 1812, no qual referiu «uma imensa coluna de fumo subindo do oceano» que, nos intervalos das explosões, tinha «o aspecto de uma imensa nuvem circular» que se ia elevavando e distanciando das ondas muito acima do ponto máximo de projecção das cinzas vulcânicas, estendendo-se por força do vento «de forma quase horizontal, gerando relâmpagos e trombas-de-água».)

De longe, o comandante inglês e a sua guarnicão olhavam, estupefactos e incrédulos, o fenómeno que lhes era dado testemunhar. Tillard tomou uma decisão.

 

Fotos — Miradouro e farol da Ponta da Ferraria (Ginetes, São Miguel)

Sabrina, a ilha da discórdia – 2


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Na manhã do dia 13 de Junho de 1811, o Sabrina fundeou em frente a Ponta Delgada e o seu comandante não perdeu tempo a dirigir-se a terra e a visitar o cônsul inglês residente em São Miguel, William Harding Read, ficando a saber por este dos diversos sismos há tempos sentidos na ilha e que andavam a espalhar o pânico na população e a suscitar rezas e promessas. À noite, a bordo, a imagem que retinha da erupção não o ajudou a conciliar o sono.

A 14, sem vento que lhe permitisse navegar à vela para a zona do novo ilhéu, James Tillard decidiu aproveitar o tempo disponível: voltou a terra, arranjou cavalos e partiu para os Ginetes, onde pôde observar que o fenómeno ainda se desenvolvia com violência.

No dia 15, a tripulação de Tillard conseguiu levar o barco até perto do vulcão, que continuava a aumentar, mantendo-se com vento fraco a uma distância respeitosa. O caso não era para menos e ninguém ousaria correr riscos desnecessários.

Só a 18 é que lograram chegar mais perto da ilha em formação, a cerca de cinco quilómetros, conseguindo ver o topo da cratera e os blocos, as cinzas e o vapor que eram cuspidos. Tillard entendeu então baptizar a ilha, dando-lhe o nome do navio: Sabrina.

 

 

A Sabrina foi desenhada para efeitos de registo no dia seguinte, 19 de Junho, pelo tenente John William Miles, da guarnição do barco. (Esse testemunho está disponível no National Maritime Museum, em Greenwich; o fenómeno interessou estudiosos à época e Charles Darwin também escreveu sobre o assunto.)

Depressa a ilha se elevou de dez metros para vinte metros acima do nível do mar e aparentava ter já um quilómetro de diâmetro. Perante a continuação do tempo desfavorável, o barco regressou a Ponta Delgada. Provavelmente, o capitão Tillard e o cônsul Read aproveitaram dessa vez os dias para planear um desembarque furtivo na ilha que permitisse reclamar a soberania inglesa sobre ela.

Por fim, a actividade do vulcão parou inesperadamente a 4 de Julho. Para as bandas dos Ginetes, a terra deixou de tremer, o que já não acontecia há quase um mês. Com o tempo a favor, Tillard e Read apressaram-se a navegar até à ilha, desembarcaram os dois, hastearam a bandeira inglesa e tomaram formalmente posse dela em nome de Sua Majestade britânica.

 

 

A ilha tinha atingido numas semanas perto de cem metros de altura e, como era de esperar, depressa se desencadeou um conflito diplomático entre Portugal e Inglaterra sobre a sua posse. Porém, com a Casa Real portuguesa estabelecida no refúgio do Rio de Janeiro e os ingleses a proteger o país com vários excessos de poder e regalias abusivas à mistura, os portugueses não estavam nas melhores condições para protestar em posição de força.

Só que a nova ilha açoriana, formada por basaltos ainda por compactar e consolidar, não aguentou a erosão do mar: em Outubro de 1811, a Sabrina mergulhava de regresso às profundezas do oceano, com o peso da bandeira inglesa espetada no corpo, para nunca mais ser vista. Sem terra para reclamar, a diplomacia esqueceu o caso e os Açores continuaram com nove ilhas. Do susto só ficou a memória vaga, porque destes sustos se faz o arquipélago…

 

Ilustrações

• O HMS Sabrina, a ilha em formação e a erupção com tromba-de-água
(desenho feito no local pelo tenente John W. Miles a 19 de Junho de 1811)

• Aguarela da erupção, com o perfil e a planta da ilha Sabrina por baixo

Pontos nos is (5)


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INSEGURO

Ontem, num jantar socialista de Natal, António José Seguro disse que a reforma do poder local “não pode ser feita a régua e  esquadro a partir de um gabinete em Lisboa“. Não. Também disse que “qualquer reforma sobre o poder local tem que ser feita com bom senso, equilíbrio, critério“. Sim. Disse ainda que qualquer reforma do poder local exige que se ouçam primeiro as populações e os autarcas e que a extinção de freguesias em zonas rurais deve respeitar “a identidade e a história que ligam as autarquias aos portugueses“. Nim.

Anda meio perdido, o líder socialista, no que se refere à reforma administrativa do País: “Onde há possibilidades de fazer reformas no poder local é na malha urbana.” É? Não é. Naturalmente, há casos urbanos a repensar, mas é no mundo rural que as discrepâncias mais se acentuam, com muitos municípios e freguesias onde os cidadãos em geral e os eleitores em particular não enchem uma rua citadina.

Não há como fugir aos números. Por muito que custe a Seguro, o princípio numérico não é o ponto único em análise, mas tem de ser ponto essencial num critério sério.

Alimentar a existência de municípios marcadamente rurais (ainda subdivididos em freguesias) onde o tecido populacional não atinge os números de qualquer freguesia urbana média é sobrevalorizar a divisão administrativa que temos, irracional há muito tempo (para não dizer que é irracional desde Mouzinho da Silveira). A menos que se queira defender uma reforma de sinal contrário: rever apenas a malha urbana, como Seguro sugere, seria fazer crescer os órgãos autárquicos.

Opta pelo mais fácil, este Seguro claramente distante da postura política desejável: o apelo para que seja atendida a vontade das populações e dos autarcas é tão primário que nem parece de quem anda na política há décadas. Como se percebe, ninguém vai querer, de bom grado, ser atingido por uma reforma que pretende reduzir a estrutura autárquica, mas isso nada resolve.

A extinção de órgãos autárquicos, para o secretário-geral do PS, agrava a situação das populações: “Já lhes levaram o médico, a escola e o centro de saúde. O Estado não  tem o direito de desproteger e abandonar esses portugueses só por viverem numa terra distante do progresso.” Seguro critica com isto, afinal, a própria receita de anos do PS. Ainda por cima, exprime-se mal ao ignorar que o Estado é a totalidade dos portugueses e não só aqueles que lhe dão jeito no momento.

Inversamente, Seguro teria dado mostras de visão política se, assumindo a redução de autarquias pela respectiva aglutinação e concentração, tivesse declarado que só assim poderá pensar-se no regresso do médico, da escola, do centro de saúde, etc., justificado pelas populações que servirão. Não quis fazê-lo e perdeu-se.

Seguro está inseguro neste assunto. É lamentável, porque a reforma administrativa tem uma importância que não se compadece com intervenções básicas e redundantes. Diz ele estar “cheio de energia, ideias  e propostas“. Só por graça. Com estes brinquedos, fica-lhe mal o papel de Pai Natal.

Traffic jam


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Traffic jam é, como toda a gente sabe, compota de tráfego ou geleia de tráfego.

 

 

Actualmente, há quem produza compotas de tráfego muito sofisticadas e variadas.

 

 

Porém, há quem insista que as velhas receitas de geleia de tráfego são as melhores.

Transportes públicos? (16)


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Como se sabe, o transporte de doentes é muitas vezes vertiginoso, o que constitui não só um perigo potencial para os restantes transportes em circulação, mas também para a tensão arterial dos próprios doentes ambulatórios. Recomenda-se, portanto, que a selecção das respectivas viaturas seja feita com muita calma…