Sidónio Pais foi assassinado em Lisboa a 14 de Dezembro de 1918. Era Presidente há um ano e representava o primeiro ensaio ditatorial da República. O enquadramento simplificado desse período turbulento pode fazer-se em duas penadas despretensiosas.
Entre 13 de Maio e 13 de Outubro de 1917, pouco tempo passado sobre os primeiros soldados enviados para a Flandres, têm lugar as seis aparições de Fátima. Dos três pastorinhos visitados pela Virgem (a Senhora do Rosário), apenas uma das crianças videntes (depositárias dos três «segredos») sobrevive à devastadora “gripe espanhola”, mas o fenómeno religioso de Fátima (com antecedentes na região igualmente complexos que não vêm aqui a propósito) suscitam, a prazo, uma expressiva mobilização entre os católicos que ajuda a contrariar a política “afonsista” de afastamento entre o Estado e o Vaticano. A Igreja vai abrir um processo em 1922 e estudar minuciosamente o caso das aparições, que conclui já no advento do Estado Novo, em 1930.
O País, desorientado, está a precisar de razões para acreditar no futuro e o regresso à omnipresença da Igreja no Estado pode contribuir para isso. Rompendo com a «República Velha» parlamentar e prometendo uma «República Nova» presidencialista, Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (1872–1918) institui um clima de repressão a partir do golpe vitorioso que tem lugar de 5 a 8 de Dezembro de 1917, ao qual não faltam perseguições, torturas, prisões e espancamentos, a par dos exílios e de uma censura cerrada a tudo quanto é dito e escrito. Ao mesmo tempo, restabelece relações entre Portugal e a Santa Sé, tomando posição favorável aos católicos numa matéria que os opõe aos jacobinos desde a declaração republicana do Estado laico.
Sidónio Pais vê-se obrigado, num ano, a remodelar três vezes o governo. A sua política social não convence grande parte dos apoiantes iniciais, que se distanciam, e a sua decisão desastrosa de diminuir o esforço de guerra debilita mais o já enfraquecido Corpo Expedicionário Português estacionado em França e já batido pela ofensiva alemã na Batalha de La Lys, a 9 de Abril de 1918.
Cada vez mais, Sidónio está isolado entre os tímidos apoiantes que lhe restam, os unionistas, e mantém uma violenta hostilidade com a maior força organizada do regime, os democráticos. Em nome da ordem, da moralidade e do princípio da autoridade, é o inesperado ditador de uma República em que os republicanos também estão contra ele.
Enquanto vai perdendo dramaticamente quase todos os apoios, continua a contar com a admiração da generalidade das mulheres portuguesas. Elas não têm direito a voto, pelo que não há qualquer mal se só ligam ao que vêem: um homem garboso que gosta de passear a vaidade a cavalo por Lisboa, impecavelmente fardado.
Com inimigos nos seus próprios correligionários, Sidónio precisa de procurar apoio entre os conservadores que mais pregam o regresso à ordem, os monárquicos, com os quais consegue firmar um pacto. Entre os que acreditam no restabelecimento da ordem, Fernando Pessoa contrasta com muitos intelectuais do seu tempo e manifesta-se favorável a esse pacto, tratando Sidónio por «Presidente-Rei».
A administração pública está caótica e fala-se já do regresso ao regime monárquico, quando, subitamente, a 14 de Dezembro de 1918, Sidónio é assassinado a tiro na Estação do Rossio. O «grande morto» — como o apelidam os inúmeros adversários a seguir ao atentado — deixa o País numa das mais graves crises de sempre e à beira de nova guerra civil.































