Uma notícia na versão online do Público tem esta fotografia (de Pedro Cunha) com uma legenda muito esclarecedora: «Há 6% de portugueses divorciados e 47% estão casados». Admitindo que os divorciados vivem separados, ficamos a saber que os 47 por cento de portugueses casados usam ao mesmo tempo a mesma casa-de-banho, separados por um fino painel. A menos que o painel separador seja para identificar os separados e, nesse caso, ficamos a saber que os seis por cento de portugueses divorciados não vivem separados (ou vivem separados, mas correm para uma casa-de-banho comum quando precisam) e usam ao mesmo tempo a mesma casa-de-banho. Querem saber? Acho isto extraordinário, porque a foto é um atentado à privacidade individual. E do casal, casado ou divorciado.
A notícia assim ilustrada é que tem um título extraordinário: «Famílias de uma pessoa cresceram 37% em dez anos». Mentira: as “famílias de uma pessoa” não crescem, porque se crescem passam a ter mais pessoas. Nem há “famílias de uma pessoa”, porque uma pessoa sozinha não tem família. E falta uma foto com uma só pessoa na casa-de-banho, para a gente ficar a saber como é.


Uma pessoa que viva sozinha, não é uma família, mas tem geralmente familia.
Umas vezes sim, outras não.
Tem dias. Ou melhor: tem noites.
Alguma coisa há-de ter.
Curiosamente, a culpa nem é propriamente do jornalista. Eu ouvi o próprio responsável do Census a referir as “famílias unipessoais”. E desconfio que tal denominação obedecerá a critérios internacionais de recenseamento. O ridículo sociológico em todo o seu esplendor…
Creio que sim, que a terminologia está consagrada. O que realmente não deixa de ser ridículo.