A 14 de Dezembro de 1918, assassinado Sidónio Pais, fica a sua obra emblemática de um ano: Monsanto, que ele quis transformar em parque da cidade com o objectivo de oferecer um lugar aprazível para os tempos livres dos lisboetas e, com isso, evitar grandes ajuntamentos populares no centro urbano que resultassem em agitação.
Dois dias após a sua morte, sucede-lhe João do Canto e Castro Silva Antunes (como Presidente, Canto e Castro vai exercer 294 dias de mandato). Porém, um mês volvido, estala um levantamento monárquico que procura aproveitar o pacto celebrado com o «grande morto».
A 19 de Janeiro de 1919, no Porto e em Lisboa, os monárquicos ainda se proclamam, reivindicando uma governação reposta após uma suposta longa usurpação dos republicanos, baseada nas instituições históricas e em princípios antigos que possam acabar com a demagogia. Mas é só no Norte do País que o movimento ganha alguma (pouca) dimensão.
Assim, no Porto, aquela que fica conhecida como «Monarquia do Norte» e a sua pretensa Junta Governativa do Reino não vão ter grande sucesso, porque as forças republicanas, cerca de um mês depois, põem fim ao golpe. Este, encabeçado por Henrique de Paiva Couceiro, é tão inexpressivo que até o antigo e último monarca evita tomar posição: exilado há nove anos em Inglaterra, D. Manuel II espera que, finda a Grande Guerra, os ingleses assumam um papel determinante para a restauração da realeza em Portugal, mas mais depressa se conforma com a realidade do que apoia qualquer regresso ao passado por via da força e sem a certeza de contar com uma percentagem receptiva da população.
Em Lisboa, a mera intentona nem chega a ganhar espaço: os monárquicos revoltosos alojam-se na zona de Monsanto para dominar a capital, mas são vencidos logo nos primeiros dias, frente aos batalhões de estudantes e muitos outros voluntários que vão ao encontro deles. A «Escalada de Monsanto», como fica conhecida a batalha campal, é sangrenta e deixa muitos mortos, mas a aproximação dos populares faz-se ao som de uma quadra provocadora sobre os acontecimentos, cantada com brejeirice:
«Fomos beber água ao Rato,
Iremos mijar ao Porto;
Já cagámos no Monsanto,
Na obra do “grande morto”.»
O desafio, aliás, não fica sem resposta por parte dos entrincheirados:
«Da pêra do Afonso Costa,
Hei-de fazer um pincel,
Para lavar o penico
Do Senhor D. Manuel.»
Desacreditado o “sidonismo” e a fugaz «Nova República» e primeira experiência ditatorial do regime republicano, o novo governo concentra todos os partidos e o País regressa à «Velha República», até que as eleições de Junho de 1919 são favoráveis aos democráticos. O novo Presidente é António José de Almeida e, face à derrota eleitoral, os evolucionistas e os unionistas formam o novo Partido Liberal, conservador, que vai depois redundar no Partido Nacionalista. Por seu turno, os democráticos, bem organizados e com a maioria, recriam o Partido Republicano Português.
A verdade é que o País continua a assistir a desordens e em crise, agravada na década seguinte com o célebre “caso Alves Reis”, o primeiro megaprocesso em Portugal (mais de sete mil folhas em 58 tomos e 26 acusações, para um colectivo de oito juízes e um total de 85 testemunhas) relativo ao escândalo de uma fraude financeira gigantesca e arrojada, o qual se arrasta de 1925 a 1930 e culmina com Artur Virgílio Alves Reis condenado a 25 anos de prisão.
Depois de Sidónio Pais e sem que se sinta o fim da instabilidade, a grande ditadura do século espreita e está prestes a instalar-se…





Que excelente ideia. Uma bela ‘recordatória’, João. E um mosaico eloquente sobre a época e… a indefinível natureza dos portugueses.
Obrigado, Laura. Também gostei da “recordatória”. Já quanto à “natureza dos portugueses” mantenho as minhas reservas. Eheh…
Gostei da palavra indefinível para nos definir hehe. Parece que foi tudo por espasmos.
É o que eu digo: indefinível… 🙂
A “indefenível natureza” parece que continua…
Quero só sublinhar que és a única pessoa que em Portugal diz acertadamente “Alves Reis”. Até o grande educador do povo, grande Sherlock Holmes II, grande novelista, grande comentador, grande autarca, grande especialista da dialéctica portuguesa Moita Flore(ado)s diz “Alves dos Reis”…
Nem me fales nesse “historiador” que me estragas o almoço!
Belíssima aula de história, tão cronologicamente relatada, onde não falta nada, nenhum episódio, tudo lindamente reunido.
Muito enriquecedor “andar” por aqui e assistir a momentos destes.
História nunca é demais, até para entendermos onde chegamos ou porque chegamos e em que tempo nos situamos.
Houve alguns desvarios, mas são coisas de criança…
É bom lembrar episódios da nossa História recente.