Compositor e director de orquestra, Francisco de Lacerda nasceu em São Jorge e fez uma brilhante carreira internacional. Anda muito esquecido, mas deixou uma obra musical variada, mesmo que se considere marcada pela sua época, a transição de Oitocentos para Novecentos. Nesse período de ouro da intelectualidade portuguesa, foi determinante para o seu sucesso o longo tempo que viveu em Paris, onde privou com Eça de Queirós. Há cem anos, dirigia os célebres Concertos de Marselha.

Francisco Inácio da Silveira de Sousa Pereira Forjaz de Lacerda é natural da freguesia da Ribeira Seca, no concelho da Calheta (ilha de São Jorge, Açores), onde nasceu a 11 de Maio de 1869, no seio de uma família influente da mais antiga aristocracia açoriana: filho do político e intelectual autodidacta João Caetano de Sousa e Lacerda e irmão do médico, poeta e político José de Lacerda; os seus antepassados encontram-se entre os primeiros povoadores do arquipélago.
Aos 4 anos, Francisco dá os primeiros passos na música e no piano com o pai. A adolescência, passa-a na ilha Terceira, como aluno do Liceu de Angra do Heroísmo. Concluído o ensino secundário, embarca para o Porto e matricula-se em Medicina, mas não demora a abandonar a faculdade para enveredar definitivamente pela música. Em pouco tempo, muda-se para Lisboa e ingressa no Conservatório Nacional.
Em 1891, com 22 anos, conclui o curso com notas altas e fica no Conservatório Nacional, contratado como professor de piano. Quatro anos depois, obtém uma bolsa do Estado que lhe permite ir aperfeiçoar-se para Paris. Fica aí a morar por vários anos, com uma interrupção em 1899, altura em que regressa às suas raízes em São Jorge e onde aproveita para proceder a uma importante recolha ao nível do folclore musical.
De volta a Paris, Francisco de Lacerda é membro do júri da Exposição Universal de 1900, participando ainda na organização da participação de Portugal no evento.
Já bem sucedido no piano e no órgão, a par da composição, faz em França a sua estreia como maestro. Muito bem recebido na condução de uma orquestra, essa estreia é considerada brilhante e lança-o rapidamente como director de importantes orquestras europeias em grandes concertos, nos anos seguintes. Ao mesmo tempo que vai viajando pela Europa e adquirindo mais conhecimentos, o seu nome passa a fazer parte de reconhecidos festivais e de temporadas musicais. Entre outras iniciativas de grande mérito, funda a Associação dos Concertos Históricos de Nantes, que encabeça de 1905 a 1908.
O apogeu da sua carreira pode balizar-se entre 1902 e 1913. Ou seja: desde que começa a dirigir grandes orquestras e que toma a iniciativa de apresentar obras de compositores praticamente desconhecidos, até ser contratado, na temporada de 1912/13, como director dos Grandes Concertos Clássicos de Marselha (cargo que há-de voltar a ocupar mais tarde, com notável êxito, de 1925 a 1928).
Foto — Francisco de Lacerda fotografado em Paris
por Eça de Queirós
