Um açoriano em Paris – 2


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Em 1913, Francisco de Lacerda regressa aos Açores por razões de saúde e problemas familiares. Durante oito anos, quase sempre instalado na Fajã da Fragueira, numa casa de Verão meia perdida na costa sul da ilha de São Jorge, pertencente à família, continua a recolha sobre folclore musical que tinha feito antes e dedica-se à composição. «Ou a Fragueira, ou Paris» — desabafa ele então, como que a dizer que opta por cultivar os extremos do tudo-ou-nada. O retiro faz-lhe bem aos sinais da tuberculose diagnosticada.

Novamente em Lisboa, em 1921, funda a Pró-Arte e a Filarmónica de Lisboa, mas sem sucesso. Incompreendido, encontra grande resistência à mudança no meio artístico da capital, que o entristece, e decide voltar para Paris, onde é recebido de braços abertos. Dirige orquestras em grandes audições dos maiores clássicos, que o levam a Marselha, Nantes, Toulouse e Angers.

Deixa França em 1928, de novo com problemas de saúde, e fica a viver em Lisboa, onde organiza a participação musical portuguesa na Exposição Ibero-Americana de Sevilha do ano seguinte. A partir daí, ocupa o tempo a dar continuidade ao estudo do folclore musical nacional e das obras musicais portuguesas antigas.

Francisco de Lacerda morre com 65 anos em Lisboa, a 18 de Julho de 1934, depois de um longo período de tuberculose pulmonar. Da vasta obra que deixa, destacam-se quadros sinfónicos, música de cena e de bailado e peças para órgão, piano, guitarra, trios de cordas e quartetos de cordas.

Desse legado, merecem realce especial as Trovas para voz e piano, um conjunto de 36 peças para canto e piano (algumas delas orquestradas) consideradas notáveis e que dão conta da busca que o autor fizera para reflectir a linguagem musical popular portuguesa em geral e açoriana em particular.

 

 

Francisco de Lacerda está consagrado na toponímia de Lisboa e da sua ilha-natal, na vila das Velas e na vila da Calheta, onde dá o seu nome ao jardim municipal e ao museu de São Jorge.

Tendo vivido numa época pujante de intelectuais (privou com Eça de Queirós, por exemplo), Francisco de Lacerda foi um dos incompreendidos do seu tempo em Portugal, mas encontrou com facilidade o seu percurso e o reconhecimento do seu elevado mérito no estrangeiro. O nosso país foi sempre pródigo nestes casos…

 

 

Fotos:

• Fajã da Fragueira (costa sul de São Jorge): a casa de veraneio (em ruínas)

onde Francisco Lacerda se recolheu de 1913 a 1921

• Velas: Rua do Maestro Francisco de Lacerda (Galeria de Carlos Pinto)

• Calheta: Museu Francisco de Lacerda (museu de São Jorge)

• Monumento no Jardim do Maestro Francisco de Lacerda (Calheta),

da autoria de Didier Couto

35 comentários em “Um açoriano em Paris – 2”

  1. Mais um que não foi exactamente ‘geração de 70’, mas quase.
    O nosso país foi sempre pródigo nestes casos…. Tal e qual. Particularmente na música. Quantos de nós conhecem compositores portugueses? E quem os edita?
    Já aprendi uma hoje 🙂

  2. “Incompreendido, encontra grande resistência à mudança no meio artístico da capital”

    Isso é o mais comum, ainda hoje. Como sabemos, muitos dos nossos melhores artistas optam por viver no estrangeiro. Se ficassem à espera de fazer carreira cá, onde a mediocridade impera, estariam bem tramados. A resistência ao reconhecimento da qualidade dos Grandes continua aí.

    1. Em boa medida, assim é. Porém, deixe-me lembrar-lhe que há mudanças notórias em relação a um passado ainda recente: hoje em dia tornou-se já relativamente comum em diversas áreas de actividade o reconhecimento do mérito da obra ainda em vida dos obreiros.

      Quanto à falta de possibilidades de grandes carreiras nacionais, nem tudo se deve à mediocridade. A reduzida dimensão de cidadãos-públicos é agravada pela nossa pequena economia e respectiva oferta. O que não lhe retira alguma razão, é claro.

      1. Há mudanças notórias em algumas áreas, sim. Contudo, tenho continuado a verificar esse gosto antigo pela crítica desdenhosa, normalmente por parte de quem nunca fez nem tem capacidade para fazer. Aquela inveja portuguesinha, sabe?

  3. Ah, como eu gostava de restaurar a casa da Fajã da Fragueira e dela fazer o meu refúgio…e poder ouvir o piar das pardelas ao crepúsculo e o arrulhar do pombo-da-rocha.

    (a inveja é um sentimento mesquinho,eu sei…)

    1. Mas a sua inveja específica justifica-se. Sem aviões por perto, para não afastar as pardelas.

      Pode ver a foto (que não é minha e é pública) da fajã e da casa com mais pormenor aqui: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/07/Faj%C3%A3_da_Fragueira%2C_em_primeiro_plano_e_em_ru%C3%ADnas%2C_a_casa_que_foi_do_Maestro_Francisco_de_Lacerda%2C_Ribeira_Seca%2C_Calheta%2C_ilha_de_S%C3%A3o_Jorge..JPG.

    2. Ó Fernando, não arranja aí um jactinho para vários interessados, consigo incluído, irem lá fazer um reconhecimento aos ‘terrenos’ da sua predilecção? Vá lá! 🙂

          1. Sempre quis ser enfermeira-paraquedista…. assim, associo o útil ao agradável.
            E não precisava de sair de lá!
            Bom, para S. Miguel eu voltava….

        1. Qual pára-quedas, não vá na conversa dele, Alexandra, deve ser tudo para encarecer a coisa… 😉 E então não pode vir? Está claro que já a estava a incluir a si na comitiva aí do Fernando, senão quem é que me mostrava o meu ‘time-sahared’ cottage?! Além disso, parece que temos umas conversatas em agenda porque o mundo é pequeno, eh eh 🙂

          1. Não sei se é para encarecer a coisa se é para ser o dono do pedaço
            Ainda bem que já contava comigo na comitiva, assim púnhamos as ditas conversas em dia…
            Eh.eh…vivemos mesmo numa Fragueira.

      1. Não sei se a rapaziada da NetJets me faz algum desconto…mas, em calhando, já eu não regressava…que os Açores são terras de bruma e feitiço. E só conheço S.Miguel…

          1. Conheci razoavelmente.Pela “mão” do Mário Machado,ao tempo ainda não presidente da câmara de Ponta Delgada, eu e a minha mulher lá passámos dias belíssimos. E revi o meu antigo e extraordinário Prof de História no Liceu de Santarém, Nestor de Sousa, micaelense de gêma e que então dirigia o museu Carlos Machado. Levei abraços do meu Pai ao seu antigo amigo dos tempos de Lisboa,o Dr Costa Matos, que nessa altura chefiava a Alfândega. Fui fidalgamente recebido por todos. E tenho uma saudade eterna de ver o sol nascer no Nordeste e pôr-se nos Mosteiros. E tanto que fica por contar.

        1. Vá lá, Fernando: para além de si, há mais 3 viajantes. E para além do pelouro “deslocações”, confiávamos-lhe o pelouro de um novíssimo café-concerto, a inaugurar em ambulatório açoreano, de seu nome ‘poemas que eu sei’. Estamos nas suas mãos… E muito bem entregues 🙂

          1. “…Cuando miro el azul horizonte
            perderse a lo lejos,
            al través de una gasa de polvo
            dorado e inquieto,
            me parece posible arrancarme
            del mísero suelo
            y flotar con la niebla dorada
            en átomos leves
            cual ella deshecho. …”

            Este podia gravar-se junto à porta de entrada do espaço, a que eu chamaria de ” De três em pipa ” …

            E também lhe podia juntar estes “…Só no meu coração, que sondo e meço,
            Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,
            Em segredo protesta e afirma o Bem! …”

            dum açoriano imortal…

            ( vocês estragam-me com mimos…)

          2. Então leva a sua mulher outra vez que é para não largar o cockpit quando se entusiasmar com a paisagem 😉 – E eu não tenho razão no pelouro? Esses espanhóis… E Montale? Pelo menos um Montale, tem de dizer in loco 😉

          3. “…Non recidere, forbice, quel volto,
            solo nella memoria che si sfolla,
            non far del grande suo viso in ascolto
            la mia nebbia di sempre.

            Un freddo cala… Duro il colpo svetta.
            E l’acacia ferita da sé scrolla
            il guscio di cicala
            nella prima belletta di Novembre. … “

            (Vostro desiderio è un ordine…)

      1. Ou então é ignorância minha. Eu fui lá parar porque o motorista do táxi decidiu mostrar-ma e andou à procura do homem da chave. Nunca tinha ouvido falar, e é das igrejas mais bonitas que já vi. Mesmo agora tive de andar um bocadito no google para a encontrar.

        Valha a verdade que S. Jorge é um bocado ignorada nos roteiros turísticos embora seja uma coisa do outro mundo. Digo eu.

        1. Tem razão, Isabel. Confesso que não tinha entendido. Falha minha, claro, mas já percebi. Aproveito para chamar a sua atenção para a série “As ilhas que eu vejo”, que bem poderá vir a incluir essa e outras peças.

  4. Isto é História!
    Muito interessante. E, para mim, absolutamente desconhecido.
    Certo, certo é que ele lá tinha a sua razão: …ou a Fragueira ou Paris!. Voltamos aos Açores!
    Excelente documento, lindíssimas imagens, gostei muito.
    Se, durante muito tempo isto era a nossa triste realidade, hoje já não será tanto assim. E até se assiste ao inverso, a pouca qualidade catapultada para um patamar imerecido. Coisas de “padrinhos”.
    Mas, regra geral, é forçoso sair para se ser conhecido, em várias áreas.

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