Lotação esgotada


eventhorizon,

Cheguei há pouco do cinema – os bilhetes a dois euros e meio da Festa do Cinema (iniciativa dos dias 11, 12 e 13 de Maio) são convidativos, e aproveitei o pretexto para ir ver Ex-Machina, a estreia do argumentista Alex Garland como realizador (verdade seja dita, estaria disposto a pagar os cinco ou seis euros do costume para ver o filme, e não me sentiria defraudado: será provavelmente o melhor filme de ficção científica do ano). E não fui o único a aproveitar: a sala 4 do El Corte Inglés de Lisboa estava esgotada. Isto numa noite de Terça-feira, sem feriados à vista, para ver um filme relativamente pouco publicitado (na sua terceira semana de exibição) de um realizador desconhecido para quem não tenha algum conhecimento do género e com um elenco onde só talvez Oscar Isaac possa ser verdadeiramente famoso. Não se trata de um Avengers, de um Fast & Furious ou de outro qualquer blockbuster de acção feito para bater recordes de bilheteira nos mercados internacionais, mas de um filme alternativo. A encher uma sala 21 dias após a sua estreia. Há anos que ouço falar na crise dos cinemas, na falta de público, na fraca bilheteira para praticamente todos os filmes que não sejam as grandes produções norte-americanas, e nos mais variados bodes expiatórios (a pirataria costuma ser o mais frequente, e é com igual frequência um tiro ao lado). Vai na volta, e o preço dos bilhetes até tem alguma coisa que ver com o caso. 

Blogue da semana


eventhorizon,

Nuno Galopim e João Lopes mantém há quase dez anos o Sound+Vision, o blogue que é também uma tertúlia mensal e que é mais completo e diversificado do que a maioria das secções de “Cultura” da imprensa nacional. Gosto especialmente de lê-los sobre cinema – falam com conhecimento e sem preconceito sobre a Sétima Arte nas suas diversas vertentes, dos filmes mais alternativos aos blockbusters de Verão; mas quem preferir a televisão, a música ou mesmo outras artes também encontrará no blogue artigos de interesse. Fica a sugestão como blogue da semana. 

Durma sobre os impostos


eventhorizon,

O que assusta no adiar da “taxa de dormidas” de António Costa para 2016 é a possibilidade de nesse ano já ele ser primeiro-ministro – e, com a iluminação que se lhe conhece, de pretender levar a ideia um pouco mais longe. Para quê limitar a ideia às dormidas em hotéis, hostels, pensões e similares de Lisboa quando pode taxar todas as dormidas em todo o país – incluindo, como é bom de ver, as dos cidadãos do dito país nas suas respectivas camas? Contas feitas, são dez milhões de sonos por dia (por alto), algo entre cinco a oito horas diárias (idem), que ainda não pagam impostos. Basta para isso um aparelho, que por ora designaremos de hipnímetro -, e cuja construção até pode ser adjudicada sem concurso público a uma empresa amiga, só vantagens – de aquisição obrigatória por todos os portugueses, a colocar debaixo da almofada (por via das dúvidas até pode ser obrigatória a aquisição de um segundo, a colocar no encosto do sofá – importa evitar perda de receita fiscal caso se adormeça em frente à televisão). O dito aparelho contabilizará as horas de sono dormidas e a partir daí é só taxar com criatividade. Por duração de sono, por ciclo de sono, por volume do ronco, com tarifa agravada para quem estica o descanso pela manhã de Sábado – enfim, o céu é o limite, e imaginação fiscal é coisa que pelos vistos não falta ali para os lados do Largo do Rato. 

Já o mesmo não se pode dizer do bom senso, mas não se pode ter tudo. 

 

Blogue da semana


eventhorizon,

Para esta semana fica uma sugestão internacional: o SF Signal, um dos melhores e mais populares blogues colectivo sobre ficção científica e fantasia (e horror, e todos os sub-géneros de ficção especulativa que possamos conceber) que se podem ser na Internet hoje em dia, e que conquistou em dois anos consecutivos o Prémio Hugo para “Melhor Fanzine” – ao ponto de os seus autores o retirarem de concurso em edições futuras. Boas críticas literárias e cinematográficas, excelentes entrevistas, um bom podcast (também premiado) a acompanhar, e notícias sempre frescas sobre tudo o que se passa no meio profissional e amador. Anglo-saxónico, é certo, que nestas coisas a língua inglesa é senhora e rainha. Ainda assim: para os fãs portugueses, ocorrem-me poucos locais onde possam consultar tanta e tão boa informação sobre o que se vai passando lá fora. 

Derrota assegurada


eventhorizon,

 

Há uns anos, um amigo emprestou-me o DVD do filme Alien vs. Predator, uma combinação improvável entre os monstros icónicos do filme de Ridley Scott (e da sequela de James Cameron) com a criatura do filme de John McTiernan (com Arnold Schwarzenegger) que surgiu na banda desenhada no final dos anos 80 e que já nos anos 90 deu origem a um videojogo muito popular e muito divertido – essencialmente por poder dar-se ao luxo de abdicar de qualquer noção de narrativa para apostar na atmosfera e no combate. O filme não correu tão bem, como de resto não podia correr, e antes de chegar à meia hora já eu desligava o leitor de DVD entre bocejos – tenho um fraco por aqueles filmes tão impossivelmente maus que se tornam bons de uma maneira muito retorcida, mas Alien vs. Predator é apenas e só mau, sem qualquer hipótese de redenção.

 

É, portanto, um pouco como as primárias do PS, a decorrer hoje após não-sei-quantos dias de campanha, de debates televisivos (como se entre duas cabeças desprovidas de sinapes activas como as de Seguro e Costa pudesse haver qualquer coisa de remotamente interessante a debater) e de sabe-se lá mais o quê. Aliás, todo este processo – que acompanhei a uma distância algo forçada, mas nem por isso menos higiénica – traz-me à memória o péssimo filme de Paul W. S. Anderson. Não alguma cena em particular, entenda-se, mas sim a tagline promocional que se podia ler nos cartazes do filme, que ganha toda uma nova leitura perante a evidência de que, com toda a probabilidade, o próximo primeiro-ministro do país será Seguro ou Costa: “Whoever Wins, We Lose”. Muito adequado, sem dúvida.

A água e o capote


eventhorizon,

Quando foi inaugurada a rotunda dupla (ou a inceptunda) do Marquês, houve uma imagem passada em directo televisivo que me ficou na memória: a de António Costa, tão hábil na arte de dizer nada como na de sacudir a água do capote, a chutar para a bancada – leia-se: para o melhor bode expiatório que tinha à mão – a pergunta de um cidadão a propósito das sarjetas, ou da falta delas, e de como se faria o escoamento de água caso chovesse em força. Costa, entenda-se, tem mais que fazer hoje em dia (afinal, “muita gente” até votou nele nas autárquicas para lhe dar “força para assumir outras responsabilidades”); e convenhamos, até para falar do tempo é necessário um mínimo de pensamento, algo que se lhe desconhece de todo. Mas não há motivos para alarme: o seu executivo camarário traz na ponta da língua as lições do mestre na arte do passar por entre as pingas da chuva. Como o Público confirma: 

 

O vereador da Protecção Civil da Câmara de Lisboa acusou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) de não ter previsto tanta chuva, acrescentando que a cidade se teve de preparar “à última da hora”. 

 

“Houve uma grande precipitação. As informações que nós tínhamos do IPMA não iam nesse sentido, portanto a cidade teve de se prevenir à última da hora, uma vez que não tinha sido lançado aviso laranja para o distrito de Lisboa”, disse Carlos Castro que falava aos jornalistas numa conferência de imprensa convocada devido ao mau tempo.

 

A coisa seria cómica se não fosse trágica. Ou se Lisboa não ficasse inundada pelo menos uma vez por ano, sem que os (ir)responsáveis camarários (estes e os anteriores) movessem uma palha para tentar encontrar soluções para um dos mais previsíveis problemas que a cidade enfrenta a cada Outono ou Inverno – e a culpa é do IPMA, que até previu chuva mas que não previu tanta chuva, obrigando “a cidade” a fazer “à última da hora” aquilo que todos sabemos que de qualquer maneira não teria feito – e que continuará sem fazer agora (até porque outras responsabilidades se alevantam). Se o descaramento pagasse imposto…

Delitos poéticos (24)


eventhorizon,

Pintura de Katsushika Hokusai no tecto do templo de Ganshoin em Obuse, no Japão

 

 

I have done it again.
One year in every ten
I manage it—

 

A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot

 

A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.

 

Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify?—

 

The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.

 

Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

 

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.

 

This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.

 

What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see

 

Them unwrap me hand and foot—

The big strip tease.
Gentlemen, ladies

 

These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,

 

Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.

 

The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut

 

As a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.

 

Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.

 

I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I’ve a call.

 

It’s easy enough to do it in a cell.
It’s easy enough to do it and stay put.
It’s the theatrical

 

Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:

 

‘A miracle!’
That knocks me out.
There is a charge

 

For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart—
It really goes.

 

And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood

 

Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.

 

I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby

 

That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.

 

Ash, ash—
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there—

 

A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.

 

Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.

 

Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.

 

Lady Lazarus, de Sylvia Plath 

Revisitando 2002


eventhorizon,

Depois de um estágio a anos-luz – em distância e em clima – do país anfitrião do torneio e de uma estreia miserável no Mundial de 2002, tudo o que falta à selecção portuguesa para reproduzir a prestação de 2002 é uma vitória dilatada pela fúria no segundo jogo e um bravo voluntário para esmurrar o árbitro no jogo que a recambiará de volta para este lado do Atlântico. E nem precisamos de nos preocupar com a eventualidade de não contarmos com o nosso caceteiro-mor, Pepe; Bruno Alves ou João Pereira decerto estarão à altura da ocasião.

 

(claro, há ainda aquela história de o seleccionador de 2002 ter perdido uns milhares de euros num casino de Macau, mas nada nos garante que Bento não tenha também dado um salto a Atlantic City)

Under the Skin


eventhorizon,

 

(…) And somehow Johansson, Glazer and his cinematographer Daniel Landin transform how we think of this star. They’ve taken one of the most glamorous actresses of the modern era—a woman whose looks have been abstracted into hubba-hubba caricature in most films, and on awards shows—and ironically restored her earthliness by having her play a creature not of this earth. They’ve made her beautiful in a real way, with hips and blemishes and folds in her skin.

 

As palavras são do crítico Matt Zoller Seitz no portal de Roger Ebert a propósito do desempenho superlativo de Scarlett Johansson em Under the Skin, a terceira longa-metragem do britânico Jonathan Glazer e um dos filmes mais belos, estranhos, desconfortáveis e divisivos do ano. Com uma estética algo reminiscente de Kubrick, uma banda sonora tão evocativa como arrepiante da jovem Mica Levi e uma fotografia lindíssima (que nos últimos só talvez encontre igual no extraordinário Melancholia de Lars Von Trier), Under the Skin coloca Scarlett Johansson no papel de Laura, uma alienígena em pele humana que vagueia pela noite de Glasgow em busca de homens para seduzir – para fins que o filme mostra sem explicar, numa cena cuja beleza evanescente só pode ser comparada ao horror visceral que conjura. A interpretação de Johansson, com pouquíssimas palavras, revela-se perfeita do primeiro ao terceiro acto do filme – a sua aparência inocente e sedutora, a sua natureza predatória implacável, a sua confusão perante o que é, o que aparenta ser e o que não poderá ser. E acima de tudo a estranheza do que não é humano, do que não compreende o que é ser-se humano por mais que se tente misturar – um ponto de vista raríssimo, raramente arriscado e brilhantemente executado. Poucos extraterrestres da ficção científica cinematográfica são tão alienígenas como a Laura de Johansson, enganadora na sua forma humana; e poucos filmes do género conseguiram veicular a noção do outro com a mesma carga emocional. 

 

Under the Skin estreia hoje, e será sem dúvida um dos melhores filmes de 2014. 

Blogue da semana


eventhorizon,

Desta vez, escolho para blogue da semana aqui no Delito o Intergalactic Robot. E não é (só) pela amizade ao Artur Coelho, companheiro de armas nas andanças da ficção científica e afins; é, sim, pelas excelentes sugestões de banda desenhada (contemporânea e não só), pelas críticas literárias sempre pertinentes, e por algumas das melhores reflexões sobre o género que podemos ler actualmente em português. Para nem referir as belíssimas fotografias, claro. Para os interessados e curiosos, fica a sugestão. 

Calvin & Hobbes e Garfield de regresso à imprensa portuguesa


eventhorizon,

É com alguma surpresa que descubro nas páginas do Correio da Manhã não uma mas duas bandas desenhadas diárias. E, pasme-se, bandas desenhadas clássicas: Garfield, de Jim Davis, e a incontornável Calvin & Hobbes, de Bill Waterson, provavelmente o melhor cartoon jamais concebido para o formato. Sim: já foram publicadas e republicadas milhares de vezes; e, no caso do gato cor-de-laranja, já passou há muito para a televisão, para o cinema e para merchandising diverso (Watterson, por seu lado, sempre rejeitou qualquer exploração comercial de Calvin & Hobbes). Nem por isso, porém, perderam qualidade ou pertinência.

 

Honra seja feita ao Correio da Manhã, tantas vezes criticado pela sua linha editorial popular, por manter viva a tradição da banda desenhada de qualidade na imprensa diária – finda a publicação de anos da célebre tira de Rick Kirkman e Jeryr Scott, Baby Blues, o diário da Cofina opta por não por um mas por dois títulos incontornáveis na história do formato. Diga-se de passagem que está bem acompanhado nessa tradição: o Diário de Notícias continua a publicar as excelentes tiras do nosso Bandeira, e tanto o Público (que durante anos publicou a tira de Bill Watterson) como A Bola mantêm tiras diárias do bem-humorado Luís Afonso (que também publica semanalmente na Sábado). Os outros dois desportivos, Record e O Jogo, também mantêm as suas bandas desenhadas. 

Mundo ao contrário


eventhorizon,

Independentemente de quaisquer outras considerações a propósito da oportunidade (pouca), da necessidade (nenhuma) ou mesmo da lógica (inexistente) do referendo sobre a adopção/co-adopção por casais homossexuais, não deixa de ser profundamente irónico ver a Esquerda unida contra uma consulta popular.