Depois dos ventos ciclópicos, a desintegração da Terra


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Por Mário Soares (quem mais?), o melhor humorista involuntário que vamos tendo por cá: 

Dez mil milhões será a população humana da Terra em poucos anos. E a probabilidade da desintegração da Terra, num universo totalmente desconhecido, no máximo dentro de cinquenta anos, com as terríveis consequências que daí advirão, poderá ser fatal, como diz o autor do referido livro. (…) 

 

O que diz, em síntese, o referido professor Stephen Emmott é que há um grande risco de, num prazo máximo de cinquenta anos, a Terra vir a desintegrar-se. Porquê?

 

Porque muitas florestas desapareceram por destruição dos interessados ou por incêndios postos ou ocasionais. Muitos animais, úteis aos humanos, porque deles se alimentam, estão também a desaparecer, como os próprios peixes. Muita flora e muita fauna estão já, em muitos casos, a desaparecer. Porque a ganância dos mercados e dos usurários que os governam, em busca do petróleo, dos minerais preciosos e do gás, estão a transformar a Terra e a destrui-la. Para os usufruírem. Há suficientes vozes, entre os cientistas, para o provar. (…)

 

Não sei porquê, mas ou alguma coisa se perdeu na tradução (ou Mário Soares já não sabe o que significa “desintegração”), ou o tal professor não escreveu algo tão rigoroso quanto isso (se a ideia é consultar fontes na Internet, eu atiro esta). Ou então Barack Obama sempre não rejeitou a proposta de uma certa petição e a construção da Death Star afinal vai para a frente, com a Terra a servir de Alderaan quando a coisa estiver pronta. De qualquer forma, a culpa é dos mercados. Esses marotos.

The Newsroom: Quarto poder


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A HBO confirmou que The Newsroom vai ter uma terceira e última temporada – o que para todos os efeitos constitui duas boas notícias. A primeira, claro, é o facto de a série ter mais uma temporada – é sempre um prazer regressar à redacção do noticiário das oito da fictícia Atlantis Cable News, com personagens tão memoráveis como o pivot Will McAvoy (Jeff Daniels num papel já premiado, e com toda a justiça), a produtora executiva MacKenzie McHale (Emily Mortimer), a comentadora de economia Sloane Sabbith (Olivia Munn) ou a magnata das comunicações Leona Lansing (Jane Fonda). E a segunda é o facto de a série ter apenas mais uma temporada. Algo que contrasta pela positiva com boa parte das séries televisivas americanas de hoje em dia. Já todos demos por elas: séries que deviam ter tido três, no máximo quatro temporadas, a serem esticadas para seis, sete e oito – com a inevitável perda de qualidade (assim de repente, ocorrem-me House e Dexter – não, nunca fui fã de Lost).

 

A verdade é que The Newsroom se tem revelado numa série televisiva especialmente divisiva, sobretudo nos Estados Unidos. O seu criador, Aaron Sorkin (conhecido, entre outras coisas, pela criação da aclamada The West Wing, transmitida em Portugal como Os Homens do Presidente), tem sido criticado pelo tom demasiado preachy da série (falta-me o adjectivo em português) e pela desconstrução impiedosa do discurso político do movimento Tea Party que foi tomando conta do Partido Republicano. Mas tal desconstrução e tal crítica estão intimamente ligadas à reflexão sobre a natureza do jornalismo que Sorkin proporciona – afastando-se do infotainment que parece estar a dominar as redacções (televisivas e não só) nesta época da Web 2.0 e dos Social Media e rejeitando quaisquer noções de objectividade abstracta que serve propósito nenhum, para se centrar no rigor, na fundamentação lógica e no valor informativo que fazem do jornalismo de qualidade um dos pilares de qualquer sociedade democrática. E se considerarmos o estado do jornalismo contemporâneo, torna-se fácil compreender por que motivo o discurso de The Newsroom se torna tão relevante – e por que motivo tem gerado tantos anticorpos. 

 

Mas The Newsroom é mais do que a sua reflexão política e jornalística – ela proporciona também uma perspectiva fascinante sobre a actividade jornalística e sobre a construção noticiosa, sobretudo pela forma inteligente como se liga a vários momentos mediáticos dos últimos anos. Do incidente na plataforma petrolífera Deepwater Horizon da BP ao décimo aniversário do 11 de Setembro, da morte de Bin Laden às eleições americanas de 2012, do movimento Occupy Wall Street ao atentado a Gabrielle Gilfords – histórias reais perfeitamente enquadradas na trama, servindo-lhe tanto de pretexto como de pano de fundo. Uma escrita superlativa e um elenco excepcional fazem o resto.

 

O primeiro episódio da primeira temporada de The Newsroom, intitulado We Just Decided To, será talvez o melhor episódio de estreia que vi numa série desde que Ronald D. Moore abriu o remake de Battlestar Galactica com o inesquecível 33; a primeira cena do episódio, com Will McAvoy num debate numa escola de jornalismo, é a todos os níveis memorável (só com ela Jeff Daniels justificou o Primetime Emmy que recebeu). A amiga que me recomendou a série disse-me, momentos antes de me mostrar esses oito minutos iniciais: “vês isto e vais querer seguir o resto da série”. Não se enganou; e a recomendação que ela me deixou, deixo-a agora aos leitores.

 

(Em Portugal, The Newsroom é transmitida no canal TV Séries)

 

O jornalismo e o entretenimento


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Na semana passada, os Gato Fedorento regressaram à SIC para um pequeno programa (ou para um sketch longo) sobre soluções para o país. A coisa, diga-se em abono da verdade, valeu mais pelo esforço de chegar a Steven Seagal do que pela diversão do texto propriamente dito, de resto muito previsível (reconheça-se: há algo invariavelmente divertido na imagem de Steven Seagal, no melhor estilo Delta Force II, a dar cabo do canastro do Governo; de qualquer Governo). Mas passou em horário nobre, logo a seguir ao noticiário das oito, e contou com a presença de Rodrigo Guedes de Carvalho a servir de moderador para o debate que não existiu. Como não podia deixar de ser, deu polémica – devido à participação do jornalista num programa de entretenimento. 

 

Um caso que nem é novo. Em Novembro, o jornalista (também da SIC) João Moleira viu-se envolvido numa polémica muito semelhante devido à sua participação voluntária e não-remunerada no sketch de apresentação do álbum de banda desenhada “As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy”. Esse sketch (genial; podem vê-lo aqui) apresenta-se como uma peça noticiosa na qual são mostradas… aranhas gigantes em Lisboa, penduradas na ponte 25 de Abril (é alusivo a um momento do álbum, cuja leitura, já agora, recomendo). O jornalista foi criticado pela sua participação numa peça que simula conteúdos noticiosos verdadeiros quando, na prática, se destina a promover um produto comercial (pergunto-me se a mesma questão seria suscitada se o mesmo jornalista tivesse ido apresentar, na Fnac ou na Bertrand, o livro de um dos escritores da moda…).

 

Passe o cinismo, não entendo o espanto. Há muito tempo que os noticiários televisivos deixaram de ser espaços puramente noticiosos, lugares de rigor e de objectividade (ou da objectividade possível). Já todos vimos no espaço dos telejornais a promoção a programas e a conteúdos do respectivo canal, por vezes de carácter mais ou menos noticioso e muitas vezes nem isso. Isto, claro, para nem entrar noutras questões de qualidade informativa, de isenção e de critérios daquilo que hoje em dia passa por informação. Não é a participação de dois jornalistas num programa que é evidentemente entretenimento ou num vídeo que é evidentemente falso (se a composição causar dúvidas, o que já exigirá muita falta de atenção, a premissa será sem dúvida notória pela sua inverosimilhança) que torna oficial uma qualquer ausência de “distinção entre jornalismo e entrenimento”, como referiu o presidente do Observatório de Imprensa. Essa distinção, em termos práticos, já deixou de existir há muito tempo. 

2001: A Space Odyssey de novo no cinema


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Ao longo dos últimos meses, os cinemas UCI têm vindo a repor nas suas salas de Lisboa, de Alfragide e de Gaia alguns clássicos de cinema, dando a oportunidade de ver – ou rever – no grande ecrã alguns dos filmes mais marcantes da história da sétima arte. E assim, 45 anos depois da sua estreia original em 1968 (não faço ideia quando terá passado por cá), 2001: A Space Odyssey, clássico maior da ficção científica realizado por Stanley Kubrick e escrito a meias com o “mestre” Artur C. Clarke, regressou às salas de cinema para poder ser apreciado em todo o seu esplendor visual e sonoro (acreditem: a extraordinária banda sonora do filme ganha uma outra dimensão; das imagens nem vou falar). Já o tinha visto várias vezes, claro (recordemos); mas assistir a uma sessão destas é quase como vê-lo pela primeira vez. Se tiverem oportunidade, não deixem passar: sentem-se na segunda fila (sugestão pessoal), deixem a tela preencher todo o campo de visão, e atravessem a stargate com Dave Bowman. 

Livros de cabeceira (16)


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Talvez o artefacto mais curioso da minha ínfima mesa de cabeceira não seja algum livro, mas sim o relógio – um banalíssimo despertador digital, de dígitos encarnados, quase tão antigo como eu. É certo: na nossa época, e felizmente, vinte e oito anos não combinam muito bem com o adjectivo “antigo” no que às pessoas diz respeito; já o mesmo não se poderá dizer sobre aparelhos electrónicos. E nota-se. Está gasto, o aparelho: os botões funcionam mal há anos, o indicador de que o despertador está ligado já nem aparece no mostrador. Mas continua a funcionar, enfim, como um relógio (bem sei, o trocadilho é fácil, e pior, óbvio); e se o indicador falha, já o despertador continua a soar estridente como sempre. Terá sido uma das minhas tias-avós a residir no estrangeiro que deu o relógio lá para casa – e, sem outro lugar para ocupar, acabou por se instalar no meu quarto, e por vir para Lisboa comigo há uma década. Após tantos anos, já se tornou um hábito ver aqueles dígitos rubros antes de adormecer, ou ao acordar.

 

Mas adiante, que o tema do artigo não é relojoaria, mas sim livros. Sempre tive o hábito, mais ou menos regular, de ler na cama. Nem que seja um único capitulo de um livro, ou apenas duas páginas de uma banda desenhada; regra geral, porém, acaba por ser bem mais do que isso, e não é incomum distrair-me na leitura até começar a ver claridade pelas portadas da janela. Por isso, há sempre livros na minha mesa de cabeceira. Serenity: Those Left Behind é uma banda desenhada do universo ficcional criado por Joss Whedon para a extraordinária e malograda série televisiva Firefly; encontrei-a há uns anos numa loja de banda desenhada de Lisboa e não resisti: as aventuras da tripulação da nave “Serenity” são demasiado boas para deixar passar, venham em que formato vierem. Logo de seguida, um pequeno livrinho de poesia, um dos poucos da minha biblioteca. Não sou leitor habitual de poesia, admito, mas regresso sempre a Edgar Allan Poe; e esta Complete Poetry há muito que deixou de apanhar pó na estante para conquistar lugar cativo na mesa de cabeceira. Segue-se ficção científica, como não podia deixar de ser: World of Exile and Illusion, colectânea dos três primeiros romances publicados por Ursula K. Le Guin entre 1966 e 1967 (Rocannon’s World, Planet of Exile e City of Illusions). Será uma das minhas próximas leituras. E, no topo, o livro que me tem ocupado nos últimos dias: River of Gods, do britânico Ian McDonald, uma história fascinante e multifacetada de ficção científica passada na Índia. Dele já li Brasyl, uma excelente história tripartida num Brasil passado, presente e futuro (que aproveito para recomendar) e, mais recentemente, Desolation Road, o seu romance de estreia ainda nos anos 80, uma história ousada que transporta um realismo mágico sul-americano e uma certa nostalgia bradburyana (passe o neologismo) para um Marte futurista. Ian McDonald irá estar em Portugal em breve, como convidado especial do Fórum Fantástico; nada como actualizar as leituras antes de ter a oportunidade de estar à conversa com o autor. 

Blogue da semana


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Voz do Deserto. Porque o Tiago Cavaco é, há já muitos anos, um dos melhores bloggers da blogocoisa portuguesa; porque é o único blogger que consegue fazer-me ler artigos sobre religião com gosto, não sendo eu praticante; e porque consegue escrever, no mesmo espaço, sobre religião, sobre panque-roque, sobre o cinema de Stanley Kubrick e John Carpenter (façam scroll down – os artigos não têm hiperligações – e perceberão o que quero dizer), e sobre uma carrada de outras coisas com uma combinação rara de elegância, inteligência e humor. Fica para blogue da semana. 

A maçã


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Por motivos que não vêm agora ao caso, nos últimos tempos tenho andado próximo de Éris. Ora conta-se que, sendo a deusa da discórdia, Éris não foi convidada para as bodas de Peleu e Tétis. Nem por isso, porém, deixou de comparecer (uma deusa é uma deusa, que diabo); e, por despeito, deixou lá uma maçã de ouro com a inscrição “à mais bela”. Acontece que Hera, Atena e Afrodite tinham sido convidadas – e cada uma reclamou logo para si a maçã dourada. Zeus, não querendo envolver-se na discussão entre as deusas (não era parvo) mas tendo de resolver o impasse de alguma forma, passou a batata quente – ou a maçã quente, se quisermos manter a metáfora mitológica – para Páris. As deusas, como é evidente, não deram parte de fracas, e cada uma tentou subornar o desgraçado do Páris de acordo com os seus dotes: Hera ofereceu poder político; Atena, proezas marciais; e Afrodite, a mulher mais bela do mundo (Helena, que por acaso até era casada). Páris deu a maçã a Afrodite, e o resto – a Guerra de Tróia – é história.

 

Há aqui alguns paralelismos com a nossa crises política recente (ainda que, em bom rigor, nenhum dos nossos governantes, aspirantes ou figurantes faça juz às figuras mitológicas da Grécia Antiga). Vejamos: Cavaco Silva, que não gostou de não ser convidado para as bodas políticas de Passos Coelho e Paulo Portas, puxou de uma maçã do Oeste (a troika não permite maçãs de ouro) e, na falta de um Páris para queimar no processo, atirou-a para Coelho, Portas e Seguro, dizendo: entendam-se! E zarpou para as Selvagens (pobres cagarras). Como seria de esperar, não se chegou a acordo algum, e regressado Cavaco das Selvagens (felizes cagarras), caiu-lhe a maçã de novo nas mãos. Uma vez mais, Páris sumiu-se (haja alguém que aprenda com os erros), e Cavaco lá teve de se engasgar com o raio da maçã: a solução que há umas semanas não servia afinal já serve, segue o mandato do Governo e nada de eleições para 2014 como se tinha dito antes. Se isto não parece aquela história mitológica em formato revista à portuguesa de quinta categoria, não sei o que parecerá.

 

E agora regresso para a ficção científica, para a banda desenhada japonesa, para os jogos de tabuleiro e de computador e para os blockbusters de Verão, infinitamente mais interessantes do que a política doméstica (pelo menos as personagens são melhores). 

O que estou a ler (1): “Consider Phlebas”, de Iain M. Banks


eventhorizon,

 

Há qualquer coisa de muito interessante na leitura da obra de um escritor seguindo uma ordem mais ou menos cronológica, pegando nos seus livros mais antigos e seguindo-os até aos mais actuais. Sobretudo quando esse autor estabelece um universo ficcional no qual vai enquadrando ao longo dos anos a sua ficção, ou uma parte dela, dando aos seus leitores a possibilidade de o acompanharem de forma única na sua evolução enquanto autor. Há mais ou menos dois anos comecei a ler assim Discworld, de Terry Pratchett (ver como a escrita e o mundo ficiconal evoluem a cada livro é fascinante – e ainda nem cheguei a metade); há dias, e com o mesmo propósito, peguei em Consider Phlebas, livro de 1987 com o qual o autor escocês Iain Banks – ou, no caso, Iain M. Banks, ganhando o “M.” nos seus títulos de ficção científica – deu início à série “Culture” (com um título, já agora, retirado de uma passagem de The Waste Land, de T.S. Eliot).

 

Na prática, e por aquilo que já tive oportunidade de ler (ainda não vou a meio), Consider Phlebas parece ser uma aventura quase ao estilo de space opera, construída num universo fascinante que assenta em ideias e em conceitos tradicionais de ficção científica (as esferas e os anéis de Dyson, as Inteligências Artificiais muito… peculiares, os shapeshifters). E, claro, com uma prosa rica, evocativa nas descrições, e viva nos diálogos. Até ao momento, as desventuras do protagonista com aquele que será porventura o grupo de mercenários mais azarado que o género já conheceu são divertidas – mas todos os pequenos detalhes que Banks sopra para o leitor sobre aquele universo pós-escassez na qual a Humanidade, ou uma qualquer forma de Humanidade, construiu a sua utopia hedonista com a ajuda (e a governação) de Inteligências Artificiais são aliciantes. É este universo que Banks explora ao longo dos vários livros que compõem a série “Culture” – e que conto descobrir nos próximos tempos, dos livros mais antigos aos mais recentes (ainda que tal ordem de leitura não seja de todo necessária). 

 

Até ao momento, Iain M. Banks (que sem o “M.” publicou livros como The Wasp Factory, Complicity ou Stonemouth) publicou nove livros e uns poucos contos dentro do universo ficcional de “Culture” – e, infelizmente, é improvável que venha a escrever mais algum. Em Abril, o autor apanhou os seus muitos leitores (de ambas as ficções) de surpresa com um diagnóstico de cancro terminal, que provavelmente não lhe permitirá viver mais um ano completo. O seu próximo livro, The Quarry, com publicação prevista para breve, será à partida o seu último romance. 

 

 

Este texto, já agora, é o primeiro episódio da segunda temporada de uma série que por aqui experimentámos há alguns meses (ano e meio, vá – fica aqui o recap), e à qual agora regressamos. Não sei qual será o argumento do próximo episódio, mas podemos perguntar ao José Gomes André, a cargo da realização. 

A Feira e o refugo


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Se há coisa de que os livros não gostam – para além das labaredas que muitos stocks esquecidos em armazém acabam por conhecer – é de chuva e humidade. Também por isso é de louvar que a organização da Feira do Livro de Lisboa tenha percebido, após vários anos a insistir com o arranque do certame ainda em Abril e a prolongá-lo só até meados de Maio, que talvez a coisa corra melhor mais perto do Verão (nem sempre o óbvio é evidente, como se vê). Na única ocasião em que me desloquei à Feira no ano passado, o cenário era desolador: pouca gente no parque, bancas envolvidas em plástico, livros humedecidos, e uma carga de água das antigas. Já este ano, o inverso: duas vezes até ao momento, sempre com sol. Muito sol e muito calor, como apetece.

 

Os livros agradecem. E eu também, mesmo sendo mais dado às estações frias. 

 

Livres das coberturas baças de plástico, os livros ganham protagonismo – como facilmente se vê na banca colorida da Tinta-da-China, que em termos de capas faz (ou devia fazer) todas as outras editoras presentes corarem de vergonha com as suas stock photos indistinguíveis e ilustrações de gosto duvidoso. A aposta – quase teimosia – da editora num design simples mas elegante para as capas dos seus livros é louvável – e se não compro lá nada, vontade não falta. Depois há as quintas particulares da Leya e da Porto Editora (os “latifúndios” a que o Pedro aludia ali abaixo, num comentário certeiro), fechadas sobre si mesmas como se fossem (e são) feiras dentro da Feira. Passo por lá de fugida – abomino o ambiente de centro comercial que se gera ali em pleno Parque Eduardo VII, ao qual não faltam os alarmes de entrada e saída; pelo caminho, encontro entre os descontos quatro exemplares perdidos da velha colecção policial, de capa preta – exilados do armazém, decerto fugidos à incineradora que consumiu os seus parentes azuis. Mas não me detenho, nem na secção de banda desenhada da Asa – convidativa, decerto, mas com preços pela hora da morte (namoro um tomo do Bilal há anos, mas o preço, o preço). Se bem que, no que aos preços diz respeito, os nossos mastodontes editoriais não estão sozinhos – não fossem os caixotes de refugo e fundos de armazém que várias editoras arrumam ao lado das respectivas bancas e a minha carteira só se abriria para café e água. 

 

Mas vale-nos a nós, leitores apertados, o refugo editorial, as edições em segunda mão, as obras esquecidas; e se nos alfarrabistas (onde resisto à tentação de completar por fim a minha colecção de Astérix) a procura por alguns volumes mais raros se revela impossível, já nos caixotes da Devir – cujas capas ilustradas de comics norte-americanos e graphic novels de referência serão talvez as únicas a competir com as cores da Tinta-da-China – encontram-se alguns tesouros em saldo. E porque o tempo não é de desperdiçar nem tesouros nem saldos, não resisto a trazer por menos de metade do preço o décimo-segundo volume de The Walking Dead, a banda desenhada do momento, apesar de a minha colecção pessoal (construída devagarinho ao longo dos últimos dois anos e meio) ainda só ir no nono paperback. A ler no futuro, quando as promoções ou as finanças permitirem comprar os dois entretantos. E o tesouro maior: Hellblazer: All His Engines, na edição portuguesa da Devir desta aventura singular do célebre exorcista britânico John Constantine, criado nos anos 80 por Alan Moore, Steve Bissette e Jamie Delano (com inspiração em Sting) para a DC Comics. Uma graphic novel que procurava há anos a um preço razoável (o último exemplar que passara pelas minhas mãos, há meses, custava 30 euros), ali, esquecida no caixote ao sol. Ainda não chegou à estante; para já, o lugar de banda desenhada de mesa de cabeceira pertence-lhe.

 

 

Para trás fica a minha curta lista de compras para a Feira, improvável salvo milagre de promoção fortuita. Mas se mais nada trouxer do Parque, já me dou por satisfeito.

 

(fora do texto, mas a merecer destaque: foi um prazer encontrar o nosso Pedro na cadeira de autor)

The National e o indie rock em tom geek


eventhorizon,

A minha relação com a música dos norte-americanos The National é curiosa. Em 2008, altura em que muito se falava deles a propósito do excepcional Boxer, vi-os ao vivo no festival Optimus Alive (fui lá pelos Rage Against the Machine – ainda não estava bem no mood indie rock, caso isso não seja óbvio). Lembro-me de ter achado o concerto morno, sem chama ou qualquer outra coisa que o fizesse sobressair. Dito de outra forma, não entendi de todo o hype promovido por alguns blogues que acompanhava na época. Isto, claro, até chegarmos a 2010 e High Violet cair nos meus ouvidos como uma bomba. A todos os níveis notável, High Violet fez-me redescobrir uma banda que julgava sobrevalorizada. Nada mais errado: e o novíssimo Trouble Will Find Me, que ando a ouvir há já alguns dias, confirma os The National definitivamente entre as minhas bandas favoritas.

 

Ainda assim, um dos aspectos mais interessantes a propósito da banda de Matt Berninger é a forma um tanto ou quanto invulgar como asseguraram o seu lugar na cultura popular contemporânea pela via geek. No ano passado, juntaram-se ao universo ficcional fantástico de George R. R. Martin na série televisiva Game of Thrones (uma das melhores dos últimos anos) com uma interpretação extraordinária de The Rains of Castamere, uma canção muito importante nos livros que sublinhou um dos pontos altos da série. E, em 2011, os The National compuseram uma música original, Exile Vilify, para um videojogo de ficção científica muito popular: Portal 2, da Valve. Não deixaram o crédito em mãos alheias: Exile Vilify é uma canção soberba, talvez uma das melhores que a banda já compôs. Por ocasião do seu lançamento, a produtora do jogo lançou um concurso junto dos fãs, para a criação de um videoclip. O vídeo que se segue não foi o trabalho vencedor, mas uma das submissões a concurso – e encaixa na perfeição em Exile Vilify. Ora vejam/ouçam:

 

A irrelevância da imprensa tradicional


eventhorizon,

Este meu post começou por ser um comentário a este pertinente artigo da Patrícia (ou melhor, um comentário a um comentário), mas quando a coisa se tornou numa parede de texto decidi colocá-lo antes aqui. Até porque o tema merece alguma atenção (e não tenho escrito tanto aqui como gostaria).

 

A imprensa vive numa pescadinha de rabo na boca há largos anos, ainda antes de a crise crise rebentar à sua volta. Já quando estudava Jornalismo na primeira metade da última década se falava das tiragens em queda, da qualidade a esboroar-se, da crescente superficialidade dos artigos, de modelos online desfasados da realidade. A crise, como é evidente, veio acenturar tudo isto; mas há muito tempo que a imprensa publicada (leia-se em papel) tem vindo a alienar os seus potenciais leitores. São páginas e páginas de intriga política e de economia – temas muito importantes, sem dúvida, mas que não deviam deixar outros sem espaço. Pois o que sobra é dividido com sociedade e com as páginas desportivas de futebol. Para o resto, migalhas. 

 

E isto, parecendo que não, é importante. Diz a Patrícia, em resposta ao Pedro, que “o drama é que os mais novos não compram e o que lêem está on-line e tomam como bom e não questionam. Não tem por hábito ler os cronistas ou as grandes entrevistas (ainda se fazem?) ou o jornalismo de investigação (eis uma espécie em extinção!).” O jornalismo de investigação está mesmo em vias de extinção; quanto aos mais novos – e creio que os meus 27 anos me permitem ainda fazer parte do grupo -, diria que não compram jornais e revistas porque estes meios há muito que deixaram de trazer algo que lhes interesse. Exceptuando casos muito pontuais, para os jovens comprar um jornal ou uma revista é deitar dinheiro à rua, algo que se torna mais grave quando este está longe de ser abundante. A espuma dos dias pode ser lida na Internet (e se há coisa que os mais novos têm é ligação à Internet), de forma gratuita, tanto nas páginas online dos jornais como nos blogues de opinião – com a vantagem, neste último caso, de o alinhamento dos blogues ser quase sempre evidente. E se vamos procurar temas mais específicos, um leitor fica muito mais bem servido na Internet, pois a diversidade e a qualidade oferecida é incomparavelmente superior. 

 

Falando por mim: se quiser ler algo relacionado com os meus interesses, a imprensa portuguesa pura e simplesmente não serve. Bons artigos de literatura fantástica? Coisa raríssima – se os quiser ler, ou recorro a fanzines nacionais mais ou menos regulares, a revistas estrangeirasa ou a blogues e portais online. No dia em que uma revista portuguesa tocar no tema com um mínimo de profundidade (como fez a “The New Yorker” em Junho do ano passado, com um número excepcional todo ele dedicado à ficção científica; tenho o exemplar da revista aqui ao lado), irei ao santuário de Fátima. O mesmo poderia dizer de artigos científicos – a imprensa portuguesa publica poucos, pouco rigorosos e pouco desenvolvidos; as páginas de ciência que ainda resistem nos jornais portugueses são, regra geral, de bradar aos céus, e qualquer blogue geek consegue ser mais rigoroso a escrever melhor. Se eu quiser ler artigos de tecnologia, a alternativa é a mesma – as páginas ou secções de tecnologia desapareceram dos jornais, e as redacções hoje em dia nem entendem a importância do tema. Videjogos? Aqui a coisa vira comédia, com os jornais a referirem o formato apenas na sequência de algum atentado, servindo os videojogos – erradamente, mas não adianta insistir – de bode expiatório. Cinema? Com a honrosa excepção do Jorge Mourinha do Público, todos os outros críticos de cinema dos jornais portugueses parecem iguais – e, pior, desinteressantes.

 

O mais grave é que provavelmente não andarei longe da verdade se disser o mesmo de muitos outros potenciais leitores e dos seus interesses. Quem quiser ler mais do que política e economia – quem quiser ler sobre cinema, televisão ou moda, fica bem servido na imprensa portuguesa? Duvido. 

Da (honra na) inimizade


eventhorizon,

I’m not happy about the boo boo parties… Her politics were really dreadful and derisive and caused a great many issues for me when I was young, for all of us trying to go through that. But that don’t mean (sic) I am gonna dance on her grave, as they say. I’m not that kind of person. (…) I was her enemy in her life but I will not be her enemy in her death. I am not a coward… My entire life, socially, was all around the Maggie era. That was the great challenge as a Sex Pistol was how to deal with Margaret Thatcher. I think we did rather good.

– John Lydon (Johnny Rotten), ex-vocalista dos Sex Pistols (aqui).

Blogue da semana


eventhorizon,

Se manter um blogue é por vezes complicado, imagine-se um webcomic: dentro da rotina estabelecida, o autor dispõe-se a escrever  e a desenhar uma nova história, por pequena que seja, com as suas personagens. Um desafio certamente mais complicado quando se trata de um webcomic humorístico – mais difícil do que ter piada uma vez é ter piada sempre, de forma constante. Mas por difícil que seja, há autores que o conseguem com distinção, mantendo webcomics com uma periodicidade quase diária. O Bug Comic, de Adam Huber, é disso um exemplo – e também por isso o destaco hoje como blogue da semana (certo: um webcomic não é exactamente um blogue, mas há uma certa lógica similar). Já aqui falei dele uma vez, corria o ano de 2010 – e após três anos a acompanhá-lo (e tendo lido tudo o que já foi publicado), continua a ser infalível: mesmo nos dias mais sombrios, há uma gargalhada que está assegurada. 

O tempo, o tempo


eventhorizon,

Ao que parece, o Tribunal Constitucional “está pronto a anunciar a decisão sobre as reformas do Orçamento de Estado que foram alvo de pedidos de fiscalização sucessiva da constitucionalidade” (Expresso). Por “está pronto” entende-se a próxima Sexta-feira, 5 de Abril – o quarto mês do ano. Para além da originalidade de anunciar estar pronto a anunciar a decisão (por que raio não a anuncia logo?), resta a dúvida: três meses para isto? Bem sei que nesta vida nada se faz sem tempo; mas três meses para algo tão urgente e tão decisivo para o país parece-me no mínimo exagerado. Enfim, talvez o melhor seja ignorar a coisa, e dar graças a Deus – ou às luminárias do TC – por a decisão sobre o Orçamento de Estado de 2013 ser conhecida ainda em 2013. 

A cópia


eventhorizon,

 

Há alguns dias, enquanto fazia zapping, detive-me por alguns minutos num dos canais de notícias (TVI? É difícil dizer; para quem não os segue com regularidade são todos iguais). Passava um daqueles programas de comentário político muito na moda para ex-governantes; no caso, era Marques Mendes quem botava faladura. E fiquei surpreendido pelos gestos, pelo tom, pela postura. Pergunto: é só de mim, que não tenho por hábito acompanhar este tipo de programas, ou o homem tornou-se numa cópia (necessariamente inferior) de Marcelo Rebelo de Sousa?