O regresso


eventhorizon,

Não sei se a ideia fazer Sócrates regressar aos seus idos de paineleiro* televisivo neste início de Primavera de 2013 tem como objectivo servir de cortina de fumo/balão de oxigénio ao (des)Governo ou de argumento a favor da necessidade de privatizar a RTP (arrisca-se a ser bem sucedida em ambas as frentes). Mas serve para ilustrar na perfeição quase todos os problemas do comentário político em Portugal. 

 

*A expressão, muito oportuna, foi cunhada pelo João Gonçalves

 

Contar histórias


eventhorizon,

Did you read the original Grimm’s stories your students when you were a teacher?

 

No, the stories I used for those children were Greek mythology. And I didn’t read them, I told them. I thought that was important because if you read them, the book is a sort of barrier between you and the class. I would make a point of knowing the story well enough to tell it without the book. And actually what happened was that I loved the stories so much, I wanted to tell them again and again and again, next year and next year and next year. And I know the kids remember the stories, because when I bump into a grownup now with children of their own, and they say that I used to teach them, they will say that they remember the stories. Children will forget most things you teach them, but they never forget a story.

 

But this was over twenty-five years ago. Now in Britain we have this thing called a “national curriculum,” and every teacher has to obey this curriculum and on the thirteenth Tuesday of the term they’ve got to do the semicolon or something like that. It’s ridiculous, and it’s obstructive, and it’s narrowing, and it’s restrictive, and it’s very hard to teach anything humane under that system, or so it seems to me. But that didn’t exist in my time. I was teaching at a time before that came in, so I had a pretty free hand, and I think it was better like that.

Philip Pullman, em entrevista ao podcast “Geek’s Guide to the Galaxy” (transcrito na Lightspeed Magazine), a propósito da evolução do ensino. Destaques da minha autoria.

Qual é a velocidade de voo de um diplomata em viagem para Urano?


eventhorizon,

A avaliar por este relato do Samuel de Paiva Pires, diria que a prova de Cultura Geral do concurso externo de ingresso na carreira diplomática é curiosamente parecida com esta: 

 

 

E, já agora, gostaria muito de saber qual é a resposta que os critérios de correcção da dita prova consideram correcta para a pergunta “qual o planeta por onde passaríamos se viajássemos da Terra até Urano pelo caminho mais curto“.

Vermelho


eventhorizon,

A imprensa portuguesa online aderiu quase em massa a uma campanha publicitária da Vodafone e cobriu hoje os seus portais de vermelho. No caso do Expresso, do Correio da Manhã e do Diário Económico, apenas as partes exteriores dos respectivos sites aparecem a vermelho – mas o Jornal de Notícias, o Diário de Notícias e o Público foram mais longe e decidiram “pintar” as suas páginas principais de vermelho, colocando o texto a preto ou a branco – o que é irrelevante, pois em ambos os casos é praticamente ilegível e quase doloroso para a vista (para além de ser pavoroso de um ponto de vista estético). Que os meios de comunicação portugueses precisem de receitas publicitárias como de pão para a boca não duvido (e esta campanha não terá sido barata), mas não me parece boa política comprometerem a visibilidade dos seus conteúdos noticiosos – que, para todos os efeitos, são aquilo que os leitores procuram. Depois admirem-se. 

 

(não coloco hiperligações por não querer induzir ataques epilépticos aos estimados leitores do Delito)

 

O insulto


eventhorizon,

O célebre post de Francisco José Viegas que anda a correr os jornais e as redes sociais é sintomático, sim, mas não de uma qualquer má educação. Vamos lá ver: em Portugal, a quem é que ocorre dizer “vá tomar no cu” no dia-a-dia? Nenhum adepto manda o árbitro “ir tomar no cu” quando o pénalti claríssimo ficou por assinalar. Nenhum cidadão manda um Ministro das Finanças “ir tomar no cu” quando os impostos aumentam. Nenhuma pessoa normal – excepto Francisco José Viegas, pelos vistos -, em situação alguma, mandaria outra pessoa ir “tomar no cu”. Note-se como até no insulto os nossos políticos – ou, no caso, ex-políticos – vivem desligados do país real e dos cidadãos. 

 

De resto, convenhamos que como insulto a expressão utilizada é incomparavelmente mais ridícula para quem a profere do que insultuosa para o eventual destinatário. “Tomar no cu”? A sério? Já chegámos a este ponto? Já nem insultar sabemos? 

O seu a seu dono, pois claro


eventhorizon,

Balsemão quer que o Governo ponha os “piratas” e os “motores de busca” na ordem. A coisa parece-me sinistra – e não é só por o patrão do grupo Impresa achar que um motor de pesquisa faz “pirataria”. Mas percebo a ideia: é muito mais fácil atacar o modelo de negócio de outros do que pensarmos naquilo que está errado no nosso. E, diga-se de passagem, os órgãos de comunicação do Grupo Impresa deixam muito a desejar hoje em dia. Talvez fosse boa ideia Balsemão, antes que querer extorquir dinheiro à Google (é disso que se trata), preocupar-se antes com a qualidade do jornalismo dos seus meios de comunicação social. É que no meio de Artures Baptistas da Silva, colunistas que pelo tom e pela ortografia não teriam lugar em qualquer publicação decente, biqueiradas constantes no Português (pré ou pós-Acordo) e layouts muito pouco funcionais, o jornalismo “de referência” há muito que abandonou os meios do Grupo Impresa – Expresso incluído – e rumou a parte incerta. 


A alternativa mais interessante seria a Google, perante esta polémica, retirar os meios queixosos dos resultados de pesquisa. Talvez um trambolhão em termos de pageviews diárias e de trolls a infestar as caixas de comentários fizesse Balsemão perceber como funciona a Internet.

A pedal


eventhorizon,

Fiquei com a sensação de ter visto António Costa no Estádio da Luz durante o jogo entre o Benfica e o Porto. Pergunto-me se foi lá ver a bola ou planear uma ciclovia pelo meio do relvado. 

Referência sem “r”


eventhorizon,

Que não se pense que o Expresso apenas inova na escolha das suas fontes e dos seus comentadores de Economia. Nada disso. Também para o processo de estupidificação em curso (vulgo Acordo Ortográfico) o vetusto semanário dá o seu contributo quase diário. Hoje, às portas do final do ano, foi o duplo “r” que caiu. Deve ter ido pendurado no hífen.

 

 

Enfim, cada jornal tem a ortografia que merece. Feliz Ano Novo a todos. 

As leituras do Pedro


eventhorizon,

Há alguns anos, gozou-se com o primeiro-ministro – muito justamente, aliás – a propósito de um livro da sua preferência, a misteriosa “Fenomenologia do Ser”, atribuida de forma apócrifa, passe o sarcasmo, a Jean-Paul Sartre. Há dias, um fotojornalista tirou o retrato a Passos Coelho quando este saía do carro – e no interior da viatura podia ver-se com clareza a lombada de um livro na qual se podia ler “Salazar”. A coisa apareceu em destaque nas páginas do Público, jornal dedicado a ultrapassar o Correio da Manhã pela esquerda, e logo se propagou pelas redes sociais como um incêndio: ai! que o homem é fascista, ai! que o homem anda a ler o mestre, ai! que o homem nos oprime a todos!

 

Da parte que me toca, fico algo satisfeito com a notícia: desconfio de quem despreza a leitura, pelo que saber que o primeiro-ministro anda com um livro no carro dá-me alguma esperança de que pelo menos esse defeito ele não tenha. É um fraco consolo, bem sei, mas os tempos são de crise e temos de nos contentar com o que houver. Claro que ter livros por perto não faz leitores de forma instantânea, mas sem ovos é que não se fazem omeletes.

 

E dou por mim a pensar: independentemente da escolha de leitura de Passos Coelho, ele ver-se-ia sempre aflito nesta situação. Se lê algo sobre Salazar, é fascista; se lesse algo sobre Cunhal, seria comunista (o que seria igualmente mau, ainda que o barulho na Internet fosse sem dúvida menor). Por outro lado, se lesse Margarida Rebelo Pinto, seria acusado de ler coisas idiotas; e se tivesse o “Guerra e Paz” no carro, estaria naturalmente a dar ares de intelectual, pois jamais lhe iria pegar. Tolkien ou Asimov fariam do nosso primeiro-ministro um nerd; já um Goethe, seria sem dúvida para agradar à amiga Ângela. Por fim, a ausência de livros daria a ideia que, depois da “Fenomenologia do Ser”, Passos Coelho não voltara a pegar num livro, o que seria pior que todas as alternativas anteriores. 

 

Na pior das hipóteses, um livro sobre Salazar pode ser educativo. O que, nos dias que correm, já não é nada mau. 

Tortos direitos


eventhorizon,

Parece que a CP vai fazer greve no Natal e no Ano Novo, algo que só será notícia para quem tenha andado muito distraído durante este ano. Seria certamente interessante comparar o calendário das greves de 2012 da CP com o calendário civil, e tomar nota de quantas greves coincidiram – puro acaso, certamente – com feriados, fins de semana prolongados e festividades avulsas. Para 2013, antes de se tentar fazer ver aos trabalhadores da CP o transtorno que causam a milhares de pessoas, talvez fosse boa ideia explicar-lhes a diferença entre os conceitos de “greve” e “férias”, que pelos vistos estão muito confusos naquelas cabecinhas.

A celebração da coisa


eventhorizon,

De todos os costumes religiosos que mantive durante aqueles anos entre o fim da infância e meados da adolescência, ir à Missa do Galo na noite de Natal foi aquele que mais tempo durou. Viver atrás da igreja facilitava a coisa, claro – não era preciso apanhar muito frio para lá chegar. Saía de casa e em menos de um minuto estava na igreja, sempre muito bem decorada com um presépio lindíssimo que o padre fazia questão de montar todos os anos (com musgo verdadeiro, várias dezenas de figuras e uma iluminação que causava sempre espanto na aldeia). A coisa durava meia hora e voltava para casa, para provar os sonhos e trocar as prendas. O almoço de Natal, esse, era quase sempre em casa da minha avó, e a senhora nunca foi muito à bola, passe a expressão, com a modernice do Pai Natal. A prenda que ela dava era pelo “menino Jesus”, e não havia discussão nessas coisas.

 

Ler agora que na moderna Suécia os professores têm indicações para não mencionarem o nome de Jesus Cristo nas celebrações de Natal causa-me assim alguma estranheza. Apesar de hoje em dia não praticar qualquer religião ou manter quaisquer hábitos relacionados com religião, sempre entendi o Natal como uma celebração religiosa, e Cristo como o seu verdadeiro símbolo – não o velho gordo de barbas que, de resto, nunca me convenceu (talvez por a minha casa não ter chaminé, talvez porque a ideia de um velho gordo a correr mundo para dar prendas às crianças com base nas suas boas acções sempre me pareceu inverosímil). É o politicamente correcto moderno em todo o seu esplendor hipócrita: como a celebração dá jeito mas o símbolo tornou-se inconveniente (para alguns), celebra-se a coisa e omite-se o símbolo. É a celebração da coisa, de uma coisa qualquer que podia ser o Natal mas não é. Talvez volte este ano à Missa do Galo: já vivo mais longe da igreja, o padre é outro e o presépio não deve ter musgo, mas numa época em que tudo é tão relativo e em que o mundo é tão picuinhas talvez valha a pena recordar o verdadeiro significado dos nossos símbolos mais importantes.

Anti-histamínicos académicos


eventhorizon,

Durante a semana que passou, assisti a algumas sessões da segunda edição do Colóquio Internacional “Mensageiros das Estrelas”,  organizado pelo Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (Faculdade de Letras) e inteiramente dedicado à Ficção Científica e à Fantasia. Com todo o mérito que a iniciativa tem (e tem muito), o que mais me marcou neste “regresso” à universidade foi ver como, pelos vistos, nada mudou no ensino universitário português: a primeira sessão do colóquio a que assisti consistiu numa professora universitária que, durante uma hora, leu (em inglês) tudo o que tinha escrito em meia dúzia de folhas de papel, utilizando como suporte uma apresentação de Powerpoint repleta de autênticas paredes de texto. Para não falar na fraca preparação do tema: as referências dividiam-se entre as óbvias e as duvidosas, e em ambos os casos pouca novidade acrescentavam ao tema. Quem já o conhecia, pouco aprendeu; quem não o conhecia, não terá decerto ficado com vontade de o explorar. Em resumo: um horror, uma sessão mais soporífera que os medicamentos anti-histamínicos que habitualmente tomo. Em apenas uma hora, lembrei-me de tudo aquilo que abominava no Ensino Superior (e não só) português: aulas paradas, com professores a ler de forma desinteressada e monótona – quando não entediada – a matéria. Há excepções? Claro. Não parecem ser muitas, porém – entre os académicos portugueses (e talvez entre os portugueses em geral), os bons oradores são raros. 

 

Vejamos o contraste. O último dia do colóquio abriu com uma sessão plenária com Adam Roberts, académico e escritor britânico de ficção científica. Sem papéis para ler (sequer para se guiar), sem Powerpoint a ser projectado, sem se esconder atrás de uma secretária: durante uma hora numa manhã chuvosa de Sexta-feira, Adam Roberts falou – pasme-se, falou – para a audiência sobre o que é a ficção científica e sobre o humor no género. Fê-lo de forma descontraída, enquanto andava de um lado para o outro da sala, sempre a olhar para o público – dando exemplos, contando piadas, respondendo a questões. Fez alguns apontamentos – poucos e cirúrgicos – num quadro branco. Mostrou uma curta. Sempre com muito humor. E tudo isto, note-se, sem descurar o rigor académico da sua exposição.

 

Bem sei: o propósito do Ensino – básico, secundário, universitário – é ensinar, não entreter. Concordo. Há, porém, várias formas de o fazer. Há quem prefira, como Adam Roberts, cativar a audiência para a interessar no tema em discussão. E há quem, como a infeliz professora da primeira sessão a que assisti, prefira anestesiar a audiência. Julgo não ser necessário dizer qual das sessões foi mais proveitosa em termos de conhecimentos adquiridos.

 

(entretanto, e a quem interessar, escrevi aqui um artigo mais longo e detalhado sobre o colóquio)

Fórum Fantástico 2012


eventhorizon,

 

Na próxima semana, de 23 a 25 de Novembro, terá lugar na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras, a edição de 2012 do Fórum Fantástico. O programa pode ser consultado aqui, e deixo desde já o convite aos colegas delituosos e a todos os leitores que se queiram distrair da crise e aparecer nesta convenção do Fantástico para um pouco de fantasia e ficção científica. Desta vez, até este vosso escriba vai “botar faladura” (ainda que por pouco tempo, para alívio da audiência). A entrada é livre.

À conversa com Ray Bradbury


eventhorizon,

Talvez nem toda a gente conheça Ray Bradbury. Muitos não terão certamente lido Fahrenheit 451, ou The Martian Chronicles, ou outro dos vários seus muitos livros. Mas se o caro leitor sente também paixão pelos livros e pela leitura, então sugiro que veja a seguinte conversa com Ray Bradbury. É longa, mas vale a pena.

 

O sofisma da ficção “de género”


eventhorizon,
Nota: Publicado originalmente aqui. Texto longo.

 

Há dias, publiquei um artigo sobre a introdução escrita por Paul Krugman (sim, esse mesmo) a uma nova edição da trilogia Foundation, de Isaac Asimov. Nos comentários, o Rogério Ribeiro faz uma alusão à tendência, deveras irritante, de retirar do género a literatura de género que se destaca pela sua qualidade e que é recebida entre a literatura mainstream – séria, sofisticada e não-comercial. O ponto reside no seguinte excerto do texto de Krugman:

Quando li o (excelente) texto de Paul Krugman interpretei de forma diferente as palavras do economista. Não é segredo para ninguém que para a trilogia Foundation Asimov inspirou-se de forma mais directa no clássico The History of the Decline and Fall of the Roman Empire, de Edward Gibbon, do que noutras obras de ficção científica da década de 40 (quatro das cinco histórias que compõem o primeiro livro da trilogia original, Foundation, foram publicadas na revista Astounding Magazine entre 1942 e 1944; o livro data de 1951). Julgo – mas é a minha interpretação, claro – que Krugman não quis dizer que a trilogia Foundation é tão relevante tanto de um ponto de vista qualitativo como temático que “transcendeu o género” (já lá irei), mas sim que esta extraordinária obra de Asimov, um dos mestres da ficção científica, incide mais sobre o nosso passado e o nosso presente do que sobre o futuro distante que aparentemente imagina ou retrata, e mais sobre a sociedade em si do que sobre os seus aspectos tecnológicos. Não anda longe da verdade, e esse é um dos aspectos mais interessantes a propósito da grande ficção científica: não é tanto sobre o futuro como sobre o presente. Mas isso é outra história.

 

De qualquer forma, o comentário fez-me relembrar o recente retorno da velha polémica da literatura de género versus grande literatura, há dias reacendido por Arthur Krystal com um artigo intitulado It’s genre. Not that there’s anything wrong with it!, publicado na revista The New Yorker. O tema é mais ou menos recorrente, e mesmo a discussão que Krystal reacendeu surge na resposta à crítica de Lev Grossman na revista Time a um outro texto seu, também na The New Yorker, já de Maio. Como disse, esta polémica é velha, e assenta – passe a simplificação quase grosseira – na noção de que a ficção “de género” (por género entendemos o policial, o thriller, a fantasia e a ficção científica, entre outros) será sempre inferior à dita ficção literária. A tal “grande literatura”, que recebe prémios importantes, que figura em listas como esta do Expresso e que toda a gente dita “importante” tenciona ler no Verão.

Cartoon de autor desconhecido (mas irresistivelmente apropriado)

 

Mas divago. Na verdade, boa parte da tese que Arthur Krystal defende no seu texto mais recente foi respondida (e não sem ironia) no texto de Lev Grossman ao qual respondeu, mas julgo haver nesta resposta à resposta mais alguns pontos que merecem ser comentados – e que, ao longo da última semana, têm sido muito comentados em vários espaços online dedicados à tal literatura menor, “de género”. De facto, a réplica algo condescendente de Krystal revela alguma pobreza argumentativa, a começar desde logo pelo início, na alusão que faz ao comentário de Ursula K. Le Guin (por sinal uma das mais relevantes autoras de fantasia e ficção científica da segunda metade do século XX) no contexto desta polémica reacendida:

The science-fiction writer Ursula K. Le Guin, for instance, announced that literature “is the extant body of written art. All novels belong to it.” Is that so? A novel by definition is “written art”? You know, I wrote a novel once, and I’m pretty sure that Le Guin would change her mind if she read it.

Passe o algo ridículo humor auto-depreciativo, aqui reside o primeiro problema da argumentação de Krystal – ignora tudo aquilo que, na ficção literária, existe entre o razoável e o mau para, a partir dos casos excepcionais, estabelecer comparações com tudo o resto de forma mais ou menos indiscriminada. Não por acaso, Le Guin tem razão naquilo que diz: a questão não é se uma obra de ficção é ou não literatura, mas sim se é boa ou má literatura – e ao entrarmos em categorias qualitativas, importa deixarmos preconceitos de género (pun intended) à porta. Será provavelmente verdade que pouca literatura de ficção científica (para me centrar no género que conheço melhor) se compara a The Sound and the Fury de Faulkner – mas, com franqueza, quanta ficção literária se lhe pode comparar?

Ainda assim, e apesar da sua desonestidade intelectual, este argumento nem seria, em si, problemático. A ficção científica e a fantasia (e, decerto, o thriller e o policial) possuem imensos exemplos de obras de elevada qualidade, como também possuem muita palha, algo que é comum ao cinema, à pintura – enfim, a toda a arte. O problema é que Krystal insiste na batota argumentativa:

Genre, served straight up, has its limitations, and there’s no reason to pretend otherwise. Indeed, it’s these very limitations that attract us. When we open a mystery, we expect certain themes to be addressed and we enjoy intelligent variations on these themes. But one of the things we don’t expect is excellence in writing, although if you believe, as Grossman does, that the opening of Agatha Christie’s “Murder on the Orient Express” is an example of “masterly” writing, then you and I are not splashing in the same shoals of language. (…) It seems to me that Chabon, Egan, and Ishiguro don’t so much work in genre as with genre. “All the Pretty Horses” is no more a western than “1984” is science fiction. Nor can we in good conscience call John Le Carré’s “The Honorable Schoolboy” or Richard Price’s “Lush Life” genre novels. (destaques em bold da minha autoria)

Em resumo: se o livro exibir “excellence in writing”, é “ficção literária” e não “ficção de género”. Um sofisma, portanto – assim é fácil argumentar. Para ilustrar o seu exemplo, Krystal vai buscar, entre outros, 1984, de George Orwell, um dos clássicos da literatura do século XX e uma obra-prima literária a todos os níveis – uma daquelas que, como se costuma dizer, “transcende o género”, argumento que todos já ouvimos ou lemos aplicado a livros como A Clockwork Orange, de Anthony Burgess ou Brave New World, de Aldous Huxley. O problema é que não transcendem género algum – são, sim, obras excepcionais dentro do seu género que atestam que a grande literatura é alheia a géneros ou temas. Para perceber isto basta desconstruir um pouco 1984 em alguns dos seus elementos fundamentais, como a projecção num futuro de questões pertinentes do presente ou a evolução tecnológica e a respectiva problematização, tanto em termos políticos como em sociais (uma vez mais, estou a simplificar) – justamente dois dos pilares da ficção científica desde que Mary Shelley escreveu Frankenstein (outro exemplo, por sinal).

No seguimento desta ideia surge outra – a de que alguns autores não escrevem dentro do género mas com base no género (passe a tradução). Convém acrescentar que esta ideia é difundida e defendida não só pelos críticos da “ficção literária” como também por alguns autores. Margaret Atwood, por exemplo, celebrizou o conceito de “ficção especulativa” para definir os seus livros de ficção científica (e também ficou célebre por ter ganho o Prémio Arthur C. Clarke em 1987 com The Handmaid’s Tale, e não ter ido receber o prémio). Também P. D. James defendeu algo idêntico sobre The Children of Men, livro de 1992 (adaptado ao cinema em 2006), apesar de a premissa fundamental da obra – a infertilidade como base de uma distopia – fazer parte da ficção científica desde que Brian Aldiss publicou Greybeard, em 1964. É um bom truque: vão ao género buscar as premissas que sustentam as suas narrativas, para depois fugirem do género – que horror, o género – como o diabo da cruz. Quem resumiu muito bem a coisa foi o escritor e crítico Michael Chabon numa crítica, já antiga, publicada na The New York Review of Books ao livro The Road, de Cormac McCarthy: The anti–science fiction prejudice among some readers and writers is so strong that in reviewing a work of science fiction by a mainstream author a charitable critic will often turn to words such as “parable” or “fable” to warm the author’s bathwater a little (…). Não por acaso, cheguei a este texto através de um artigo muito interessante de Sam Jordison no The Guardian (de 2008) sobre, precisamente, The Road e um clássico da ficção científica que o autor define como “antecessor” do livro premiado de McCarthy: A Canticle for Leibowitz, de Walter M. Miller, Jr.. Mas, honra lhe seja feita, não faço ideia se o norte-americano rejeitou ou não a influência da ficção “de género” nesta sua obra (ou, já agora, se leu Miller, Jr.).

Esta discussão, como decerto já se percebeu, cedo se torna estéril. Alyssa Rosenberg, num curto mas incisivo artigo sobre o tema, deixa uma pergunta que julgo ser a mais interessante em todo o debate: Why they’re resistant to that recognition [of science fiction as literature] is the really interesting question. Não creio, contudo, que algum dia haja uma resposta a tal questão. Certo é que dificilmente o preconceito se desvanecerá enquanto os próprios autores continuarem a agir como se alérgicos ao género – à ficção científica ou a outro considerado “popular” e “comercial”. Mas, verdade seja dita, no fundo isso pouco importa – e é por isso que este debate se revela estéril. Enquanto leitores, temos ao nosso dispor boa literatura e má literatura; e, na literatura, bons e maus romances, boa e má ficção científica, bons e maus mistérios – em suma, temos liberdade de escolher o que queremos ler. Vivemos num mundo onde podemos, sem qualquer constrangimento, optar por Philip K. Dick, Raymond Chandler ou James Joyce – e, já agora, num mundo onde a mesma The New Yorker que publicou os artigos de Arthur Krystal editou uma revista especial dedicada à ficção científica no início do Verão (com textos de, entre outros, Ray Bradbury, Ursula Le Guin, William Gibson, Anthony Burgess e, curiosamente, Margaret Atwood). Perante tal diversidade, estas polémicas – duas literaturas “engalfinhadas”, aludindo à cena clássica de Eça – são reduzidas à sua verdadeira (e ínfima) dimensão.

Fontes:
Krystal, Arthur, “Easy Writers: Guilty Pleasures Without Guilt“, The New Yorker, 28/05/2012
Krystal, Arthur, “It’s Genre. Not That There’s Anything Wrong With It!“, The New Yorker (online), 24 /10/2012
Grossman, Lev, “Good Books Don’t Have To Be Hard“, The Wall Street Journal (online), 29/08/2009
Grossman, Lev, “Literary Revolution in the Supermarket Aisle: Genre Fiction Is Disruptive Technology“, Time Entertainment (online), 23/05/2012
Jordisson, Sam, “The Hugo Award Winner that spawned a Pulitzer Prize winner“, The Guardian (online), 27/10/2008
Chabon, Michael, “After the Apocalypse“, The New York Review of Books, 15/02/2007
Rosenberg, Alyssa, “Arthur Krystal Revives the Genre Fiction v. Literature Debate“, Think Progress (online), 29/10/2012
Anders, Charlie Jane, “Guy who thinks all lit fiction is superior to genre obviously hasn’t read much lit fic“, io9 (online), 30/10/2012

Da Lei de Godwin (versão tuga) à ironia involuntária


eventhorizon,

Nota-se que Vítor Gaspar não é um internauta assíduo, ou um homem habituado a conversas de café ou a caixas de comentários online – caso contrário, a analogia salazarenta do deputado João Galamba não o chocaria ou ofenderia, pois ela não mais é do que a versão portuguesa, pequenina e esquerdista da Lei de Godwin. Quanto ao deputado achar que o discurso do ministro das Finanças não tem lugar em democracia, enfim, é uma opinião que não deixa de ter a sua ironia, ainda que decerto involuntária. 

Porque não há nada tão mau que não possa piorar,


eventhorizon,

Jorge Sampaio tem estado particularmente falador nas últimas semanas – quase todos os dias sai uma declaração nova do ex-Presidente da República sobre a austeridade, sobre os desvarios do governo em funções ou sobre outra coisa qualquer. Sampaio, para todos os efeitos, foi uma nulidade durante a sua estadia em Belém. Em 2004, conseguiu, por motivos ainda hoje insondáveis (e provavelmente injustificáveis) dissolver um Parlamento eleito e derrubar um Governo de maioria, no conveniente momento em que o PS já se tinha livrado de Ferro Rodrigues e estava recuperado da luta fratricida entre Alegre, Sócrates e Soares (o mais novo). A má campanha social-democrata e o acesso de brilhantismo aritmético de Vítor “eu-calculo-o défice-à-centésima” Constâncio (porventura o português que melhor exemplifica o Princípio de Dilbert) fizeram o resto. Enfim, para a posteridade Sampaio legou não só uma série de discursos indecifráveis e a prestidigitação política acima referida, mas também a famosa frase “há vida para além do défice”. Pois há – o problema é que essa vida é, passe a expressão, uma bela merda. E como se não bastasse o défice e a crise e o mau futebol do Benfica (ou do Sporting), ainda temos que o aturar, como se não tivesse também já passado pelo poleiro e contribuído para o desastre. Haja paciência.