Blogue da semana


eventhorizon,

Luciano Amaral, que durante alguns anos foi uma presença regular na blogosfera portuguesa, regressou em força em Setembro com um projecto curioso: Crise Crónica, um registo quase diário da crise por que passamos. Pela lucidez e pertinência dos seus comentários à actualidade, fica como sugestão para blogue da semana. 

O jornalismo-alforreca


eventhorizon,

 

A propósito de recentes incidentes em praias na costa portuguesa, alguém pode mandar para as redacções uma nota a explicar que a caravela portuguesa não é uma alforreca?

 

Eu sei que hoje em dia há pouco tempo para investigar os assuntos sobre os quais se escreve, e que é muito mais fácil pegar nos textos (frequentemente mal escritos) da Lusa, mas neste caso bastam dois minutos no Google – não é preciso ir ao terreno ver esta criatura, que, muito curiosamente, é designada em todo o mundo por “Caravela Portuguesa” (ou Portuguese Man O’War). O rigor no jornalismo científico português partiu para parte incerta, o que é uma pena.

Forquilhas e archotes


eventhorizon,

Nos últimos tempos, qualquer notícia relacionada com os supermercados Pingo Doce e o grupo Jerónimo Martins dá azo a reacções populares online (é onde se passa tudo hoje em dia) particularmente inflamadas. A mudança da sede fiscal do grupo para a Holanda gerou uma gritaria desenfreada, acusando o grupo de não querer pagar impostos em Portugal e de não gerar riqueza em Portugal – o que não deixa de ser curioso quando os supermercados dão emprego a milhares de pessoas num país onde até há bem pouco tempo qualquer pessoa que fugia aos impostos não se importava de se vangloriar desse acto de chico-espertice saloia. Há pouco tempo, muitos rasgaram as vestes a propósito da célebre campanha de promoções a 1 de Maio, recebida como um atentado ao Dia do Trabalhador e uma humilhação aos consumidores (como se oferecer preços mais baixos aos consumidores que voluntariamente se deslocaram às lojas fosse algo do outro mundo). Hoje, estalou a polémica por causa da decisão de os supermercados Pingo Doce deixarem de aceitar pagamentos por Multibanco para compras de valor inferior a 20 euros. Caiu o Carmo e a Trindade; foi o suficiente para os trolls – incluindo a DECO – saírem todos para a praça pública, ou seja, para as caixas de comentários online, munidos de forquilhas e archotes. 

 

Pessoalmente, acho a decisão disparatada, e vai sem dúvida obrigar-me a mudar as minhas rotinas de compras, uma vez que na minha vizinhança o Pingo Doce é a única opção que tenho (para além de uma mercearia portuguesa e duas indianas que frequento com alguma regularidade quando não tenho outra alternativa – são mesmo muito mais caras). No entanto, isto para mim é uma mera uma questão de comodidade; se esta decisão se vier a revelar demasiado incómoda, nada me impede de procurar outras alternativas – como passar a frequentar a loja menos vezes fazendo mais compras, ou mesmo fazer compras noutros supermercados mais distantes. O Pingo Doce, felizmente, não é a única cadeia de supermercados do país; ninguém é obrigado a fazer compras lá, mesmo que tenha uma loja no rés-de-chão do prédio. E, sendo uma empresa privada, tem todo o direito de colocar este tipo de restrições, desde que legais (e nem são tão estranhas quanto isso). Quem não gosta, não frequenta as lojas. É mesmo assim tão simples. 

 

Claro que vivemos num tempo de indignação fácil e a Internet é hoje em dia o meio privilegiado para a fúria sem fundamento. Mas talvez fosse boa ideia não exagerarmos. 

 

(Já a teoria da conspiração difundida nos comentários de que isto é o primeiro sinal de que se avizinha uma taxa sobre todas as transacções feitas com Multibanco – levantamentos, etc. – pode merecer alguma atenção, admito. Afinal, dadas as nossas particulares circunstâncias, tal jogada não seria estranha, ainda que certamente desastrosa. De qualquer forma, não vejo como o Pingo Doce poderá ter alguma coisa que ver com isso)

A pizza e o cabo


eventhorizon,

Uma coisa que é interessante quando se vai a uma pizzaria é a possibilidade de nós, clientes, fazermos a nossa própria pizza. Sem termos de meter a mão na massa, entenda-se: indicamos a base que queremos, os ingredientes desejados para compor a coisa, e poucos minutos mais tarde temos à nossa frente uma pizza feita exactamente como nós queremos, prontinha a saborear.

 

Nunca percebi o que impede os contratos de televisão por cabo de funcionar da mesma forma.

 

A coisa roça o disparate: os pacotes de canais pré-definidos pelas operadoras podem ser úteis, e terão a sua lógica, mas existe algum motivo técnico para não ser disponibilizado um serviço “à medida”? Actualmente, o serviço do qual sou cliente oferece-me setenta canais, dos quais me interessam apenas quinze – mas há alguns que me interessam e aos quais não tenho acesso apenas e só por estarem “fora do pacote”. O resto pode ser muito interessante para outras pessoas, mas para mim são lixo que estou a pagar sem qualquer interesse, quando a coisa podia ser muito simplificada. Vejamos:

 

Generalistas/Notícias: RTP2, SIC Notícias, RTP Notícias, BBC
Filmes: Hollywood, MGM, TCM, Fox Movies
Séries: AXN, AXN Black, SyFy, Fox, Fox Crime, FX
Documentários: História, Discovery, Odisseia, National Geographic, NatGeoWild
Outros: iConcert

 

E era isto: 20 canais que, com toda a certeza, acompanharia com um mínimo de regularidade. Sem necessitar dos nossos canais generalistas, desportivos, de desenhos animados ou de música (excepto o iConcert, que passa concertos interessantes; o resto é de fugir). Eu não preciso de 70 canais. Não preciso de canais HD, que a minha televisão é de outros tempos (e é algo enganador os canais HD serem considerados individualmente quando são apenas versões de alta definição de outros canais disponibilizados). Não preciso do Fashion TV, do Fuel, do Panda, do canal do Manchester United, da RTP1 ou da SIC Mulher. Mas interessa-me muito ter a Fox e o NatGeoWild sem ser necessário comprar dois pacotes, que apenas me fazem ficar com mais uma carrada de canais que não me interessam.

 

Garanto que o primeiro operador de internet e televisão por cabo que fizer um serviço destes – exactamente assim – ter-me-á como cliente.

O deboche académico


eventhorizon,

A grande – ou talvez triste – ironia do caso da licenciatura de Miguel Relvas é confirmar definitivamente a futebolização da política, com as claques deste e de Sócrates, entretanto trazido de volta à ribalta por causa do seu próprio escândalo universitário, a defender que “a licenciatura do meu político é menos manhosa que a do teu”, como se estivessem a a competir para ver quem consegue mijar mais longe. Algumas considerações:

 

1) O argumento de que não é essencial um ministro ter uma licenciatura para o desempenho das suas funções, ainda que tenha alguma lógica, parece-me algo perigoso. Falamos de um dos mais elevados cargos do Estado, ao qual deviam aceder os mais preparados para representar os cidadãos. É verdade que o grau académico não é tudo, mas insistir na sua irrelevância desvaloriza o esforço de quem se dedica ao estudo e ao trabalho académico para chegar mais longe na sua carreira. De facto, o canudo não confere necessariamente competência; idealmente, porém, parece-me que seria excelente um país avançado e democrático ter um Governo – e um Parlamento – composto por pessoas com elevadas qualificações, certificadas com rigor e mérito por instituições de prestígio.

 

2) No caso Relvas, tal como no caso Sócrates há alguns anos, o problema não é se têm ou não a licenciatura, mas a forma como ela foi obtida. E isto não é um detalhe.

 

3) Considerando a forma como estas foram obtidas, e independentemente de outras considerações (o bacharelato de Sócrates e o currículo de Relvas que defensores de um e do outro têm usado para defender o indefensável), parece-me a mim que nenhum destes indivíduos tem perfil para integrar o Governo de um país que se queira decente.

 

4) A questão da manipulação de ambos os casos é aqui secundária. 

 

No entanto, honra seja feita a Relvas e Sócrates: conseguiram, com particular eloquência, mostrar a uma sociedade obcecada pelo “canudo” e pelo “títulozinho” de “doutor” ou “engenheiro” quão irrelevante é o grau académico numa cultura que pouco valoriza o mérito. Pode ser que, dentro de alguns anos, se retire algo de positivo deste deboche académico.

O remake


eventhorizon,

Tenho a sensação de que este “princípio da igualdade” evocado pelo Tribunal Constitucional vai ser o remake de segunda categoria do Governo de Passos Coelho ao célebre episódio do défice de 6,83%, calculado à centésima por Constâncio, que tanto jeito deu ao Governo de Sócrates.

 

E, como todos nós sabemos, raramente os remakes são melhores que o original.

Extinção


eventhorizon,

Sempre gostei muito de animais. Em miúdo, a televisão da sala era religiosamente sintonizada na SIC, aos fins de semana, entre o meio-dia e a uma, para ver os documentários de vida selvagem da National Geographic e da BBC (ainda hoje sou capaz de passar horas em frente ao NatGeoWild). Para um miúdo que gosta de animais, crescer no campo é uma maravilha – qualquer bicharoco serve para quebrar a monotonia das longas férias de Verão. Sapos e rãs, cobras e lagartos, toda a fauna das margens do Mira servia de pretexto para tardes muito bem passadas. Das espécies que por lá se encontravam (e encontram), gostava especialmente dos cágados – por qualquer motivo, aquelas criaturas meio desengonçadas, com a casa às costas (e ainda assim surpreendentemente rápidas dentro e fora de água), sempre me fascinaram. Como todas as tartarugas, aliás. 

 

Isto a propósito de uma história curiosa, da qual até falei aqui há coisa de dois anos – altura em que, numa deambulação pela Internet, encontrei a história do Lonesome George. Lonesome George era o último sobrevivente da Chelonoidis nigra abingdoni, as tartarugas gigantes da Ilha de Pinta, uma subespécie das famosas tartarugas gigantes das ilhas Galápagos. Com o seu habitat devastado pelas cabras selvagens, a população local de tartarugas foi dizimada até ao seu último elemento. Foram feitas algumas tentativas de acasalamento entre George e fêmeas de subespécies parecidas, que infelizmente não correram bem (os ovos nunca eclodiram), e havia inclusivamente uma recompensa para quem encontrasse uma fêmea da subespécie Chelonoidis nigra abingdoni.

 

Claro que a história de Lonesome George me prendeu imediatamente a atenção. As tartarugas gigantes vivem imenso tempo – bem mais de um século – e esta era a última da sua espécie, declarada para todos os efeitos extinta. Há a possibilidade de haver ainda algumas destas tartarugas vivas, em liberdade ou em cativeiro, mas até ao momento nenhuma foi encontrada. George vivia numa reserva natural, o que tecnicamente corresponde a cativeiro, enquanto têm sido desenvolvidos esforços bem sucedidos para erradicar as cabras selvagens e recuperar o ecossistema natural da Ilha de Pinta. 

 

A recuperação deste ecossistema, porém, já vai tarde para George – morreu ontem, perto dos 100 anos de idade (um jovem, portanto). Foi encontrada por Fausto Llerena, que tratava pessoalmente de George há quarenta anos (não há emprego ou casamento que, nos tempos que correm, dure 40 anos). Assim se extingue o animal mais raro do mundo, último sobrevivente de uma subespécie há muito condenada ao desaparecimento. Não que seja inesperado – mas eu, que sempre gostei de tartarugas, não consigo deixar de achar esta notícia muito triste.  

 

 

Fotografia de Pete Oxford, Minden Pictures/Corbis

Nobre geografia


eventhorizon,

A propósito da cimeira Rio+20, Fernando Nobre, em entrevista ao Jornal de Negócios, produz esta pérola:

“Só quando as catástrofes deixarem de atingir apenas a Ásia, a África, a América Latina, e só quando tivermos Katrinas na Europa e América do Norte é que se vai entender que as alterações ambientais nos podem afectar. Então aí o discurso vai mudar radicalmente.”

 

Pois, como todos nós sabemos, New Orleans fica ali para os lados da Colômbia e só muito esporadicamente os Estados Unidos enfrentam furacões, tornados, nevões…

Ray Bradbury (1920 – 2012)


eventhorizon,

(22.08.2012 – 06.06.2012)

 

Everyone must leave something behind when he dies, my grandfather said. A child or a book or a painting or a house or a wall built or a pair of shoes made. Or a garden planted. Something your hand touched some way so your soul has somewhere to go when you die, and when people look at that tree or that flower you planted, you’re there.

 

It doesn’t matter what you do, he said, so long as you change something from the way it was before you touched it into something that’s like you after you take your hands away. The difference between the man who just cuts lawns and a real gardener is in the touching, he said. The lawn-cutter might just as well not have been there at all; the gardener will be there a lifetime.

 

Ray Bradbury, Fahrenheit 451 (1953)

De referência


eventhorizon,

“A humildade não é um dos maiores atributos do vaidoso Cristiano Ronaldo”, que apesar de estar farto de comparações com a estrela do Barcelona não resistiu a declarar-se “melhor do Messi”. [sic]”.

 

Olhamos para este primeiro parágrafo de uma notícia de um meio online português e pensamos: só pode ser de um tablóide ou de um jornal de segunda categoria. Certo? Era bom. Este é o primeiro parágrafo de uma notícia publicada na edição online do jornal Expresso, esse suposto bastião do jornalismo de referência português. E não, não é uma citação exterior – é a opinião da própria jornalista. Enfim, temos uma jornalista que torce pelo Barcelona – o que não tem mal algum – e que não se coíbe de o exibir numa notícia publicada – o que é péssimo.

 

O que é engraçado é que na dita notícia, “Ronaldo diz que é melhor do que Messi”, resultante de uma entrevista do jogador à CNN, aquilo que Cristiano Ronaldo diz é ligeiramente diferente:

 

We played better than them this year. We are better than them in this moment, but we have to respect them because they are a great team too.

 

Suponho que humildade, segundo a senhora “jornalista” do Expresso, seria Ronaldo dizer que apesar de o Real Madrid ter ganho o campeonato espanhol, o Barcelona foi muito superior. OK.

 

Mas a coisa melhora. Sobre a comparação entre Ronaldo e Messi:

 

They [people] compare each other all the time. You cannot compare a Ferrari with a Porsche, it’s a different engine […] We beat our own records, it’s amazing, and I think we push each other. […] This is why Madrid and Barcelona are the best teams in the world. […] some people say I’m better, some people say it’s him… you know, at the end of the day, they’re going to decide who’s the best player in the moment, and I think it’s me [risos].

 

Não se vê um pingo de arrogância em Cristiano Ronaldo ao longo da entrevista – aliás, o jogador revela-se bastante politicamente correcto em todos os momentos, e mostra respeito pelo seu principal adversário. Ronaldo sublinha que a decisão sobre qual é o melhor jogador é tomada a cada momento, e que no momento – dados os resultados da época – pensa ser ele. De resto, existe uma grande diferença entre dizer “eu sou melhor que X” e “neste momento, eu penso que sou/estou melhor que X” (convém lembrar o significado dos verbos, já agora).

 

É lamentável que um jornal que se quer “de referência”, como o Expresso, publique – na edição impressa ou on-line, é irrelevante – um artigo destes, puro lixo escrito por uma senhora que pelos vistos passa o tempo em frente ao computador a brincar aos jornalistas. É por estas e por outras que, em termos de imprensa, prefiro o Correio da Manhã. Não só não tenho de levar com o acordo ortográfico, como sei exactamente o que esperar do jornal (e tem melhores colunistas, diga-se de passagem). Com noticias destas, o Expresso só consegue ser uma referência de mau jornalismo.

 

(a única coisa a apontar a Ronaldo aqui é o seu fraco inglês)

Zombies!


eventhorizon,

Este post do Sérgio Lavos no Arrastão deixou-me muito triste. Não por aquilo que ele lá diz – se fôssemos levar a sério a todos os disparates que se dizem na blogosfera não fazíamos mais nada da vida – mas por aquilo que me traz à memória. Ora o Sérgio fala dos zombies que, segundo ele, ontem dispensaram a “luta” e correram a uma cadeia de supermercados para aproveitar uma super promoção e, enfim, animar um pouco mais um 1 de Maio particularmente cinzento. Mas o discurso dos zombies do Sérgio, a mim, fez-me pensar não em mercearias mas numa das três melhores séries televisivas dos últimos tempos*, cuja segunda temporada acabou há poucas semanas: The Walking Dead. Que é, basicamente, uma série sobre zombies. Ou melhor: sobre meia-dúzia de personagens que tenta sobreviver num mundo infestado de zombies, com relativo sucesso ainda que a dimensão do grupo seja sempre inconstante. Se ainda não viram, fica a sugestão.

 

 

Acontece que a série é a adaptação televisiva de uma banda desenhada muito boa, também intitulada The Walking Dead, que para não fugir à regra consegue ser ainda melhor que a versão do pequeno ecrã (apesar de esta ter alguns momentos mais bem executados). Esta banda desenhada, escrita por Robert Kirkman, e ilustrada por Tony Moore e Charlie Adlard, já conta com 15 volumes em trade paperback, contendo cada volume seis issues. Comecei no Natal a coleccionar The Walking Dead, e vou já no terceiro volume, recentemente adquirido online (a metade do preço a que se vende por cá). É uma delícia. Claro que também a recomendo – e para quem não gostar de ler em inglês, até há uma tradução portuguesa.

 

Ora o post do Sérgio Lavos deixou-me triste precisamente por causa de The Walking Dead – tanto a série televisiva como a banda desenhada. A terceira e muito promissora temporada só regressa lá para o Outono, por alturas do Halloween; e, de momento, não me dá muito jeito comprar o quarto volume dos trade paperbacks para continuar a seguir esta excelente história com zombies, e a curiosidade é muita, até porque o terceiro álbum acabou com um cliffhanging brutal. Dito de outra forma: tenho muito que esperar. Logo agora que eu estava a tentar não pensar em zombies para ser um consumidor consciente e não cair na tentação de dar um salto à BD Mania, vem o Sérgio e zás! traz os zombies para a ribalta. Não se faz, Sérgio. Não se faz.

 

 

*As outras duas grandes séries do momento, já agora, são Homeland – também a aguardar nova temporada – e Game of Thrones.

Feira do Livro?


eventhorizon,

No Sábado, e excepcionalmente, fui àquilo a que chamam de “Feira do Livro de Lisboa”. Para além da imbecilidade da organização, que não se lembrou de colocar uma única caixa multibanco no local e insistiu, com o sucesso que se vê, em marcar a coisa a finais de Abril e inícios de Maio, quando chuva e trovoada são mais do que certas (e toda a gente sabe que se há coisa de que os livros gostam, é de chuva): um espaço comercial exterior que utiliza, junto da entrada e saída de zonas específicas e muito bem delimitadas, alarmes com sensores anti-roubo não é uma feira – é uma loja, um centro comercial a céu aberto. Uma feira é mais ou menos caótica, mais ou menos espontânea, mais ou menos livre. Para aquilo que está ali no Parque Eduardo VII, prefiro a Fnac. Evito subidas e descidas, sempre tenho desconto e não me molho. E não tenho de ver os livros através de plástico molhado.

Blogue da semana


eventhorizon,

Esta semana calha-me a mim escolher o blogue da dita, e confesso que o exercício se torna cada vez mais difícil. Os arquivos já vão longos, e a maior parte dos blogues que leio regularmente com gosto já foram seleccionados. De qualquer forma, ainda tenho um ou dois na manga; e para esta semana escolho o Estado Sentido: um blogue sempre interessante, com boa escrita e reflexões pertinentes sobre este nosso país. 

Sobre a passagem de George R.R. Martin por Portugal


eventhorizon,

O autor da aclamada série de literatura fantástica A Song of Ice and Fire, adaptada para televisão pela HBO, esteve uma vez mais em Portugal. No dia 18 de Abril decorreu no Teatro Villaret, em Lisboa, a apresentação da antologia O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias. A 19 de Abril teve lugar a ante-estreia do primeiro episódio da segunda temporada de Guerra dos Tronos. E no dia 19, o autor esteve no Porto, numa sessão com os fãs.

 

Aos interessados, deixo aqui as ligações para alguns artigos que escrevi a propósito da visita do autor ao nosso país: a apresentação em Lisboa, as perguntas e respostas e e a minha entrevista com George R. R. Martin sobre a série televisiva Game of Thrones. 

Tabaqueando o assunto (2)


eventhorizon,

No Público: Fumar no carro com crianças vai ser proibido.

 

Por este andar, faltará decerto pouco tempo para que também seja proibido fumar em residências familiares onde vivam crianças. Ou onde viva alguém que não seja fumador. E como vai o Estado controlar isto? Simples: com denúncias anónimas, claro, e, certamente, com tecnologia apropriada. A propósito, alguém quer formar uma sociedade de fabrico e instalação de telecrãs*? É que a distopia parece estar já ao virar da esquina, e já que não a conseguimos evitar, ao menos que ganhemos uns cobres no processo.

 

*Ler Nineteen Eighty-Four, de George Orwell. Há – ou havia – uma tradução portuguesa muito boa da Antígona.

Tabaqueando o assunto


eventhorizon,

Eduardo Pitta diz que “ninguém vai piar” quanto às novas medidas contra o tabaco que este Governo vai tomar. O post, claro, é aparentemente dirigido a “jornalistas e bloggers que hoje são secretários de Estado, adjuntos e assessores de gabinetes ministeriais e dos grupos parlamentares do PSD e CDS-PP”. Uma vez que o assunto me interessa especialmente, vou piar um bocadinho sobre o assunto (e não será a última vez), ainda que não encaixe nas categorias acima descritas.

 

A avançarem as medidas mencionadas, este Governo estará de facto – e tal como o anterior – a avançar por um caminho arbitrário, totalitário, de intromissão intolerável na liberdade dos cidadãos – tal como o anterior o foi. Por partes:

 

1. Acabar com as máquinas automáticas de venda de tabaco. Disparate – se nos cafés e nos restaurantes o tabaco se voltar a vender “em mão”, nem por isso deixa de ser mais difícil para os miúdos arranjarem tabaco (se o objectivo for esse). De resto, quem quiser realmente fumar continua a procurar tabaco – e, em último caso, há sempre o contrabando (que tem a vantagem de provavelmente ser mais barato). Se é possível comprar haxixe em plena Rua Augusta durante a tarde, não há-de ser muito difícil comprar um volume de Marlboro algures.

 

2. Estabelecer a proibição de fumar à porta de restaurantes, bares e cafés. Esta medida é hilariante, pois parte do pressuposto que o espaço em frente a um restaurante, bar ou café – um passeio, ou mesmo uma estrada – é propriedade do respectivo restaurante, bar ou café. Então não é permitido estar parado à porta e fumar? OK. E passar à porta a fumar, pode-se? Ou tem de mudar de passeio? E se eu sair do restaurante e, enquanto fumo, fizer repetidamente um percurso pendular de 50 metros para cada lado da porta, posso?

 

3. Acabar com o regime misto actualmente em vigor (o proprietário decide). Esta parece-me ser a medida mais grave destas três (a primeira é quase irrelevante, a segunda é anedota). Quando a nova lei do tabaco entrou em vigor em 2008, vários foram os estabelecimentos que investiram quantias avultadas na instalação de sistemas de extracção de fumo que lhes permitissem manter os seus espaços para fumadores – apesar de, na altura, o Governo ter dado poucas ou nenhumas especificações sobre a qualidade do ar, o que resultou numa bela confusão, como aliás acontece em tudo onde o Estado enfia o nariz. Não estamos aqui a falar dos cafés da moda, das discotecas mais badaladas, ou dos restaurantes que aparecem semanalmente na TimeOut. Na minha rua, para dar um exemplo, existe uma tasquinha de bairro completamente equipada com sistemas de extracção de fumo – é o único sítio nas redondezas onde se pode ver o Benfica e fumar um cigarro. O proprietário fez um grande investimento há apenas quatro anos para ajustar o seu negócio ao seu interesse. Agora, vem o Estado dizer-lhe que os vários milhares de euros que gastou ficam sem efeito. Isto é mais do que vergonhoso – é merecedor de bengaladas no lombo. Para entrar no espírito da lei de Godwin, é uma medida absolutamente nazi, bem dentro do espírito nazi-higienista que anima os cinzentos burocratas do presente. Em bom português, puta que os pariu a todos.

 

Enfim, mas é o tabaco – a desculpa (esfarrapada) da saúde pública perdoa muita coisa a muita gente (que não vai gostar nada quando a ofensiva chegar ao vinho, ao café, à carne vermelha). Quem vai perder com isto vai ser, justamente a tasquinha lá do bairro. Não vale a pena frequentá-la com a mesma regularidade quando for proibido fumar naquele espaço – o Benfica posso ver em casa, e, de resto, sai mais barato fazer café em casa, tal como comprar minis ou whisky no supermercado. E sempre se pode fumar à vontade (pelo menos por enquanto – há-de chegar o dia).

 

Sobre o mesmo tema, leituras recomendadas: o José Meireles Graça e o Ricardo Lima.

Isto de cuspir para o ar nunca deu bom resultado


eventhorizon,

No Público: Mário Soares considera que as medidas de austeridade não estão a atingir de forma equilibrada todos os portugueses. Para o ex-Presidente da República os cortes decididos pelo Governo em resposta à crise económica “têm atingido gravemente os mais desfavorecidos e a classe média, em via de empobrecimento” mas “os mais favorecidos não são atingidos”. Por uma vez, estou completamente de acordo com o nosso ex-Presidente da República. Aliás, proponho mesmo que Mário Soares, uma vez que não está entre “os mais desfavorecidos” ou mesmo na “classe média, em via de empbrecimento”, sirva de exemplo, e que lhe sejam retiradas várias mordomias, como carrinho do Estado com motorista e, já agora, plafond para multas por excesso de velocidade.

Pelo Inglês como idioma oficial de Portugal


eventhorizon,

Uma vez que o que importa em todo o imbróglio do acordo ortográfico é a “estratégia“, então eu sugiro que se leve a questão “estratégica” até às últimas consequências, e se adopte a língua inglesa como idioma oficial de Portugal. Bem vistas as coisas, no mundo de hoje não há idioma mais estratégico:

  1. Há mais países – e muitas mais pessoas – a falar inglês que português.
  2. O inglês assume hoje a qualidade de um idioma franco, falado em praticamente qualquer lugar, das maiores cidades do mundo aos sítios mais inóspitos, do Pólo Sul à Estação Espacial Internacional.
  3. O inglês é, para todos os efeitos, o idioma da Internet e das tecnologias de informação e comunicação – e estas constituem o futuro.
  4. O inglês é facílimo de aprender, e as gerações mais novas, graças à Internet, ao cinema, à televisão e aos videojogos, aprendem o idioma com grande facilidade. 
  5. Livres do português, os currículos escolares podem dedicar-se ao ensino de idiomas estrangeiros realmente estratégicos e relevantes, como o espanhol ou o mandarim (este último pode vir a ser muito útil para decifrar as facturas da electricidade). 
  6. O mercado editorial de língua inglesa é incomparavelmente mais vasto que o português. Para quê estarmos preocupados com a “estratégia” de publicar livros no Brasil quando podemos, ao invés, publicá-los nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, e, enfim, em todo o mundo, do Chile à Papua – Nova Guiné, através da Amazon?
  7. Acabavam-se as traduções de merda que muitas editoras portuguesas fazem, sobretudo nos géneros do Fantástico. 
  8. Os restaurantes algarvios deixariam de precisar de colocar letreiros em Agosto a dizer “Portuguese is spoken here”, pois o português tornar-se-ia desnecessário – toda a gente falaria inglês. Com jeitinho e alguma sorte, talvez até passassem a falá-lo melhor. 
  9. Deixaríamos de usar termos do ridículo “portuguesing” em conversas de finanças, negócios e tecnologias. Zeinal Bava ficaria radiante. 
  10. Facilitaríamos a vida a todos os turistas que recebemos e queremos receber.
  11. O “engrish” é hilariante.

De qualquer forma, aprendemos nos comentários a estes posts que:

  • A etimologia não interessa para nada;
  • Como no passado outros iluminados burocratas – temos, para mal dos nossos pecados, mais burocratas iluminados em terra do que sardinhas no mar – já abastardaram o idioma, não há qualquer problema em fazê-lo agora, e as vezes todas que lhes der na telha. Basta que um desses cabrões acorde para aí virado;
  • Os opositores ao acordo são os Velhos do Restelo do presente;
  • O que move os opositores do acordo é o “ódio ao Brasil”.

I rest my case. Sem itálicos, que com a adopção do inglês deixam de ser necessários.