Branco-cru


eventhorizon,

Para travar a “desqualificação do espaço público” da Baixa, os vereadores definiram um conjunto de “critérios orientadores”, segundo os quais as esplanadas devem ter toalhas de mesa “de cor única”, chapéus de sol “em lona na cor branco-cru”, menus que “não ultrapassem o formato A4” e porta-guardanapos “em aço inox”.

 

Pois eu cá mandaria pintar o país todo de branco-cru. Ficava mais bonito. E uniformizado.

 

No entanto, fica a pergunta: quais foram os critérios orientadores que os iluminados vereadores da CML definiram para a indumentária dos traficantes vendedores ambulantes de droga da Rua Augusta? Também será “de cor única”? “Branco-cru”, querem ver? E a droga, vai ser devidamente acondicionada em “aço-inox” ou pode continuar a ser traficada vendida enrolada em celofane de qualidade duvidosa?

Quando a realidade entra no domínio da ficção


eventhorizon,

Isto de não querer ferir susceptibilidades – quaisquer que sejam – começa a tornar-se tão ridículo que já nem dá vontade de rir:

 

The word “dinosaur” made the hit list because dinosaurs suggest evolution which creationists might not like, WCBS 880′s Marla Diamond reported. “Halloween” is targeted because it suggests paganism; a “birthday” might not be happy to all because it isn’t celebrated by Jehovah’s Witnesses.

 

(via Blasfémias).

Coisas da minha geração (4.1)


eventhorizon,

Adolfo, peço desculpa por invadir a tua série, mas a tua recordação dos Jogos Sem Fronteiras trouxe-me algo ainda melhor à memória. Confesso que já nem me lembrava do genérico, apesar de acompanhar o programa em miúdo (tal como, suponho, toda a gente). Isto, claro, até ao aparecimento da SIC e da emissão regular, nas tardes de Sábado, de um dos programas mais divertidos que já vi em televisão: Takeshi’s Castle (na tradução portuguesa, Nunca Digas Banzai). Os japoneses, com as suas provas completamente insanas e repletas de água, lama, tinta e muitas quedas aparatosas, arrumaram a um cantinho os competitivos mas bastante pacatos jogos europeus.

 

 

Infelizmente não consigo reproduzir aqui uma parte do programa em português, que contava com umas dobragens quase tão divertidas como o próprio programa. Enfim, fica a americana.

Ainda a cópia privada


eventhorizon,

“Esta matéria é uma questão de princípio e a nossa primeira preocupação com este diploma é salvaguardar os direitos dos autores (…) Os nossos autores estão há muitos anos a perder receita considerável por via da desadequação da lei que está em vigor neste momento”, sublinhou a ex-ministra da Cultura. (via Tek Sapo)

Um tipo lê isto e fica pasmado. Os autores estão há muitos anos a perder receita considerável? Correcção: os autores estão há muitos anos a, perdoem-me o vocabulário, chular os portugueses menos do que gostariam. Felizmente, Gabriela Canavilhas está cá a olhar pelos seus, e para garantir a institucionalização do saque.

Entretanto, o Tó Zé Brito entrou na questão aqui, com uma impressionante sessão de tiros ao lado. A Jonas, com a paciência que lhe é característica, já lhe explicou os problemas de pontaria. Como este:

A revisão da lei da cópia privada assenta num pressuposto errado. Aliás, em mais do que um pressuposto errado. A saber:
1 – Assenta no pressuposto de que deve haver compensação para além daquela que já foi paga no acto de aquisição do conteúdo.
2 – Assenta no pressuposto de que os dispositivos de armazenamento servem, única e exclusivamente para alojar conteúdo protegido por direito de autor e direitos conexos.

Iria mais longe: toda a lei da cópia privada assenta em vários pressupostos errados, e não é o facto de existir há sabe-se lá quantos anos que justifica a sua manutenção. De igual modo, justificar um disparate – a lei da cópia privada – com outro disparate – a “contribuição audiovisual” – é delirante, como se um erro pudesse justificar outro erro. Mas Tó Zé Brito insiste no erro e dá-nos mais algumas pérolas:

O projecto lei agora em discussão propõe que paguem essa compensação aqueles que vendem suportes digitais passíveis de armazenar cópias de conteúdos protegidos por lei. E prevê excepções. É pelo menos para já prematuro afirmar que seremos nós a pagar a já referida compensação, mas se acabarmos por pagar uma parte dela, isso decorre da impossibilidade de se saber quem irá ou não armazenar nos seus suportes digitais cópias ilegais de obras protegidas por lei. Aplica-se portanto aqui o princípio da universalidade por uma causa justa. Se vivesses do teu trabalho de autor, fossem as tuas obras musicais, literárias ou audiovisuais, sei que a defenderias também.

 

Geralmente só os que não fazem desse trabalho a sua profissão e sustento defendem a gratuitidade e estão no seu pleno direito de a defender. Nada tenho, por exemplo, contra os Creative Commons. Não podem é querer negar a quem pretende ser pago pelo seu trabalho, protegido por lei, o direito de o ser. 

 

Vamos por partes:

1) É pelo menos para já prematuro afirmar que seremos nós a pagar a já referida compensação. Não. É absolutamente ingénuo – para não usar outros adjectivos – pensar que os fabricantes e revendedores de electrónica vão absorver nas suas margens mais este imposto. É evidente que serão os consumidores a pagar a compensação.

2) mas se acabarmos por pagar uma parte dela, isso decorre da impossibilidade de se saber quem irá ou não armanezar nos seus suportes digitais cópias ilegais de obras protegidas por lei. Aplica-se portanto aqui o princípio da universalidade por uma causa justa. Ou seja, na impossibilidade de se saber quem utiliza um disco rígido para fins legítimos e ilegítimos, pagam todos. Ou, passe o eufemismo, “aplica-se o princípio da universalidade por uma causa justa”. Dito de outra forma: mesmo que use o suporte de armazenamento apenas para o seu próprio trabalho, é justo que pague para sustentar os outros. É o parasitismo institucionalizado. Brilhante.

3) Se vivesses do teu trabalho de autor, fossem as tuas obras musicais, literárias ou audiovisuais, sei que a defenderias também. Este é o melhor argumento de todos. Basicamente, consiste num belo eufemismo de “se pudesses mamar também na teta de todos os consumidores, logo vias se protestavas”. Ao menos To Zé Brito é honesto, e não tem qualquer problema em assumir que o que está em causa é a mama.

4. Geralmente só os que não fazem desse trabalho a sua profissão e sustento defendem a gratuitidade e estão no seu pleno direito de a defender. Nada tenho, por exemplo, contra os Creative Commons. Não podem é querer negar a quem pretende ser pago pelo seu trabalho, protegido por lei, o direito de o ser.  Mas a questão não é essa. Para resumir a coisa e ilustrar melhor o ponto ao Tó Zé Brito: o que eu não quero, nem acho que seja justo, é que, sempre que comprar algum dispositivo electrónico com armazenamento – um telemóvel, um leitor de mp3, um computador -, esteja a contribuir para que os “artistas”, perdão, os autores que apoiam o pl:118 estejam a encher o bolso. A SPA, aparentemente, já não tem a lista on-line, mas podemos consultá-la n’O Insurgente. Destaco abaixo alguns nomes:

André Sardet
Fernando Correia Marques
Luís Represas
Mafalda Veiga
Pedro Abrunhosa
Sérgio Godinho

Isto para nem sair da música. Pessoalmente, não considero qualquer “artista” acima mencionado suficientemente interessante para sequer ponderar adquirir um CD. Aliás, todos estes “artistas” sem excepção conseguem fazer-me mudar de emissora ou desligar o aparelho sempre que passam na rádio ou na televisão. Como tal, também não vou fazer qualquer “cópia privada” dos seus conteúdos – e, já agora, também não estou minimamente interessado em piratear tais conteúdos. Isto, aliás, aplica-se à generalidade dos subscritores do projecto que constam naquela lista. Assim sendo, seria muito interessante que o Tó Zé Brito me explicasse qual é a justiça de eu estar a financiar autores cujos conteúdos, para usar a expressão apropriada, eu abomino.

Claro que isto é certamente pedir demasiado.

The Colour of Magic


eventhorizon,

No início deste ano, defini como resolução para 2012 ler a série Discworld, de Terry Pratchett. Não necessariamente toda, claro – de 1983 até ao presente, Pratchett escreveu um total de 39 livros desta série não-linear e incrivelmente popular*. E apesar do débil estado de saúde do autor – a quem foi diagnosticada Alzheimer – parece que ainda está a tentar concluir e publicar pelo menos mais uma aventura de Discworld.

 

Discworld não obriga a uma leitura dos livros por ordem cronológica. Ao longo dos 39 volumes, Pratchett desenvolveu um sem-número de personagens e múltiplas narrativas que têm lugar naquele mundo plano e circular, assente sobre quatro elefantes gigantescos que vagueiam pelo Universo em cima da carapaça da Great A’Tuin, a tartaruga cósmica. A série inclui histórias de feiticeiros, de bruxas, da polícia da cidade de Ankh-Morpork, do detective Sam Vimes, da mais relevante academia de ensino de feitiçaria de Discworld, a “Unseen University”, entre outros. A minha opção para cumprir este desafio, porém, foi ler a série por ordem cronológica, para melhor acompanhar a evolução do autor e de todo aquele mundo fantástico.

 

Em The Colour of Magic, o primeiro livro da série, a narrativa acompanha três personagens peculiares: Rincewind, um feiticeiro inapto (sabe apenas um único feitiço, por acaso é um dos oito Grandes Feitiços, que se alojou na mente do aprendiz de feiticeiro e desde então tem afugentado – literalmente – qualquer possibilidade de este aprender qualquer outro truque, por mais elementar que seja) com especial aptidão para idiomas e para se meter nos mais loucos sarilhos imagináveis; Twoflower, o primeiro turista de Discworld, que deixou a sua nação remota e o seu aborrecido trabalho de contabilista de seguros para conhecer o mundo a partir da cidade de Ankh-Morpork; e a bagagem de Twoflower. Sim, a bagagem the Twoflower – conhecida apenas por “Luggage” – é também ela uma personagem, consistindo num baú ligeiramente maior que o tamanho médio dos baús, feito de pearwood (uma madeira raríssima e resistente a magia), que se move com dezenas de pequenas e ágeis pernas e segue o seu dono para toda a parte (mesmo para toda a parte). Twoflower quer conhecer o mundo e ver as maravilhas de Discworld, e contrata Rincewind a peso de ouro para ser o seu guia, tarefa que o feiticeiro cumpre num estilo muito peculiar (e sempre divertido). Pelo caminho encontram ladrões, assassinos, heróis, bárbaros, dragões imaginários, dríades, demónios antigos, a Morte, deuses, trolls normais, trolls marinhos, e uma sociedade que quer enviar uma espécie de nave espacial para lá dos limites do mundo (o “Rimfall”) para descobrir a resposta a uma das questões que tem intrigado gerações de filósofos e feiticeiros: qual é o sexo de Great A’Tuin?

 

Dono de um sentido de humor extraordinário, na boa tradição do non-sense britânico, Pratchett usa estas personagens e as loucas situações em que se envolvem para parodiar os clichés dos géneros do fantástico. A forma como descreve feiticeiros, bárbaros, heróis, bandidos e donzelas em perigo é hilariante, pegando nos nos estereótipos tradicionais e invertendo-os, apenas para os devolver à narrativa e deixá-la seguir o seu atribulado curso. As descrições são um regalo, e é muito difícil não rir mesmo quando o autor descreve as mais triviais situações e os mais vulgares cenários. Se bem que, com franqueza, se há coisa que as situações e os cenários em Discoworld não são é justamente triviais ou vulgares.

 

Se em circunstâncias normais a série Discworld seria sempre merecedora de leitura – pela imaginação, pela qualidade da escrita e pela sátira –, numa época como esta ainda é mais recomendável. O humor, afinal, ainda está livre de impostos; e ainda que o riso não resolva todos os problemas, sempre ajuda a descontrair. Em Discworld, começando com The Colour of Magic, Pratchett dá aos leitores um stock interminável de gargalhadas.

 

*Em 2003, a BBC realizou uma sondagem ao longo de um ano para apurar qual o livro mais querido dos leitores ingleses. Sem surpresas, a obra vencedora foi The Lord of the Rings, de Tolkien; entre as 100 obras preferidas do público inglês, contam-se cinco de Terry Pratchett (Mort, Good Omens – esta escrita com Neil Gaiman –, Guards! Guards!, Night Watch e The Colour of Magic). Se considerarmos a lista dos 200 livros preferidos dos ingleses, Pratchett figura 15 vezes. Nada mau.

 

(Também aqui, onde doravante me dedicarei unicamente ao Fantástico com regularidade incerta)

Coerência


eventhorizon,

Vasco Graça Moura é, desde o primeiro momento, um acérrimo opositor do Acordo Ortográfico. Na sua coluna semanal no Diário de Notícias, foram muitas vezes em que abordou o tema, fundamentando a sua posição e explicando, com lógica e conhecimento, o disparate que é o Acordo Ortográfico e a sua imposição pelo poder político.
Coerente com essa sua posição, Vasco Graça Moura deu ordem aos serviços do Centro Cultural de Belém – para o qual foi recentemente nomeado presidente – para não aplicarem o Acordo Ortográfico. Resta saber o que fará Vasco Graça Moura se o Governo ou a Secretaria de Estado da Cultura embirrar com esta posição. No entanto, a coerência – qualidade cada vez mais rara neste país – não deixa de ser louvável.

Pelo menos em cinema 2012 tem de ser melhor que 2011


eventhorizon,

Os Óscares deste ano são os mais desinteressantes de que me lembro. Não vi um único filme dos nomeados – e a verdade é que não existe nenhum na lista que faça realmente questão de ver. 

Valha-me 2012, que graças a vários regressos promete ser um excelente ano cinematográfico. Ridley Scott regressa ao seu melhor género, a ficção científica, e ao universo de Alien com Prometheus, a prequela-que-não-é-uma-prequela da obra-prima de 1979. Cristopher Nolan regressa a Gotham City e ao universo de Batman – o único super-herói que passou bem da banda desenhada para o grande ecrã – com The Dark Knight Rises, o capítulo final da sua trilogia sobre o sombrio alter ego de Bruce Wayne. E, por fim, resta o muito aguardado regresso de Peter Jackson à Terra Média, com a adaptação de The Hobbit, onde poderemos ver como Bilbo Baggings, entre muitas outras aventuras, encontrou o Anel que colocou em marcha os acontecimentos de The Lord of the Rings.

 

O trailer deste dificilmente poderia ser mais prometedor.


A batata quente


eventhorizon,

Parece que corre para aí uma petição para “obrigar” Cavaco Silva a abandonar o cargo de Presidente da República. Compreendo perfeitamente que não gostem do homem, mas ocorre-me perguntar às milhares de almas que já assinaram a coisa: onde estavam em Janeiro de 2011, quando decorreram as eleições presidenciais? Levantaram todas o rabiosque do sofá e foram exercer o direito de voto, ou ficaram refastelados no sofá com o aquecedor ligado, pois era Inverno, fazia muito frio lá fora e até estava a dar um bom filme na televisão?

 

Não entro na polémica da legitimidade levantada na altura, à luz da qual a taxa de abstenção de 52 por cento – mais de metade da população em idade de votar – não permitia legitimar Cavaco Silva enquanto Presidente da República. Isso é conversa da nossa triste esquerda, para quem a vitória eleitoral dos seus candidatos é a “vontade do povo” e a vitória eleitoral dos candidatos de direita é um “golpe de Estado”. Da mesma forma, não embarco na conversa da obrigatoriedade do voto. Votar é um direito que os cidadãos podem ou não exercer. Dito isto, 52 por cento dos eleitores exerceu o seu direito de voto ao decidir justamente não o exercer. Disse: “não quero saber” – e deixou a batata quente nas mãos dos restantes 48 por cento. Estes, escolheram Cavaco por maioria absoluta logo à primeira volta.

 

Ora isto é Democracia – escolhermos, nos momentos para isso preparados, os nossos representantes e os nossos governantes, tendo periodicamente a oportunidade de correr com eles se não os quisermos mais no poleiro, ou mantê-los no cargo em reconhecimento do seu bom trabalho (ou, no nosso caso, por as alternativas serem ainda piores). A Democracia faz-se disto, e não de estados de alma, de petições ridículas alimentadas nas redes sociais e de protestos inconsequentes por causa de declarações obtusas.

Discworld e a minha resolução de 2012


eventhorizon,

Há alguns meses, comprei uma antologia de contos intitulada Legends, de 1998. Editada por Robert Silverberg, Legends junta contos de fantasia de alguns dos melhores escritores do género da actualidade. Entre estes figuram, por exemplo, George R.R. Martin, autor da consagrada série A Song of Ice and Fire – o conto The Hedge Knight foi o que me levou a comprar a antologia, e só por si vale os sete euros e vinte cêntimos que custou o livro – ou Robert Jordan, falecido em 2007, autor da série The Wheel of Time. E, claro, Terry Pratchett, com um conto saído directamente da série de fantasia que o celebrizou – Discworld. O conto publicado nesta antologia intitula-se The Sea and Little Fishes, e é a coisa mais divertida que já li desde The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, de Douglas Adams. Discworld é, para todos os efeitos, um marco na literatura de fantasia, pela sua longevidade – já conta com trinta e nove livros publicados desde 1983 – e pelo seu inigualável sentido de humor, a satirizar naquele mundo plano assente em quatro enormes elefantes que viajam pelo Universo empoleirados na carapaça da gigantesca tartaruga Great A’Tuin clássicos da literatura, como Tolkien ou Lewis, como inúmeras referências da cultura popular. 

 

A minha curiosidade quanto ao universo de Discworld era já antiga, e aquele conto foi a gota de água. Dada a minha incapacidade (não é só minha, mas adiante) de fazer e cumprir as tradicionais resoluções de ano novo – deixar de fumar, comer melhor, dormir mais, fazer exercício, tirar carta de condução, etc. -, decidi fazer desta série literária de Pratchett a minha resolução para 2012 – começar a ler Discworld, partindo do primeiro livro – The Colour of Magic – e ver até onde consigo ir sem estar necessariamente a fazer uma maratona e lendo outras coisas nos entretantos. Não que a série tenha necessariamente de ser lida por ordem cronológica – simplesmente preciso de alguma ordem, ou a coisa cedo descarrila. Ainda não comprei o primeiro volume, mas um vale de compras de uma livraria que recebi no Natal levou-me a comprar o décimo, Moving Pictures. Tem sido resistir a lê-lo de fio a pavio – aliás, tem sido impossível, dado que já li algumas páginas do início. Deixo aos leitores do Delito a seguinte passagem, que é capaz de dar uma ideia do estilo do autor e do seu mundo fantástico: 

There’s a saying that all roads lead to Ankh-Morpork, greatest of Discworld cities. 

 

At least, there’s a saying that there’s a saying that all roads lead to Ankh-Morpork.

And it’s wrong. All roads lead away from Ankh-Morpork, but sometimes people just walk along them the wrong way.

Poets long ago gave up trying to describe the city. Now the more cunning ones try to excuse it. They say, well, maybe it is smelly, maybe it is overcrowded, maybe it is a bit like Hell would be if they shut the fires off and stabbed a herd of incontinent cows there for a year, but you must admit that it full of sheer, vibrant, dynamic life. And this is true, even though it is poets that are saying it. But people who aren’t poets say, so what? Mattresses tend to be full of life, too, and no-one writes odes to them. Citizens hate living there and, if they have to move away on business or adventure or, more usually, until some statute of limitations runs out, can’t wait to get back so they can enjoy hating living there some more. They put stickers on the back of their carts saying ‘Ankh-Morpork – Loathe It or Leave It’. They call it The Big Wahooni, after the fruit.

 

Every so often a ruler of the city builds a wall around Ankh-Morpork, ostensibly to keep enemies out. But Ankh-Morpork doesn’t fear enemies. In fact it welcomes enemies, provided they are enemies with money to spend. It has survived flood, fire, hordes, revolutions and dragons. Sometimes by accident, admittedly, but it has survived them. The cheerful and irrecoverably venal spirit of the city has been proof against anything…

 

Until now. 

Antes desta descrição há um diálogo hilariante de um fantasma com a Morte (um dos protagonistas da série), mas este texto já vai longo. 2012 pode ser o ano terrível que os comentadores andam a anunciar na imprensa todos os dias, mas pelo menos em termos literários espero que o meu 2012 seja bastante divertido. 

Isto nem é morrer da cura, é qualquer coisa ainda mais estúpida


eventhorizon,

A confirmar-se isto, pode já ser dado o prémio de proposta de lei (ou de alteração de lei) mais estúpida do ano. E ainda a procissão vai no adro. Concedo que a pirataria possa ser um problema (pessoalmente acho que a questão está hiperbolizada), mas o problema não será resolvido se se despejar sobre ele terabytes de disparates:

 

A proposta de lei apresentada hoje pelo PS no parlamento prevê aplicar uma taxa de 20,48 euros a discos rígidos externos de 1TB. Um telemóvel com 64GB pode custar mais 32 euros e um disco multimédia pode quase duplicar de preço. (Exame Informática)

 

Curiosamente, esta notícia da Exame Informática tem uns comentários muito interessantes. Como este:

 

Mesmo que estivesse de acordo com os valores propostos por estes políticos de algibeira, há um problema que aposto que eles não pensaram. 
A proposta prevê, nos HD, que se pague 0,02€/GB. Se ultrapassar 1TB, então serão 0,025€/GB. Num disco actual de um TB, como diz na notícia, teríamos uma taxa aproximada de 20€. 
O problema será daqui a 10 anos. À boa moda portuguesa, e porque neste caso até dá jeito, a lei não será alterada nos próximos 10 anos. É fácil de perceber que a capacidade dos discos será, nessa altura, de uns 500TB (ou mais, sabe-se lá). Com estas valores, a taxa a pagar será de 10000€. Nessa altura, ou antes espero, virá um deputado adiantado mental dizer que as taxas são muito elevadas. (por “jfacosta”)

 

Ou este:

 

Esta Gabriela Canavilhas devia emigrar ou pedir desculpa pelo que diz…ela que fique pelo piano. 
Aliás, acho que deviamos cobrar uma taxa por cada tecla que ela toca no pianinho dela, isto porque PODE SER USADA para tocar músicas com direitos de autor. (por anónimo)

 

Mas a sério, não há nada mais urgente para legislar?

A liberdade e a segurança


eventhorizon,

Teresa, a protecção de dados – aliás, a “privacidade”, que o jornalista do Público coloca entre aspas como se fosse coisa menor – jamais é uma questão de “pruridos”. É muito fácil olharmos para o caso sueco – que tem de facto aspectos interessantes, sobretudo ao nível da Justiça – e pensarmos “isto por cá é que era”. Pessoalmente, acho que seria um desastre. Desde logo porque não somo suecos. E depois porque em matéria de cobrança de impostos, o Estado português tem muitos aspectos completamente arbitrários. Dar aos seus agentes um poder ainda maior sobre os contribuintes iria ser desastroso, sobretudo quando, e ao contrário da Suécia, não existe – como bem sabes – um sistema judicial eficaz para resolver eventuais problemas.

Não é por eu ter a minha situação fiscal perfeitamente regularizada que quero ver a minha conta bancária ou a minha situação fiscal na página de um jornal, ou afixada na junta de freguesia. Da mesma forma, também não é por eu nada ter a esconder que quero dar autorização a qualquer agente do Fisco que, com base em qualquer coisa infundada, se lembre de ir bisbilhotar.

Sabendo como são as coisas em Portugal, fazer por cá o que a Suécia fez e quer fazer seria pior do que deitar gasolina na fogueira – seria o equivalente a chamar aviões para despejar napalm. Recordemos a velha – e tão actual – frase de Benjamin Franklin sobre a liberdade e a segurança.

Uma bela carnificina


eventhorizon,

Carnage – em português, O Deus da Carnificina -, de Roman Polanski, é em certa medida o oposto de muitos dos filmes que podemos ver hoje em dia: actores de qualidade misturados com actores com menos qualidade em produções feitas para mostrarem grandes cenários (normalmente feitos em computador) pirotecnia, efeitos especiais e cenas de acção e suspense que querem ser muito originais mas que acabam por ser invariavelmente iguais. E é justamente por ser o oposto dessa tendência que Carnage é um filme excelente e refrescante – Polanski juntou quatro actores de provas dadas, colocou-os numa sala – numa única sala, em todo o filme – e deu-lhes um argumento bem escrito e inteligente para trabalharem. O resto é talento puro – e que talento. Jodie Foster, John C. Reilly, Kate Winslet e Christoph Waltz representam dois casais a tentar resolver amigavelmente um confronto violento entre os seus filhos, ainda crianças – mas da tentativa de amenização até ao mais puro ressentimento vai uma distância mesmo muito curta. 

 

A força de Carnage, como já disse, reside nos actores, que têm desempenhos formidáveis. Destaco, no entanto, Christoph Waltz, uma vez mais absolutamente brilhante. Vê-lo representar é uma maravilha. Polanski merece todos os elogios por este filme, mas há que colocar também uma velinha a Tarantino – que o mostrou ao mundo em Inglourious Basterds, e lhe deu o lugar que merece com toda a justiça: entre as estrelas do cinema mundial. Como aquelas com quem contracena neste filme.

Pouca-terra


eventhorizon,

Diz o Daniel Oliveira no Expresso:

Quem defende a inevitabilidade da lei do mais forte só tem de aguentar. Não gostam da luta dos maquinistas? Aprendam a conduzir comboios.

 

A escola argumentativa do Bloco deve realmente ser fascinante, mas deixemos isso de lado por agora. A “luta” dos maquinistas foi em 2011 o calvário de milhares de portugueses. Houve mesmo algum mês em que os maquinistas não tenham feito greve? Note-se que o problema não é o direito à greve, é o abuso da greve, que neste caso em particular já passou há muito tempo todos os limites do ridículo. Se a lei prevê o direito à greve, também prevê a existência de serviços mínimos, coisa que os maquinistas nunca se preocupam em assegurar devidamente. Exemplo mais recente: no dia 23, houve um comboio no sentido Lisboa – Faro, e outro no sentido inverso. Mas nos dias 24 e 25 não houve um – um – comboio de longo curso a circular a Sul do Tejo (devem ser amigos do Mário Lino, os maquinistas). E no dia 26, quando supostamente já devia ter terminado a greve, apenas houve um comboio dos três previstos no sentido Faro – Lisboa. Naturalmente, estou a partir do princípio de que o Alentejo e o Algarve são regiões dignas de ter serviços mínimos, mas o mais certo é estar enganado.

Voltando à frase do Daniel Oliveira. No meu caso, e no caso de muita gente, não gostar da luta dos maquinistas (não é isso que está em causa, mas vá) não significa aprender a conduzir comboios (mesmo que o quisesse fazer, quem seria despedido para eu ter trabalho?), mas sim ser forçado a optar por transportadoras rodoviárias privadas. Foi o que tive de fazer para poder passar o Natal com a família e regressar a Lisboa a tempo de trabalhar na Segunda-feira. E não terei certamente sido o único. Podendo escolher entre o autocarro e o comboio, não hesito – antes o comboio, mil vezes o comboio. Mas a CP, com os seus especialistas em criar horários que não servem ninguém e eliminar horários que são realmente úteis (como os últimos Intercidades do dia para o Sul), já consegue por si só prestar um péssimo serviço às populações; com as suas greves constantes, os maquinistas só contribuem ainda mais para o mau serviço da CP, levando mais e mais gente a optar por o transporte rodoviário, público ou particular. É bom de ver onde isto vai acabar, mais cedo ou mais tarde.

A ironia é que, mais dia menos dia, com mais greve e menos comboio, a CP estoira de vez, e os maquinistas – estes mesmos que boicotaram o Natal de milhares de pessoas e que passaram 2011 a transtornar a vida a milhões – ficam desempregados (pelo menos os de longo curso). Da minha parte, que desde miúdo adoro comboios e que não encontro meio de transporte que se compare ao velhinho pouca-terra (nem o carro), lamento que assim seja. No entanto, quando tal acontecer, que não se queixem os maquinistas: a cama onde se vão deitar também foi feita por eles. 

Coelhos


eventhorizon,

No seu curto percurso como primeiro-ministro, Passos Coelho já disse alguns disparates de antologia, mas isto não será certamente um deles. Aquilo que Passos Coelho diz é óbvio: dadas as circunstâncias, muitos professores terão de optar por outra carreira ou, caso queiram mesmo leccionar, terão de emigrar – e nesse caso, os países de língua portuguesa são excelentes opções. Isto só é novidade para quem tenha andado completamente alheado da realidade ao longo da última década (e eu andei alheado durante metade deste tempo): há muito tempo que há excesso de professores, e que muitas universidades estão a formar alunos para o desemprego (não acontece apenas no ensino, mas para este post interessa apenas esta área). Neste caso não adianta colocar a culpa “nos estrangeiros” ou em quem “recebe o rendimento mínimo”, como já li/ouvi por aí. Tal como não adianta colocar a culpa no Governo – neste ou noutro qualquer, quando o problema é evidente: não há nem haverá colocação para todos (a menos que nos comecemos a reproduzir como coelhos).

 

Se é correcto o primeiro-ministro apelar à emigração? Eu duvido que o homem estivesse a apelar à emigração, mas mesmo dando isso de barato: qual era a alternativa? Inventar um “programa” baseado numa “promessa” para dar emprego às dezenas de milhares de professores que todos os anos não conseguem colocação? Estamos muito mal habituados, é o que é.

Disarm


eventhorizon,

Ontem à noite, quando os músicos já tinham abandonado o palco do Campo Pequeno, Billy Corgan disse ao público que tocaria uma última música se o público o acompanhasse. O resultado foi este:

 

 

O vídeo (que, já agora, não é da minha autoria) não tem muita qualidade, é certo (é pena o espectáculo não ter sido transmitido) mas dá uma ideia de como acabou ontem o fenomenal concerto dos Smashing Pumpkins – uma das maiores bandas dos anos 90 – no Campo Pequeno. Continuam em grande.