Coelhos


eventhorizon,

No seu curto percurso como primeiro-ministro, Passos Coelho já disse alguns disparates de antologia, mas isto não será certamente um deles. Aquilo que Passos Coelho diz é óbvio: dadas as circunstâncias, muitos professores terão de optar por outra carreira ou, caso queiram mesmo leccionar, terão de emigrar – e nesse caso, os países de língua portuguesa são excelentes opções. Isto só é novidade para quem tenha andado completamente alheado da realidade ao longo da última década (e eu andei alheado durante metade deste tempo): há muito tempo que há excesso de professores, e que muitas universidades estão a formar alunos para o desemprego (não acontece apenas no ensino, mas para este post interessa apenas esta área). Neste caso não adianta colocar a culpa “nos estrangeiros” ou em quem “recebe o rendimento mínimo”, como já li/ouvi por aí. Tal como não adianta colocar a culpa no Governo – neste ou noutro qualquer, quando o problema é evidente: não há nem haverá colocação para todos (a menos que nos comecemos a reproduzir como coelhos).

 

Se é correcto o primeiro-ministro apelar à emigração? Eu duvido que o homem estivesse a apelar à emigração, mas mesmo dando isso de barato: qual era a alternativa? Inventar um “programa” baseado numa “promessa” para dar emprego às dezenas de milhares de professores que todos os anos não conseguem colocação? Estamos muito mal habituados, é o que é.

23 comentários em “Coelhos”

  1. A última frase diz tudo: muito mal habituados, definitivamente. Se se pede, por um lado, ao governo, na figura do primeiro-ministro, que zele pelo país, também se lhe pede, julgo eu, que zele pelos portugueses, pelos cidadãos. Não me pareceu nada escabroso e, pelo tom que PPC assumiu enquanto falava, pareceu-me que estava a «aconselhar». De facto, para quem está a sair da Universidade (ela própria um problema, há muito que se fala da sua cooperação com o mercado de trabalho e, cegos, continuam a não reparar que é no ensino superior que começa grande parte do problema), a emigração, em muitos dos cursos, é uma boa solução. Claro que é desanimador quando o nosso próprio país não nos ampara, mas o país não dá para mais, está vedado a grandes sonhos para os pequenos, pelo menos nos próximos anos.
    Portanto, pobres de nós que ficamos tão melindrados com quem nos aconselha. Gostamos pouco de ouvir, ou melhor, só gostamos de ouvir o que nos convém. Por isso, o Socratismo funcionava: dizia o que muitos queriam ouvir. Tanto à esquerda como à direita, muitos políticos e outros agentes da vida política acomodaram-se a dizer o que o povo quer ouvir. Veja-se agora a extrema necessidade do partido socialista em nos mostrar, mais uma vez, sempre como fundo, o que queremos ouvir: «as pessoas estão primeiro». Ou a pouco digna resposta de Mário Nogueira; lá está, é o que a generalidade dos professores quer ouvir.
    Se as pessoas estão em primeiro – e estamos -, não podemos continuar a prometer sonhos aos portugueses, quando, no último século, a simples esperança miúda foi sempre o que país foi capaz de dar à generalidade dos seus filhos.

    1. Se os socialistas quiserem pagar do bolso deles às “pessoas” que “estão primeiro”, estejam à vontade.

      Claro que é desanimador não encontrar oportunidades no país. Mas quem nos últimos dez anos se meteu num curso de educação esperava exactamente o quê?

  2. camarada, o problema não é o facto de ser evidente ou não que há (não sei os números para saber se há ou não, mas dou isso de barato) excesso de professores em portugal. o problema é que aquilo que passos coelho diz tudo aquilo que um analista pode dizer, mas é tudo o que um primeiro-ministro não pode. aquilo que um primeiro-ministro «em efectividade de funções» deveria dizer era: farei os possíveis e os impossíveis para, durante esta legislatura, iniciar o processo de inversão da pirâmide etária a que temos assistido nos últimos anos. não é dizer barbaridades dessa. passos coelho não é ceo da rays human capital, é primeiro-ministro. é bom que comece a perceber qual é a diferença.

    um abraço,
    jtf

    1. “Getting people to do what you want is simply a matter of telling them what they’re going to hear.” Passos Coelho é um idiota. Ele devia ter prometido 150 mil empregos.

      Quanto à evidência do excesso de professores, consulta as listas (públicas) de professores não colocados e retira as tuas conclusões. Familiar próxima costuma ficar com 19 mil não colocados à frente.

      Abraço.

      1. joão, eu não sei se ele devia prometer 150 mil empregos ou não. acho que devia, pelo menos, dizer que terá isso com prioridade. e não desistir do país, convidando os seus membros a deixarem de o ser. sempre são menos portugueses a chatear. mesmo que a análise de fundo seja racional sobre os professores, não é ao PM que cabe explicitá-lo. se, como sabemos, cabe aos governos reunir as condições para que, de uma forma ou de outra, os portugueses consigam encontrar um futuro aqui; propondo que daqui saiam é desistir da tarefa que lhe cabe. é a minha opinião.

        o facto de haver professores não colocados não é significado de que existem professores a mais. significa apenas que há professores que o ministério resolveu não colocar, o que pode ser substancialmente diferente.

        um abraço,
        jtf

        1. João, a menos que eu tenha lido muito mal (é possível), PPC não mandou ninguém desistir do país. Aliás, ele não mandou coisa alguma. Disse algo bem mais prosaico: não há lugar para todos os professores, pelo que as alternativas podem passar por uma nova carreira – seja ela qual for – ou por tentarem a sorte nas comunidades de língua portuguesa (o que muitos até já fazem). Não é a este ou a outro Governo que cabe solucionar um problema derivado sobretudo de escolhas individuais. Olha, eu licenciei-me em Jornalismo, não trabalho em Jornalismo e nem por isso exijo que o Governo me meta na RTP. Talvez esteja a ser parvo por não o fazer.

          “Significa apenas que há professores que o ministério resolveu não colocar”. Não estamos a falar de trinta professores, mas de trinta mil.

          Abraço

  3. João, se é verdade que há muitos professores (se calhar não tantos como isso, as turmas continuam a ser grandes, o que pode faltar em muitos casos é dinheiro para lhes pagar), a verdade é que a função de um governo não é dizer aos cidadãos que lhes facilitem a vida: é facilitar a vida aos cidadãos. Até se pode dizer (ou escrever, como li noutros sítios) que “qualquer pessoa” diria o mesmo, a verdade é que o primeiro-ministro não é qualquer pessoa (apesar de uma deriva populista actual que acha bem que os ministros sejam “pessoas cumósoutros”). O primeiro-ministro tem outras responsabilidades, especialmente se governa com maioria absoluta (em coligação, mas isso até era conhecido a priori).

    Se me perguntarem qual a solução, confesso que não conheço. Mas também nunca me candidatei a qualquer cargo político nacional ou local. Apenas me candidatei à Associação Académica de Coimbra (embora nunca a presidente) e nunca ofereci a opção aos meus colegas de mudarem de universidade.

    As alternativas certamente que não serão fáceis, mas valerão sempre mais a pena ao país (para mais no futuro) do que despachar os seus quadros mais qualificados. Especialmente porque quem mais emigrará serão os mais jovens, os quais terão menos tendência a voltar e, para mais, acentuarão ainda mais a descida da taxa de natalidade, assim acelerando a espiral.

    Enquanto cidadão, Passos Coelho pode pensar o que disse. Enquanto primeiro-ministro não o pode fazer. Não é para isso que lhe pagam os empregadores.

    1. Concordo que as responsabilidades sejam outras. Não concordo com a ideia – que tanta gente me dá a entender – de que era preferível PPC continuar a vender ilusões. De resto, não me parece que ele tenha mandado ninguém embora.

      1. Concordo que não tem que vender ilusões (embora as venda, mas outras), mas tem que apresentar soluções. Se não as apresenta não anda lá a fazer nada. O meu cão faria a mesma figura (e é bem mais bonito).

  4. Ora, é ressuscitar os 150.000 empregos “criados” pelo engenheiro/filósofo/economista. Até sobra…

  5. Olllláááá!!! Ironia? Defensor de PC? Deixe dizer que PC tem toda a culpa por ser PM, nesta altura. Em vez de mandar professores irem até aos PALOP’s devia reformular o ensino Universitário. Devia, em vez de andar a pedinchar, criar emprego. Devia criar um sistema de apoio para as PME’s, que são criadoras de riqueza em vez de sugerir, que quem não consegue trabalho em Portugal, mude de País. Há 37 anos que andamos a apertar o cinto, agora mais do que anteriormente. Será que os aspirantes a PM não aprenderam nada? Se calhar, não! Se não aprenderam….

    1. Boa parte dos professores desempregados não poderia dar aulas no ensino universitário.

      E não, o primeiro-ministro não devia criar emprego. Nem este, nem outro. É por essas e por outras que estamos como estamos.

      1. Quando digo que o PM devia criar emprego é mais no sentido de não dificultar a vida a quem emprega. Então, para não adiantar muito mais, será justo estar a cortar nos subsídios ( Férias e Natal) e admitir reformas de 20.000€? (Não ponho em causa se descontaram para terem reformas tão chorudas). Aquilo que está em causa são os sacrifícios pedidos aos Portugueses há já 37 anos. Só que não se pedem aos Portugueses todos. Que culpa tem a maioria dos Portugueses que o BPN tenha sido mal gerido? O BPP? Mas….os Portugueses tiveram que pagar os desvios fraudulentos. A um trabalhador que ganhe 500 ou 600€ faz diferença ter que pagar nem que seja 1€. A um que ganhe 6, 7, 10, 15.000€, não fará assim tanta diferença. É nestas diferenças que o PM terá culpa ( por ser chefe de governo). Se os sacrifícios forem melhor distribuídos poderemos ter uma aceitação melhor de quem os faz e recuperaremos alguma coisa. É assim que vejo o meu País do “alto” da minha 4ª classe.

  6. Independentemente de haver ou não professores a mais, de haver ou não solução na actual situação do país para esses casos, aconselhar as pessoas (professores neste caso) a emigrar para os PALOPs é um bocadinho … parvo.

    Se fosse fácil obter vistos de trabalho nos países em causa, ainda poderia ser considerada uma solução válida. Como todos sabemos que não é, trata-se de uma sugestão vazia, basicamente, sacudir o problema.

    E isto dando de barato ser verdade que Angola, Brasil e outros estejam realmente desesperados por receber professores portugueses o que, francamente, me custa muito a acreditar.

    1. Se é fácil ou difícil obter um visto, não sei; no entanto, não me parece que o país consiga absorver os professores excedentários (e as centenas que continuam a sair das universidades todos os anos).

      1. Repito: O problema pode não ter solução fácil, ou ter solução de todo, nas actuais circunstâncias. Mas de pouco vale oferecer soluções falsas. Mais vale dizer que não tem solução, ou estar calado.

  7. Eu realmente não entendo.

    Há centenas de anos (pelo menos uns 700) que resolvemos os nossos problemas socio-económicos mandando gente para fora. Uns mais outros menos letrados, mas seguramente os mais atirados para a frente e/ou os mais deseperados. Uns voltaram, outros não. E aqui estamos.

    Agora, de repente, emigração tornou-se uma palavra feia. Será por que emigra gente com um canudo em vez de calos nas mãos?

    Toda a gente sabe, ou devia saber, que a situação demográfica do país é catastrófica. Ninguém, ou quase, fala do assunto, provavelmente porque ainda estamos a combater a última guerra, a da pílula etc. Ninguém fala dos suecos e de como eles inverteram a tendendência em meia dúzia de anos a golpes de boas condições para as pessoas terem filhos e se gozarem deles.

    E fica mal ao PM dizer a verdade, claro.

    Há dias em que não

  8. Os professores desempregados teriam uma boa oportunidade de provar o seu valor que houvesse liberdade de ensino em Portugal.
    Por exemplo começarem por mandar para o lixo os programas do Kremlin da 5 de Outubro.
    Dizerem ás pessoas que os seus filhos vão conseguir ler na 3ªclasse. Que ao 9ºAno estão prontos para a Universidade.
    Mas não há…
    E o Passos não faz nada para que haja.

  9. Várias questões:

    Como faço para ser professor?

    Que curso é que devo tirar?

    Com que notas?

    Agora a sério. Há muuuuuuitos professores que o são porque, quando terminaram os seus respectivos cursos não tinham notas finais de realce. Ou então preferiram leccionar a trabalhar 20 horas seguidas numa qualquer consultora multinacional.

    Os PALOP’S são, neste momento, uma enorme fonte de oportunidades.

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