A situação dos professores convidados a emigrar para lá do rufar dos tambores


Rui Rocha,

A propósito das recentes declarações de Passos Coelho há algumas questões a que não é possível responder apenas através da marcação de uma linha divisória entre os apoiantes da franqueza e os indignados pela sinceridade. São, todavia, aspectos importantes que ficam abafados pelo rufar de tambores das claques e apoiantes. Antes de as colocar, importa clarificar que entendo a educação como um sistema dirigido aos alunos (ainda que, por vezes, tenha de funcionar apesar dos alunos). Não se trata, de todo, de menosprezar o papel dos pais, das famílias ou dos professores. A educação faz-se com eles e faz-se mal ou não se faz sem eles. Mas, se perguntarmos quais os interesses fundamentais que a educação deve servir, concluiremos sempre que esses só podem ser os dos alunos. Ora, partindo desta perspectiva, há uma primeira constatação a que devemos chegar: o número máximo de alunos por turma admitido em Portugal é excessivo. É evidente que a redução do número de alunos não assegura, só por si, uma melhoria da qualidade do ensino. Por exemplo, o efeito da redução será praticamente nulo se os professores adoptarem uma estratégia exclusivamente expositiva da matéria. Todavia, quando se utilizam abordagens mais ricas e diversificadas, que implicam interacção e participação de alunos e professores, existe uma probabilidade real de um número menor de alunos em sala corresponder a melhores resultados. De modo que a sinceridade que se pode reconhecer às palavras de Passos Coelho e ao seu governo não é total. Ao contrário do que foi afirmado por Nuno Crato quando formulou a recente reforma curricular, as razões para a apresentar nos termos em que o fez são, antes de mais, orçamentais. Se não fosse esse o caso, antes de anunciar outro tipo de alterações, qualquer governo estabeleceria um número máximo de alunos por turma entre 20 e 24. E isso, naturalmente, reduziria o número de docentes desempregados. Por outro lado, a onda de solidariedade que tem sido dirigida aos docentes convidados a emigrar é, as mais das vezes, hipócrita. O que está também em causa é a escolha entre uma abordagem baseada no mérito e uma outra que salvaguarda os direitos adquiridos. Como em todas as outras profissões, exercidas no sector público ou privado, há uma percentagem de docentes do quadro que não tem quaisquer condições para continuar a ensinar (serão 15%, tal como acontece noutras profissões?). Deviam ser esses e não alguns docentes  contratados competentes (também aqui há os que estão bem preparados e outros que jamais poderão ser professores) aqueles a quem Passos Coelho poderia sugerir que emigrassem. É claro que isso seria pôr o dedo numa ferida transversal à sociedade portuguesa: pretendemos privilegiar a competência ou os interesses instalados? No caso da educação, a resposta é, aparentemente, muito fácil. Basta reconhecrmos que o que está verdadeiramente em causa é o interesse dos alunos.

3 comentários em “A situação dos professores convidados a emigrar para lá do rufar dos tambores”

  1. Em relação à primeira parte do post – número de alunos por professor, matéria, exigência, interesse dos alunos, competência – pouco ou nada tenho a apontar. Reflicto antes sobre a questão do convite à emigração.

    Primeiro, pelo lado da competência. Se é verdade que há professores incompetentes, tal como há outros profissionais que o são, será que queremos que esses emigrem? Queremos mesmo exportar a nossa pior face? É óbvio que deveremos querer ficar com os bons exemplos, mas não me parece ser boa ideia querer despachar os maus. É capaz de dar má imagem. Por outro lado, se esses professores são maus a solução é simplesmente reencaminhá-los para outras ocupações. Eles muitas vezes não tiraram cursos para serem professores, antes tiraram cursos na qual seguiram a via do ensino. Isso não impede que pudessem fazer outras coisas (professores de química a trabalharem como químicos, de matemática como matemáticos, de inglês como tradutores, etc). por isso a ideia seria tentar que mudassem de ocupação.

    Isso leva-me à questão do convite à emigração em si. O primeiro dever de um governo deveria ser (a meu ver) a garantia de bem estar dos cidadãos do país. Ao convidar cidadãos a emigrar, o governo está implicitamente a demitir-se dessa responsabilidade. É normal que um/a pai/mãe diga aos filhos que se ponham a andar para procurar uma vida melhor. Já não é normal que o governo o faça. Quando o faz, está a admitir o seu fracasso e a sua incapacidade para melhorar a vida de quem cá fica.

    Outro pormenor: é muito provável que quem se vá embora sejam profissionais de qualidade e jovens. Os de qualidade porque não admitem facilmente a medíocridade e o compadrio. Os jovens porque estão mais facilmente abertos à experiência. E pior que isto: se se forem embora é muito possível que não voltem nunca. Além disso, ao contrário do passado, é também muito provável que enviem remessas de dinheiro muito reduzidas para o país. As raízes cortam-se hoje em dia mais facilmente que no passado. Ficam as da família imediata (pais e irmãos) e acabou.

    O convite à emigração, por parte do governo, é apenas e só mais uma admissão de incompetência. Este governo quer esvaziar o país para depois o vender a saldo. Pelo menos é cada vez mais essa a ideia que dá.

    1. Sim, percebo o seu ponto no que diz respeito à emigração, João André. No post dei esse aspecto de barato porque me interessava colocar a questão no âmbito mais geral dos direitos adquiridos.

  2. Isto só chocou os indignados do costume.

    Se eu quiser trabalhar numa determinada profissão e não existir procura de mão-de-obra nessa área, restam duas hipóteses: mudar de sítio ou mudar de profissão. É estupidamente simples.

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