
A recepção camarária ao Benfica
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«Será sempre uma honra e um gosto homenagear o senhor general Vasco Gonçalves. (…) Vamos trabalhar nesse sentido.»
Carlos Moedas, em reunião da Câmara Municipal de Lisboa (27 de Julho)

Na recente morte de Jorge Sampaio a Câmara de Lisboa tratou de o homenagear, utilizando espaços comerciais disponíveis, forma ágil de trazer essa evocação até ao quotidiano dos munícipes. Julgo muito curial que a Câmara homenageie deste modo, sentido e bastante visível, um seu antigo presidente, na hora do seu falecimento. Presumo que tal não tenha acontecido na morte de Nuno Krus Abecasis (1999) e de Aquilino Ribeiro Machado (2012) – não encontro registos fotográficos disso -, mas nada obsta a que se encete agora uma simpática e honrosa prática.
Mas o contrário pensarei se esta acção for dedicada a homenagear o antigo Presidente da República, como julgo ter sido o caso pois esta acção vem na sequência do realizado aquando da morte de Mário Soares. Pois se esta for uma prática a dedicar a todos os presidentes da República que venham a falecer isso será um mimetismo das práticas simbólicas do Estado central, e assim uma intrusão nas funções que a este competem. O que transporta uma implícita reclamação de um estatuto especial da câmara da capital, um “centralismo municipal” lisboeta. O que se torna mais visível neste contrafactual: face ao registo relativamente contido do cerimonial do nosso Estado democrático muito nos impressionaria, até desagradavelmente, se todas as centenas de câmaras existentes inundassem os seus territórios com homenagens pictóricas por ocasião da morte de um antigo presidente da república. Estou crente que produziria até um travo autocrático, como se de tempero norte-coreano ou afim. Porquê então aceitá-lo na câmara da capital?
É certo que estas homenagens poderão ser justificadas por se terem dedicado a cidadãos naturais do concelho (Soares e Sampaio nasceram em Lisboa) que ascenderam ao mais alto cargo do Estado. Se assim for então serão totalmente curiais. Deixando assim espaço para que na ocorrência de futuros falecimentos de antigos presidentes (longe vá o agoiro) sejam as câmaras respectivas a homenagearem esses seus ilustres naturais. Mas se for esse o vector que imprime esta homenagem póstuma então tem que ser explicitado. E não o é.


A Câmara Municipal de Lisboa é um enorme empregador, em modo desproporcionado com os restantes municípios. E um enorme contratante, também. O resultado desse regime omnívoro é mau. E também ridículo, como aqui se vê – a CML patrocina um festival musical e publicita-o com uma imagem de São Francisco.
Decerto que o guardião disto tudo, Medina, se apressará a despedir algum funcionário expiatório… Mas este é mesmo o diagnóstico do “estado destes artistas”.
Medina, li agora em alguns títulos, afirma que só soube da denúncia dos dados de manifestantes pela comunicação social. Às tantas, ainda vamos descobrir que o comentador de política Fernando Medina está mais informado sobre o que se passa na Câmara de Lisboa do que o presidente da Câmara de Lisboa Fernando Medina.
“Quase no mesmo momento em que Fernando Medina trespassava todas as responsabilidades aos funcionários camarários, o cardeal Reinhard Marx demitia-se por causa do escândalo da pedofilia na igreja católica. O Cardeal não esteve envolvido em qualquer caso. Mas entendeu que a hierarquia da igreja tinha de “partilhar a responsabilidade” dos abusos e do encobrimento. Porquê? Porque não derivavam de um lapso ou de um erro ocasional, mas haviam sido “sistemáticos”. Tinham, portanto, uma dimensão institucional.“
Rui Ramos no Observador
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Ontem foi o meu aniversário, o 55º. E o Facebook deu-me uma prenda. Melhor dizendo, algumas das minhas ligações-FB (“amigos” diz-se, sobre pessoas que não se conhecem, uma aberração linguística) deram-me uma prenda: chamaram-me a atenção para esta entrevista. Trata-se de um verdadeiro documento, um “corte geológico” da Câmara de Lisboa. Mas também, se extrapolando, do poder municipal. E, mais do que tudo, sobre o que é o Partido Socialista.
Vem num discurso claro, com conhecimento interno do que se vem passando. Dizendo coisas “incríveis” ainda que credíveis. Demonstrando o “estado da arte” do que é o PS. É a isto, à rejeição deste descalabro anti-democrático, que Inês Pedrosa, Miguel Sousa Tavares, Fernando Rosas, Seixas da Costa e outros painelistas chamam “populismo” (já ninguém diz pujadismo), o antes dito “neoliberalismo” ou mesmo “fascismo”. No que são secundados por inúmeros menos-conhecidos, funcionários públicos professores, jornalistas avençados ou mesmo meros facebuquistas/bloguistas mui ciosos deles mesmos. A cortina que impõem é tão grande que esta entrevista – com tudo o que poderia ser letal para uma clique no poder – passa praticamente despercebida (é de Setembro de 2018) e dela saem incólumes os dirigentes partidários.
As pessoas, estas tantas que apoiam esta tralha toda, não prestam. Nada prestam.
— Lisboa (@CamaraLisboa) June 6, 2019

75 anos do Dia D. Pelo sim, pelo não, mantenha-se afastado das praias e desfrute dos parques, alamedas e jardins de Lisboa. Bom dia.#gestorporumdia pic.twitter.com/zj3kpLW6SE
Um comentário no postal “Heróis” do Pedro Correia deu-me a conhecer esta colocação no sítio da Câmara Municipal de Lisboa no twitter. Não sei qual é o estatuto jurídico de uma conta nas redes sociais de uma autarquia ou de qualquer organismo estatal. Mas, de facto, essas contas assumem o papel de representação. Nem sei quem faz a sua gestão – um funcionário autárquico, um avençado sub-remunerado familiar de alguém do “partido”, um (ex-)”jotinha”, um jornalista anónimo amigo dos bloguistas do “Jugular”, um avatar do deputado Carlos César, sei lá que mais … Mas sei que esta é a forma como a câmara da minha cidade comemora os 75 anos do Dia D. Não é particularmente relevante, dos tuítes não reza a história, e esta falará da era Medina pelas aventuras do arquitecto Salgado e quejandos, não por minudências destas. Ainda assim, e porque me irritou a infra-cultura PS remunerada pelo Estado deixei lá, na referida conta, o meu contributo etnográfico, proveniente da mais pura cultura alfacinha: um curto “foda-se”, mais do que merecido (que me perdoem os olhos mais sensíveis que por aqui passem).
Respondeu-me o Estado, na versão autárquica, bloqueando-me o acesso ao seu guichet no twitter. Repito, não conheço o estatuto jurídico das contas nas redes sociais das autarquias e doutros organismos estatais. Mas sorrio ao ver o tal Estado, medinesco, a abandalhar a memória dos Aliados (será a actual edilidade germanófila?) e a barrar quem se irrita com isso. “Sorrio” é como quem diz, repito os palavrões. Os devidos a este “comboio descendente”, ali de Queluz à Cruz Quebrada, todos à gargalhada, uns por verem rir os outros, e os outros sem ser por nada, ou apenas por um tweet ou outro. Deste calibre.

Acho que é sempre um modelo de transparência uma autarquia que arrenda por tuta e meio um terreno de um palácio municipal de grande valor histórico e a seguir exibe publicamente um contrato de onde risca o nome do outro outorgante. E, já agora, a Madonna entende o suficiente de português para ter assinado este contrato? Se fosse em qualquer outro país civilizado, o Presidente da Câmara de Lisboa já estaria na rua. Mas como em Portugal não há capacidade de indignação, continuaremos sempre na nossa apagada e vil tristeza.
Pois eu cá mandaria pintar o país todo de branco-cru. Ficava mais bonito. E uniformizado.
No entanto, fica a pergunta: quais foram os critérios orientadores que os iluminados vereadores da CML definiram para a indumentária dos traficantes vendedores ambulantes de droga da Rua Augusta? Também será “de cor única”? “Branco-cru”, querem ver? E a droga, vai ser devidamente acondicionada em “aço-inox” ou pode continuar a ser traficada vendida enrolada em celofane de qualidade duvidosa?