A recepção camarária ao Benfica


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(Fotografia de Miguel A. Lopes/Lusa)

 

Terminou o campeonato nacional de futebol e seguiram-se os festejos. Há quem lamente a alienação popular, essa que conduz milhares (milhões) ao êxtase por causa dos sucessos de uns tipos (endinheirados) que dão uns pontapés na bola. Tudo isso em detrimento de uma verdadeira cultura – esta normalmente sinalizada por livros, os produtos mais associados a essa tal cultura, pois raros são os que para afirmarem a sua pertença à “Alta Cultura” mostram os seus arquivos digitais epub ou pdf, o rol de música gravada ou mesmo os velhos cds/vinis, ou a arte, original ou replicada que afixaram em casa própria, ou quaisquer outros itens patrimoniais.

 

Há dois anos o meu Sporting foi campeão, quebrando um longo jejum que durava desde bem antes de sofrer eu da maldita radiculite que me triturou nos últimos dias. E lá fui eu, proto-sexagenário, rumo ao Marquês, adornado e eufórico, em companhia amiga para comemorar a vitória dos tais (nossos) pontapeadores da bola. Grande alegria, grande festa (o futebol é festa – e não devia ser pancadaria, mas isso é outro assunto). E aviso os mais renitentes – há tempo na vida para um tipo puxar pela cabeça o mais que pode (com os resultados dependentes das capacidades de cada um) e também se deliciar com as futeboladas. E com as futebolices (entre as quais a mais deliciosa é gozar os outros, nas derrotas e nos triunfos, claro está).

 

Ontem, dois dias depois do triunfo benfiquista e do subsequente arraial dos adeptos na Marquês de Pombal – e não anteontem, domingo, como seria mais normal e até adequado ao ritmo urbano – o presidente da Câmara da sede do clube campeão cumpriu a (recente?) tradição de receber a equipa campeã nacional. E nisso o povo adepto acorreu a saudar os jogadores – um post-scriptum da festa. Julgo esta recepção autárquica exagerada – não se cumpre para todos os desportos existentes – mas é apenas um ademane populista dos autarcas. Não é por isso que cairão os vizinhos “Carmo e Trindade”.

 

Na televisão ouvi um pouco do discurso do presidente Moedas. Texto talvez da sua lavra, porventura de um qualquer assessor mais benfiquista… Achei-lhe eu, sportinguista, um tom demasiado enfático. E àquilo de “Cosme Damião e mais 24” terem criado o “sonho de Lisboa” resmunguei um “nunca mais voto neste tipo” e mudei de canal – desiludindo-me com alguém que até gostaria que estivesse num lugar mais importante, rumo a São Bento. Enfim, talvez não venha a cumprir esta minha imprecação, mas senti o autarca por demais lampião para momentos oficiais…

 

Mas enfim, azia futebolística à parte, o que é mesmo criticável – verdadeiro sinal de alienação -, e agora sem qualquer ironia, é que essa recepção aos jogadores de futebol tivesse sido acompanhada em directo por 7 canais televisivos. Sete. Mais o canal Benfica, mas esse é evidente que cumpria a sua função nesta transmissão.

 

Sete (+ um) canais televisivos a transmitirem o percurso do autocarro pelas ruas de Lisboa e a ascensão dos jogadores à varanda da câmara. É totalmente demencial. E um sintoma do boçalismo das direcções editoriais. E não me venham dizer que isto que resmungo é antibenfiquismo.

As homenagens da Câmara Municipal de Lisboa


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Na recente morte de Jorge Sampaio a Câmara de Lisboa tratou de o homenagear, utilizando espaços comerciais disponíveis, forma ágil de trazer essa evocação até ao quotidiano dos munícipes. Julgo muito curial que a Câmara homenageie deste modo, sentido e bastante visível, um seu antigo presidente, na hora do seu falecimento. Presumo que tal não tenha acontecido na morte de Nuno Krus Abecasis (1999) e de Aquilino Ribeiro Machado (2012) – não encontro registos fotográficos disso -, mas nada obsta a que se encete agora uma simpática e honrosa prática.

Mas o contrário pensarei se esta acção for dedicada a homenagear o antigo Presidente da República, como julgo ter sido o caso pois esta acção vem na sequência do realizado aquando da morte de Mário Soares. Pois se esta for uma prática a dedicar a todos os presidentes da República que venham a falecer isso será um  mimetismo das práticas simbólicas do Estado central, e assim uma intrusão nas funções que a este competem. O que transporta uma implícita reclamação de um estatuto especial da câmara da capital, um “centralismo municipal” lisboeta. O que se torna mais visível neste contrafactual: face ao registo relativamente contido do cerimonial do nosso Estado democrático muito nos impressionaria, até desagradavelmente, se todas as centenas de câmaras existentes inundassem os seus territórios com homenagens pictóricas por ocasião da morte de um antigo presidente da república. Estou crente que produziria até um travo autocrático, como se de tempero norte-coreano ou afim. Porquê então aceitá-lo na câmara da capital?

É certo que estas homenagens poderão ser justificadas por se terem dedicado a cidadãos naturais do concelho (Soares e Sampaio nasceram em Lisboa) que ascenderam ao mais alto cargo do Estado. Se assim for então serão totalmente curiais. Deixando assim espaço para que na ocorrência de futuros falecimentos de antigos presidentes (longe vá o agoiro) sejam as câmaras respectivas a homenagearem esses seus ilustres naturais. Mas se for esse o vector que imprime esta homenagem póstuma então tem que ser explicitado. E não o é.

Os grafitos no Padrão dos Descobrimentos


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Alguém foi-se ao Padrão dos Descobrimentos e escreveu uma qualquer tralha. Caiu “o Carmo e a Trindade”. Gente “saiu à rua” (hoje em dia é “aos teclados”) arrepenhando os cabelos, rasgando as vestes, acorrendo à honra pátria, a Câmara aprestou-se a limpar a ofensa aos ancestrais, a célere Polícia Judiciária pôs-se em campo e logo desvendou ser o crime uma agressão estrangeira, assim sossegando-nos por não se tratar de uma sempre temível traição.

 

Todo este disparate dá-me vontade de… também bramir. Desde há imensos anos que está Lisboa (e não só) carregada dos tais grafitos. Boçais e imundos. Dizeres estapafúrdios, desenhos indigentes, rabiscos, miríades de “bastos” de todos os tamanhos e posições. Toda essa tralha amadora e morcona de facto legitimada e potenciada pela consagração – pela academia, pelas instituições estatais, pelo “gosto informado”, agora até pelos construtores civis – da “street art” (de facto, uma mera “street curio”), que nada mais é do que o piroso desta era – a patética Pasionaria da Graça, os “Pierrot com lágrima” a louvar os profissionais de saúde ditos a “linha da frente” contra o Covid, etc. No fundo, tudo isto seguindo a coberto pelo culto da “intervenção”.

 

E agora todo este “ó da Guarda!”, “Aqui-d’el-rei!”? Recordo que há uns tempos o jornal “Público” (claro) publicou um artigo de 4 universitários sitos em universidades americanas. Portugueses, brancos, de meia-idade, e de nome compósito. Defendiam a prática espontânea da “intervenção” “decolonial” sobre os monumentos. E desvalorizavam os críticos dessa festança como meros “homens, velhos, brancos e de certa classe social” [burgueses, entenda-se. Ou seja, os que tendem a assinar com nomes compósitos, para quem não perceba]. Alguém deu porrada nesse “paper curio”? Nada, que ninguém se vira a esta gente dos ademanes.

 

Enfim, vai um ror de disparates. E nisso lembrei-me de um texto que escrevi há sete anos quando encontrei uma “intervenção” “decolonial” no ex-libris colonial em Bruxelas. Para quem tiver paciência aqui deixo a ligação.

A Câmara Municipal de São Francisco


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A Câmara Municipal de Lisboa é um enorme empregador, em modo desproporcionado com os restantes municípios. E um enorme contratante, também. O resultado desse regime omnívoro é mau. E também ridículo, como aqui se vê – a CML patrocina um festival musical e publicita-o com uma imagem de São Francisco.

Decerto que o guardião disto tudo, Medina, se apressará a despedir algum funcionário expiatório… Mas este é mesmo o diagnóstico do “estado destes artistas”.

 

Vazio infinito


João Sousa,

Medina, li agora em alguns títulos, afirma que só soube da denúncia dos dados de manifestantes pela comunicação social. Às tantas, ainda vamos descobrir que o comentador de política Fernando Medina está mais informado sobre o que se passa na Câmara de Lisboa do que o presidente da Câmara de Lisboa Fernando Medina.

Lido por aí


João Sousa,

“Quase no mesmo momento em que Fernando Medina trespassava todas as responsabilidades aos funcionários camarários, o cardeal Reinhard Marx demitia-se por causa do escândalo da pedofilia na igreja católica. O Cardeal não esteve envolvido em qualquer caso. Mas entendeu que a hierarquia da igreja tinha de “partilhar a responsabilidade” dos abusos e do encobrimento. Porquê? Porque não derivavam de um lapso ou de um erro ocasional, mas haviam sido “sistemáticos”. Tinham, portanto, uma dimensão institucional.“

Rui Ramos no Observador

O sexo e a EMEL


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Descubro este “Inquérito aos Hábitos de Mobilidade em Lisboa”. Presumo que tenha algo a ver com isto das bicicletas, e é feito pela EMEL, aquela empresa predatória dos rendimentos dos cidadãos. Leio esta pergunta sobre se “o sexo [dos hipotéticos ciclistas lisboetas] atribuído à nascença coincide ou não com a identidade de género” e, para além de outras questões menores, surge-me uma memória recente.

 

Na quinta onde estava, há algumas semanas acolhi uma jovem gatinha, algo desamparada, miando naqueles hectares pejados de simpáticos mastins. Acolhi-a, resguardei-a. E dada a sua atitude lânguida e mimosa, nomeei-a – inscrevendo-a sob os meus ancestrais – com a graça de Flávia. No que foi um evidente reflexo de “machismo estrutural”, como fui recentemente denunciado por uma bloguista sportinguista. E logo a anunciei aos vizinhos – e, depois, nas “redes sociais”, o que foi modo de lhe arranjar lar apropriado (aqui narrei o caso). Lá na quinta a primeira pergunta que os vizinhos me fizeram foi “é gato ou gata?“. Ao que eu respondi “sei lá!“. Então o dono da quinta, meu amigo, que é professor (e nisso excelente) foi até ela, pegou-lhe, virou-a e disse “é gata“. E explicou-me que há diferenças entre gatos e gatas, e quais são elas e como se detectam. E eu aprendi. As tais diferenças de sexo.

 

Agora o meu problema é ideológico. Pois há uma empresa municipal (o Estado) que nos pergunta “se o sexo que foi atribuído à nascença corresponde…”. Ora, que pergunta é esta? O sexo foi “atribuído” por quem? Que entidade atribui sexo? Entenda-se bem, Portugal é um Estado laico. Não é um Estado secular, nem confessional, é laico. E como tal não é legítimo que uma empresa pública (sob Medina ou qualquer outro) ande, de modo vicioso, a aludir a entidades metafísicas. A liberdade de culto é um bem fundamental, um direito inalienável. Mas o proselitismo metafísico, uni ou multilateral, está vedado aos órgãos estatais.

 

Ou seja, isto tem que ser já retirado. E algum responsável, seja lá de que género for, tem que ser demitido.

A Câmara de Lisboa e o país


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Fernando Nunes da Silva. ‘Manuel Salgado é o verdadeiro presidente da CML’. (I, 12 de Setembro de 2018)

Fernando Nunes da Silva, “Os negócios imobiliários vão ganhar milhares de milhões com a expansão do metro”. (II, 19 de Setembro de 2018)

Ontem foi o meu aniversário, o 55º. E o Facebook deu-me uma prenda. Melhor dizendo, algumas das minhas ligações-FB (“amigos” diz-se, sobre pessoas que não se conhecem, uma aberração linguística) deram-me uma prenda: chamaram-me a atenção para esta entrevista. Trata-se de um verdadeiro documento, um “corte geológico” da Câmara de Lisboa. Mas também, se extrapolando, do poder municipal. E, mais do que tudo, sobre o que é o Partido Socialista.

Vem num discurso claro, com conhecimento interno do que se vem passando. Dizendo coisas “incríveis” ainda que credíveis. Demonstrando o “estado da arte” do que é o PS. É a isto, à rejeição deste descalabro anti-democrático, que Inês Pedrosa, Miguel Sousa Tavares, Fernando Rosas, Seixas da Costa e outros painelistas chamam “populismo” (já ninguém diz pujadismo), o antes dito “neoliberalismo” ou mesmo “fascismo”. No que são secundados por inúmeros menos-conhecidos, funcionários públicos professores, jornalistas avençados ou mesmo meros facebuquistas/bloguistas mui ciosos deles mesmos. A cortina que impõem é tão grande que esta entrevista – com tudo o que poderia ser letal para uma clique no poder – passa praticamente despercebida (é de Setembro de 2018) e dela saem incólumes os dirigentes partidários.

As pessoas, estas tantas que apoiam esta tralha toda, não prestam. Nada prestam.

Câmara Municipal de Lisboa e o Dia D


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— Lisboa (@CamaraLisboa) June 6, 2019

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Um comentário no postal “Heróis” do Pedro Correia deu-me a conhecer esta colocação no sítio da Câmara Municipal de Lisboa no twitter. Não sei qual é o estatuto jurídico de uma conta nas redes sociais de uma autarquia ou de qualquer organismo estatal. Mas, de facto, essas contas assumem o papel de representação. Nem sei quem faz a sua gestão – um funcionário autárquico, um avençado sub-remunerado familiar de alguém do “partido”, um (ex-)”jotinha”, um jornalista anónimo amigo dos bloguistas do “Jugular”, um avatar do deputado Carlos César, sei lá que mais … Mas sei que esta é a forma como a câmara da minha cidade comemora os 75 anos do Dia D. Não é particularmente relevante, dos tuítes não reza a história, e esta falará da era Medina pelas aventuras do arquitecto Salgado e quejandos, não por minudências destas. Ainda assim, e porque me irritou a infra-cultura PS remunerada pelo Estado deixei lá, na referida conta, o meu contributo etnográfico, proveniente da mais pura cultura alfacinha: um curto “foda-se”, mais do que merecido (que me perdoem os olhos mais sensíveis que por aqui passem).

Respondeu-me o Estado, na versão autárquica, bloqueando-me o acesso ao seu guichet no twitter. Repito, não conheço o estatuto jurídico das contas nas redes sociais das autarquias e doutros organismos estatais. Mas sorrio ao ver o tal Estado, medinesco, a abandalhar a memória dos Aliados (será a actual edilidade germanófila?) e a barrar quem se irrita com isso. “Sorrio” é como quem diz, repito os palavrões. Os devidos a este “comboio descendente”, ali de Queluz à Cruz Quebrada, todos à gargalhada, uns por verem rir os outros, e os outros sem ser por nada, ou apenas por um tweet ou outro. Deste calibre.

Transparência na gestão autárquica.


Luís Menezes Leitão,

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Acho que é sempre um modelo de transparência uma autarquia que arrenda por tuta e meio um terreno de um palácio municipal de grande valor histórico e a seguir exibe publicamente um contrato de onde risca o nome do outro outorgante. E, já agora, a Madonna entende o suficiente de português para ter assinado este contrato? Se fosse em qualquer outro país civilizado, o Presidente da Câmara de Lisboa já estaria na rua. Mas como em Portugal não há capacidade de indignação, continuaremos sempre na nossa apagada e vil tristeza.

Branco-cru


eventhorizon,

Para travar a “desqualificação do espaço público” da Baixa, os vereadores definiram um conjunto de “critérios orientadores”, segundo os quais as esplanadas devem ter toalhas de mesa “de cor única”, chapéus de sol “em lona na cor branco-cru”, menus que “não ultrapassem o formato A4” e porta-guardanapos “em aço inox”.

 

Pois eu cá mandaria pintar o país todo de branco-cru. Ficava mais bonito. E uniformizado.

 

No entanto, fica a pergunta: quais foram os critérios orientadores que os iluminados vereadores da CML definiram para a indumentária dos traficantes vendedores ambulantes de droga da Rua Augusta? Também será “de cor única”? “Branco-cru”, querem ver? E a droga, vai ser devidamente acondicionada em “aço-inox” ou pode continuar a ser traficada vendida enrolada em celofane de qualidade duvidosa?