
Na recente morte de Jorge Sampaio a Câmara de Lisboa tratou de o homenagear, utilizando espaços comerciais disponíveis, forma ágil de trazer essa evocação até ao quotidiano dos munícipes. Julgo muito curial que a Câmara homenageie deste modo, sentido e bastante visível, um seu antigo presidente, na hora do seu falecimento. Presumo que tal não tenha acontecido na morte de Nuno Krus Abecasis (1999) e de Aquilino Ribeiro Machado (2012) – não encontro registos fotográficos disso -, mas nada obsta a que se encete agora uma simpática e honrosa prática.
Mas o contrário pensarei se esta acção for dedicada a homenagear o antigo Presidente da República, como julgo ter sido o caso pois esta acção vem na sequência do realizado aquando da morte de Mário Soares. Pois se esta for uma prática a dedicar a todos os presidentes da República que venham a falecer isso será um mimetismo das práticas simbólicas do Estado central, e assim uma intrusão nas funções que a este competem. O que transporta uma implícita reclamação de um estatuto especial da câmara da capital, um “centralismo municipal” lisboeta. O que se torna mais visível neste contrafactual: face ao registo relativamente contido do cerimonial do nosso Estado democrático muito nos impressionaria, até desagradavelmente, se todas as centenas de câmaras existentes inundassem os seus territórios com homenagens pictóricas por ocasião da morte de um antigo presidente da república. Estou crente que produziria até um travo autocrático, como se de tempero norte-coreano ou afim. Porquê então aceitá-lo na câmara da capital?
É certo que estas homenagens poderão ser justificadas por se terem dedicado a cidadãos naturais do concelho (Soares e Sampaio nasceram em Lisboa) que ascenderam ao mais alto cargo do Estado. Se assim for então serão totalmente curiais. Deixando assim espaço para que na ocorrência de futuros falecimentos de antigos presidentes (longe vá o agoiro) sejam as câmaras respectivas a homenagearem esses seus ilustres naturais. Mas se for esse o vector que imprime esta homenagem póstuma então tem que ser explicitado. E não o é.

Sou contra qualquer tipo de homenagem (sobretudo a socialistas) e dar nomes de gente a ruas etc. Só numa república sub-desenvolvida é que um presidente tem um epitáfio e a mulher a dias não.
Caramba, essa nem de um dos mais arreigados comunistas igualitários se ouve.
Mas eu tenho um lado comunista, não o nego, no que toca o dever de imparcialidade do Estado. Mas o estado não deve confundir-se com o País. E é por isso que o benfiquismo/socialismo estatal é nojento, porque procura deliberadamente essa confusão. É eticamente fraco, mentiroso e cancerígena. Nada disto atrapalha o reconhecimento do mérito individual. Aliás, essas esferas Estado vs Sociedade Civil nem devem tocar-se para aquilo de infelizmente que não podemos prescindir (alguma administração pública) não contamine o progresso individual. Todos sabemos que se não existisse Estado e se não existisse o PS as pessoas bem-sucedidas neste país seriam outras, em vez de nenhumas ou das que têm cunhas. A designação “estado”, aliás, também não devia ser utilizada, porque é um autoritarismo da Administração Pública, o verdadeiro nome que a coisa deveria ter.
Embora lamentando, não posso deixar de concordar com algumas coisas que diz, na medida em que falo do mesmo em https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2 021/09/oficializaram-cunha.html, que o convido a visitar e comentar.
Já quanto ao evidente exagero da comparação original, não posso deixar de o considerar uma figura de retórica destinada a vincar o seu ponto de vista, que respeito, embora não possa comungar.
Comunismo e imparcialidade do Estado? Isso existe? O que é uma coisa tem aver com a outra?
V. retiro o que disse, com efeito nesse seu afã da extinção do Estado V. perfilha o ideário anarquista, não o comunista. Peço apenas, como ateu convicto, que Deus Nosso Senhor nos guarde dos seus anseios.
Anarquista sou, mas não é previsível que se possa chegar a um ponto da evolução humana em que é possível prescindir do Estado em absoluto. Mas concedo que as utopias são perigosas portanto estou disponível para prescindir delas.
V. fico mais descansado sabendo dessa sua disponibilidade. Nada mais perigoso do que os utopistas.
‘Tá ver o que deu ganhar umas Câmaras, imagine o que será vencer Eleições Gerais: lá vai você pra Peniche ou Caxias.
Tudo não passa de propaganda partidária à custa do dinheiro do contribuinte.
nem tanto
na qualidade de social-fascista filho de salazarista
Homenagem ao PR não é, porque ninguém consegue imaginar um “Obrigado Cavaco Silva” espalhado por Lisboa.
Havia vário toponímia espalhada por todo o País: Cavaco Rua.
Anónimo, isso não será toponímia é “pinchagem”
Primeiro Anónimo, também descreio dessa hipótese se tal infeliz ocorrência tivesse acontecido sob a anterior vigência…
A propósito de Sampaio, e da sua decisão polémica de abater um Governo legítimo, porqye andava à deriva, que importância daremos enquanto sociedade ao caso do Almirante, ou à troca de galhardetes entre o Leão de nome e o Leão que põe os alemães a tremer? O PR não se sente desautorizado?
Legítima questão (como legítima foi a decisão de derrubar o governo de Santana Lopes [o PR exerceu os seus poderes, por mais que se possa discordar dessa decisão]). Mas não é disso que trato por aqui.
A Câmara Municipal de Lisboa tem dinheiro a mais, e portanto esbanja-o.
Pelo que se leu na imprensa (tarde e más horas, claro) parece é que a CML tem dinheiro a menos
Não sei o que se leu na imprensa, não a leio.
Sei que a Câmara Municipal é o maior empregador de Lisboa, tendo dezenas ou centenas de profissionais altamente qualificados nos seus cargos, com os quais deve gastar uma pipa de massa. E tem muito dinheiro porque as empresas sediadas em Lisboa (mas com estruturas produtivas alhures) pagam derrama em Lisboa. E porque os IMI e IMT, que são função dos valores das casas, são muito maiores em Lisboa.
Anónimo, não discordo do que diz. Apenas aludi à recente notícia (Diário de Notícias de anteontem) de que “Somando todos os municípios do país, as dívidas fora de prazo há mais de três meses chegam a 462 milhões. Só Lisboa tem uma fatura de 300 milhões, que pesam também na subida do valor a saldar. Conselho das Finanças Públicas critica ainda o presidente da câmara cessante por falhar na prestação de informação.” (interessante que só tenha sido publicada após as eleições): https://www.dn.pt/media/a-primeira-pagi na-do-dn-desta-sexta-feira-14178989.html
Lendo tal notícia só posso depreender que a Câmara de Lisboa tem falta de dinheiro.
E também me lembro de que nas vésperas das eleições um consagrado comentador político, militante do PSD e apoiante “fortuito” de Medina, veio avisar-nos numa das suas colunas semanais que o candidato Santana Lopes havia deixado dívidas no município quando fora câmara da Figueira da Foz. Pena é que as suas vastas fontes de informação não lhe tenham possibilitado falar do presente das dívidas municipais.
O jpt é muito implicativo, uma coisa que provavelmente é feito na tipografia da câmara e custa 5 tostões, comparado com Moedas que foi almoçar um oferecido repasto a cantina dos pobres é muito mais do que escandaloso.
Maria Conceição
Maria (da?) Conceição, obrigado pelo seu elogio.
(Já agora, um ligeiro esclarecimento: nada no meu postal critica os gastos desta homenagem. Pelo contrário, se atentar bem verá como o seu molde é elogiado).