Um retrato do País oficial


Pedro Correia,

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O ministro da Defesa desautoriza o Presidente da República, anunciando a intenção de exonerar o chefe do Estado Maior da Armada, à revelia de Belém, o que mereceu pronta reacção de repúdio da parte de Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto comandante supremo da instituição militar.

O ministro das Infraestruturas desafia a autoridade do titular das Finanças, seu colega no Conselho de Ministros, com críticas destemperadas.

Demite-se o director financeiro da TAP após escassos três meses em funções.

Demite-se o director clínico do Hospital de Setúbal em protesto contra a situação de rotura nas urgências. 

Um banqueiro condenado a dez anos de pena de prisão já sem recurso – por crimes de fraude fiscal qualificada, abuso de confiança e branqueamento de capitais – foge para o estrangeiro, perante a passividade da juíza titular do processo. Enquanto a inócua ministra da Justiça, fiel à sua imagem de marca, fala em «desconforto» .

Três magistradas, alegando pretextos vários, recusam julgar um perigoso gangue denominado Hells Angels.

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras reteve mais de 3 milhões e meio de euros de fundos comunitários para acolher refugiados em Portugal, entre Janeiro e Setembro.

O Governo que tanto apregoa a «transição digital» remete o País para a cauda dos Estados comunitários em redes móveis de quinta geração: na União Europeia, só Portugal e Lituânia ainda não dispõem de serviços comerciais 5G. O ministro da Economia limita-se a exprimir «preocupação», como faria qualquer de nós.

Cento e cinco dias depois, continuamos sem saber a que velocidade seguia a viatura do ministro da Administração Interna que atropelou mortalmente o trabalhador Nuno Santos na A6, perto de Évora.

 

Eis, em poucas linhas, um retrato do País oficial.

Nada lisonjeiro. Mesmo nada.

62 comentários em “Um retrato do País oficial”

  1. Quanto ao fugitivo e à justificação da juíza de que não se conseguia prever a fuga: a função dela era prever ou prevenir?

    1. Diz a senhora juíza Tânia Gomes que não dispunha de qualquer «informação da qual pudesse antever-se um concreto perigo de fuga do arguido». Tratando-se de um indivíduo com meios de fortuna conhecidos, ligações internacionais comprovadas e óbvia capacidade de se colocar ao fresco nas Caraíbas (passe o aparente paradoxo) ou em Singapura a qualquer momento.
      Nem previu nem preveniu.

      1. Tratando-se de um indivíduo com meios de fortuna conhecidos

        Significa isto que, de acordo com o Pedro Correia, a riqueza de um indivíduo deve servir como indicativo de perigo de fuga e como causa justificativa para o colocar em prisão preventiva?

        1. “a riqueza de um indivíduo deve servir como indicativo de perigo de fuga e como causa justificativa para o colocar em prisão preventiva?”
          Tem dúvidas a respeito disto? Não se faça de ingénuo.
          As cauções não dependem da riqueza de cada um?
          E mais, uma multa de 150 Euros para um desempregado ou com um salário mínimo é muito diferente de uma multa do mesmo valor para quem tem milhões.

  2. Terá razão mas tornou-se um lugar comum dizer que neste país é tudo uma parolada. Se comparar com outros verá que não é bem assim. É como a mania de dizer que Portugal é uma país pequeno em pobre. Se compararmos com os países da Europa poucos serão os que não são pequenos. Se compararmos com o mundo (os que não são europeus também são gente) quem diz que Portugal é pobre não sabe o que é a pobreza.
    Isto não quer dizer que os problemas que aponta não sejam problemas.

    1. Perdoará, mas não encontro razão para tamanha perplexidade. Não passa de mais uma demonstração da lusa incapacidade para se livrar das maneira de estar em tempos já idos – ou talvez não… -, tema que desenvolvi em https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/07/coisas-que-se-nos-colam-pele.html.
      Muitos anos ou décadas irão passar e muitos rios de tinta hão de correr antes que Portugal consiga livrar-se dessa “identidade nacional” que não há diluente que tire…

    1. Haver 9,3 milhões de eleitores num país com 10,3 milhões de habitantes é um prodígio aritmético. Mesmo sabendo-se que os portugueses fazem cada vez menos filhos.
      Com tanto eleitor fictício, não admira que a abstenção alcance níveis impressionantes.

      https://expresso.pt/sociedade/2021-07-28-Censos-2021.-Populacao-portuguesa-diminuiu-2-em-10-anos-metade-concentra-se-em-31-concelhos-de-Lisboa-e-Porto-846aded9
      https://www.publico.pt/2021/06/17/politica/noticia/ha-93-milhoes-eleitores-registados-eleicoes-autarquicas-1966852

  3. O espírito DDT é talvez algo de epidémico, desde a violência doméstica a um qualquer poleiro na administração pública.
    A novidade democrática é relativizar valores (cada um com direito aos seus) e tudo pendurar na letra da lei;; aí, invocá-los é raridade sempre temperada em dúvidas, ainda que remetidas para os preâmbulos.

  4. Sempre simpático ver aqueles que abominam o “justicialismo” para com os poderosoa aparecer com o argumento da luta de classes. Como se o Rendeiro fugisse por ser rico… fugiu porque lhe deram oportunidade. Nao foi o primeiro, pelo contrário, o Mexia não é um pobretanas e ficou sem passaporte. E quantos há, que mesmo com pulseira, dão ao pedal daqui para fora.
    Claro que à boa maneira lusitana, a prioridade é culpar uma entidade qualquer. O Bloco culpa a direita, os magistrados culpam os políticos que fazem as leis, os jornalistas culpam os juízes, o Zé da Tasca culpa o Salazar que nunca mais reencarna para pôr ordem nisto.
    Entretanto, um qualquer imbecil decidiu que um tipo com dinheiro em offshore, que se farta se passear e até dá a embaixada local como contacto, iria alegremente aceitar ir de cana durante uns anos. Claro que a esse nada acontece, é um juíz, e nao um trabalhador sujeito a avaliações.

  5. O ministro da Defesa desautoriza o Presidente da República, anunciando a intenção de exonerar o chefe do Estado Maior da Armada

    Mas o ministro da Defesa fez tal anúncio? Que eu saiba, não fez.

    O que aconteceu, consabidamente e garantidamente, foi que o ministro da Defesa teve um encontro com o almirante CEMA. Agora, o que nesse encontro foi dito, isso em princípio não se sabe.

    O facto de um jornal dizer que nesse encontro tal e tal foi dito, não quer dizer que esse tal e tal seja verdade, nem – muito menos – que tal tenha sido anunciado pelo ministro.

  6. Demite-se o director financeiro da TAP

    A demissão foi por motivos pessoais, ao que foi explicitamente confirmado pelo próprio demissionário.

  7. Três magistradas, alegando pretextos vários

    Aquilo a que o Pedro Correia chama “pretextos” são, em dois dos casos, baixas médicas. Perfeitamente legítimas e aceitáveis, até prova em contrário.

  8. O que transcreve infelizmente é o País que temos. Mas este modus operandis do sistema não surgiu agora, nem com início do governo da geringonça….é sistémico e dura há décadas e envolve todos os partidos do arco da governação. Surgiram agora novas forças e correntes que apregoam ser anti-sistema e poderem acabar com esta forma de estar na política. Tenho sérias dúvidas do que querem fazer. Os populismos nos seus extremos já nos mostraram o que fizeram ao longo da história. O sistema tem as leis correctas, basta que os diversos poderes se imponham, se respeitem e cumpram o que está na lei. A justiça ainda é corporativista e com resquícios de Estado Novo! É por aí que temos que começar de uma vez por todas: Reformar a Justiça e até agora nenhum partido teve a coragem de a fazer!

    1. Estado Novo, quase meio século depois?
      Vivemos na era digital. A era analógica está no museu.
      Argumentar sobre o que sucede agora com regimes sepultados lá muito atrás é batota.

  9. Escreveu um gajo, que diz ter sido advogado do BPP do Rendeiro:
    “Como alguém já disse, agora que o deixaram fugir, que não o deixem regressar porque é um fora-da-lei e a reincidência é sempre possível.”
    Então como é, ó senhor advogado? Substituiu-se o mandado de captura por um mandado de “assassinatura”?

  10. Então mas este país oficial é para ser levado a sério?
    Máscaras deixam de ser obrigatórias nas discotecas. Máscaras são obrigatórias nas salas de aula.
    Vacina não é obrigatória. Certificado de vacinação covid é obrigatório para entrar nas discotecas.
    A imunidade de grupo é atingida quando tivermos 75% das pessoas vacinadas. Estamos quase a atingir 85% das pessoas vacinadas, mas não podemos abandonar as regras sanitárias; distância social, máscaras e gel.
    Desconfio que isto já não é o país oficial, isto é o País das Maravilhas, só estou na dúvida é quem é que será a Rainha de Copas, será a Marta Temido ou a Graça Freitas?

  11. Que as trapalhadas existem não há duvida … que deveriam ter consequências também não há dúvida … mas ter memória curta e pretender que elas aconteceram porque lá está o governo que está, e esquecer outras semelhantes que aconteceram com governos de outra cor … enfim, sem comentários.
    Afinal estamos como estamos porque os governos de duas cores dominantes estiveram no poder desde 1974, e não só por qualquer deles.

      1. As pessoas estão a esquecer um pormenor,em Lisboa há menos 10.000 pessoas a votar. Desde 2017 até agora,no boom do turismo,for “empurradas para a periferia”. Não é por acaso que em Loures,Amadora e Almada,ganhou o PS. E outros na pandemia mudaram de Lisboa para as províncias. Com o descontentamento com o Fernando Medina,a coligação de Carlos Moedas ganhou. Moro em Lisboa, não votei PS,nem na coligação,mas agora é o presidente da m.cidade.

        1. No seu raciocínio detecto algo com pouca lógica. As pessoas são empurradas para fora de Lx pela governação PS e vão para a periferia votar PS?
          Não bate muito certo.

          1. “As pessoas são empurradas para fora de Lx pela governação PS”, parece que já esqueceu das rendas “acessíveis” de 1200€ da Cristas para jovens. Parece-me que os vistos GOLD e a sede extrema de turismo levou que TODOS que governaram a cidade (e o país), empurrassem as pessoas para fora de LX.
            Lisboa não tardará a ser um local de Portugal onde os portugueses não tem direito a viver, à semelhança de muitos locais turisticos famosos mundialmente onde os originários dos países de tais locais não tem acesso.

          2. Tese estapafúrdia, própria da narrativa dos derrotados em Lisboa.
            Continuam a recitar a cartilha: a culpa é do Passos.

            Como se o governo Costa não estivesse há seis anos em funções.
            Como se a câmara de Lisboa não estivesse há 14 anos em poder do PS.

            Agora lembraram-se disto: os residentes expulsos pelo PS de Lisboa foram votar PS para as periferias.
            A cartilha liberta esta gente de pensar.

  12. “O ministro da Defesa desautoriza o Presidente da República, anunciando a intenção de exonerar o chefe do Estado Maior da Armada, à revelia de Belém, o que mereceu pronta reacção de repúdio da parte de Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto comandante supremo da instituição militar.”

    Mas desta vez o “regular funcionamento das instituições” não está em risco, quando o Governo ignora o supremo comandante das Forças Armadas…

  13. bom, muito bom, ainda para mais com os sublinhados a azul ainda ficou mais fixe.

    (Explico, devido á minha net 1G, o post apareceu a toda a largura do ecran e os sublinhados eram azuis, bonitos. Mas quando comecei na caixa dos comentarios, já o post se conformou e afinal os sublinhados sao a vermelho ).
    Só posso garantir que o post é de eficacia máxima, menos ou mais pelos assuntos, assuntos “ampliados”, mas dizia eu que perante tamanha eficacia, nenhum governo tem hipotese, aqui ou no mundo.
    O Pedro está de parabens.
    Embora pormenores como a tal velocidade, nao credibilizem, mas isso é outro aspeto.

  14. nas competencias do Pedro, o humor está habitualmente ausente.
    Tenho uma sugestao para um post “profundo” : em portugal nao existem cadeias para ter pessoas da elite. Dito de outra maneira , qualquer rico condenado aa pena de prisao efetiva pode recorrer para o tribunal dos direitos humanos, ficando em liberdade ate que haja instalaçoes condignas com o seu estatuto.
    Isto é tanto brincadeira, como sério.
    Desde logo, embora tambem se argumente puniçao, mas o que é dito é que a prisao serve para regenerar os criminosos. Humilhar os ricos nestas prisoes miseráveis, nao tem de reabilitaçao e é desumano.

  15. Julgo ter visto um comentário do jpt a este post que não aparece, e ao qual fiz um breve comentário que também desapareceu. Creio que nenhum deles era ofensivo ou despropositado. Que terá acontecido?

    1. Sim, ontem o comentário do meu colega desapareceu, tal como dois ou três outros – um deles terá sido o seu.
      Por mero lapso informático, nada mais.
      Repita o seu, se assim entender.

      1. Leopedro
        ‘Lapso informático’, só lhe faltava esta, até a D. Lurdes da Caixa perdeu esta desculpa da treta.
        Coitado do Carlos levou com uma azulada lei da rolha só por comentar fora do penico.
        Você deve ter esse hábito enraizado no “Actualidades”, no Café Avis e na bancada central do Sporting.

          1. Andas há anos a debitar aqui o que te passa pela mona, sempre a ser publicado e com respostas minhas.
            Agora vais alçar a pata para outro lado.

  16. Obrigado pelo seu cuidado em responder-me. Não vejo necessidade de repor o comentário.
    E saiba que, a meu ver, tem demasiada paciência para aturar estes Leopedros. Se fosse comigo cortava-lhe o pio.

      1. Parece que Arroios ainda vai dar muito que falar. Como, segundo parece, já há caso judicial … a ver vamos.

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