Coerência


eventhorizon,

Vasco Graça Moura é, desde o primeiro momento, um acérrimo opositor do Acordo Ortográfico. Na sua coluna semanal no Diário de Notícias, foram muitas vezes em que abordou o tema, fundamentando a sua posição e explicando, com lógica e conhecimento, o disparate que é o Acordo Ortográfico e a sua imposição pelo poder político.
Coerente com essa sua posição, Vasco Graça Moura deu ordem aos serviços do Centro Cultural de Belém – para o qual foi recentemente nomeado presidente – para não aplicarem o Acordo Ortográfico. Resta saber o que fará Vasco Graça Moura se o Governo ou a Secretaria de Estado da Cultura embirrar com esta posição. No entanto, a coerência – qualidade cada vez mais rara neste país – não deixa de ser louvável.

24 comentários em “Coerência”

  1. Uma coisa é ele, Vasco de Graça Moura, cidadão deste país. Outra é o Director do CCB. Há uma diferença, João. Na minha vida privada escrevo como quero mas se escrever para os meus alunos, uso o Acordo. Que remédio. Fico na dúvida neste caso.

    1. O Dr. Vasco Graça Moura, na vida privada escreve como quer.
      E na vida pública cabe-lhe – como a todos nós – não acatar ordens ilegais nem as impor aos outros.
      E os factos são:
      1º o «acordo» não está em vigor, porque não foi ratificado, como nos seus próprios termos prevê e resulta da Convenção de Viena sobre o Direito dos tratados
      2º se estivesse, ainda assim seria inconstitucional
      3º E seria sempre ilegítimo, se não um crime, como não é despiciendo pensar.
      Não é difícil viver com um cidadão: basta coragem.
      Até agora, a maçonaria portuguesa, de conluio com a brasileira, Pais tinha conseguido, contando com os velhos hábitos de subserviência, medo e respeitinho troçar do estado de direito.
      Encontrou agora, num país com gosto pela escravidão, um Homem pela frente. E às vezes basta um para mudar as coisas.
      «Há sempre alguém que resiste, /há sempre alguém que diz não!»

    2. Leonor Barros,
      Por favor tenha presente que estamos em Portugal. Se ainda assim não perceber o que isso significa, olhe para as cores africanas da nossa bandeira e perceba que, em países africanos, o povo e os opinadores são geralmente contra os lobbystas exercerem cargos públicos com reflexos no lobby assim como pelo cumprimento da lei pelas instituições públicas…. a menos que estejam de acordo com o lobbysta e contra a lei.

      De resto, e como país africano na Europa que Portugal é, o mais certo é que o governo africano, o ministro africano e o secretário de Estado africano deste país africano não mexam uma palha para porem o diretor africano do CCB no devido lugar, isto é, dali para fora e o mais depressa possível.

      1. Era, de facto, bom que Portugal tentasse ser um estado de direito e não tentasse impor, com métodos a lembrarem regimes totalitários, uma ortografia que ninguém pediu nem é necessária como bem ensina o Prof. Doutor António Emiliano.
        O tal acordo não está em vigor à luz da lei internacional e nacional, que tem sido vergonhosamente ignorada. Por isso, todas as resoluções tomadas a fingir o contrário são ilegais. Que tenha chegado tudo tão longe, é algo com que todos nos devíamos preocupar. A subserviência e o desrespeito pela democracia são perigos a evitar.

    3. Desculpe Leonor, não percebi… dúvida de quê?
      Duvida se nasceu em Portugal, ou no Brasil?
      Duvida se deve escrever da forma que aprendeu nos bancos da escola, ou da forma como os interesses económicos Brasil-Portugal, querem impor?
      Aquilo que Vasco Graça Moura decidiu, parece-me claríssimo: como português, decidiu escrever português, como presidente de uma instituição cultural, decidiu que em defesa da preservação da forma escrita da sua língua, deverá escrever como sempre escreveu.
      Não lhe parece coerente?

      1. Pois, pode até ser coerente, mas quanto ao resto tenho as minhas dúvidas. Quanto de nós devemos impor aos outros? O CCB não é do Vasco Graça Moura. Com que direito põe e dispõe?

        1. Mas Leonor… não se trata de impor seja o que for, mas sim, precisamente o contrário.
          Aquilo que se encontra instituído e, apesar de já não ser original, porque já outros acordos ortográficos o alteraram, é a língua portuguesa, que provém do latim.
          A grafia e a fonética, a serem objecto de alteração, terá de ser por motivos internos de conveniência e nunca por imposições alheias.

        2. Quem está a impor e a fazer tábua rasa do estado de direito é o governo e a assembleia de lacaios e demais pessoal menor, vulgo da república (apareceram agora 3 deputados dos Açores no meio daquilo).
          O Dr. Vasco Graça Moura está, simplesmente a cumprir a Lei, repondo a legalidade.
          Dura lex, sed lex,
          Que haja dúvidas apenas ilustra a quanto descemos.

        3. PS. De facto vivemos na perversão!
          O governo e a assembleia vergonhosa e ilegalmente impõem uma medida violentíssima e gravemente danosa da nossa cultura.
          A coisa caminha, de mãos dadas com interesses económicos, furtada à discussão, como só num regime totalitário.
          Para além daqueles que se lhe opõem não vi grandes discussões de legalidade.
          E agora…. que alguém, com a lei por si, se limita a fazer o que seria óbvio em qualquer país minimamente sério, aparecem escrúpulos e há dúvidas!!!
          Quando a ministra alçada, impôs o acordês às crianças não vi ninguém preocupado por ser uma decisão tomada contra pareceres oficiais, um deles da Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário sem que fosse dada a menor explicação do motivo de o mesmo ser ignorado!
          E depois admiramo-nos de estar falidos e na cauda da Europa, económica e culturalmente!
          Com tanto defeito, podíamos tentar não lhe acrescentar a hipocrisia.

      2. E se um funcionário quiser escrever de acordo com o acordo pode? Aviso desde já que sou contra o acordo, já tive oportunidade de escrever sobre isso aqui, mas se alguém meu subordinado assim escrever aceito. Não sei, estas atitudes de ‘quero, posso e mando’ causam-me engulhos.

        1. Parece-me que está a interpor-se no nosso diálogo uma dificuldade do enquadramento da palavra obrigatoriedade, que dificulta a nossa comunicação, Leonor.
          No caso do CCB, versus acordo ortográfico, foi a anterior administração do mesmo, que tornou obrigatório, que impôs o uso do dito acordo. Vasco Graça Moura, revogou essa postura interna.

          1. O que acaba por me dar razão, Bartolomeu: põem e dispõem como lhes apetece e quem está cá em baixo que obedeça. E agora lembrei-me de outra coisa. O que dirá o Francisco José Viegas sobre o assunto?
            Aproveito para ressalvar que esta tomada de posição me levantou dúvidas. Eu não escrevo de acordo e só o farei para os meus alunos porque os pobres vão ter de se habituar por causa dos exames. Os meus colegas terão de aturar o meu português arcaico e um dia destes ainda sou chamada à Directora que agora passou a Diretora

    4. É evidente que é um disparate – completamente irregular, aliás – do Vasco Graça Moura. Mas o que me interessa aqui não é o disparate, mas a coerência da posição dele. E, claro, a teimosia. O homem tem sindo incansável na oposição ao AO. Pode ser que assim consiga suscitar a discussão pública que a petição dele não conseguiu.

      1. Óh João Campos, por favor… seguindo essa lógica, deve achar também que devemos passar a conduzir pela direita. As nossas relações políticas e comerciais com os ingleses, justificam essa “adaptação”.
        Ou passarmos a trajar de Kimonos… as nossas ancestrais relações com o Oriente e as actuais também justificam plenamente a aderência a essa tradição.
        Poderíamos ainda “obrigar” as nossas mulheres a usar Burka… afinal estivemos no norte de áfrica uma quantidade de tempo, só não os colonizámos porque eles não tinham samba, por isso preferimos os outros… era mais longe, mas tinham outro colorido…

      2. Não é disparate nenhum. A língua não se decreta. E usar o CCB como peça de artilharia é simplesmente brilhante.

      3. É irregular? Ora explique lá porquê, como lhe cabe.
        É que eu não vejo irregularidade alguma. Apenas independência e respeito pela Lei e pelo cidadãos portugueses.

    5. Do ponto de vista jurídico não há muitas dúvidas: o acordo não está em vigor. E se estivesse, por ter sido ratificado por todos os estados (não o foi por Angola e por Moçambique, o que chegaria para nos fazer pensar) seria sempre inconstitucional. Para mim, é, além do mais, criminoso, um acto violento de inculturação nunca ocorrido na história universal (faz lembrar a proibição do uso do idioma pátrio imposta à Polónia pelos ocupantes russos) e que viola vários direitos do homem e do património cultural mundial.
      Que fazer? Nada do que o governo e assembleia têm feito, ou melhor, nada do que a maçonaria tem imposto no governo e na assembleia é válido e por isso não obriga ninguém.
      Agora… estamos em Portugal. Eu advertiria os alunos do estado do problema. Se pode passar sem o seu ordenado, aconselharia a que se recusasse, por escrito, a cumprir qualquer imposição, com os fundamentos que ficam apontados e se agissem contra si abertamente (uma frontalidade que não é usual) recorreria aos tribunais nacionais e internacionais (principalmente estes). Mas, o mais provável é que a mediocridade, a paixão da subserviência, os interesses instalados, os “formadores” que já esperam ganhar qualquer coisita à custa do acordo lhe fizessem a vida negra pelas costas.

  2. Desde que não suceda com Vasco Graça Moura, o mesmo que sucedeu com a a Patrícia Reis… e que não esteja refundida no Ministério, uma “administração” brasileira… então não ha espiga e o CCB será o último reduto da língua Lusa.
    Se estiver… então, lá vai o presidente do CCB… com os porcos e; quer queiramos, quer não, vamos ter de engolir a bucha.
    Eu, que me considero um gajo prevenido, já comecei a visitar o Elefante Branco 3 vezes por semana… uma forma de praticar a língua… working in the shop.

  3. Plenamente de acordo.

    Mas à semelhança do que já foi dito aqui, os cargos públicos não são sítios para dizer ou fazer o que se pensa. A hierarquia é clara e transparente.
    Se querem ter opiniões “livres”, é melhor ir para outro lado, como o caso recente do Pedro Rosas Mendes nos mostrou.
    Desta forma, não me admiraria nada que dentro de poucos dias, ou semanas, tudo volte atrás, provavelmente sem sequer chegar aos jornais.

  4. Não foi uma decisão de Vasco Graça Moura, foi uma decisão da administração do CCB. VGM apenas deu andamento à decisão da administração, assinando o ofício onde se dá a ordem às diferentes repartições do CCB.
    Há que saber distinguir uma direção colegial da ditadura de um homem só.

  5. O Acordo Ortográfico é lesivo da identidade e da cultura do país.
    Vasco da Graça Moura é um respeitável intelectual:, tradutor, poeta, romancista, em suma, um homem de cultura que respeito.
    Lamento que seja um apoiante deste governo, do presidente da república mas, como se diz no final de um filme de Billy Wilder, ninguém é perfeito.
    Não tenho conhecimentos para dizer se a atitude que tomou é politicamente correcta, mas do meu ponto de vista é coerente, vinda de quem sempre disse que o acordo serve interesses geopolíticos e empresariais brasileiros, em detrimento de interesses inalienáveis dos demais falantes de português no mundo.
    Pode acontecer muita coisa mas ,hoje, já ninguém me tira o prazer, a alegria de saber desta decisão de Vasco Graça Moura,
    Fossem os governantes, que nos assistiram e assistem, um pouco como ele é, e provavelmente não teríamos chegado ao ponto onde nos encontramos.

  6. Eu até posso estar em desacordo com o Acordo Ortográfico. Agra tenho aqui um miúdo que aprendeu a ler e escrever segundo ele. Como ele milhares de crianças. O que fazemos? Reset ás crianças?

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