De referência


eventhorizon,

“A humildade não é um dos maiores atributos do vaidoso Cristiano Ronaldo”, que apesar de estar farto de comparações com a estrela do Barcelona não resistiu a declarar-se “melhor do Messi”. [sic]”.

 

Olhamos para este primeiro parágrafo de uma notícia de um meio online português e pensamos: só pode ser de um tablóide ou de um jornal de segunda categoria. Certo? Era bom. Este é o primeiro parágrafo de uma notícia publicada na edição online do jornal Expresso, esse suposto bastião do jornalismo de referência português. E não, não é uma citação exterior – é a opinião da própria jornalista. Enfim, temos uma jornalista que torce pelo Barcelona – o que não tem mal algum – e que não se coíbe de o exibir numa notícia publicada – o que é péssimo.

 

O que é engraçado é que na dita notícia, “Ronaldo diz que é melhor do que Messi”, resultante de uma entrevista do jogador à CNN, aquilo que Cristiano Ronaldo diz é ligeiramente diferente:

 

We played better than them this year. We are better than them in this moment, but we have to respect them because they are a great team too.

 

Suponho que humildade, segundo a senhora “jornalista” do Expresso, seria Ronaldo dizer que apesar de o Real Madrid ter ganho o campeonato espanhol, o Barcelona foi muito superior. OK.

 

Mas a coisa melhora. Sobre a comparação entre Ronaldo e Messi:

 

They [people] compare each other all the time. You cannot compare a Ferrari with a Porsche, it’s a different engine […] We beat our own records, it’s amazing, and I think we push each other. […] This is why Madrid and Barcelona are the best teams in the world. […] some people say I’m better, some people say it’s him… you know, at the end of the day, they’re going to decide who’s the best player in the moment, and I think it’s me [risos].

 

Não se vê um pingo de arrogância em Cristiano Ronaldo ao longo da entrevista – aliás, o jogador revela-se bastante politicamente correcto em todos os momentos, e mostra respeito pelo seu principal adversário. Ronaldo sublinha que a decisão sobre qual é o melhor jogador é tomada a cada momento, e que no momento – dados os resultados da época – pensa ser ele. De resto, existe uma grande diferença entre dizer “eu sou melhor que X” e “neste momento, eu penso que sou/estou melhor que X” (convém lembrar o significado dos verbos, já agora).

 

É lamentável que um jornal que se quer “de referência”, como o Expresso, publique – na edição impressa ou on-line, é irrelevante – um artigo destes, puro lixo escrito por uma senhora que pelos vistos passa o tempo em frente ao computador a brincar aos jornalistas. É por estas e por outras que, em termos de imprensa, prefiro o Correio da Manhã. Não só não tenho de levar com o acordo ortográfico, como sei exactamente o que esperar do jornal (e tem melhores colunistas, diga-se de passagem). Com noticias destas, o Expresso só consegue ser uma referência de mau jornalismo.

 

(a única coisa a apontar a Ronaldo aqui é o seu fraco inglês)

18 comentários em “De referência”

  1. Diz-se que talento de Messi é natural e o de Ronaldo é elaborado, isto é, artificial. Isto é treta. Uma vez me disseram que o talento é uma questão de paciência. É verdade.

    1. Sem dúvida. De resto, o Cristiano Ronaldo explicou muito bem porque são disparatadas as comparações. Claro que para a jornalista, isso não interessou nada. Para quê perder tempo a procurar entender o que ele diz quando já temos a nossa conclusão tão bem definida, não é?

  2. Apesar de eu própria achar que o Ronaldo não prima pela humildade, concordo plenamente com a sua opinião: o jornalista não devia ter emitido esse tipo de juízo de valor. É rídiculo e tem provavelmente o efeito contrário ao pretendido. Até porque em termos de opinião de jornalistas o Ronaldo é sempre muito bem defendido pela malta do Record que padecem precisamente do mesmo problema do jornalista do Expresso.

    1. Desculpa, mas a humildade é uma qualidade sobrevalorizada. Eu suponho que Ronaldo não seja assim tanto humilde. O talento dele exige muito trabalho, e nós só trabalhamos para sermos os melhores se formos de alguma forma humildes.

      1. Peço desculpa, mas a humildade não é sobrevalorizada. Grandes génios da humanidade – que não têm, estranhamente, nada a ver com futebol – advogavam a humildade como caracteristica essencial de cáracter. Aliás, a humildade sempre foi um traço de cáracter sublinhado por diversos filósofos desde Plutarco a Santo Agostinho porque era o tipo de virtude que garantia a manutenção das outras. Especialmente porque o contrário de humildade, vaidade, leva a todo o tipo de defeitos.

        1. Daniela,

          eu também acho que a humildade é sobrevalorizada, na medida em que se confunde com muita facilidade – e frequência – com falsa modéstia. E para esta pouca paciência tenho. Ronaldo e Mourinho – que também é acusado regularmente de ser arrogante e vaidoso – são dois exemplos de indivíduos bem sucedidos não só porque têm talento, mas também – e talvez isto seja o mais importante – porque trabalham e exercitam esse talento de forma constante e incansável. Eles fazem-no, assumem-no, e não estão dispostos a diminuir-se ou a menosprezar os seus resultados. E fazem muito bem.

          Basta olharmos para as caixas de comentários dos jornais – a desta “notícia” do Expresso é um bom exemplo – para percebermos o problema. Ronaldo e Mourinho são bem sucedidos à custa do seu próprio trabalho. A isto, o português médio reage com inveja, e despreza-os. Como a jornalista fez naquele parágrafo miserável, vergonhoso para qualquer publicação jornalística.

          1. Caro João eu não disputo o sucesso de Mourinho e Ronaldo. São excelentes no que fazem e ainda bem. Confesso ter pouca paciência para a psicologia de pacote que diz que os portugueses são invejosos e etc etc. Acho que isso é um bocado redutor e é o tipo de coisa que serve para desprezar a opinião dos outros só porque não concordam connosco.

            Acho que a opinião da jornalista é reprovável, não porque se trata de Ronaldo e Mourinho, mas porque um jornalista deve ser imparcial. Mas, como eu disse no meu primeiro comentário, o que há mais na imprensa portuguesa que se debruça sobre futebol é parcialidade (e não só…). Muitas vezes a favor de Mourinho e Ronaldo.

            Mantenho o que disse no comentário. Independentemente da nacionalidade, a humildade é um traço de cáracter que prezo. Até aos reis medievais se pedia que fossem humildes! Quanto a se Ronaldo e Mourinho são arrogantes ou não, nem vou entrar nessa discussão porque é evidentemente uma questão de interpretação e de ver o que se quer ver. Até acho que o Ronaldo não foi arrogante na entrevista que deu e que pressionado irá sempre dizer que é o melhor. Mas no geral não me agrada o comportamento deles, até porque há muito espalhafato e provocação e isso é o tipo de coisa no geral abomino.

  3. Tiro o chapéu ao seu post. Até que enfim; alguém sem papas na língua diz umas verdades a um jornal que me fez companhia durante anos e que de momento, de tão subserviente politicamente, enjoa. É pena. Também prefiro o CM (sei o que me oferece). E, já agora, a petulante posição de muitos, relativamente a jogadores e a clubes estrangeiros, revela bem a índole dessas pessoas.
    Bom fim de semana.

    1. g.a.,

      eu estudei e exerci jornalismo. Como tal, e ainda que já não trabalhe nessa área, sou particularmente sensível a disparates como os desta notícia.

      O jornalismo de referência em Portugal – normalmente identificado com o Público e o Expresso – anda há muito tempo na proverbial “sarjeta”.

      Obrigado e bom fim-de-semana também para si.

  4. Ouvi a entrevista e fiquei a pensar exactamente o mesmo que tu.
    Tratando-se de dois portugueses (o entrevistador era o Pedro Pinto) só tive pena que não houvesse ali um brevíssimo diálogo na nossa língua.
    Um dia destes tenho de prestar aqui homenagem ao Correio da Manhã precisamente pelo motivo que apontas.
    Quanto ao inglês do Ronaldo: não o acho inferior ao do Javier Solana ou do Olli Rehn, para não falar noutras sumidades da política europeia. Tomaram eles falar assim. E tomaram eles marcar um golo só – daqueles a sério, não dos que se marcam na própria baliza.

    1. Por acaso não reparei que o jornalista era português.

      O Correio da Manhã, dentro do seu segmento, é um excelente jornal. Independentemente da sua inclinação popular, é um jornal onde ainda se escreve bem (mesmo sem considerar o AO) e onde se faz uma cobertura bastante diversificada de vários temas. O facto de não aderir ao acordo é, naturalmente, uma questão de estratégia editorial – não lhe interessa alienar o seu público. Não admira que seja o jornal mais lido e vendido em Portugal.

      Sobre o inglês do Ronaldo – concordo contigo, e a minha frase não era uma crítica negativa, apenas um apontamento. De resto, no que interessa – e o que interessa passa-se no relvado – ele é sem dúvida um dos melhores do mundo neste momento.

  5. Esqueci-me de dizer que gosto do Ronaldo e tenho pena que não tenhamosmais meia dúzia como ele. É um orgulho sabê-lo português. Não sei quantos milhões tem, mas sei que não posso garantir que continuaria a ser a mesma pessoa se tivesse metade do que ele tem. Essa é que é essa.

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