Confissões de Mário Soares


Pedro Correia,

 

A imprensa regional é felizmente um viveiro de talentos jornalísticos. Nem sempre compreendidos, nem sempre reconhecidos. Digo isto a propósito de uma entrevista a Mário Soares que acabo de ler no semanário Jornal de Leiria. Uma entrevista muito interessante, assinada por Maria Anabela Silva e João Nazário.

Transcrevo aqui, com a devida vénia, um excerto dessa entrevista ao ex-Presidente da República, com uma pergunta e a respectiva resposta:

«- Se a política lhe abriu caminho para muitas amizades, também lhe custou alguns amigos como Salgado Zenha, Manuel Alegre ou Rui Mateus. Foi um preço caro?

– Salgado Zenha foi, para mim, uma espécie de irmão. Nunca deixei de ser amigo dele. Manuel Alegre, que sempre considerei – e considero – um grande poeta, foi um incidente político desagradável. Não mais do que isso. Rui Mateus foi diferente: foi um camarada mas não um amigo. É uma pessoa sem princípios nem valores.»

Soares franco e frontal. E o Jornal de Leiria a confirmar que a imprensa regional portuguesa está em boa forma.

14 comentários em “Confissões de Mário Soares”

    1. Quando li o ‘post’, também fiquei na dúvida, mas interpretei como uma referência à desavença. Se for uma referência à desavença, é um comentário bastante inócuo; caso contrário, é de arrepiar.

    2. Tens razão Zé.
      Soares é um animal político. Mas, como muitos outros, longe de ser exemplar. Quando se fizer a sua biografia – naturalmente não autorizada -, ficaremos todos, talvez, a saber “quem é e quem foi” o antigo Presidente da Republica.
      A mim, o que sei, chega-me bem para o não apreciar. Mas reconheço que o país tem para com ele uma dívida que, já estando paga há muito tempo, continua a render-lhe belos juros!

  1. Boa pergunta, boa resposta. Já são poucas as entrevistas que leio, não tenho paciência, sobretudo porque as perguntas têm uma tendência terrível para serem maiores que as respostas e os entrevistadores parece que andam com dicionários de citações debaixo do braço:) bom fim de semana

    1. Aprecio muito a arte de entrevistar, que não está ao alcance de qualquer jornalista (longe disso). Um dia destes falarei com mais vagar deste tema aqui.
      Beijinho, Patrícia.

  2. Caro Pedro, uma observação prévia: compreendo perfeitamente caso entenda não publicar este comentário, porque não me compete adicionar ligações a ‘posts’ alheios. Simplesmente, como fiquei curioso com a referência de Soares a Mateus, efectuei uma breve pesquisa e encontrei estes excertos. Parecem-me interessantes, não por serem necessariamente verdadeiros (não sou bruxo para adivinhar se correspondem à verdade), mas porque talvez ajudem a explicar os termos em que Soares refere Mateus.

    Excertos do livro «Contos Proibidos», de Rui Mateus: http://aventar.eu/category/contos-proibidos/

    1. Não me surpreende, Carlos. Na altura li o livro e tenho-o em casa, devidamente sublinhado. Um livro polémico que levanta questões muito controversas mas que quase parece nunca ter existido.

      1. Esse livro — que tenho a ilusão de, felizmente, ter comprado quando saiu — nunca existiu, como é público e notório, razão pela qual nunca foi reeditado.

  3. Em relação ao Alegre e ao Mateus não sei, mas em relação ao Sagado Zenha, um verdadeiro aristocrata, Soares pode nunca ter deixado de ser amigo dele, mas o inverso já não é verdade, porque Salgado Zenha nem na hora da morte o quiz ver. É quando fala destas coisas que Soares mostra a sua enorme falta de caracter.

    1. Com Salgado Zenha, de facto, o corte acabou por ser radical. E a morte do ex-número dois do PS, em 1993, impediu de vez uma possível reaproximação entre os dois antigos camaradas. A zanga com Alegre também é forte, sou testemunha disso.

  4. Se lermos o livro de Rui Mateus (abafado desde o dia em que saiu), facilmente chamaríamos mentiroso ao Dr. Mário Soares.

    1. O meu ponto é este: raros jornalistas da chamada imprensa de referência a nível nacional teriam o desassombro de perguntar a Mário Soares pelo seu arqui-inimigo de estimação, Rui Mateus – um co-fundador do PS que parece ter sido banido ‘ad eternum’ do retrato de família do partido. Estes dois jornalistas de Leiria fizeram-no e a resposta surgiu, com naturalidade. Concordemos com ela ou não.

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