A grande – ou talvez triste – ironia do caso da licenciatura de Miguel Relvas é confirmar definitivamente a futebolização da política, com as claques deste e de Sócrates, entretanto trazido de volta à ribalta por causa do seu próprio escândalo universitário, a defender que “a licenciatura do meu político é menos manhosa que a do teu”, como se estivessem a a competir para ver quem consegue mijar mais longe. Algumas considerações:
1) O argumento de que não é essencial um ministro ter uma licenciatura para o desempenho das suas funções, ainda que tenha alguma lógica, parece-me algo perigoso. Falamos de um dos mais elevados cargos do Estado, ao qual deviam aceder os mais preparados para representar os cidadãos. É verdade que o grau académico não é tudo, mas insistir na sua irrelevância desvaloriza o esforço de quem se dedica ao estudo e ao trabalho académico para chegar mais longe na sua carreira. De facto, o canudo não confere necessariamente competência; idealmente, porém, parece-me que seria excelente um país avançado e democrático ter um Governo – e um Parlamento – composto por pessoas com elevadas qualificações, certificadas com rigor e mérito por instituições de prestígio.
2) No caso Relvas, tal como no caso Sócrates há alguns anos, o problema não é se têm ou não a licenciatura, mas a forma como ela foi obtida. E isto não é um detalhe.
3) Considerando a forma como estas foram obtidas, e independentemente de outras considerações (o bacharelato de Sócrates e o currículo de Relvas que defensores de um e do outro têm usado para defender o indefensável), parece-me a mim que nenhum destes indivíduos tem perfil para integrar o Governo de um país que se queira decente.
4) A questão da manipulação de ambos os casos é aqui secundária.
No entanto, honra seja feita a Relvas e Sócrates: conseguiram, com particular eloquência, mostrar a uma sociedade obcecada pelo “canudo” e pelo “títulozinho” de “doutor” ou “engenheiro” quão irrelevante é o grau académico numa cultura que pouco valoriza o mérito. Pode ser que, dentro de alguns anos, se retire algo de positivo deste deboche académico.

Todos esquecem um pormaior: a licenciatura apenas não é importante para quem a tem ou para quem já nasceu no meio de licenciados. Ignorar os tremendos sacrifícios de uma imensidão de famílias que tudo fazem para que os seus filhos possam ser licenciados e que (ainda) vêem nessa licenciatura a única possibilidade de uma vida melhor é de um snobismo que, para além de cruel, é tremendamente perigoso. Tentem ir a um bairro social explicar como é importante estudar tendo por alternativa o comércio de droga e a prostituição tendo este chico-espertismo como pano de fundo de depois digam alguma coisa.
Anda tudo a brincar com o fogo. Depois não se queixem.
As famílias podem puxar, para cima ou para baixo. Mas, quem tem que fazer o esforço para subir têm que ser os próprios. Podemos dar vitaminas às nossas crias, mas não podemos crescer por eles. E isto não é um pormenor, não…
A bolha especulativa da Universidade – licenciaturas- a rebentar.
Foi uma data de gente licenciada que levou o país à bancarrota.
Caro autor deste artigo,
apesar e seguir atentamente um conjunto de excelentes blogues, no qual o seu se inclui, fujo dos comentários como o diabo foge da cruz.
Serve este comentário para lhe dizer que pôs em meia dúzia de palavra o que eu jamais conseguiria com muitas mais. Não poderia estar mais de acordo com a sua opinião. Obrigado por este artigo.
P.S. Por razões que não interessam, frequentei o Técnico mas não concluí a licenciatura, acho que sou um semi-licenciado, mas ainda assim continuo totalmente de acordo com o seu artigo.