Extinção


eventhorizon,

Sempre gostei muito de animais. Em miúdo, a televisão da sala era religiosamente sintonizada na SIC, aos fins de semana, entre o meio-dia e a uma, para ver os documentários de vida selvagem da National Geographic e da BBC (ainda hoje sou capaz de passar horas em frente ao NatGeoWild). Para um miúdo que gosta de animais, crescer no campo é uma maravilha – qualquer bicharoco serve para quebrar a monotonia das longas férias de Verão. Sapos e rãs, cobras e lagartos, toda a fauna das margens do Mira servia de pretexto para tardes muito bem passadas. Das espécies que por lá se encontravam (e encontram), gostava especialmente dos cágados – por qualquer motivo, aquelas criaturas meio desengonçadas, com a casa às costas (e ainda assim surpreendentemente rápidas dentro e fora de água), sempre me fascinaram. Como todas as tartarugas, aliás. 

 

Isto a propósito de uma história curiosa, da qual até falei aqui há coisa de dois anos – altura em que, numa deambulação pela Internet, encontrei a história do Lonesome George. Lonesome George era o último sobrevivente da Chelonoidis nigra abingdoni, as tartarugas gigantes da Ilha de Pinta, uma subespécie das famosas tartarugas gigantes das ilhas Galápagos. Com o seu habitat devastado pelas cabras selvagens, a população local de tartarugas foi dizimada até ao seu último elemento. Foram feitas algumas tentativas de acasalamento entre George e fêmeas de subespécies parecidas, que infelizmente não correram bem (os ovos nunca eclodiram), e havia inclusivamente uma recompensa para quem encontrasse uma fêmea da subespécie Chelonoidis nigra abingdoni.

 

Claro que a história de Lonesome George me prendeu imediatamente a atenção. As tartarugas gigantes vivem imenso tempo – bem mais de um século – e esta era a última da sua espécie, declarada para todos os efeitos extinta. Há a possibilidade de haver ainda algumas destas tartarugas vivas, em liberdade ou em cativeiro, mas até ao momento nenhuma foi encontrada. George vivia numa reserva natural, o que tecnicamente corresponde a cativeiro, enquanto têm sido desenvolvidos esforços bem sucedidos para erradicar as cabras selvagens e recuperar o ecossistema natural da Ilha de Pinta. 

 

A recuperação deste ecossistema, porém, já vai tarde para George – morreu ontem, perto dos 100 anos de idade (um jovem, portanto). Foi encontrada por Fausto Llerena, que tratava pessoalmente de George há quarenta anos (não há emprego ou casamento que, nos tempos que correm, dure 40 anos). Assim se extingue o animal mais raro do mundo, último sobrevivente de uma subespécie há muito condenada ao desaparecimento. Não que seja inesperado – mas eu, que sempre gostei de tartarugas, não consigo deixar de achar esta notícia muito triste.  

 

 

Fotografia de Pete Oxford, Minden Pictures/Corbis

5 comentários em “Extinção”

  1. «In the earlz 1680s (…) on the island of Mauritius, (…) some forgotten sailor or sailor’s pet was harrying to death the last of the dodos, the famously flightless bird whose dim but trusting nature and lack of leggy zip made it a rather irresistible target for bored young tars on shore leave. Millions of years of peaceful isolation had not prepared it for the erratic and deeply unnerving behaviour of human beings.», in “A short history of nearly everything”, the Bill Bryson.

    É nisto que eu penso quando vejo a notícia da morte de Lonesome George. Talvez nos anos 1680 tivesse havido notícia semelhante, talvez não. Neste caso, é quase como se estivesse novamente a ver a morte do último dodo.

    1. Não me tinha ocorrido a analogia. Por um lado é imperfeita – ainda há algumas espécies de tartarugas gigantes nas Galápagos, e apesar de estarem ameaçadas, têm sido feitos imensos esforços para recuperar as populações (o que é um processo lento com qualquer animal que não seja o coelho). Por outro lado, é tristemente certeira.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *