Há alguns anos, gozou-se com o primeiro-ministro – muito justamente, aliás – a propósito de um livro da sua preferência, a misteriosa “Fenomenologia do Ser”, atribuida de forma apócrifa, passe o sarcasmo, a Jean-Paul Sartre. Há dias, um fotojornalista tirou o retrato a Passos Coelho quando este saía do carro – e no interior da viatura podia ver-se com clareza a lombada de um livro na qual se podia ler “Salazar”. A coisa apareceu em destaque nas páginas do Público, jornal dedicado a ultrapassar o Correio da Manhã pela esquerda, e logo se propagou pelas redes sociais como um incêndio: ai! que o homem é fascista, ai! que o homem anda a ler o mestre, ai! que o homem nos oprime a todos!
Da parte que me toca, fico algo satisfeito com a notícia: desconfio de quem despreza a leitura, pelo que saber que o primeiro-ministro anda com um livro no carro dá-me alguma esperança de que pelo menos esse defeito ele não tenha. É um fraco consolo, bem sei, mas os tempos são de crise e temos de nos contentar com o que houver. Claro que ter livros por perto não faz leitores de forma instantânea, mas sem ovos é que não se fazem omeletes.
E dou por mim a pensar: independentemente da escolha de leitura de Passos Coelho, ele ver-se-ia sempre aflito nesta situação. Se lê algo sobre Salazar, é fascista; se lesse algo sobre Cunhal, seria comunista (o que seria igualmente mau, ainda que o barulho na Internet fosse sem dúvida menor). Por outro lado, se lesse Margarida Rebelo Pinto, seria acusado de ler coisas idiotas; e se tivesse o “Guerra e Paz” no carro, estaria naturalmente a dar ares de intelectual, pois jamais lhe iria pegar. Tolkien ou Asimov fariam do nosso primeiro-ministro um nerd; já um Goethe, seria sem dúvida para agradar à amiga Ângela. Por fim, a ausência de livros daria a ideia que, depois da “Fenomenologia do Ser”, Passos Coelho não voltara a pegar num livro, o que seria pior que todas as alternativas anteriores.
Na pior das hipóteses, um livro sobre Salazar pode ser educativo. O que, nos dias que correm, já não é nada mau.

Grande foto do meu amigo Luís Carregã: os pormenores fazem toda a diferença numa fotografia. Quanto ao livro, nada mais recomendável: ‘A Diplomacia de Salazar’, de Bernardo Futscher Pereira. Só não o li ainda também porque não calhou. Podia ser igualmente ‘Salazar e o Poder – A Arte de Saber Durar’, do insuspeitíssimo Fernando Rosas, livro que tenciono recomendar amanhã aqui no Delito e que certamente Passos Coelho gostaria de ler também.
Passos Coelho? O Pedro, o homem agora é o Pedro.
Heh. Já as interpretações desses detalhes são as mais delirantes que se arranjam neste final de ano!
Sim, Leonor. Pedro. ‘Mea culpa’.
Se andamos nessa “onda”, mencionemos também a obra escrita por Franco Nogueira. Sendo alvo de todo o tipo de criticas (positivas e negativas), não deixa, ainda assim, de ser uma referência.
Não confio em ninguém que se senta em cima dos seus próprios livros mas, a avaliar pela mensagem do Facebook, esta coisa senta-se ‘em mesas’, por que razão não há-de sentar-se em cima do que lê?
Senta-se em mesas? Não o sabia tão alto.
Não leste a mensagem do Facebook, João?
Não, não o tenho como “amigo” 🙂
Brincadeiras à parte, lá na terra o acesso à Internet é difícil, pelo que essa mensagem passou-me ao lado. Vale a pena aventurar-me ou, paródia por paródia, mais vale continuar a ler Terry Pratchett?
Não te sentes em cima do Pratchett.
Jamé!
Não, não vale, deixa-te lá com o Pratchett, João
Não seria um album com trapinhos da Ana (Salazar)?.
Coisa que a doce D. Laura teria esquecido prá li, no banco de trás?.Ps . O casal Pedro e Laura, like.
O heterónimo “Primeiro Ministro”, bom, isso é outra conversa.
O homem já tem heterónimos? Estou mesmo a ver que perdi imensa coisa nesta quadra…
Eu assim até fico envergonhado com o título do meu blog…: http://asleiturasdopedro.blogspot.pt/
Ora essa, não fique – duvido que o Pedro (o outro) alguma vez se atreva a ler o excelente “The Walking Dead”. O que, diga-se de passagem, só lhe faria bem.
Até me parece uma excelente leitura, já os comentários comparativos de Salazar e fascismo me parecem algo extraviados de realidade objectiva.
Não posso, no entanto, deixar de concordar com o João; fosse que livro fosse, seria sempre motivo de critica.
Nestas coisas é-se sempre preso por ter cão…