A avaliar por este relato do Samuel de Paiva Pires, diria que a prova de Cultura Geral do concurso externo de ingresso na carreira diplomática é curiosamente parecida com esta:
E, já agora, gostaria muito de saber qual é a resposta que os critérios de correcção da dita prova consideram correcta para a pergunta “qual o planeta por onde passaríamos se viajássemos da Terra até Urano pelo caminho mais curto“.

Dos Macacos.
O original ou o do Burton? 🙂
Suponho que o júri aceitava qualquer deles.
Dadas as perguntas, duvido que soubessem a diferença…
O post (do Samuel de Paiva Pires) é bastante relevante, já que as perguntas são algo espatafúrdias, mas as propostas dele(s) para perguntas são fortemente redutoras: note-se que excluem completamente questões técnicas ou científicas dos critérios de avaliação.
Ora, uma embaixada é uma representação do país e dos interesses do país. Estes não se cingem às dicussões políticas ou económicas. Uma área fundamental (e cujo peso deveria ser cada vez maior) é a tecnologia. Infelizmente parece que muita gente vê o conhecimento científico como desnecessário. O facto de muitas embaixadas terem adidos científicos (e empregarem cidadãos do país onde a embaixada está para este tipo de contactos) parece ser algo de supérfluo para muitos portugueses. Não o é. Claro que a pergunta da viagem para Urano ou pedir a raíz quadrada de Pi não faz sentido (eu responderia com isto: √π = (π)^1/2). Mas perguntas sobre o ADN, sobre energia (renováveis ou não), conceitos de nanotecnologia ou até mesmo questões básicas de astronomia ou física fariam sentido.
Não podia concordar mais.
Também tendo efectuado o teste, e concordando que foi testado tudo menos cultura geral, acho que as escolhas do Samuel para perguntas não foram as melhores porque, apesar de serem de ciência, necessitavam apenas de um conhecimento superficial da matéria. Passo a explicar: no caso da raiz quadrada bastava saber que 3.14 corresponde a Pi e o significado de raiz quadrada uma vez que a pergunta era a raiz quadrada de 3.14 é: Pi , maior que 3.14, menor que 3.14, outra coisa que não me lembro mas não fazia sentido como resposta. No caso da viagem espacial também se podia eliminar opções visto três (Plutão, Neptuno e Júpiter) visto serem planetas na borda do sistema solar. Não obstante isso julgo que uma parte da significativa das perguntas não fazia sentido por não se incluir no que pode ser considerado Cultura Geral, sendo que a surgir seria como perguntas para o 20. Alguns casos: Primeiro presidente português a realizar uma visita oficial ao Brasil, “Estilo Chão”, batalha da Alfarrobeira, Guelfos (pergunta que já vi ser defendida por um diplomata porque o termo aparece no Decameron e na Divina Comédia e portanto acessível a alguém com conhecimentos de literatura do século XIII e XIV) ou um conhecimento intimo de políticos de segunda linha alemães.
Tinha-me escapado que havia resposta múltipla. Dessa forma não parecem de facto muito complicadas as respostas. Aquilo que podem ser é pouco relevantes. Antes de discutir as perguntas, convém saber quais os conhecimentos que devem ser avaliados em tais concursos. Isso pelo menos o Samuel parece ir fazendo.
“No caso da viagem espacial também se podia eliminar opções visto três (Plutão, Neptuno e Júpiter) visto serem planetas na borda do sistema solar.”
Plutão, tecnicamente, não é um planeta;
Júpiter na “borda” do sistema solar?
A lógica da pergunta pode de facto ser essa, mas se o era então revela fracos conhecimentos científicos da parte de quem concebeu o exame. E com isto não quero dizer que necessitasse de saber que os planetas têm órbitas elípticas em redor do Sol, mas apenas saber a sua ordem (algo que se aprende na primária) e que Plutão foi excluído da lista (algo que foi muito polémico há não muito tempo).
Quanto à questão de Plutão não ser um planeta, apesar de saber que foi requalificado como planeta anão em 2006, considerei esse laspo secundário tendo em conta que utilizam Confederação Helvética e Taiwan nas resposta a outra pergunta. Sendo que na listagem oficial das Nações Unidas vem Switzerland (portanto Suiça) e o nome mais correcto em português de Taiwan seria Formosa. Pode considerar-se uma rasteira, mas mesmo assim acho que em termos de preciosismos é mais relevante este segundo caso.
Quanto a Júpiter estava errado porque apenas me lembrava que os planetas gigantes estavam a seguir à Terra (daí o “na borda”). Mas serviu para ir ver o modelo do sistema solar e relembrar a ordem dos corpos pertencentes ao Sistema Solar;)
O problema é que os exames são feitos sem um critério que oriente a construção das perguntas. O caso de que fala da “Confederação Helvética” e “Taiwan” parece-me ser ilustrativo.
Outro problema é a escolha múltipla, que na prática avalia mais 1) a capacidade de interpretação do enunciado e a atenção dada às rasteiras semânticas e 2) a sorte de cada aluno que, desconhecendo a resposta correcta (ou as erradas), coloca uma cruz ao acaso. Julgo que o caso da pergunta de Urano é também ilustrativo desse ponto: qualquer pessoa com conhecimentos mínimos de astronomia pode até concluir que não há, em termos práticos, um caminho “mais curto” para Urano. Aproveito, porém, para sugerir a tradução desta pergunta para Inglês – o resultado é, no mínimo, curioso.
(E, já agora, que fique claro: para mim, Plutão continua a ser um planeta. Até tem uma carrada de luas, o desgraçado)
A pergunta não era nada de especial, perguntava (não me lembro do texto verbatim): por qual dos planetas tinha que se passar fazendo o percurso mais curto entre a Terra e Urano. Depois eram apresentadas quatro opções, conhecendo-se a ordem das órbitas dos planetas do Sistema Solar era fácil concluir qual das quatro opções era a única possível.
A questão é que essa pergunta está mal formulada. Uma viagem entre planetas não é como uma viagem entre Lisboa e a Baixa da Banheira – porque se Lisboa e a Baixa da Banheira permanecem mais ou menos no mesmo sítio, os planetas – todos os planetas – estão em constante movimento em redor do Sol. O facto de entre as órbitas da Terra e de Urano orbitarem Marte, Júpiter e Saturno não significa que o caminho mais curto (se é que podemos falar em “caminho mais curto” no espaço, mas dando isso de barato) entre a Terra e Urano passasse necessariamente por um destes planetas. Poderia passar por eles todos – ou até poderia passar por nenhum deles.
Pois, mas dado o contexto e as opções disponíveis, era uma questão de senso comum. E sinceramente não me recordo do texto exacto, até podia a pergunta estar formulada nos termos “por qual dos planetas poderia passar”. Sinceramente não me lembro.
Uma vez mais, a questão pode estar pensada nesses termos, mas denota desconhecimento científico da parte de quem a concebeu. Lá está: é um teste de cultura geral, e por isso uma ou duas perguntas de Astronomia não ficam mal; mas se essas perguntas estão erradas à partida, então temos um problema.
Se a ideia era fazer uma pergunta de astronomia com rasteira, mais valia perguntarem quantas luas tem Plutão. Ou qual é a estrela mais próxima do Sol. Ou, melhor ainda, qual é a estrela mais próxima da Terra (esta seria uma boa rasteira para os mais desatentos). Colocar perguntas cientificamente erradas com uma resposta supostamente “certa” é um disparate seja em que contexto for.
Eu concordo com isto – daí achar que a diferença entre perguntar qual é a raiz quadrada de Pi ou qual a velocidade de voo de uma andorinha carregada com um coco é muito pouca 🙂
Confesso que, apesar de ter achado algumas das questões um pouco apatetadas (provavelmente daqui a uns meses ainda aparece a Visão com uma reportagem estilo “Top 10 de respostas imbecis em Concurso de Acesso à Carreira Diplomática”), sempre me pareceu uma coisa mais adequado do que o suposto teste “psicotécnico” que ainda apanhei no último concurso.
Atendendo a que foi a primeira vez, talvez vão adaptando o exame para provas futuras…
De facto é verdade. É fácil apanhar sempre umas perguntas e respostas parvas e fazer a selecção das mesmas para efeitos de ridículo. O essencial, antes de se avançar por perguntas específicas, seria mesmo saber o que é que se pretende avaliar em cada área de conhecimento geral. Nesse aspecto, de forma muito relevante para a carreira diplomática, talvez não fosse má ideia perguntar no que consiste a lei de Moore, por exemplo.
Desculpem a iguinorância do macaco, mas será que o caminho mais curto obriga a fazer escala técnica num planeta e a ir conhecer as discotecas do sítio?
A escala técnica é desnecessária, mas no caso de ser feita, é absolutamente imprescindível ir ao “Rei dos Frangos” local. Gosto particularmente do de Io, onde o churrasco é uma maravilha.
Este teu comentário, João, quase parece uma entrada do “Hitchhiker’s Guide to the Galaxy”..!
E é. Foi tirada da edição do ano galáctico de 2031578.123^(1/3,14). Ou 2008, no nosso planeta. Foi a minha modesta contribuição sobre o nosso sistema solar. Lamento dizer que não parece ter trazido muitos turistas. A Bélgica continua a ser um calcanhar de aquiles (que era um habitante de um planeta nas vizinhanças de Betlegeuse).
Por outro lado, sempre temos os fiordes noruegueses – premiados e tudo, convém lembrar. Algo que não é qualquer construtor de planetas que faz.
(Tenho andado mais virado para Terry Pratchett e Discworld, mas um dia destes tenho de regressar a Douglas Adams e ler os três livros que me faltam da “trilogia de cinco”…)
Eu cá tenho de pegar na colecção do Dirk Gently, que comprei em Setembro. A propósito, já terminei as Robot e Empire series todas. Agora sobram-me as pequenas histórias não relacionadas.
Também tenho o Dirk Gently na lista de leitura, mas a avaliar pela dimensão dela, devo demorar… algum tempo a comprar os livros. Tal como as séries Robot e Empire do Asimov. Demasiados livros para o tempo e o dinheiro disponíveis…!
Em e-book a coisa torna-se mais simples (e barata). Até porque se pode colocar o livro no telemóvel e ler em viagem ou na pausa do almoço.
Não tenho um telemóvel que me permita fazê-lo de forma confortável, e não gosto de ler ficção sentado em frente ao computador. Logo, não tenho alternativa ao bom e velho papel.
A pergunta não era parva, quem soubesse a ordem dos planetas no sistema solar sabia responder. Da terra a urano só se passava por uma das hipóteses dadas.
Eu pessoalmente ficaria perdido se não fosse de resposta múltipla, já que o caminho mais curto poderia não passar por nenhum planeta, devido às posições dos mesmos durante as suas órbitas (poderiam estar do outro lado do sol quando se cruzasse as suas órbitas). Ou seja, conhecimentos a mais poderiam estragar a possibilidade de responder acertadamente.