Se há coisa de que os livros não gostam – para além das labaredas que muitos stocks esquecidos em armazém acabam por conhecer – é de chuva e humidade. Também por isso é de louvar que a organização da Feira do Livro de Lisboa tenha percebido, após vários anos a insistir com o arranque do certame ainda em Abril e a prolongá-lo só até meados de Maio, que talvez a coisa corra melhor mais perto do Verão (nem sempre o óbvio é evidente, como se vê). Na única ocasião em que me desloquei à Feira no ano passado, o cenário era desolador: pouca gente no parque, bancas envolvidas em plástico, livros humedecidos, e uma carga de água das antigas. Já este ano, o inverso: duas vezes até ao momento, sempre com sol. Muito sol e muito calor, como apetece.
Os livros agradecem. E eu também, mesmo sendo mais dado às estações frias.
Livres das coberturas baças de plástico, os livros ganham protagonismo – como facilmente se vê na banca colorida da Tinta-da-China, que em termos de capas faz (ou devia fazer) todas as outras editoras presentes corarem de vergonha com as suas stock photos indistinguíveis e ilustrações de gosto duvidoso. A aposta – quase teimosia – da editora num design simples mas elegante para as capas dos seus livros é louvável – e se não compro lá nada, vontade não falta. Depois há as quintas particulares da Leya e da Porto Editora (os “latifúndios” a que o Pedro aludia ali abaixo, num comentário certeiro), fechadas sobre si mesmas como se fossem (e são) feiras dentro da Feira. Passo por lá de fugida – abomino o ambiente de centro comercial que se gera ali em pleno Parque Eduardo VII, ao qual não faltam os alarmes de entrada e saída; pelo caminho, encontro entre os descontos quatro exemplares perdidos da velha colecção policial, de capa preta – exilados do armazém, decerto fugidos à incineradora que consumiu os seus parentes azuis. Mas não me detenho, nem na secção de banda desenhada da Asa – convidativa, decerto, mas com preços pela hora da morte (namoro um tomo do Bilal há anos, mas o preço, o preço). Se bem que, no que aos preços diz respeito, os nossos mastodontes editoriais não estão sozinhos – não fossem os caixotes de refugo e fundos de armazém que várias editoras arrumam ao lado das respectivas bancas e a minha carteira só se abriria para café e água.
Mas vale-nos a nós, leitores apertados, o refugo editorial, as edições em segunda mão, as obras esquecidas; e se nos alfarrabistas (onde resisto à tentação de completar por fim a minha colecção de Astérix) a procura por alguns volumes mais raros se revela impossível, já nos caixotes da Devir – cujas capas ilustradas de comics norte-americanos e graphic novels de referência serão talvez as únicas a competir com as cores da Tinta-da-China – encontram-se alguns tesouros em saldo. E porque o tempo não é de desperdiçar nem tesouros nem saldos, não resisto a trazer por menos de metade do preço o décimo-segundo volume de The Walking Dead, a banda desenhada do momento, apesar de a minha colecção pessoal (construída devagarinho ao longo dos últimos dois anos e meio) ainda só ir no nono paperback. A ler no futuro, quando as promoções ou as finanças permitirem comprar os dois entretantos. E o tesouro maior: Hellblazer: All His Engines, na edição portuguesa da Devir desta aventura singular do célebre exorcista britânico John Constantine, criado nos anos 80 por Alan Moore, Steve Bissette e Jamie Delano (com inspiração em Sting) para a DC Comics. Uma graphic novel que procurava há anos a um preço razoável (o último exemplar que passara pelas minhas mãos, há meses, custava 30 euros), ali, esquecida no caixote ao sol. Ainda não chegou à estante; para já, o lugar de banda desenhada de mesa de cabeceira pertence-lhe.
Para trás fica a minha curta lista de compras para a Feira, improvável salvo milagre de promoção fortuita. Mas se mais nada trouxer do Parque, já me dou por satisfeito.
(fora do texto, mas a merecer destaque: foi um prazer encontrar o nosso Pedro na cadeira de autor)


O prazer foi meu, João. Se há coisa de que gosto é de surpresas. Agradáveis, como esta foi.
Já estava tudo planeado. Foi uma bela tarde, sem dúvida.
Tem bom gosto, sim senhor!
Essa Hellblazer já a tenho há uns anos, valeu bem a pena. Por agora, e certamente mais uns tempos, a BD de cabeceira pertence ao Sandman.
Sandman já lá passou há umas semanas, o primeiro volume (“Preludes & Nocturnes”). Excepcional.