O joelho


Teresa Ribeiro,

Maria Alice caiu, bateu com o joelho e ficou lesionada. O médico assegurou-lhe que no mínimo teria de ficar em casa duas semanas com a perna estendida, o suficiente para ter de desistir daquele trabalho que lhe ia pagar as contas. Mas que azar!, pensou, com todas as fibras do corpo. Essa intensidade vinda do fundo de si foi como uma onda que a mergulhou por momentos na tepidez da autocomiseração. Mas habituada que estava a não dar tréguas ao que lhe irrompia do peito, depressa passou aquele acesso depressivo pelo crivo da auto-análise.

Será azar bater com o joelho e ficar impedida de trabalhar sem direito a baixa porque não tenho contrato, o que também é um grande azar, ou uma sorte não cair de cada vez que podia ter caído e não caí?

À medida que se ia interrogando sobre o papel da sorte e do azar na sua vida Maria Alice sentiu crescer como uma erva daninha um sentimento de perda que lhe baralhou as ideias e impediu de definir com convicção qual a atitude a tomar perante aquela calamidade – era uma calamidade, porra! – a que, se fosse uma pessoa forte, só deveria chamar contratempo.

Por instinto relanceou os olhos para a estante. Onde é que o tinha posto? Aquele livro é que explica bem o que se deve sentir nestes casos.

2 comentários em “O joelho”

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *