Na falta de um ciclo mais completo que permita às gerações mais novas (e velhas) ver no grande ecrã os clássicos de um dos maiores realizadores que o cinema já conheceu, temos de nos contentar com as migalhas que vão caindo aqui e ali. Há três anos – parece que foi ontem – caiu uma, quando Kubrick regressou finalmente a algumas salas de cinema portuguesas com o assombroso 2001: A Space Odyssey (ver a sequência da Stargate na segunda fila daquela sala enorme no El Corte Inglés será sempre uma das memórias mais marcantes que o cinema me deu). E a partir da próxima Quinta-feira cairá outra, quando o Cinema Ideal começar a passar, até meados de Agosto, a mais recente versão digital restaurada de Barry Lyndon, assinalando as quatro décadas do clássico de época que terá talvez ficado mais famoso pelo virtuosismo técnico de Kubrick (a célebre história das lentes equivalentes às usadas pela NASA). Sim, o virtuosismo é evidente em cada fotograma, autênticos quadros que Kubrick pintou na película – mas a história da ascensão e da queda do Redmond Barry que imortalizou Ryan O’Neal não lhe fica atrás. É uma oportunidade única para ver ou rever.
Ouvi muita gente dizer que um Europeu de Futebol alargado a mais equipas – com a qualificação a abrir portas a selecções que em circunstâncias normais (o que quer que isso signifique) não chegariam à fase final – iria tornar o torneio num “passeio” para as equipas maiores, que teriam pela frente adversários teoricamente mais fracos. Entretanto, desde que o Europeu começou vimos a Croácia a classificar-se em primeiro num grupo com a Espanha e a República Checa; Gales a ultrapassar a Espanha e a Rússia; a Islândia e a Hungria a empurrarem Portugal para o terceiro lugar do grupo que todos diziam ser o mais fácil. E a coisa não acabou aí: nos oitavos de final vimos a Islândia a eliminar a Inglaterra e – hoje mesmo – Gales a mandar a favorita Bélgica para casa (e, enfim, temos visto Portugal a tropeçar até à meia-final, uma proeza que parece desafiar vários princípios da física, da biologia e, enfim, da sorte em geral). Não sei o que pensam agora aqueles que diziam que as equipas pequenas enfraqueciam a competição; sei, sim, que tenho gostado mesmo muito de ver as equipas pequenas a fazerem jogos espantosos e a alcançarem resultados inimagináveis há um mês.
(agora é torcer para que a Islândia, certamente a jogar contra duas equipas, consiga a proeza de eliminar a França.)
Na memória televisiva da minha infância ficarão sempre os filmes de Bud Spencer e Terence Hill – divertidíssimos no seu exagero e na química entre a dupla de italianos com nome artístico “à Hollywood”. Carlo Pedersoli, imortalizado como Bud Spencer, morreu hoje aos 86 anos. A pouco e pouco, o mundo fica mesmo menos divertido.
Na RTP, promove-se a partida entre a Inglaterra e a Islândia a dizer algo do género (cito de memória): “afinal, a Inglaterra não quer sair do Euro, mas a Islândia é a favor do Brexit.” Há dias, durante o jogo que opôs as selecções da Rússia e de Gales, um dos comentadores contou a história de uma actriz pornográfica que teria oferecido a um dos jogadores russos 16 horas de sexo se ele marcasse aos galeses (não marcou, evidentemente, o que só torna a cuscovilhice mais divertida). No mesmo jogo, perante a imagem de um adepto de Gales a chorar, comentou-se que ele (o adepto) ou estaria emocionado pela prestação da equipa, ou talvez tivesse apenas constatado que já não tinha trocos para a cerveja. E estes nem foram casos isolados: nos trechos promocionais dos jogos que transmite têm imperado os trocadilhos (muito secos, admita-se, mas ainda assim), as alusões humorísticas a algum contexto da actualidade, e os comentários durante as partidas têm sido marcados por inúmeras piadas e referências no mínimo invulgares às equipas, aos jogadores, aos treinadores, aos adeptos ou a outra coisa qualquer que passe pela cabeça dos comentadores de serviço.
É impressão minha, ou isto do europeu de futebol deu a volta ao miolo da emissora pública? Enfim, se deu, então já não era sem tempo, como se costuma dizer. Nestes dias tão sisudos é salutar ver a RTP a sair da casca e a adquirir sentido de humor. Esperemos que seja para manter, e que não se resuma a um epifenómeno suscitado por um torneio de futebol.
Contaram-me o episódio cedo, mas só há pouco vi as imagens de Cristiano Ronaldo a tirar o microfone da mão do jornalista da Correio da Manhã TV e a atirá-lo para um lago (ao microfone, não ao jornalista). Ligo o computador e, nas poucas redes sociais que frequento, vejo gente a delirar com o acto do capitão da selecção portuguesa. Que foi bem feito (perante tão atrevida pergunta: Ronaldo, preparado para este jogo hoje?). Que a CMTV merece isso e pior. Que mesmo bom seria ver Ronaldo a atirar todos os microfones da CMTV para a água. Que o Correio da Manhã “comete crimes todos os dias” (a sério). E o meu facebook é muito restrito; nem faço ideia do que se andará a dizer nos twitters, nos comentários do youtube ou das notícias dos jornais online.
Lembra-me aquela ocasião em que tanta gente aplaudiu de pé Marinho e Pinto pela “repreensão” a Manuela Moura Guedes há uns anos na TVI. Porque a emissora de Queluz praticava um mau jornalismo, porque Moura Guedes era agressiva, porque – pecado capital! – tinha “opiniões” (só os mais distraídos terão ficado surpreendidos quando o herói de tanta gente naquela noite acabou por se revelar num demagogo de primeira ordem, felizmente reduzido à sua irrelevância numa eleição recente).
Seria decerto interessante saber quantos destes maduros que hoje aplaudem Cristiano Ronaldo pelo arremesso do microfone também aplaudiram Marinho e Pinto naquela ocasião. Mas mais interessante ainda seria saber quantos dos que hoje verberam um jornal e um canal de televisão nas redes sociais foram “Charlie” nas mesmas redes sociais, manifestando-se pela liberdade de imprensa e de expressão perante um ataque atroz a ambas. É que são justamente estas liberdades que, afinal, defendem de forma tão cínica como selectiva: se for aquilo que consideram ser “bom jornalismo” (e isto é tão subjectivo!), deve ser protegido de tudo e de todos; já se for mau jornalismo, merece ser silenciado por demagogos e futebolistas, merece escárnio na irrelevância dos púlpitos virtuais, merece uma extinção que só peca por tardia. Sem perceberem que a liberdade de imprensa abrange tanto tablóides como os ditos “jornais de referência”, ou que a liberdade de expressão não é compatível com os humores variáveis das trincheiras onde toda a gente se enfia em fúria hoje em dia: é aceitarmos ouvir palavras com que concordamos e palavras das quais discordamos.
No fundo, sem perceberem que só dão força àqueles que mais desprezam estas e outras liberdades.
Diziam as más-línguas que a equipa enviada por Portugal ao Euro 2016 era a selecção do empresário Jorge Mendes. Nada mais falso. Como se viu por estes dois jogos, esta é antes a selecção da Portucel.
À hora a que escrevo estamos a pouco mais de cinco horas do jogo de Portugal contra a Islândia no Euro 2016, e eu já estou fartinho, fartinho de ouvir falar na selecção.
Pergunto-me se nos outros países (na Islândia, por exemplo) também é assim: o patriotismo alarve, tão ruidoso como inconsequente; os directos televisivos inanes, mal preparados (há pouco, enquanto almoçava, ouvi uma jornalista dizer que a selecção islandesa “estreava-se pela primeira vez num Europeu”), a entrar em restaurantes e talhos e salões de cabeleireiras para mostrar coisa nenhuma, a “entrevistar” quem nada tem para dizer (porque não há nada para dizer!), a ocupar tempo de antena com barulho que disfarça o vazio absoluto. A comunicação social a embandeirar em arco quem, afinal, nunca ganhou coisa alguma. Que comece rápido, e que acabe depressa.
Durante muitos anos, a Pousada de Santa Clara terá talvez sido o único bastião do escasso turismo que se aventurava para o interior de Odemira (entenda-se aqui por interior tudo o que fica para lá do parque natural do sudoeste alentejano, que chega quase à própria vila). Eram outros tempos: o turismo rural ainda não tinha virado moda, e a ASAE ainda não tinha aniquilado a restauração local ao inviabilizar a gastronomia assente na caça e na pesca da região – se hoje não temos um restaurante digno desse nome em todo o interior do concelho, tempos houve em que as caldeiradas de achigã tinham fama suficiente para levar lá gente de bastante longe. Enfim, os preços proibitivos para os habitantes locais, o declínio das Pousadas de Portugal e a progressiva desertificação da região – a aldeia de Santa Clara é hoje uma sombra daquilo que era há vinte anos – acabaram por levar ao abandono da Pousada. Ficou apenas a sua vista espantosa para a barragem e para a serrania envolvente (a foto não é minha, note-se), e a interrogação permanente sobre aquilo que seria necessário para que uma terra com tanto para dar pudesse aproveitar o turismo da moda.
Não sei se alguém já encontrou resposta para esta pergunta, mas a verdade é que após vários anos abandonada, parece que a Pousada de Santa Clara vai finalmente reabrir. Não sei se por iniciativa pública, privada, ou um misto das duas. Não sei se com gerência local ou com forasteiros (não é relevante). Não sei se com os preços exorbitantes de outrora ou se com uma oferta mais convidativa para quem quiser simplesmente subir a colina, tomar um café e apreciar a beleza daquele interior alentejano, ao mesmo tempo tão próximo e tão distante da costa. Mas, a fazer fé nas ofertas de emprego da zona, sei que a parvidade de Lisboa e do Al(l)garve já chegou aos montes que anunciam a norte o início da Serra de Monchique. Não podendo por algum motivo manter a designação de “pousada”, a nova gerência podia ter optado por um dos vários sinónimos que a língua portuguesa oferece: estalagem, albergue, hospedaria. Mas não: como não podia deixar de ser, parece que a antiga Pousada de Santa Clara irá abrir com o mui lusitano nome de Santa Clara Country Hotel. O progresso até pode não chegar à minha Sabóia, à vizinha Santa Clara, e às outras aldeias da região; mas o provincianismo de importação lesboeta, esse, não falha.
É muito provável que os nossos filhos e netos olhem um dia para os filmes e para as séries dos anos 80 e pensem: aquela gente era louca. Olhando nós para trás, não admira: perante o mundo cada vez mais entricheirado, mais intolerante, mais politicamente correcto e mais mal humorado, o atrevimento e a irreverência daquela década não tão distante quanto isso parece quase remetê-la para os confins longínquos da História. Não tenhamos ilusões: muitas produções dos eighties não chegariam hoje à pré-produção, pela certeza de que iriam ferir susceptibilidades num mundo onde o humor mais atrevido se tornou numa espécie em vias de extinção.
A série que vos trago hoje não teria qualquer hipótese de passar pelo politicamente correcto deste ano da graça, mas com muito pouca graça, de 2016: Sledge Hammer!. Numa época em um espirro vai ofender um ou outro grupo, as tropelias do polícia violento, misógino, e machista interpretado de forma inspirada por David Rasche iriam fazer a Internet – o palco de todas as indignações contemporâneas – esgotar o stock de forquilhas e archotes virtuais. Pouco importaria que a série fosse uma sátira especialmente bem conseguida ao Dirty Harry de Clint Eastwood e à tradição de bad cop dos anos 70. Pouco importaria que o registo propositadamente exagerado dos episósios em momento algum permitisse dar alguma seriedade às tiradas do inspector Sledge Hammer. Para as brigadas da indignação selectiva, nada daquilo seria admissível.
Para mim e para o meu melhor amigo de infância, Sledge Hammer! não só era admissível como era uma delícia. É claro que não compreendíamos a sátira da série (nem teríamos as referências para tal), mas nem por isso deixávamos de nos divertir imenso com aquele humor deadpan, a ver Sledge Hammer desenrascar-se apesar da sua inusitada incompetência, a causar enxaquecas ao inesquecível Capitão Trunk e a safar-se de sarilhos diversos graças à determinação da sua segunda parceira Dori Doreau (a primeira, como se sabe, era a Magnum de calibre .44 pela qual Sledge Hammer seria capaz de colocar as mãos no fogo).
À distância destes anos, já não me consigo recordar qual era a minha idade exacta quando descobri Sledge Hammer!, ou em que canal a série passou (provavelmente na RTP, mas talvez já tenha sido na SIC daqueles primeiros e revolucionários anos). Mas lembro-me de vê-la, e da marca indelével que deixou: as imagens perduraram na minha memória, mesmo quando durante anos tentei, sem sucesso, recordar-me do título daquela série com o polícia maluco que falava com a Magnum. Enfim, maravilhas da Internet: o título foi recuperado e a série foi revista. Continua exagerada, atrevida e muito, muito divertida. E, ironia das ironias: ainda que seja profundamente filha do seu tempo e impossível de ser concebida noutra época que não nos anos 80, talvez a sua sátira seja mais actual e pertinente hoje, trinta anos volvidos, neste novo e estranho milénio.
A ideia de se criar um museu dedicado às notícias e à comunicação social é muito interessante e oportuna. A escolha de Sintra para instalar o museu é acertadíssima. A decisão de dar ao dito o nome de “News Museum” é tão infeliz e tão imbecil como as ideias peregrinas do Allgarve e da Lisbon South Bay. Não há globalização, viagens low cost, internet de banda larga, televisão por cabo com centenas de canais estrangeiros e livrarias online que nos valham: continuamos tão pequeninos e tão provincianos.
A história dos Panama Papers promete ser longa (até porque por cá o Expresso e a TVI parecem querer fazer render o peixe enquanto a montanha dá à luz uma ninhada de ratos), sinuosa e particularmente dada à demagogia – o assunto será decerto mais complexo para as perspectivas a preto e branco da maioria dos paineleiros e tudólogos da televisão portuguesa. Claro que noções de complexidade e de nuance são coisas que pelos vistos escapam à TVI, aparentemente determinada em falar do caso nos mesmos moldes, mas com linguagem menos refinada, dos programas de comentário futebolístico que infestam os três canais de notícias do cabo. Faz lembrar aquela bela expressão inglesa: if you can’t dazzle them with brilliance, baffle them with bullshit. É mesmo a única explicação que encontro para a emissora de Queluz se ter lembrado, para comentar o caso em horário nobre, de Marinho Pinto e Raquel Varela.
Depois do momento “agarrem-me se não eu vou-me a eles” no Facebook (a internet é mesmo o palco de todos os trolls) e do pedido de desculpas tão desastrado como fanfarrão, só restava mesmo a João Soares sair do governo pela porta pequena. De resto, nem passaria por outra. Não tendo a educação de um Carlos da Maia ou o génio de um João da Ega, só lhe restaria mesmo ser o Dâmaso Salcede destes tempos curiosos em que vivemos. Um papel que, diga-se de passagem, serve muito melhor as suas competências do que o de ministro da cultura.
Foram os próprios irmãos Strugatsky os autores do guião para a adaptação do seu romance de 1972, que estaria na base de mais uma obra-prima do mestre russo. Um primeiro contacto conturbado, Zonas de exclusão onde as leis da Física não se aplicam e que só os stalkers sabem percorrer com um mínimo de segurança, um lugar lendário onde os mais íntimos desejos se podem tornar realidade – como se os Strugatsky e Tarkovsky quisessem demonstrar ser possível escrever duas histórias diametralmente opostas a partir da mesma premissa e dos mesmos elementos. Entre a aventura trágica do romance e a expedição filosófica do filme, é-me difícil escolher a melhor.
Andrei Tarkovsky tem estado em retrospectiva desde Fevereiro no Cinema Nimas, em Lisboa. O que significou hoje uma oportunidade única de rever no grande ecrã um dos clássicos maiores do cinema de ficção científica: Solaris, de 1972, adaptado do romance homónimo do polaco Stanislaw Lem. Que, numa meditação sobre a memória, a experiência de vida e o arrependimento, toca num tema fascinante: a improbabilidade da comunicação, no caso entre seres humanos e alguma forma de inteligência alienígena que, não sendo humanóide, poderá bem ser incompreensível (a ficção científica, e sobretudo o cinema, está repleta de alienígenas em forma humana; quando o primeiro contacto finalmente acontecer, é muito provável que venhamos todos a constatar que Lem esteve mais perto da realidade do que a maior parte dos seus pares).
Tivesse eu já lido o livro – está na lista de próximos a comprar há anos – e aventurava-me num breve spin-offda excelente série que o Pedro tem mantido aqui no Delito (bem sei como estou a precisar de algo que me faça voltar a escrever com regularidade). Talvez me atreva para a semana, ainda a propósito de Tarkovsky, se conseguir finalmente ver o outro filme de ficção científica do mestre russo: Stalker, de 1979, que adaptou para o grande ecrã um romance notável dos irmãos Boris e Arkady Strugatsky, Roadside Picnic.
Nos dias que correm é-me um tanto ou quanto difícil escolher um blogue para esta rubrica – não por ler muitos, como fiz em tempos, mas por ler poucos, quase sempre os mesmos, e quase todos já aqui recomendados (por mais que mereçam a insistência). Enfim, faz-se uma pequena batota e deixa-se como sugestão um passeio pelos webcomics. Não deixa de ser curioso que numa época em que a banda desenhada portuguesa está em franco ressurgimento não sejam conhecidos mais webcomics de autores nacionais. Talvez isto mude. Entretanto, as duas sugestões remetem os leitores para o outro lado do Atlântico. A primeira, também já aqui recomendada há algum tempo, é o muito geek e muito divertido Bug Martini, de Adam Huber – a minha tira diária preferida há já alguns anos. O segundo é o Pearls Before Swine, de Stephan Pastis – que em meados do ano passado teve o privilégio único de ter três tiras desenhadas pelo maior e mais recluso mestre que o formato já conheceu, Bill Watterson (aqui, aqui e aqui – como se viu, o homem não perdeu o jeito nestes vinte anos). Recomendo a visita e um passeio pelos arquivos, onde decerto se poderão encontrar algumas boas gargalhadas para animar este Outono chuvoso.
As épocas de eleições fazem-me sempre regressar às páginas de Astérix e o Presente de César, quando o vetusto Abraracourcix (continuo a usar os nomes que conheci nas traduções da Meribérica) e o recém-chegado Ortopedix se enfrentam em campanha eleitoral pela liderança dos irredutíveis gauleses. E esse regresso chega sempre a estas três vinhetas, e ao cinismo tão certeiro de Ortopedix: os números dizem o que quisermos. Como, aliás, a esquerda cá da paróquia tanto se tem esforçado por demonstrar desde Domingo último, quando se confirmaram os resultados eleitorais que as sondagens vinham anunciando.
A interpretação é lógica – retorcida, mas lógica. Como a coligação PSD-CDS perdeu a maioria absoluta e o Parlamento tem agora uma maioria de esquerda (de várias esquerdas, mas tais diferenças foram reduzidas à condição de pormenores, pelos vistos), deve ser essa maioria de esquerda a formar Governo – apesar de nenhum desses partidos, por si (já que não se apresentaram a eleições coligados – outro pormenor), ter ganho as eleições. Ainda que a Constituição possa dar legitimidade ao caldo, dificilmente os portugueses o dariam (mais um pormenor). Já o argumento, esse, é hilariante: 61,4% dos eleitores rejeitou um Governo da coligação, pelo que deve ser a Esquerda unida – derrotada em separado – que deve governar.
É uma lógica interessante, e que permite algumas interpretações não menos interessantes. Como, por exemplo:
67,6% dos eleitores portugueses não quis que o PS fosse Governo;
89,8% dos eleitores portugueses não quis o Bloco de Esquerda no Governo;
91.7% dos eleitores portugueses não quis a CDU no Governo
81.5% dos eleitores portugueses não quis o Bloco de Esquerda e a CDU no Governo.
Dito de outra forma: a mesma lógica que os partidos da esquerda utilizam para dar a coligação de direita como derrotada nas eleições pode muito bem servir para rejeitar a solução por eles proposta. É caso para regressarmos a Ortopedix: os números dizem mesmo o que quisermos.
Durante anos, Domingo de eleições foi sinónimo de fim-de-semana de viagem até à terra-natal. Para visitar a família, para rever os amigos, para voltar a caminhar pelas ruas da aldeia que sempre conhecerei tão bem. E, claro, para votar. Não por me sentir na obrigação de o fazer (o discurso moralista que trata quem se abstém – seja por que motivo for – como se fossem idiotas irresponsáveis irrita-me como poucos), mas por querer simplesmente fazê-lo. Por considerar importante fazê-lo. E por tudo isso, ao longo de doze anos fiz os quatrocentos quilómetros (mais coisa, menos coisa) para ir à terra, botar a cruz no boletim, e voltar (carregado de batatas e de vitualhas diversas, claro). Julgo que falhei umas Europeias, por qualquer motivo. Mas não perdi Legislativas, não faltei a Presidenciais, e, claro, nunca me passou pela cabeça não contribuir para a escolhas da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal nas Autárquicas (mesmo que no Alentejo o meu voto pouco pudesse fazer).
Este ano foi diferente. Os trinta anos pareceram-me uma boa idade para finalmente mudar a minha área de residência oficial (leia-se: no cartão do cidadão) para Lisboa, onde tenho vivido nos últimos doze. E por isso já não apanhei o último Intercidades de Sexta-feira; neste Domingo chuvoso já não subi a avenida da aldeia, já não entrei no recinto da minha velha escola primária, e já não entrei naquela sala colorida de papel de lustro e aguarelas (os miúdos da primária ainda fazem trabalhos manuais?) para escolher aquele que julgo ser o mal menor para o país nos quatro anos que se seguem. Já não volto ao fim do dia de hoje carregado de vitualhas. Este ano o voto foi numa escola em Benfica, maior do que todas as escolas do meu concelho juntas. O ambiente, esse, era de feira – carrinho de castanhas de um lado do portão, banca de bolos sortidos do outro, barraca de churros e farturas do outro lado da rua parcialmente bloqueada por carros estacionados em segunda fila (ah, o lisboeta, sempre artista na hora de encostar o carro). Muita gente a entrar, a sair, a ficar por ali – gente mais do que suficiente para encher a minha aldeia duas ou três vezes.
É mais simples, mais prático, muitíssimo mais conveniente – cinco minutos de autocarro para lá, e para cá até se pode voltar a pé se não chover demasiado. Mas não consegui evitar a sensação de que me faltou qualquer coisa hoje. Como se antes o dia de eleições fosse pretexto para uma romaria, doravante reduzida a um passeio pelo bairro.