Durante muitos anos, a Pousada de Santa Clara terá talvez sido o único bastião do escasso turismo que se aventurava para o interior de Odemira (entenda-se aqui por interior tudo o que fica para lá do parque natural do sudoeste alentejano, que chega quase à própria vila). Eram outros tempos: o turismo rural ainda não tinha virado moda, e a ASAE ainda não tinha aniquilado a restauração local ao inviabilizar a gastronomia assente na caça e na pesca da região – se hoje não temos um restaurante digno desse nome em todo o interior do concelho, tempos houve em que as caldeiradas de achigã tinham fama suficiente para levar lá gente de bastante longe. Enfim, os preços proibitivos para os habitantes locais, o declínio das Pousadas de Portugal e a progressiva desertificação da região – a aldeia de Santa Clara é hoje uma sombra daquilo que era há vinte anos – acabaram por levar ao abandono da Pousada. Ficou apenas a sua vista espantosa para a barragem e para a serrania envolvente (a foto não é minha, note-se), e a interrogação permanente sobre aquilo que seria necessário para que uma terra com tanto para dar pudesse aproveitar o turismo da moda.
Não sei se alguém já encontrou resposta para esta pergunta, mas a verdade é que após vários anos abandonada, parece que a Pousada de Santa Clara vai finalmente reabrir. Não sei se por iniciativa pública, privada, ou um misto das duas. Não sei se com gerência local ou com forasteiros (não é relevante). Não sei se com os preços exorbitantes de outrora ou se com uma oferta mais convidativa para quem quiser simplesmente subir a colina, tomar um café e apreciar a beleza daquele interior alentejano, ao mesmo tempo tão próximo e tão distante da costa. Mas, a fazer fé nas ofertas de emprego da zona, sei que a parvidade de Lisboa e do Al(l)garve já chegou aos montes que anunciam a norte o início da Serra de Monchique. Não podendo por algum motivo manter a designação de “pousada”, a nova gerência podia ter optado por um dos vários sinónimos que a língua portuguesa oferece: estalagem, albergue, hospedaria. Mas não: como não podia deixar de ser, parece que a antiga Pousada de Santa Clara irá abrir com o mui lusitano nome de Santa Clara Country Hotel. O progresso até pode não chegar à minha Sabóia, à vizinha Santa Clara, e às outras aldeias da região; mas o provincianismo de importação lesboeta, esse, não falha.


Muito bem focado, quer a imagem quer o texto.
Agradeço-lhe pelo texto; já com o crédito da fotografia não posso ficar.
A familia pestana rebentou com as Pousadas de Portugal. Passaram a ser consideradas máquinas de fazer dinheiro. Acabaram com do Castelo do Bode, com a de Serpa e com esta (pelo menos).
Muitas vezes, vindo de vários pontos do Algarve, subia a Monchique e atravessava a serra até chegar a Santa Clara. O dia era ali passado. Boas banhocas, bom almoço na Pousada. Ver o comboio passar em Sta. Clara. Enfim, coisas boas que acabaram. Pelo nome que diz vai ser caríssima…
No que diz respeito aos preços, tem toda a razão: o nome não augura nada de bom.
As banhocas na barragem já são tradição local. Nunca entendi muito bem como nunca ocorreu a ninguém fazer ali uma praia fluvial (ou melhor: consta que até ocorreu, mas que a associação de rega do Mira sempre bloqueou a coisa. Não faço ideia se é verdade; mas lá que a praia nunca se fez…).
Excelente texto, João. Vais direito ao osso do provincianismo tuga, que torna ‘amaricano’ tudo em quanto toca. Como se a nossa língua não tivesse beleza, prestígio, tradição, história e geografia – com pelo menos 200 milhões de falantes em todos os continentes.
Esta estúpida tendência nota-se desde logo na forma como tanta gente – incluindo entidades oficiais – se apressa a adulterar o nome da nossa capital, passando a escrever ‘Lisbon’. Como se algum estrangeiro, por maior bronco que seja, não entenda o que significa Lisboa – cidade que existe há muito mais séculos do que Washington ou Chicago.
Não aprendem esses imbecis sequer com os brasileiros, cultores e guardiães do idioma comum: alguma vez passaria pela cabeça de um carioca chamar River of January à sua capital estadual?
Quanto ao hotel agora reaberto, uma nota pessoal. Passei uma inesquecível semana de férias de Verão no final da década de 90 na Pousada de Santa Clara. Guardo para sempre as imagens de deslumbramento que acumulei nessas férias, com incursões à Zambujeira e outras praias da região. O cenário circundante é magnífico e na altura a pousada funcionava sem reparos. Só a estrada para lá chegar deixava muito a desejar, de tão esburacada…
As estradas esburacadas já são um ex-líbris da região, Pedro. São uma tradição que a Câmara de Odemira muito estima no interior, zona na qual as estradas só têm remendos em época de eleições.
Extracto da canção “”Barbaros em “Passerelle”” de Fausto Bordalo Dias do álbum “A Ópera Mágica do Cantor Maldito” de 2003.
e por falar em português
o “flash back” é amanhã
o “sponsor” do artista no “casting” da cortesâ
na de Rimbaut “en passant”
na de Cervantes era dantes
na de Camões p’ra depois
valha o William
se não nunca
falariamos nunca mais
jamais
no “ranking” de culturas
império
“shooting room”
em lingua pura
e em vez das quatro
um
e melhor seria
um outro “boom”
via “e-mail”
e vez do “bug”
bedum
Da mesma forma que aniquilou a restauração da zona, aniquilou também uma série de destilarias artesanais de medronho, destruindo uma micro actividade económica cujos intervenientes eram pessoas idosas e de parcos recursos, levando algumas delas ao suicídio. A razão? Será que por Santa Clara orgulhosamente ostentar toponimicamente o nome do Dr. Oliveira Salazar?
Voltando aos anglicismos. Passei hoje por uma das praias da Caparica. Lá estava no areal uma carrinha de caixa aberta, com uns apetrechos que deduzi serem utilizados no salvamento de vidas. Na parte de trás da carroçaria as palavras LIFE GUARD. Haverá alguma regra nacional ou internacional que obrigue a instituição que regula este sector a utilizar a língua inglesa como forma de comunicação?
Lembro-me muito bem de ouvir algumas histórias macabras daqueles primeiros anos mais agressivos da ASAE. Nunca percebi a sanha contra os produtores de medronho no interior de Odemira e na Serra de Monchique: não só a aguardente era (é) excelente, como a maioria dos produtores, como diz, eram pessoas de reformas baixíssimas e recursos mesmo muito limitados.
Isso da toponímia orgulhosa tem que se lhe diga: se não me falha a memória não teve o nome de Salazar, mas de Marcello Caetano. A verdade é que nunca ouvi ninguém na região referir-se-lhe por esse nome; para novos ou velhos, sempre foi a Barragem de Santa Clara.
Os anglicismos são uma praga. Santa Clara Country Hotel, Lisbon South Bay, News Museum… está tudo parvo, é o que é.
Caro João, não me referia ao nome da barragem, mas sim a uma rua ou largo, não sei precisar, na aldeia de Santa Clara que tem o nome de Dr. António de Oliveira Salazar.
Ah. Isso já não lhe sei dizer: cresci em Sabóia, a cinco quilómetros ao lado; fui muitas vezes a Santa Clara, mas nunca prestei especial atenção à toponímia. Mas agradeço-lhe a informação, que me deixou curioso; irei investigar.
Muito bem, João. Os Allgarves alastram pelo país inteiro, qualquer dia não se encontra em Portugal uma única designação em… português.
E parabéns pelo título, que já diz tudo.
Obrigado, Ana. O título saiu bem, por acaso; escrevê-los sempre foi o meu calcanhar de Aquiles.
E sim, a parvoíce dos nomes em inglês já enjoa.
Tenho muito boas recordações desta mini Pousada e da magnífica paisagem envolvente. Fui lá algumas vezes, nos anos 80 quando trabalhava e residia em Sines: a comida era óptima e os preços acessíveis (ainda não tinham Chef).
Dava para desanuviar e esquecer o cheiro característico do complexo petroquímico.
Outras fugas maravilhosas:
Porto Côvo, Milfontes, Cabo Sardão, Zambujeira, mas deve estar tudo muito diferente agora…
🙂 Antonieta
Estará diferente, certamente, mas em alguns casos para melhor. Um exemplo: se há vinte anos dissesse na Zambujeira do Mar que um dia aquela praia teria bandeira azul, quem a ouvisse desmanchar-se-ia a rir enquanto apontava para ribeira que desagua na praia, pela qual corria um esgoto a céu aberto (chamávamos-lhe o “rio mijo”, veja lá – e não, não era hipérbole), ou para as rochas cobertas de alcatrão (numa ocasião tive de voltar para casa com as mãos cobertas de alcatrão, sem tocar em nada no carro, até o meu pai poder tirar gasolina da motorizada para se conseguir tirar aquilo da pele). Vinte anos volvidos e uma ETAR decente construída, e a Zambujeira está a par do Almograve e das Furnas (Milfontes sempre foi o nosso mini-Algarve, nada a fazer – ainda que a praia seja óptima, e a foz do Mira lindíssima).
Mas é claro, falo da costa. No interior onde cresci, e onde ficava a antiga Pousada, está tudo muito pior do que há duas décadas. A única benesse que a região teve foi uma paragem do Intercidades.
Essa cena do alcatrão aconteceu-me em S. Torpes, fiquei com os ténis e os jeans completamente estragados: nunca mais lá pus os pés.
A praia de Sines também era uma desgraça, sujíssima, embora linda vista da janela do meu apartamento: um autêntico mar de prata nas noites de luar.
O litoral mudou para melhor, pena o interior ser sempre o eterno esquecido.
Foi bom recordar…
🙂 Antonieta
O interior é o deserto. O poder político só se lembra da região quando se aproxima o pêndulo do calendário eleitoral. Depois é para esquecer. Após as cheias de 97, a estrada que liga Sabóia à Boavista dos Pinheiros foi arranjada em duas vagas, sempre ao sabor das eleições (houve uma altura em que já estávamos havia anos no euro, e o cartaz à saída da aldeia ainda tinha o orçamento da obra em escudos…). Enfim, é o que temos.
A ver se vou trazendo mais recordações 🙂