Muito se tem falado sobre o Congresso do PSD. Não o acompanhei, confesso, mas já escrevi sobre o tema ali. No entanto, e como aqui pelo Delito se falou abundantemente do tema, e como de resto foi aprovada a rolha, permitam-me espairecer com uma das minhas divagações. Conversava há dias com amiga (não me lembro ao certo com quem foi – desculpa, miúda, não é por mal, se és minha amiga sabes que a minha memória, enfim…) sobre filmes e, a dada altura, a conversa chega aos Óscares (sim, sei que venho tarde). Diz-me ela: "ah, tu é que gostas disso dos Óscares". Esclareço: não se trata de gostar ou de deixar de gostar, passe a expressão. Os Óscares podem não ser os mais importantes prémios de cinema (não acho que existam "os" prémios mais importantes), mas são de longe os mais mediáticos, e os que mais reacções suscitam – pelo seu mediatismo, e pela forma como críticos, "especialistas", povo em geral e imbecis pseudo-intelectuais em particular falam deles. Ninguém (ou quase ninguém) discute no café os prémios de Cannes ou de Berlim, mas em inícios de Março há sempre alguém a perguntar "viste os Óscares?" Mas divago. Eu gosto dos Óscares porque gosto de cinema. Eu não gosto dos Óscares porque tenho a sensação de que raramente premeiam os realizadores, filmes e actores certos (para mim). Por exemplo, e como dizia algures há dias (preguiça de fazer hiperligação), a ficção científica nunca é premiada, ou só é premiada não quando faz algo muito bom, mas quando não há nenhum dramalhão ou nenhum filme "com mensagem" (bocejo) na corrida. No entanto, a ficção científica é talvez o género que mais faz avançar o cinema do ponto de vista técnico; e já deu ao mundo, entre outros, 2001: A Space Odyssey (o "meu" filme, o melhor filme de sempre), Alien, Aliens, Terminator (1 e 2), Blade Runner, Matrix, Star Wars, só para mencionar alguns dos melhores. O mesmo acontece na fantasia, apesar de – para grande pena minha – haver muitos poucos filmes de fantasia realmente bons. Aliás, que me lembre, há três: A Irmandade do Anel, As Duas Torres, O Regresso do Rei, e este último ganhou os (merecidíssimos) Óscares de todos os outros. Um dia destes escreverei qualquer coisa sobre o motivo (que desconheço) para a ficção científica ser em geral tão pouco apreciada, mas hoje queria escrever sobre outra coisa qualquer. Mas divago novamente. Alguém devia fazer como naquele episódio que Holden Caulfield narra em The Catcher in the Rye: sempre que eu começo a dispersar alguém na sala grita "Digression!", mas acho que não daria muito jeito por comentários. Enfim, adiante. Nunca concordo com as escolhas da Academia. Ou raramente concordo (achei, como já disse, muito justos os prémios a O Regresso do Rei). Por exemplo: há dias vi Slumdog Millionaire, o grande vencedor do ano passado. A mim, o filme pareceu-me uma banalidade com imagens catitas filmadas num estilo muito Cidade de Deus, esse, sim, um dos melhores filmes da década – e que, lá está, não ganhou sequer a estatueta de "Melhor Filme Estrangeiro". Os desempenhos são bons, sem serem extraordinários. E o enredo… bom, Avatar (que não merecia o Óscar) trouxe a moda de falar em clichés, não foi? Vê-se bem, sim, é um bom filme, mas jamais figuraria em listas de "melhores filmes". Já o prémio de "Melhor Actor" foi dado a Sean Penn pelo seu desempenho em Milk. O seu desempenho é muito bom, concordo, mas o que lhe deu o prémio foi o politicamente correcto da praxe: em termos de desempenho, o bom trabalho de Penn torna-se francamente banal se comparado com o desempenho gigante de Mickey Rourke em The Wrestler, filme que foi, de longe, o melhor de 2008. Isto, claro, se não considerarmos Gran Torino como um filme de 2008, pois ainda não percebi se o filme foi de 2008 ou de 2009. De qualquer maneira, é incompreensível como Gran Torino não foi nomeado – e vencedor – nas categorias "Melhor Filme", "Melhor Realizador", "Melhor Actor Principal" e "Melhor Argumento" (Original? Adaptado? Ajudem-me), seja em que ano for. Ou antes, só é compreensível se pensarmos que, por norma, há qualquer coisa fundamentalmente errada na Academia. Que o diga Tarantino: o homem já filmou Reservoir Dogs, já filmou Pulp Fiction (um dos melhores filmes de sempre, apesar de pessoalmente preferir o primeiro), e filmou este ano Inglourious Basterds (ainda não vi Kill Bill, desculpem, vou já flagelar-me). Com um currículo destes importa perguntar: que terá Tarantino de fazer para ganhar os prémios de "Melhor Filme" e "Melhor Realizador"? Não sei se The Hurt Locker é bom ou mau, mas vi Inglourious Basterds e, bom, como dizê-lo? Só o desempenho (obviamente premiado) de Christoph Waltz faz o filme merecer o prémio de "Melhor Filme". Acredito, pelas opiniões dos meus colegas de blogue, que The Hurt Locker seja um excelente filme, mas deixo a pergunta: dentro do género de "filme de guerra alternativo", definição extremamente duvidosa criada por mim neste preciso momento, é melhor que No Man’s Land*?
(*para quem não se lembra, No Man’s Land é um filme europeu, de Danis Tanović, que, em 2001, roubou muito justamente o Óscar de "Melhor Filme Estrangeiro" a O Fabuloso Destino de Amélie.)