Sci-Fi: os meus filmes (1)


eventhorizon,

 

15º: Avatar (James Cameron, 2009)

Inicio a série com uma escolha que sei polémica, e com um filme sobre o qual até já escrevi aqui. Mas mesmo tendo a noção de que Avatar fica, em vários aspectos, muito aquém de bem mais do que quinze filmes de ficção científica, não podia deixar de o incluir nesta lista. Por três motivos: em primeiro lugar, porque na ficção científica a experiência visual sempre teve uma grande importância, e nesse sentido, Avatar foi a mais elaborada experiência visual que o género conheceu desde Matrix; em segundo lugar, porque essa experiência visual só foi possível devido a uma considerável evolução tecnológica, que acabou por marcar um ponto de viragem não só no género em si como na indústria cinematográfica em geral – da mesma forma que considero perfeitamente válido afirmar que Matrix, para repetir o exemplo (e sem querer estar a comparar ambos os filmes, obviamente), teve um grande impacto não só na ficção científica, mas também noutros géneros (acção, para referir o mais óbvio); por fim, e numa década pouco inspirada para o cinema de ficção científica, Avatar tem o mérito de ser um bom épico espacial, daqueles que têm mesmo de ser vistos numa sala de cinema. É um filme “simples”? Sim, sem dúvida. O argumento é, de facto, simples. E isso para mim não é uma fraqueza, mas algo de positivo. Quanto às supostas “mensagens” de Cameron, não me interessam; quem, como me disse um senhor uma vez, quiser ver “cobras e lagartos” no filme, esteja à vontade, mas não conte com a minha companhia. Por vezes, gosto de assistir a um filme que seja apenas e só isso: um filme, uma obra de entretenimento. Avatar, para mim, foi exactamente isso.

 

Série: os meus filmes de ficção científica


eventhorizon,

Fiz, há um par de semanas, um exercício curioso com um dos meus melhores amigos: cada um de nós elaborou a nossa lista com aqueles que para nós são os melhores filmes de ficção científica de sempre (eu e ele temos em comum o gosto pelo género, entre outras coisas). Obtidas as listas, cruzei os resultados para determinar a nossa “lista conjunta”. O resultado foi curioso: ainda que tenhamos, entre os quinze, vários filmes em comum, e alguns com pontuações altas, sobressaíram as diferenças estéticas das nossas preferências, e, claro, a nossa experiência. O meu amigo, por exemplo, colocou na lista vários filmes japoneses de animação, alguns dos quais eu nunca sequer tinha ouvido falar (ele é fã de tudo o que vem do Japão; eu vou conhecendo, e apreciando, sobretudo pelas sugestões dele). Já eu destaquei alguns filmes que ele ou ainda não viu, ou que viu com a atenção devida (palavras dele), ou dos quais não gosta mesmo. Enfim, baseando-me nesta brincadeira, vou apresentar, a partir de amanhã e com um post por dia (tenho trabalhado nisto, está tudo escrito, que se não for assim eu nunca termino coisa alguma), a minha própria lista dos quinze melhores filmes de ficção científica*, com um pequeno comentário e algumas imagens a acompanhar. Escusado será dizer que a lista reflectirá unicamente a minha opinião sobre os filmes mencionados, e que, precisamente por a lista reflectir os meus gostos e a minha opinião, ela é altamente discutível.

História e Geografia


eventhorizon,

Regressado enfim do “fim-de-semana pascal” por terras alentejanas (e ainda sem o folar de Olhão – mas agradeço as dicas deixadas nos comentários), vejo que o país nem morreu, nem ressuscitou, mas continua mais ou menos na mesma: continua-se a malhar na Igreja, desenterra-se mais um escândalo de Sócrates (sublinhe-se: mais um), e o que já estava mau – o país, para resumir – continua a deslizar lentamente ladeira abaixo. Entretanto, leio este post de Pedro Picoito sobre a possibilidade de, no ensino básico, eliminar a “disciplina” de “Área-Projecto” (algo que nunca compreendi bem o que era), e converter as disciplinas de História e de Geografia em disciplinas anuais em semestres alternados. O que é que isto dos semestres alternados quer dizer? Que no primeiro, se estuda apenas a História, e no segundo, a Geografia? Ia dizer que isto era um perfeito disparate, que ambas as disciplinas são muito importantes, e que se no meu tempo já era possível uma aluna chegar ao décimo ano e, perante um planisfério, ser capaz de dizer, convicta, que Inglaterra ficava… na Ásia (sim, isto aconteceu na minha antiga turma), com estas disciplinas desvalorizadas os miúdos vão chegar ao Secundário sem saberem sequer onde fica Espanha. Ia dizer isto, mas prefiro ficar calado: se considerarmos o calibre das (in)competências que habitualmente se passeia pela 5 de Outubro, creio ser já uma sorte tremenda que História e Geografia, essas disciplinas antiquadas, não sejam ambas erradicadas para dar lugar a qualquer coisa esotérica sobre cidadania ou ambientalismo. Antes assim.

Pausa


eventhorizon,

Aos colegas de Delito e caríssimos leitores, desejo uma boa Páscoa. Já eu vou passar os próximos dias a reflectir sobre a minha condição de “pessoa humana” (que gargalhada, João!) num sítio onde dificilmente terei ligação à internet ou rede de telémovel: a minha aldeia no Alentejo. Não serei um “eremita da planície”, como o nosso amigo de Ourique, mas quase (e a aldeia nem é tão longe quanto isso de Ourique). Entretanto, se alguém descobrir onde se pode comprar folar de Olhão em Lisboa, por favor diga qualquer coisa, que eu agradecerei assim que voltar (é que os folares de Olhão são mesmo muito bons, e longe vão já os tempos em que eu dividia casa com um algarvio).

Este vai sem título


eventhorizon,

… porque não me ocorre nenhum título que seja adequado a esta notícia. Não tanto por causa das miúdas e da respectiva maluqueira, mas sim por causa dos pais das miúdas. Alguém quer explicar como é que se deixa adolescentes acamparem na rua em plena cidade de Lisboa durante dez dias por causa de um concerto, ou isto afinal é a coisa mais normal do mundo e eu (que não tenho filhos, nem me prestaria a tanto para ver uma banda) é que sou antiquado?

Um péssimo apoio


eventhorizon,

A verdade é que há muito tempo que o meu apoio político (se é que a minha preferência se pode designar por “apoio”, mas vamos partir do princípio de que pode, ou este post não resulta) não conhece resultados muito positivos. Em 2005, nas legislativas antecipadas, votei em Santana Lopes – ganhou José Sócrates. Em 2009, queria que Santana Lopes (uma vez mais) vencesse a corrida à câmara de Lisboa – ganhou António Costa. Preferia que Paulo Rangel tivesse ganho as directas do PSD – venceu Pedro Passos Coelho. À câmara de Odemira, a santa terrinha, votei PSD – venceu PS; na aldeia, votei CDU – venceu o PS. Nas eleições americanas, queria que tivesse ganho McCain – venceu Obama. Se isto se aplica ao futebol, então o Benfica ainda conhecerá uma hecatombe até ao final da temporada (lagarto, lagarto, lagarto); mas para já, recomendo ao PSD de Passos Coelho que faça tudo o que estiver ao seu alcance para não conquistar o meu apoio, se quer realmente chegar ao Governo. Ainda que o facto de eu não apoiar o PS também não augure nada de bom.

Sorte, sorte


eventhorizon,

Passei o fim-de-semana a hibernar, apesar do bom tempo. Nem aos blogues dediquei muita atenção. Já hoje não consigo não ler textos sobre a vitória de Passos Coelho nas directas do PSD. Sobre isso, portanto: se eu fosse militante, o meu voto não teria caído em Passos Coelho. A sua vitória parece-me porém inequívoca (sê-lo-ia mesmo que tivesse sido por uma margem menor), e há que dar os parabéns ao vencedor. Contudo, não creio que a vitória de Passos Coelho tenha inaugurado uma nova era na política portuguesa, como alguns comentadores parecem dizer. Resolveu, pelo menos por enquanto, o “problema” da liderança laranja. Mas só isso. Por isso, e para dar um exemplo, textos como este de Vasco Campilho parecem-me um tanto ou quanto prematuros. O entusiasmo eu percebo; mas, “élites” à parte, dizer “sobrepondo estes três estratos de significado, o que vemos? Um partido clarificado nas suas opções, desempoeirado nas suas ideias, modernizado nas suas estruturas, aberto à sociedade, e posicionado para a conquista de uma maioria. Fazia falta um PSD assim” logo após a vitória do novo líder é francamente exagerado. Não discuto que “faça falta” um PSD “assim”. E até pode ser que Passos Coelho venha a significar tudo aquilo para o PSD (mantenho-me céptico). Mas por enquanto, não creio que todas as “opções” estejam já “clarificadas”. Que o partido tenha as suas ideias “desempoeiradas” e as suas estruturas “modernizadas”. Que se “abra” à “sociedade”. Enfim, que conquiste uma maioria. Mas isso é o que aí vem, não o que já é dado assente; dito de outra forma, tudo isso será o trabalho de Passos Coelho daqui para a frente. Não estava a “torcer” por ele, mas desejo-lhe agora muita sorte. Vendo aquilo que o PSD tem sido nos últimos anos – uma autêntica máquina de triturar líderes -, diria que Passos Coelho vai precisar de toda a que conseguir.

O mal menor


eventhorizon,

O Filipe Nunes Vicente iniciou uma reflexão interessante aqui, e deu-lhe continuidade aqui, aqui e aqui (os comentários e os contributos externos também merecem leitura). O meu muito modesto e ingénuo contributo para a discussão:

 

1) Veria com muito bons olhos o surgimento de partidos que dispensassem a formação de “jotas”, autênticas escolinhas de formação de caciques. Não, não tenho uma imagem positiva das juventudes partidárias. Aliás, nem percebo a utilidade: ou um cidadão tem idade e discernimento para votar, e pode ser militante de um partido, ou não tem idade para votar. Caso seja maior de idade, estar no kindergarden partidário, onde esturrica em banho-maria muito para lá da idade “jovem”, é para mim uma inutilidade, para dizer o mínimo.

 

2) Não imagino, a curto-médio prazo, o surgimento de novos partidos no espectro político português. Diria que o nosso regime tem uma particularidade muito curiosa: a necessidade constante da maioria absoluta. Não temos, na nossa Assembleia, uma tradição de negociação política, nem um espírito muito aberto à coligação. Um partido em maioria relativa governa, sim, mas a prazo: nunca sabe quando a Oposição arriscará uma moção de censura, ou quando um Presidente atirará a “bomba” da dissolução parlamentar, ou mesmo quando o líder do governo minoritário decide “dar de frosques”. É governar “até ver”. Nem há negociação ou debate: há a ameaça constante da “crise política” (tem-se visto ultimamente, aliás). E depois há os tiques “cão de fila”, ou seja, a obediência cega à liderança partidária. O nosso Parlamento precisa de tudo menos de deputados aparentemente incapazes de pensar por si.

 

3) Um maior número de partidos políticos com assento parlamentar implicaria uma maior dispersão dos votos, e, dadas as peculiaridadades portuguesas, maior instabilidade política. Ninguém no PSD – “elite” ou “engrenagem do aparelho” – quer ser ingrediente nessa caldeirada. Mais vale continuar a brincar aos partidos políticos até o poder lhe voltar a cair no colo, até porque isso, mais cedo ou mais tarde, acontece. Essa é, aliás, outra particularidade do regime político português: o poder não se conquista, perde-se. No fundo, vivemos permanentemente no “mal menor”. De resto, vale a pena perguntar: no PSD, as ditas “elites” distinguem-se realmente do “aparelho”, ou precisam dele para sobreviver (leia-se: para chegar ao poder)?

Quem cala, consente


eventhorizon,

A confirmar-se a abstenção do PSD na votação do PEC – que, dizem, nem devia ter lugar -, a grande vitória cabe ao CDS, que cada vez mais se assume como “o” partido da direita portuguesa. Já o tinha demonstrado com uma boa campanha para as últimas legislativas, que lhe valeu um resultado francamente positivo. E volta a demonstrá-lo agora, ao assumir o papel de principal oposição à direita do Governo. Quanto ao PSD, se, como tudo indica, se abstiver nesta votação, está a assumir responsabilidades por mais este pequeno desastre da governação socialista. E a condicionar a actuação do próximo líder do partido, seja ele quem for. Aliás, esta “novela” da liderança social-democrata é, creio, outro “bónus laranja” oferecido ao CDS, que cada vez mais tem margem de manobra para captar eleitorado de centro-direita. E para isso, Portas nem precisa de muito: basta-lhe ficar a assistir em silêncio a mais uma “guerra civil” dentro do PSD – e uma que não irá decerto acabar com as directas.

Trincheiras


eventhorizon,

Tenho acompanhado a “campanha interna” do PSD, passe a expressão, com moderado interesse, mas também com algum tédio. Interesse porque se trata do maior partido da oposição, e do partido no qual, até à data, sempre votei (excepto lá na aldeia, porque o PSD – a direita, aliás – nunca tem candidatos). Tédio porque a procura de um novo líder para o partido tem sido estranhamente parecida com um jogo de futebol entre duas equipas que não se suportam. Como o Benfica e o Porto, por exemplo (belo resultado, ontem). Isto porque a luta interna entre Pedro Passos Coelho e Paulo Rangel – Aguiar-Branco e Castanheira (de?) Barros não contam, ao que parece – tem sido parecida a um encontro de claques rivais. Por aquilo que tenho lido, sobretudo na blogosfera, fico com a sensação de que os apoiantes de cada candidato parecem mais empenhados em fazer campanha contra “o inimigo” do que por o seu “líder”. O que me parece francamente errado – o inimigo não é (não devia ser) interno, mas externo. No caso, o PS, que continua no governo, para mal dos nossos pecados.

O que me deixa curioso é o day after: Paulo Coelho ou Rangel, um deles será Presidente do PSD. Se ganhar Rangel, Passos Coelho e o seu grupo vão dar o seu apoio ao vencedor? E se Passos Coelho vencer, Rangel e o seu grupo vão estar ao lado do novo líder?

Tenho sérias dúvidas de que seja assim. Voltando à metáfora do futebol: parece-me que os apoiantes do derrotado (seja ele qual for) terão mais vontade em torcer por uma equipa estrangeira do que pelo novo líder da sua equipa. Isto a avaliar pelo tom daquilo que  tenho lido sobre a disputa, e pela lógica de trincheiras que me parece existir neste momento. O PSD, infelizmente, continuará partido por mais algum tempo.

Divagação atrasada


eventhorizon,

Muito se tem falado sobre o Congresso do PSD. Não o acompanhei, confesso, mas já escrevi sobre o tema ali. No entanto, e como aqui pelo Delito se falou abundantemente do tema, e como de resto foi aprovada a rolha, permitam-me espairecer com uma das minhas divagações. Conversava há dias com amiga (não me lembro ao certo com quem foi – desculpa, miúda, não é por mal, se és minha amiga sabes que a minha memória, enfim…) sobre filmes e, a dada altura, a conversa chega aos Óscares (sim, sei que venho tarde). Diz-me ela: "ah, tu é que gostas disso dos Óscares". Esclareço: não se trata de gostar ou de deixar de gostar, passe a expressão. Os Óscares podem não ser os mais importantes prémios de cinema (não acho que existam "os" prémios mais importantes), mas são de longe os mais mediáticos, e os que mais reacções suscitam – pelo seu mediatismo, e pela forma como críticos, "especialistas", povo em geral e imbecis pseudo-intelectuais em particular falam deles. Ninguém (ou quase ninguém) discute no café os prémios de Cannes ou de Berlim, mas em inícios de Março há sempre alguém a perguntar "viste os Óscares?" Mas divago. Eu gosto dos Óscares porque gosto de cinema. Eu não gosto dos Óscares porque tenho a sensação de que raramente premeiam os realizadores, filmes e actores certos (para mim). Por exemplo, e como dizia algures há dias (preguiça de fazer hiperligação), a ficção científica nunca é premiada, ou só é premiada não quando faz algo muito bom, mas quando não há nenhum dramalhão ou nenhum filme "com mensagem" (bocejo) na corrida. No entanto, a ficção científica é talvez o género que mais faz avançar o cinema do ponto de vista técnico; e já deu ao mundo, entre outros, 2001: A Space Odyssey (o "meu" filme, o melhor filme de sempre), Alien, Aliens, Terminator (1 e 2), Blade Runner, Matrix, Star Wars, só para mencionar alguns dos melhores. O mesmo acontece na fantasia, apesar de – para grande pena minha – haver muitos poucos filmes de fantasia realmente bons. Aliás, que me lembre, há três: A Irmandade do Anel, As Duas Torres, O Regresso do Rei, e este último ganhou os (merecidíssimos) Óscares de todos os outros. Um dia destes escreverei qualquer coisa sobre o motivo (que desconheço) para a ficção científica ser em geral tão pouco apreciada, mas hoje queria escrever sobre outra coisa qualquer. Mas divago novamente. Alguém devia fazer como naquele episódio que Holden Caulfield narra em The Catcher in the Rye: sempre que eu começo a dispersar alguém na sala grita "Digression!", mas acho que não daria muito jeito por comentários. Enfim, adiante. Nunca concordo com as escolhas da Academia. Ou raramente concordo (achei, como já disse, muito justos os prémios a O Regresso do Rei). Por exemplo: há dias vi Slumdog Millionaire, o grande vencedor do ano passado. A mim, o filme pareceu-me uma banalidade com imagens catitas filmadas num estilo muito Cidade de Deus, esse, sim, um dos melhores filmes da década – e que, lá está, não ganhou sequer a estatueta de "Melhor Filme Estrangeiro". Os desempenhos são bons, sem serem extraordinários. E o enredo… bom, Avatar (que não merecia o Óscar) trouxe a moda de falar em clichés, não foi? Vê-se bem, sim, é um bom filme, mas jamais figuraria em listas de "melhores filmes". Já o prémio de "Melhor Actor" foi dado a Sean Penn pelo seu desempenho em Milk. O seu desempenho é muito bom, concordo, mas o que lhe deu o prémio foi o politicamente correcto da praxe: em termos de desempenho, o bom trabalho de Penn torna-se francamente banal se comparado com o desempenho gigante de Mickey Rourke em The Wrestler, filme que foi, de longe, o melhor de 2008. Isto, claro, se não considerarmos Gran Torino como um filme de 2008, pois ainda não percebi se o filme foi de 2008 ou de 2009. De qualquer maneira, é incompreensível como Gran Torino não foi nomeado – e vencedor – nas categorias "Melhor Filme", "Melhor Realizador", "Melhor Actor Principal" e "Melhor Argumento" (Original? Adaptado? Ajudem-me), seja em que ano for. Ou antes, só é compreensível se pensarmos que, por norma, há qualquer coisa fundamentalmente errada na Academia. Que o diga Tarantino: o homem já filmou Reservoir Dogs, já filmou Pulp Fiction (um dos melhores filmes de sempre, apesar de pessoalmente preferir o primeiro), e filmou este ano Inglourious Basterds (ainda não vi Kill Bill, desculpem, vou já flagelar-me). Com um currículo destes importa perguntar: que terá Tarantino de fazer para ganhar os prémios de "Melhor Filme" e "Melhor Realizador"? Não sei se The Hurt Locker é bom ou mau, mas vi Inglourious Basterds e, bom, como dizê-lo? Só o desempenho (obviamente premiado) de Christoph Waltz faz o filme merecer o prémio de "Melhor Filme". Acredito, pelas opiniões dos meus colegas de blogue, que The Hurt Locker seja um excelente filme, mas deixo a pergunta: dentro do género de "filme de guerra alternativo", definição extremamente duvidosa criada por mim neste preciso momento, é melhor que No Man’s Land*?

(*para quem não se lembra, No Man’s Land é um filme europeu, de Danis Tanović, que, em 2001, roubou muito justamente o Óscar de "Melhor Filme Estrangeiro" a O Fabuloso Destino de Amélie.)

A chuva, o “miniclima”, a construção


eventhorizon,

Houve a rábula do pavilhão escolar de Beja, onde chove como na rua. Houve a deixa do "miniclima" da ministra da Educação. Seguiram-se as atabalhoadas, e já clássicas justificações das entidades responsáveis. A culpa, dizem, foi do tempo. Naturalmente: se não chovesse cá fora, não chovia lá dentro. Óbvio. Deixemos de lado os factos mais (mal) pré-fabricados que aquele pavilhão: o Alentejo não é "quente" todo o ano. De Inverno é frio, e – pasme-se! – até chove de vez em quando. Tornamos esta história cómica porque a ministra e a Parque Escolar se puseram a jeito (há sempre alguém a por-se a jeito para a paródia neste país), mas a história é, a meu ver, um exemplo muito bom para algo que venho a dizer há algum tempo: em Portugal não se sabe construir. Seja o que for: pontes, estradas, casas, pavilhões, galinheiros. Não sabemos construir. Fazemos tudo mal, da forma mais ineficiente (leia-se, da forma mais cara e mais demorada), e sem considerar uma carrada de factores. Como o clima, por exemplo. Vivemos com a permanente desculpa de que "Portugal tem um clima temperado", e por isso fazemos casas que, passe a expressão, não são nem pão nem bolo. Na prática: são fornos durante o Verão e frigoríficos (húmidos, frequentemente) durante o Inverno. Por isso, e apesar de o "miniclima" ter tornado a história do pavilhão desportivo de Beja numa comédia, a história nem é nova. É apenas mais um (frio) capítulo na nossa longa história de má construção.

Vê-se mesmo que não sabem o que significa “trolling”…


eventhorizon,

… ou flaming. Vê-se mesmo que nunca visitaram o "4chan", os messageboards do imdb.com (e outros, e outros), e tantos outros fóruns mais ou menos obscuros*. Ou até, vá lá, a nossa "blogosfera de campanha" e respectivas caixas de comentários. Caso contrário, não se lembrariam de propor uma coisa destas: A Internet está entre um número recorde de 237 indivíduos e organizações nomeadas este ano para a atribuição do Prémio Nobel da Paz.

 

*Isto é sério, e o slogan da Internet podia muito bem ser: Internet: a promover a fúria adolescente desde 1990.

Coisas que valem a pena (e a semana)


eventhorizon,

 

Encontrei esta fotografia – de um concerto da actual digressão – na pesquisa do Google. Infelizmente não tenho, para ilustrar este post,  fotografias do espectáculo que os Cranberries deram esta noite no Campo Pequeno (se algum leitor tiver e quiser partilhar, agradeço). Pessoalmente, esperava um bom concerto, mas não esperava de todo um concerto tão bom (terá sido dos melhores a que já assisti). Nem me pareceu que eles, os Cranberries, esperassem um público tão bom. Fizeram o público saltar com a Zombie e a Salvation, encantaram com a Linger e com a Animal Instinct, e terminaram em beleza com a Dreams. Entre muitas outras. Dolores O’Riordan, incansável em palco, prometeu regressar. Cá os esperamos. Os anos 90 ainda não morreram, afinal.

Os meus anos 90 em música


eventhorizon,

Tenho acompanhado com muito gosto a série "canções do século" do Pedro Correia, mas tenho de confessar uma coisa: não conhecia nem metade. A minha década musical, por assim dizer, é a década de noventa. Não por a considerar a melhor, mas porque foi a primeira que acompanhei, sina comum a praticamente todos os que nasceram em meados da década de oitenta.Os últimos anos, graças à Internet e a alguns amigos mais velhos (e mais cultos), têm sido de descoberta permanente no que à música diz respeito. E é curioso como tenho dedicado mais tempo a descobrir e a ouvir músicas muito anteriores ao meu nascimento do que a ouvir a música do nosso tempo, salvo algumas excepções muito bem documentadas.

 

O problema de gostar de música que, como me disseram uma vez quando metia música num bar da costa alentejana (não, não fui DJ, só meti música), não é comum na minha idade, é que dificilmente verei essas bandas de que tanto gosto ao vivo. Ou porque alguns dos membros faleceram (caso, por exemplo, de Joy Division ou de Doors), ou porque já deixaram de tocar juntos há imenso tempo e só se juntam quando o rei faz anos (caso de Magazine ou de Led Zeppelin), e não é sensato pensar que os vou conseguir ver naquele raro concerto que vão dar.

 

É precisamente aqui que reside a vantagem de se manter o carinho pela música da década de noventa (com a qual cresci): ao longo dos anos fui tendo a oportunidade de ver as "minhas" bandas ao vivo. Não sem sorte, diga-se: só em 2005, numa passagem pelo Festival Sudoeste (ao qual dificilmente voltarei, apesar de ficar praticamente à porta de minha casa), é que tive oportunidade de ver ao vivo os Oasis, que foram a minha banda preferida desde que lançaram o (What’s the Story) Morning Glory? até ter entrado na minha fase "metal". Não os vi na sua última passagem por cá, e tive pena: as eternas divergências entre os manos Gallagher finalmente colocaram um fim à banda, em 2009.

 

A segunda das "minhas" bandas da década de noventa deu-me um desgosto, digamos assim – terminou em 2000, e não consegui ver o concerto em Lisboa da sua última digressão. Mas 2007 marcou o (curto?) regresso da banda, e uma passagem por Lisboa, num concerto memorável na primeira edição do festival Oeiras Alive!. Falo dos Smashing Pumpkins, claro. Foi um concerto mesmo muito bom, mesmo sem dois membros da formação original – tanto mais que não esperava ter a oportunidade de os ver em palco. Para a memória fica a música Bullet With Butterfly Wings tocada debaixo de uma chuva intensa.

 

Há uma das minhas três bandas de estimação da década de noventa que não vi ao vivo. Ainda. Também acabaram, também regressaram: The Cranberries. Não os ouvia há imenso tempo, mas no momento em que soube do seu regresso à actividade fui procurar os álbuns que tinha deles – e continuam tão bons. A não haver imprevistos, na próxima quarta-feira estarei no Campo Pequeno a ver, finalmente, algumas das músicas que mais ouvi durante os anos noventa (e que continuo a ouvir com gosto): Zombie, Linger, Salvation, Dreams.

 

Blogue da semana


eventhorizon,

Desta vez, calha-me a mim escolher o blogue da semana; e a minha escolha é um dos meus blogues preferidos há muito, muito tempo: Aurea Mediocritas. Um blogue difícil de classificar; diria que o seu autor (sempre comunicativo e bem humorado nas caixas de comentários) dedica o blogue à recolha das peças – textos, imagens, vídeos, hiperligações – mais insólitas, divertidas, negras e divertidas (a repetição é intencional) deste vasto mundo que é a Internet. Ao Aurea Mediocritas, por exemplo, posso agradecer a descoberta do melhor webcomic que conheço, e horas incontáveis de gargalhadas – não me canso de visitar aleatoriamente os arquivos. Recomendo.

O lixo de Portugal


eventhorizon,

Miguel Sousa Tavares, em entrevista ao Correio da Manhã (sublinhados meus):

 

CM: ‘Sinais de Fogo’ estreou com boas audiências, 13,9%, mas comentou-se que entervistar o primeiro-ministro era uma forma de branqueamento…

 

MST: São comentários de blogues? Isso é o lixo de Portugal. Não vou comentar uma única frase de blogues. Só li um comentário ou dois que vinham nos jornais, e que respeito porque as pessoas assinam o que escrevem, que diziam ter sido a mais contundente das entrevistas a José Sócrates. Mas não posso fazer uma entrevista e comentá-la. Isso não me cabe a mim.

 

Ora bem. Os blogues – esses marotos – são, para o jornalista e "escritor", o lixo de Portugal. O que eu compreendo. É uma chatice um blogue não poder servir, por exemplo, para calha daquele móvel lá de casa. Ou para suporte para copos. Felizmente, há quem continue a publicar livros que, não podendo proporcionar leituras minimamente interessantes, servem muito bem para aquelas finalidades.

 

Esta breve resposta, porém, deu para compreender o que gosta MST de ler a seu respeito.. O que me leva a deduzir que não gosta dos blogues – esses malandros – porque nos blogues nunca se diz bem de MST. Isto tem de mudar. Por favor, haja alguém que faça um blogue de elogio ao senhor. Digam, por exemplo, que as suas entrevistas (ou as suas calhas, perdão, os seus romances) são "as mais contundentes" em qualquer coisa, não importa. Isto em, digamos, trezentos posts. Escrevam também grandes elogios ao Futebol Clube do Porto, e desanquem na lei do tabaco tanto quanto possível. Em menos de nada a blogosfera – ou pelo menos um blogue, o que já não é mau – ganha mais um ávido leitor. Ou pelo menos, deixa de ser o lixo de Portugal.

Lisbon… by night


eventhorizon,

Recordo-me da primeira vez que estive em Barcelona. Tinha 17 anos, e passei por lá apenas algumas horas, durante uma tarde, no regresso da minha viagem de finalistas do Secundário. Não deu para ver grande coisa, diga-se de passagem – a memória mais nítida que tenho dessa curta visita, creio, foi ir com um amigo a uma loja e de ver um postal completamente preto – sem qualquer ilustração, apenas um rectângulo preto – com a frase Barcelona… by night. O que nos rimos com aquele postal.

 

Infelizmente, aquela ilustração quase se adequa não à cidade de Barcelona, que de noite é alucinante, mas a Lisboa. À Baixa de Lisboa, para ser mais preciso. Às nove da noite é possível atravessar a Rua Augusta – a principal artéria da Baixa – sem nos cruzarmos com mais de seis pessoas. A essa hora, as lojas estão fechadas, os restaurantes e cafés estão a fechar (ou estão desertos), e nos prédios, a maior parte das janelas não mostra qualquer luz. O imponente arco da Rua Augusta já nem iluminado está – após o cair da noite, é apenas um sinistro arco de pedra que dá acesso à devastada Praça do Comércio. (a propósito: não espreitem para a "obra". É deprimente). Voltei a ver tudo isto ontem, num breve passeio nocturno após sair do meu habitat natural (a Casa do Alentejo, claro – a propósito, não deixa de ser interessante como o restaurante da Casa do Alentejo, sendo tão pouco óbvio, consegue atrair tantos turistas; ontem, enquanto lá estive, fiquei com a sensação de que era o único cliente português numa sala cheia). Das Portas de Santo Antão até à Praça do Comércio, apenas se encontra gente parada à porta das duas tascas que servem a famosa Ginginha; todas as restantes pessoas que andam por aquela zona parecem estar apenas de passagem. O que me parece triste: a Baixa devia ser a zona mais movimentada da cidade àquela hora, como Madrid ou Barcelona (as Ramblas não são o Bairro Alto, naturalmente). Até mesmo cidades em latitudes mais elevadas apresentam, à noite, uma "baixa" mais movimentada, dizem-me. Mas cá, não: a nossa Baixa, com a sua singular beleza, está entregue ao vazio após o pôr-do-Sol. Apaguem-se as luzes nocturnas – de resto, inúteis – e podemos nós fazer postais com rectângulos pretos a dizer Lisbon… by night. Só que os nossos não serão piada, mas a triste realidade de um país que não estima ou aproveita o património que tem.

Almoço de Salvação Nacional


eventhorizon,

Em tempos de crise – e de chuva e vento e frio, já agora -, do que este país precisa não é de políticos sérios (não os temos), nem de um "resgate" comunitário, nem de ambientador para disfarçar o mau cheiro que se instalou. Nada disso. Do que realmente precisamos é de uma boa refeição. De um almoço para dez milhões, assim ao género da célebre feijoada na ponte Vasco da Gama, mas em maior. E, de preferência, uma refeição que utilize produtos regionais portugueses. Deixo aqui a minha sugestão para alimentar Portugal, aproveitando a mais recente moda gastronómica:

 

Arroz de Polvo à Minhota

(quatro doses; para obter as dez milhões de doses necessárias, é só fazer regras de três simples e reduções – exercício a que me ia dedicar quando me lembrei de que sou péssimo nas reduções )

 

1 Kg de polvo

(para dez milhões de pessoas – esta conta eu fiz – são necessários 2500000 quilos de polvo – mas o nosso polvo pesa muito mais do que isso, como se sabe)

100 g de chouriço de carne

1 dl de azeite

2 cebolas

2 dentes de alho

1 ramo de salsa

1 folha de louro

1 dl de vinho branco

(vamos precisar de mais vinho para aguentar isto)

400 g de arroz agulha

Azeitonas pretas

Sal e pimenta q.b.

(leia-se "muito")

 

Como preparar em oito passos:

 

1. Começemos pelas coisas difíceis: há que limpar o polvo, e é muito importante retirar-lhe toda a viscosidade. De seguida, bater no polvo (quem preferir malhar no polvo, faça favor) com um maço de madeira, vigorosamente, para o amaciar.

 

2. Lavar muito bem o polvo em água corrente, e deitar numa panela com água já a ferver, juntamente com uma cebola.

 

3. Depois de cozido e macio, corta-se o polvo em bocados pequenos. Entretanto, reserva-se a água da cozedura (devidamente coada).

 

4. Fazer, num outro tacho, um refogado com azeite, alho picado e cebola picada. Quando a cebola começar a alourar, deitar louro e salsa.

 

5. De seguida, adiciona-se vinho, assim como três partes e meia de água por cada parte de arroz.

 

6. Quando começar a ferver, junta-se o arroz, tempera-se com sal e pimenta (a gosto), e adiciona-se o chouriço de carne, em rodelas. Mexe-se tudo, e deixa-se cozer em lume brando durante quinze minutos, até abrir.

 

7. Quando se retirar do lume, conserva-se o tacho fechado durante alguns minutos, para de seguida lhe retirar a salsa e o louro.

 

8. Junta-se então o polvo já cortado. Mistura-se bem, e serve-se, de preferência num recipiente previamente aquecido, e com pés de salsa e azeitonas a decorar.

 

Bom apetite!



Receita encontrada em www.petiscos.com