Tenho acompanhado com muito gosto a série "canções do século" do Pedro Correia, mas tenho de confessar uma coisa: não conhecia nem metade. A minha década musical, por assim dizer, é a década de noventa. Não por a considerar a melhor, mas porque foi a primeira que acompanhei, sina comum a praticamente todos os que nasceram em meados da década de oitenta.Os últimos anos, graças à Internet e a alguns amigos mais velhos (e mais cultos), têm sido de descoberta permanente no que à música diz respeito. E é curioso como tenho dedicado mais tempo a descobrir e a ouvir músicas muito anteriores ao meu nascimento do que a ouvir a música do nosso tempo, salvo algumas excepções muito bem documentadas.
O problema de gostar de música que, como me disseram uma vez quando metia música num bar da costa alentejana (não, não fui DJ, só meti música), não é comum na minha idade, é que dificilmente verei essas bandas de que tanto gosto ao vivo. Ou porque alguns dos membros faleceram (caso, por exemplo, de Joy Division ou de Doors), ou porque já deixaram de tocar juntos há imenso tempo e só se juntam quando o rei faz anos (caso de Magazine ou de Led Zeppelin), e não é sensato pensar que os vou conseguir ver naquele raro concerto que vão dar.
É precisamente aqui que reside a vantagem de se manter o carinho pela música da década de noventa (com a qual cresci): ao longo dos anos fui tendo a oportunidade de ver as "minhas" bandas ao vivo. Não sem sorte, diga-se: só em 2005, numa passagem pelo Festival Sudoeste (ao qual dificilmente voltarei, apesar de ficar praticamente à porta de minha casa), é que tive oportunidade de ver ao vivo os Oasis, que foram a minha banda preferida desde que lançaram o (What’s the Story) Morning Glory? até ter entrado na minha fase "metal". Não os vi na sua última passagem por cá, e tive pena: as eternas divergências entre os manos Gallagher finalmente colocaram um fim à banda, em 2009.
A segunda das "minhas" bandas da década de noventa deu-me um desgosto, digamos assim – terminou em 2000, e não consegui ver o concerto em Lisboa da sua última digressão. Mas 2007 marcou o (curto?) regresso da banda, e uma passagem por Lisboa, num concerto memorável na primeira edição do festival Oeiras Alive!. Falo dos Smashing Pumpkins, claro. Foi um concerto mesmo muito bom, mesmo sem dois membros da formação original – tanto mais que não esperava ter a oportunidade de os ver em palco. Para a memória fica a música Bullet With Butterfly Wings tocada debaixo de uma chuva intensa.
Há uma das minhas três bandas de estimação da década de noventa que não vi ao vivo. Ainda. Também acabaram, também regressaram: The Cranberries. Não os ouvia há imenso tempo, mas no momento em que soube do seu regresso à actividade fui procurar os álbuns que tinha deles – e continuam tão bons. A não haver imprevistos, na próxima quarta-feira estarei no Campo Pequeno a ver, finalmente, algumas das músicas que mais ouvi durante os anos noventa (e que continuo a ouvir com gosto): Zombie, Linger, Salvation, Dreams.




Gostei muito deste teu texto, João. É natural que a música que mais te toca seja a que esteja mais próxima de ti em termos geracionais. No fundo, a regra é essa para cada um de nós. Esta minha série – a que chamei, algo provocadoramente, “As canções do século [XX]” – destina-se a chamar a atenção também para correntes musicais que por cá andam há muito arredadas das chamadas ‘playlists’ radiofónicas mas que noutros quadrantes e noutros épocas sensibilizaram e sensibilizam muita gente. Muitas dessas canções são de décadas anteriores àquela em que nasci, mas aprendi a gostar delas tanto quanto gosto das que se tornaram grandes sucessos enquanto eu ia crescendo, pessoalmente e musicalmente. As três primeiras décadas do século XX são as menos representadas nesta série – até por motivos de ordem técnica, pois o disco ainda não estava generalizado nessa época e a rádio só surgiu no final dos anos 20 – mas também virão aqui, com o seu lastro de raridade. Acho que todos acabamos por aprender alguma coisa com isto – a começar por mim.
Não sei se a música que mais me toca é a da minha geração, na verdade. Apesar de a minha banda preferida ser da minha geração (Radiohead), aprendi a gostar de coisas que estão bastante para trás de mim, e acabo até por passar mais tempo a ouvir essas bandas do que as coisas que se fazem hoje em dia (o que gera conversas curiosas com os meus círculos de amigos). Mas mantenho um carinho muito especial por alguma da música que se fez nos anos 90, nomeadamente pelas três bandas que referi (mesmo quando se tornou moda não gostar de Oasis). E por outras, como Soundgarden ou Blur, apesar de as ouvir significativamente menos.
De resto, tenho tido o privilégio de ir conhecendo pessoas que me mostram coisas muito boas. Foi assim que descobri Joy Division, Sex Pistols, The Doors, Magazine. Os recentes “movimentos revivalistas” a que temos assistido também têm ajudado. E, claro, o Youtube – que, como se pode ver, serve para muito mais do que para divulgar vídeos de gatinhos.. 🙂
Interessante testemunho, João. É refrescante termos aqui outras opções musicais, escolhidas por ouvidos mais novos. Engraçado foi perceber que tens a idade dos meus filhos e que, mesmo assim, partilho contigo um fraquinho especial por uma das tuas bandas preferidas: The Cranberries.
Gostei de ler-te.