Habituei-me a separar os géneros na literatura, porque para mim, digam o que disserem, o género dos autores revela-se quase sempre no que escrevem. Mas só agora noto que tal nunca me aconteceu em relação ao cinema
Não aconteceu porque não podia acontecer. Ainda há dias Jane Fonda referiu que só 7% dos blockbusters são dirigidos por mulheres. E em 81 edições de Oscares apenas três mulheres foram nomeadas para o oscar de melhor realizador – Lina Wertmuller, por Pasqualino das Sete Beldades (1976), Jane Campion, com O Piano (1993), e Sofia Coppola com Lost in Translation (2003). Este ano pela primeira vez concorrem na categoria de melhor filme duas películas realizadas por cineastas femininas Uma Outra Educação, de Lone Scherfig, e Estado de Guerra, de Kathryn Bigelow, que também está nomeada para o oscar de melhor realizador. Se vencer, fará História.
Pela primeira vez aconteceu-me em pouco tempo ver vários filmes realizados por mulheres: As Vidas Privadas de Pippa Lee, de Rebecca Miller, Estado de Guerra, de Kathryn Bigelow, Uma Outra Educação, de Lone Scherfig, e Amar… é Complicado, de Nancy Meyers. Tudo filmes desta temporada. A quantidade, finalmente, permitiu-me perceber o óbvio: enquanto consumidora assídua de cinema andei a vida toda a assimilar passivamente uma concepção do mundo masculina. Não foi à toa que andei anos a fio a ver desenfreadamente corpos nus femininos e a entrever, só muito de vez em quando, os traseiros que para mim são realmente interessantes. Mas este é o único desequilíbrio fácil de aferir. Quanto ao resto, que é o que interessa, não tenho dúvidas em afirmar que só pode corresponder ao mesmo padrão: o que expressa os desejos, os preconceitos e os estereotipos da metade da humanidade a que não pertenço.
Lembro-me de quando vi …Pippa Lee ter pensado que o final redentor daquela história, a de uma mulher que se tinha anulado para servir os outros, provavelmente não existiria se o filme tivesse sido rodado por um homem. É que eles conformam-se facilmente com a sorte das mulheres e escolhem amiúde aquilo que na sua óptica lhes assenta bem, que é um certo fatalismo, que os comove. Traçam-nos, em suma, destinos que reflectem a sua cultura, em regra muito conservadora em relação ao sexo oposto.
Também em Estado de Guerra foi óbvia, para mim, a mundividência feminina. O mínimo que pode dizer-se de Uma Outra Educaçâo é que é incómodo para os homens. O tema é um clássico. Quantos filmes vi sobre predadores sexuais? Entre o registo de Alfie (1966), com Michael Caine, e o de Ligações Perigosas (1988), com John Malkovitch, existe toda uma gradação de tons que vão do modo operático, que enfatiza a má consciência do predador e a dor das suas vítimas, ao malandreco que apresenta o homem como um escravo da sua própria testosterona. Porém, em nenhum dos filmes que me ocorrem me lembro de ver este tipo de personagem exposto com a frieza metálica que identificamos no filme de Lone Scherfig. Não me espanta. Estranho seria que a abordagem deste tema por uma mulher não se revelasse mais crua.
Finalmente Amar… é Complicado é uma festa feita por mulheres e para mulheres o que, atendendo à escassez da oferta, se revela bem refrescante.
Não me interpretem mal. Adoro o cinema que eles fazem até porque me ajuda a conhecê-los melhor. Mas já é tempo de as senhoras subirem a este palco. Ficamos todos a ganhar.
Legendas: Lone (em cima) e Kathryn (em baixo)



a Kathryn Bigelow tem um charme tremendo
Também acho.
Mesmo apenas contigo, já ficámos todos a ganhar.
Concordo absolutamente com o João. Contigo é que ficamos todos a ganhar. Já to disse, mas este post confirma-o uma vez mais: não dispenso as tuas análises sobre cinema. Excelente, esta… que me diz que tenho vários filmes deste ano ainda por ver.
João e Ana, assim fico sem jeito 🙂
O que também é ganho: gosto de te ver sem jeito.
Naughty, naughty 🙂
Me???
Então, Teresa, pode continuar a ficar sem jeito porque eu junto a minha voz à da Ana e à do João. Gosto bastante destes seus textos sobre cinema. Este, em particular, é excelente! Mas não pense que me fico por aqui, que tenho um recado para lhe deixar: ó Teresa, as senhoras realizadoras sobem aos palcos que tiverem que subir quando forem capazes de o fazer e ficamos todos a ganhar. É que me pareceu ler uma espécie de incitamento a algo como quotas… (sim, chame-me o que quiser e acuse-me, uma vez mais disso… a Teresa sabe) 😉
Nada de quotas, Mike. Não era aí que eu queria chegar. A questão é que segundo consta Hollywood segrega as mulheres (existe um estudo, chamado Celluloid Ceiling, citado por Jane Fonda que denuncia a situação), a própria Bigelow já se queixou disso em entrevistas, nomeadamente numa que deu à revista do El Mundo, que eu li.
Quanto a juntar-se à Ana e ao João não me surpreende. Desde que eu lhe chamei… aquilo, não perde uma para me provocar 🙂
Eu também gostei muito de ‘Estado de Guerra’, Teresa. E gostaria muito que fosse contemplado com o Óscar. Vi-o, no entanto, sem fazer qualquer leitura de “género”: achei-o simplesmente um fabuloso filme de guerra, na perspectiva de alguns dos seus protagonistas (os soldados). Merece o prémio, sim, em comparação com outros filmes que vi (não os vi todos, não posso fazer juízos absolutos). E gostaria muito de ver Kathryn Bigelow levar a estatueta. Esta obra, no entanto, insere-se numa linhagem de autores clássicos em Hollywood – desde logo, John Ford, que muitos consideravam um cineasta misógino – que se prolongou pelo Clint Eastwood de ‘Cartas de Iwo Jima’ e pelo Spielberg de ‘O Resgate do Soldado Ryan’. É uma abordagem à guerra que encontramos também na melhor literatura americana (‘Os Nus e os Mortos’, de Mailer, por exemplo). Neste caso, parece-me irrelevante o sexo de quem dirige. Se não quisesse correr o risco de parecer mísógino, à John Ford, quase diria que Kathryn Bigelow é uma mulher de armas.
(ups, disse mesmo…)
Pois, a expressão “mulher de armas” é um pouco, como direi… sexista. Embora eu, às vezes, também a empregue (ups, não devia dizer isto)
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