Recordo-me da primeira vez que estive em Barcelona. Tinha 17 anos, e passei por lá apenas algumas horas, durante uma tarde, no regresso da minha viagem de finalistas do Secundário. Não deu para ver grande coisa, diga-se de passagem – a memória mais nítida que tenho dessa curta visita, creio, foi ir com um amigo a uma loja e de ver um postal completamente preto – sem qualquer ilustração, apenas um rectângulo preto – com a frase Barcelona… by night. O que nos rimos com aquele postal.
Infelizmente, aquela ilustração quase se adequa não à cidade de Barcelona, que de noite é alucinante, mas a Lisboa. À Baixa de Lisboa, para ser mais preciso. Às nove da noite é possível atravessar a Rua Augusta – a principal artéria da Baixa – sem nos cruzarmos com mais de seis pessoas. A essa hora, as lojas estão fechadas, os restaurantes e cafés estão a fechar (ou estão desertos), e nos prédios, a maior parte das janelas não mostra qualquer luz. O imponente arco da Rua Augusta já nem iluminado está – após o cair da noite, é apenas um sinistro arco de pedra que dá acesso à devastada Praça do Comércio. (a propósito: não espreitem para a "obra". É deprimente). Voltei a ver tudo isto ontem, num breve passeio nocturno após sair do meu habitat natural (a Casa do Alentejo, claro – a propósito, não deixa de ser interessante como o restaurante da Casa do Alentejo, sendo tão pouco óbvio, consegue atrair tantos turistas; ontem, enquanto lá estive, fiquei com a sensação de que era o único cliente português numa sala cheia). Das Portas de Santo Antão até à Praça do Comércio, apenas se encontra gente parada à porta das duas tascas que servem a famosa Ginginha; todas as restantes pessoas que andam por aquela zona parecem estar apenas de passagem. O que me parece triste: a Baixa devia ser a zona mais movimentada da cidade àquela hora, como Madrid ou Barcelona (as Ramblas não são o Bairro Alto, naturalmente). Até mesmo cidades em latitudes mais elevadas apresentam, à noite, uma "baixa" mais movimentada, dizem-me. Mas cá, não: a nossa Baixa, com a sua singular beleza, está entregue ao vazio após o pôr-do-Sol. Apaguem-se as luzes nocturnas – de resto, inúteis – e podemos nós fazer postais com rectângulos pretos a dizer Lisbon… by night. Só que os nossos não serão piada, mas a triste realidade de um país que não estima ou aproveita o património que tem.

Gente? Só na Casa do Alentejo e (creio) no Solar dos Presuntos.
Mais abaixo, a meio da Rua Augusta, está aquele que deve ser o único McDonald’s do mundo que encerra ao fim da tarde. Não que faça muita falta, mas é significativo.
Há 4 anos, passei uma semana em Barcelona, em trabalho.. e não só.
Aquilo é maravilhoso de dia, é absolutamente fantástico à noite.
Tanto tanto, que até me esqueci que lá havia uma família sagrada…
É de facto uma pena. Não sou de Lisboa, mas adoro a baixa.
No pouco tempo que vivi em Lisboa, procurei um quartinho simpático algures na baixa, mas o quartinho que almejava revelou-se algo impossível. Primeiro, porque os valores que pedem por quarto são surreais. Segundo, porque a relação qualidade/preço é inexistente. Os prédios estão velhos, desprezados e toda aquela imponência histórica do seu exterior depressa se torna decrépita.
Mas o pior de tudo é que a baixa faz, de certa forma, lembrar Paris, onde temos de fazer uma gincana saltitante para não sujar os sapatos no cocozinho dos bichos.
Certamente, haverá muitos outros motivos que afastam as pessoas da baixa, mas não é só da baixa de Lisboa. Em todo o país existem zonas históricas lindíssimas que mereciam destaque e reabilitação urbana, mas que parecem não suscitar o interesse dos portugueses, nem do governo.
Algures pelo caminho, Portugal vai perdendo qualquer coisa. Talvez seja típico da nossa sociedade. Bonito por fora, podre por dentro.
Excelente ‘post’, João. Com tiros certeiros. Os sucessivos poderes públicos, com destaque para o poder autárquico, andam há largos anos a matar a baixa de Lisboa. O que se passa no Terreiro do Paço, eternamente ‘fechado para obras’, é criminoso. Vão agorar tirar os taipais, por ocasião da breve visita do Papa, mas volta tudo ao mesmo logo a seguir. Anos e anos e anos a matar uma das praças mais bonitas da Europa – e do mundo.