Juro que não fiz de propósito mas hoje, dia de greve geral, foi também o dia em que mais trabalhei esta semana.
(Ah, um sofá…)
Juro que não fiz de propósito mas hoje, dia de greve geral, foi também o dia em que mais trabalhei esta semana.
(Ah, um sofá…)
Nunca fiz greve e não penso vir a fazer mas, como os tempos andam esquisitos ao ponto de o Porto perder jogos aparentemente fáceis e o Sporting ganhar jogos aparentemente difíceis, nunca se sabe. Para mim, as greves sempre foram uma coisa ligeiramente estranha, talvez por a minha percepção delas se ter desenvolvido numa época em que, nos países ocidentais, os direitos mais básicos já estavam assegurados e elas haviam passado a limitar-se quase exclusivamente ao sector público. Enquanto conceito, vejo a greve como meio de contestar fortes injustiças (e assim sendo, lá está, não posso excluir a hipótese de um dia vir a recorrer a ela) mas quase nada como meio de, por exemplo, reclamar aumentos salariais ano após ano. Deste modo, percebendo que a maioria das pessoas que hoje se encontram em greve sentem estar a ser alvo de injustiça, nem me custa a compreender as motivações da greve em curso. Mas isto não significa que não possa debater se, de facto, elas estão a ser alvo de injustiça. Ou que não possa afirmar que, em pequena ou grande medida, outras greves no passado ajudaram a conduzir o país à situação em que se encontra, por terem forçado o Estado a aumentar impostos e a contrair dívida para satisfazer as reivindicações dos grevistas. Se o direito à greve deve ser inquestionável, o direito à crítica não o deve ser menos nem excluir áreas de sensibilidade especial. E, assim sendo, há um ponto que me parece evidente: de geral, esta greve acabará por ter muito pouco. Como de costume, revelar-se-á essencialmente uma greve do sector público (e, se calhar, até apenas de parte dele). Ora perante isto e perante a situação financeira do país, ponderar a hipótese de que muita gente com opiniões distintas das dos grevistas acerca dos motivos que nos trouxeram à situação actual e das vias para sair dela, gente prejudicada ainda por cima na deslocação para o emprego pelo que, no fundo, não passa de mais uma paralisação dos transportes públicos, se questione sobre se certos grupos não estarão de facto a abusar de um direito que lhes assiste é apenas compreensível. Afinal, se é meu direito colocar-me numa fila para um qualquer serviço e, chegada a minha vez, procurar resolver o assunto que lá me fez dirigir, também é natural que as pessoas atrás de mim fiquem irritadas e achem que estou a abusar se eu permanecer meia hora a discutir um ponto ilógico ou irresolúvel com o funcionário que me atende. O direito à greve é e deve ser inquestionável. Mas o direito à crítica também. Incluindo o direito a acusá-las de serem ilógicas, inúteis, inoportunas, contraproducentes ou até – o horror – reveladoras de egoísmo.
Em tempos de crise temos uma vantagem competitiva. Estamos habituados. A crise é o nosso ambiente natural.
A forma como a memória nos prega partidas. Como, sem perceber que mentimos, a moldamos de forma a podermos manter uma visão aceitável de nós próprios. Mas também as consequências de actos que julgávamos insignificantes. Que lembramos como tal, mesmo sabendo que por vezes actos insignificantes para uma pessoa são estocadas mortais para outra. Os efeitos da passagem do tempo na memória e nas nossas ilusões. Tudo em cento e cinquenta páginas de pura filigrana.
Também pode ser descrito assim: Tony Webster, o narrador, é um homem de sessenta e tal anos, com uma ex-mulher, uma filha, uma vida igual a tantas outras. Há cerca de quarenta anos, na universidade, namorou Veronica, tendo chegado a passar um fim-de-semana em casa da família dela. Pouco tempo depois separaram-se. Tony tinha três amigos. Adrian era o mais inteligente, o mais estranho, o mais indecifrável. Tão indecifrável que cometeu um acto que nenhum dos outros percebeu. Agora, quatro décadas depois, Tony recebe uma carta escrita pela recentemente falecida mãe de Veronica que o vai levar a reexaminar os acontecimentos. E o seu papel neles.
I certainly believe we all suffer damage, one way or another. How could we not, except in a world of perfect parents, siblings, neighbours, companions? And then there is the question, on which so much depends, of how we react to the damage: whether we admit it or repress it, and how this affects our dealings with others. Some admit the damage, and try to mitigate it; some spend their lives trying to help others who are damaged; and then there are those whose main concern is to avoid further damage to themselves, at whatever cost. And those are the ones who are ruthless, and the ones to be careful of.
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Does character develop over time? In novels, of course it does: otherwise there wouldn´t be much of a story. But in life? I sometimes wonder. Our opinions and attitude change, we develop new habits and eccentricities; but that’s something different, more like decoration. Perhaps character resembles intelligence, except that character peaks a little later: between twenty and thirty, say. And after that, we’re just stuck with what we’ve got. We’re on our own. If so, that would explain a lot of lives, wouldn’t it? And also – if this isn’t too grand a word – our tragedy.
Julian Barnes, The Sense of an Ending (Prémio Man Booker 2011).
Edição Jonathan Cape, 2011 (p. 44 e 103).
O empobrecimento colectivo português é inevitável. É-o, de resto, há muitos anos. O empobrecimento das pessoas que trabalham no sector público e das que trabalham no sector privado. Não é preciso a troika dizê-lo nem é preciso que o governo proceda a cortes «idênticos» em ambos os sectores para que tal se verifique. Tem de o fazer no público porque não há outra forma. É ele o patrão. No privado, os métodos são inúmeros e começaram a ser usados há muito. Vão agravar-se, claro. Desde logo, no comércio vão agravar-se tanto que muita gente vai ser despedida. Na indústria, dependerá das áreas de actividade e da capacidade exportadora. Mesmo em sectores como a banca e os seguros estão em marcha tentativas para acabar com complementos de ordenado que, sendo frequentemente ilógicos (prémios de antiguidade, por exemplo), representam muito dinheiro para muita gente. Fazer cortes «idênticos» aos do sector público em cima disto seria penalizar duplamente muitos trabalhadores do sector privado que, de resto, já tiveram aumentos salariais médios inferiores aos do sector público na últimas décadas (ver aqui, nas páginas 9 a 15). Mas a ilusão de justiça talvez o obrigue, até porque estamos habituados a viver em função de interesses de curto prazo do Estado – dos interesses dos políticos que o lideram, dos gestores públicos que o usam como salvaguarda da sua incompetência, dos funcionários que o vêem como garantia de direitos adquiridos e a adquirir – ou de pessoas que, não estando ligadas a ele, se servem dele (os empresários do regime) ou foram habituadas a pensar que a miríade de processos e serviços que ele exige e fornece, respectivamente, são fundamentais para o bem comum (alguns são, outros muito pelo contrário, em especial considerando o preço que acaba por se pagar). Já sei que não vale a pena atribuir culpas. Mas esta questãozita, que imensa gente continua a evitar, é fundamental para o futuro: por péssima que a iniciativa privada seja (e, em muitos casos, é mesmo muito péssima), foi o Estado que nos trouxe à actual situação. Nada resultará enquanto o Estado não emagrecer, não parar de sobrecarregar empresas e particulares com impostos e outros custos absurdos (a troika tem toda a razão sobre o nó górdio da energia), não reformar a Justiça, não sair do caminho. A diminuição dos salários no sector público é indispensável (a menos que se opte por despedir), a diminuição no sector privado é inevitável (ou haverá ainda mais despedimentos). Com ou sem troika, com ou sem cortes «iguais» em ambos os sectores, com ou sem euro, vamos empobrecer em conjunto. E depois, quando conseguirmos começar a crescer, seria bom que nos lembrássemos de que o Estado só pode aumentar a fatia que retira da economia depois de esta ter gerado uma fatia maior. Ou, pela enésima vez, faremos tudo ao contrário e não tardaremos a necessitar de empobrecer novamente.
Era francesa mas gostava tanto de beber chá que todos lhe diziam mais parecer inglesa. Tendo certamente ouvido o comentário milhares de vezes, ela sorria sempre. Falava com um sotaque que ele achava inebriante, misturando palavras em português com palavras em francês e fazendo pausas inesperadas, como se seguisse regras muito próprias acerca dos sítios onde encaixar as vírgulas. Quando, pela hora do lanche, sentada à frente dele, dizia, com um suspiro de prazer: «Eu amo thé», ele ficava sempre um instante em suspenso, tentando perceber exactamente o sentido das suas palavras.
(Também aqui.)
Para contrabalançar o de ontem, hoje apetece-me colocar aqui um post curto e delicado sobre nada de especial, que vos faça sorrir com uma mistura de apreço e condescendência e não gere comentários agressivos. Infelizmente, não me ocorre nenhum.
Corre por aí um argumento segundo o qual o corte dos subsídios de férias e de Natal no sector público poderá fazer sair os melhores elementos para o sector privado. Começa também a ficar tão evidente que qualquer reforma séria do Estado e das empresas públicas obrigará à redução do número de funcionários que, ao contrário do que sucedia nos tempos do aprendiz de filósofo, já nem surgem desmentidos governamentais de cada vez que alguém refere o assunto. Assim sendo, talvez seja interessante tentar perceber quem vai sair, quem devia sair, por que não coincidem os dois grupos e como esta diferença torna impossível uma verdadeira reforma das instituições em causa.
Devo começar por admitir conhecer melhor a realidade das empresas públicas (e apenas de algumas) do que da função pública. Desconfio, no entanto, que a seguinte regra se aplica tão bem às primeiras como à segunda. Grosso modo, existem três grupos de trabalhadores no sector público:
– Os administradores e directores de topo, seleccionados de acordo com critérios político-partidários;
– As chefias intermédias, escolhidas por cunha e por saberem dizer «sim» aos elementos do primeiro grupo;
– Os restantes trabalhadores.
(Interregno para explicação que provavelmente não evitará uma série de comentários agressivos.
Ao generalizar, sou injusto para algumas pessoas que subiram ao posto que ocupam por mérito próprio? Sê-lo-ei, mas num número muito menor de casos do que as noções do politicamente correcto me obrigariam a considerar; sou também injusto para quem, apesar de ter subido – ou entrado – por influências partidárias, laços familiares, amizade, etc., vem ocupando o cargo de forma competente? Não; não deixa de o ocupar pelos motivos errados.
Fim de interregno.)
O pessoal das duas primeiros categorias não tem vontade de sair. Está bem, apesar dos cortes – que, de resto, aprendeu a contornar. Para mais, embora murmure repetidamente o contrário para si mesmo ou evite de todo pensar no assunto, sabe ter competências limitadas para sobreviver sem protecções. Não sairá, portanto, como não saiu até hoje, embora fosse lendo que os quadros superiores ganham mais no privado. Contudo, é pena que não saia. Foi esta gente que, ao longo dos anos, com a cumplicidade dos governos central, regionais e locais, criou a teia de interesses e favores que transformou os serviços, as empresas e os institutos nos mastodontes deficitários que hoje são e é por causa dela que a reforma do sector público se revela uma quimera (lá iremos).
Já o pessoal que se encontra na categoria inferior é mais heterogéneo. Inclui preguiçosos e lambe-botas sem cunha ou escandalosamente incompetentes, mas também pessoas com vontade de fazer as coisas de forma diferente. Algumas tentaram-no no passado e aprenderam a custas próprias o erro que isso constitui. Estão cínicas e acomodadas; é pouco provável que saiam. Outras – as que entraram há menos tempo e as mais teimosas – encontram-se ainda no processo de perceber que são os jogos de poder que importam, não a competência (as mais teimosas podem até já ter percebido mas, coitadas, não conseguem deixar de lutar). Estão confusas e desiludidas. Mas compreendem que é preferível ganhar mil ou mil e quinhentos euros num ambiente insalubre do que arriscar a sorte numa economia em recessão. A menos que lhes surja uma verdadeira oportunidade, improvável nos tempos que correm, também não sairão. Contudo, as que saírem constituirão perdas reais porque é aqui que se encontram os tais «melhores elementos», subaproveitados ou (alguém tem de trabalhar, ainda que frequentemente em projectos inúteis ou prejudiciais) explorados.
Resta explicar (se ainda não ficou óbvio) porque é que isto impede a mudança. Forçadas estas entidades a diminuir o número de funcionários, o que sucederá? Quem fará as escolhas? Bingo. Entre o pessoal empurrado para fora do caminho e o pessoal ainda tentando descobrir qual é o caminho, há imensa gente com valor. Mas imaginar que, chegada a hora, administrações e chefias decidirão com base na competência dos subordinados é pura ingenuidade. Até poderão achar estar a fazê-lo (é sempre conveniente acreditarmos nas nossas próprias mentiras) mas a teia é mais forte do que a competência. Ficarão os piores.
– Se engana frequentemente nas contas (e isto vai pelo menos até ao tempo do engenheiro; não, do outro, do que anda por África tentando impressionar a Jolie);
– Vê muito melhor os interesses do seu eleitorado do que o interesse geral (cof-aumento de-cof-2,9%-cof-em 2009-cof);
– Vê muito melhor os interesses de curto prazo do que os interesses de longo prazo (ah, aqueles estímulos à economia em 2008 e 2009, quando o défice e a dívida não importavam…; se queriam estimular alguma coisa, ó almas do PS, mais valia terem encomendado uns milhares de vibradores à J P Sá Couto para oferecer às mães que iam com os filhos receber o Magalhães);
– É imbatível a imaginar políticas não-recessivas (para algumas empresas, nenhuma das quais mencionada neste post);
– Desde que não tenha acabado de herdar o governo, vê sempre folgas nas contas públicas.
Ora estes (um-dois-três-quatro-cinco) cinco pontos (e se calhar há mais) deixam-me muito, mas mesmo muito, inseguro quanto às folgas do Seguro.
(A última frase não soa tão bem como eu esperava mas paciência. Caramba, enchi o teclado de migalhas. E o chá arrefeceu.)
E agora cabe-me passar a vez. O que é que andas ler, José Gomes André?
Marmelo, Manuel Jorge Uma Mentira Mil Vezes Repetida
Quetzal Editores (2011)
Col. Língua Comum
ISBN 9789725649725
(Nota: Apesar de ser uma edição da Quetzal, Uma Mentira Mil Vezes Repetida encontra-se em português.)
A Alemanha está a fazer tudo mal. Os alemães estão a humilhar os gregos e far-nos-ão o mesmo. Não estamos numa fase de atribuição de culpas mas de encontrar soluções em comum. Etc., etc., etc. Ora bem:
1. De modo a proteger a sua economia de solavancos violentos (por os seus bancos terem andado a emprestar dinheiro a quem não sabia usá-lo), um contribuinte alemão pode ter interesse em enviar dinheiro para a Grécia – mas não tem obrigação de o fazer. Não contraiu as dívidas dos gregos (nem as nossas).
2. O governo alemão responde aos alemães. Se estes não quiserem ajudar, ele não pode ajudar. Também a isto se chama democracia. De resto, não nos fartamos de resmungar sempre que Merkel se mete nos assuntos «internos» de países «soberanos»? A solução é simples: deixar de o fazer. Querem?
3. A questão da responsabilidade é importante. Não para apontar o dedo ou para humilhar. Quando alguém comete um erro e precisa de ajuda, o primeiro passo é reconhecer que errou. O segundo, mostrar que aprendeu a lição. Só assim terá hipótese de receber solidariedade. Fuga à implementação de mudanças, torpedeamento de acordos estabelecidos, acusações raivosas a quem se solicita ajuda, não geram impulsos de solidariedade. A solidariedade não se impõe pela força, conquista-se através de actos geradores de confiança.
4. Forçar a Alemanha (e os outros países do Norte) a pagar as dívidas dos países do Sul por causa do risco para os seus bancos (e para o Euro) parece-se mais com chantagem do que com solidariedade. Ninguém pode surpreender-se com as resistências. Nem que, mais cedo ou mais tarde, o chantageado compreenda que não vale a pena continuar a pagar porque terá de o fazer mais uma e outra e ainda outra vez; que perceba que mais vale aceitar as consequências de assumir o problema (o artigo do Bild, mencionado pelo Rui Rocha, é claramente um indício de que podemos estar perto de isso acontecer). E mesmo que vá pagando, se um dia o motivo que permite a chantagem deixar de existir (por exemplo, se a dívida grega detida pelos bancos alemães já não os colocar em risco), a vítima de chantagem sentirá um enorme prazer em vingar-se. União Europeia? Pois sim.
5. Comparar a situação actual com os desejos revanchistas e expansionistas de Hitler é absurdo. Hoje, o desejo dos alemães é serem deixados em paz. Eles que, por enquanto, através de inovação e contenção salarial, conseguiram manter-se competitivos no mundo globalizado. Que culpa têm das incompetências alheias?
A Casa das Letras (grupo Leya) vai publicar dentro de dias 1Q84, de Haruki Murakami. Melhor: vai publicar o livro 1 de 1Q84, de Haruki Murakami. No Japão e no universo anglo-saxónico (pelo menos), 1Q84 foi publicado em duas partes: um volume com os livros 1 e 2, outro com o terceiro e último livro. Aparentemente, a Casa das Letras está preocupada com as lesões que os leitores podem sofrer ao manusearem livros pesados e decidiu dividir a obra em três. Ou a razão será outra? Façamos uma conta simples: se todos os volumes da edição portuguesa tiverem o preço do primeiro (€18,00), 1Q84 custará €54 ao leitor nacional. Na Amazon britânica, o volume com os livros 1 e 2 custa £9,00. Já o volume com o livro 3 fica por £7,49. Edições em capa dura, note-se. Nos meus tempos de escola, 9,00 mais 7,49 dava 16,49 ou, à cotação de hoje, cerca de €19,10. É verdade que a Amazon ajusta o IVA e que, se nada mais for encomendado, de modo a fazer o pedido ultrapassar as £25 (permitam-me esta sugestão; também podia dar-vos esta mas – que chatice – não é suficientemente cara), têm de se levar os portes em conta mas, ainda assim, parece-me um no-brainer para quem consiga ler inglês. Afinal, nos tempos que correm, uma poupança superior a trinta euros (mais de 60%) não é de desperdiçar. E sempre se evita aquela coisa que agora passa por português.
Então o que é que define o alcance exequível de uma comunidade de confiança? O cosmopolitismo desenraizado fica bem aos intelectuais, mas a maioria das pessoas vive num lugar concreto: definido pelo espaço, pelo tempo, pela língua, talvez pela religião, se calhar – por lamentável que seja – pela cor, e assim por diante. Esses lugares são permutáveis. Até há pouco tempo muitos europeus não se definiriam como habitantes da ‘Europa’: diriam que viviam em Lodz (Polónia), ou na Ligúria (Itália), ou talvez até em ‘Putney’ (um subúrbio de Londres).
O sentimento de ser ‘europeu’ para fins de identificação pessoal é um hábito recém-adquirido. Como resultado, onde a ideia de cooperação transnacional ou assistência mútua possa ter despertado uma intensa desconfiança local, agora ela passa geralmente despercebida. Hoje os estivadores holandeses subsidiam pescadores portugueses e agricultores polacos sem grandes queixas; em parte, sem dúvida, porque os estivadores em questão não interrogam muito a fundo os políticos quanto à utilização dos seus impostos. Mas também isso é um sinal de confiança.
Tony Judt, Um Tratado sobre os Nossos Actuais Descontentamentos.
Edições 70, tradução de Marcelo Felix.
A confiança acabou. E não acabou por culpa dos estivadores holandeses nem dos políticos alemães. Acabou porque, ao longo dos últimos quinze ou vinte anos, os gregos não fizeram por merecê-la. Nem nós.