Do direito à greve e do direito à crítica


escafandro,

Nunca fiz greve e não penso vir a fazer mas, como os tempos andam esquisitos ao ponto de o Porto perder jogos aparentemente fáceis e o Sporting ganhar jogos aparentemente difíceis, nunca se sabe. Para mim, as greves sempre foram uma coisa ligeiramente estranha, talvez por a minha percepção delas se ter desenvolvido numa época em que, nos países ocidentais, os direitos mais básicos já estavam assegurados e elas haviam passado a limitar-se quase exclusivamente ao sector público. Enquanto conceito, vejo a greve como meio de contestar fortes injustiças (e assim sendo, lá está, não posso excluir a hipótese de um dia vir a recorrer a ela) mas quase nada como meio de, por exemplo, reclamar aumentos salariais ano após ano. Deste modo, percebendo que a maioria das pessoas que hoje se encontram em greve sentem estar a ser alvo de injustiça, nem me custa a compreender as motivações da greve em curso. Mas isto não significa que não possa debater se, de facto, elas estão a ser alvo de injustiça. Ou que não possa afirmar que, em pequena ou grande medida, outras greves no passado ajudaram a conduzir o país à situação em que se encontra, por terem forçado o Estado a aumentar impostos e a contrair dívida para satisfazer as reivindicações dos grevistas. Se o direito à greve deve ser inquestionável, o direito à crítica não o deve ser menos nem excluir áreas de sensibilidade especial. E, assim sendo, há um ponto que me parece evidente: de geral, esta greve acabará por ter muito pouco. Como de costume, revelar-se-á essencialmente uma greve do sector público (e, se calhar, até apenas de parte dele). Ora perante isto e perante a situação financeira do país, ponderar a hipótese de que muita gente com opiniões distintas das dos grevistas acerca dos motivos que nos trouxeram à situação actual e das vias para sair dela, gente prejudicada ainda por cima na deslocação para o emprego pelo que, no fundo, não passa de mais uma paralisação dos transportes públicos, se questione sobre se certos grupos não estarão de facto a abusar de um direito que lhes assiste é apenas compreensível. Afinal, se é meu direito colocar-me numa fila para um qualquer serviço e, chegada a minha vez, procurar resolver o assunto que lá me fez dirigir, também é natural que as pessoas atrás de mim fiquem irritadas e achem que estou a abusar se eu permanecer meia hora a discutir um ponto ilógico ou irresolúvel com o funcionário que me atende. O direito à greve é e deve ser inquestionável. Mas o direito à crítica também. Incluindo o direito a acusá-las de serem ilógicas, inúteis, inoportunas, contraproducentes ou até – o horror – reveladoras de egoísmo.

2 comentários em “Do direito à greve e do direito à crítica”

  1. A foto mais patética desta greve geral:

    “Ver o inanarrável sindicalista Nogueira ( presidente da Fenprof)… como piquete de greve á entrada do Hospital S.José !!!

    Professor vigiam clinicos…. clinicos vigiam professores…será?

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