Dose dupla do que vocês queriam saber de verdade. E ainda bem.
escafandro,
Ela indica no perfil que vive em Ponta Delgada mas anda a escrever posts sobre as aventuras de uma freira em Amesterdão (não, não é o que estão a pensar mas sim, também é o que estão a pensar). Faz perguntas lixadas como esta. E gosta do fantasma de Kurt Cobain, das letras do Thom Yorke e – não há perfeição sem uma ligeira falha – do estilo do Fernando Ribeiro. Eu aprecio-o porque ela escreve bem e também porque blogues assim me fazem pensar que hei-de acabar por perceber as mulheres. Mesmo que logo a seguir me obriguem a considerar a hipótese de ainda ir demorar um certo tempo.
Anyway… O blogue da semana chama-se Alegre ou Triste. É aconselhável em qualquer dos estados de espírito.
Dirijo-me ao pequeno balcão junto à secção de livros da Fnac do GaiaShopping. Uma rapariga envergando o coletezinho verde e ocre pergunta-me se pode ajudar. É magra e parece cansada mas confesso não prestar muita atenção à sua aparência. Pergunto se têm um livro de Isaac Asimov, recentemente lançado, de que não recordo o título. Ela inclina-se para o computador enquanto eu acrescento que foi editado pela Ulisseia. O colete, talvez um nadinha grande para a compleição franzina dela, afasta-se-lhe ligeiramente do corpo, deixando mesmo à frente dos meus olhos duas mamas empinadas e comprimidas uma contra a outra por um soutien que mal se vê. Apesar de me encontrar naquela idade em que os homens tendem a ficar quase só olhos e sofreguidão, costumo ser um tipo discreto mas aquilo apanha-me de tal forma desprevenido que o meu olhar fica preso durante demasiado tempo e o meu cérebro baralha-se, levando-me a fazer uma pausa entre «pela» e «Ulisseia». A rapariga percebe, claro, mas finge que não e eu faço um esforço titânico para impedir que os meus olhos voltem a focar-se abaixo do nível do pescoço dela. E a vontade nem é tanto ver-lhe as mamas novamente mas tentar compreender como raio é que antes me passaram despercebidas.
Um pouco mais tarde, noutra zona da Fnac, remoendo o embaraço, lembro-me do início de O Animal Moribundo, de Philip Roth. Ao descrever a aluna por quem se sente atraído, o professor Kepesch refere que ela tem um corpo magnífico mas que ainda não sabe bem como usá-lo. Que o transporta como um miúdo de uma zona perigosa transporta uma arma de fogo carregada, tendo ainda de decidir se o faz para se proteger, se para iniciar uma vida de crime. E ponho-me a pensar que o modo como, ao longo dos meses de Verão, quase todas as mulheres trazem o armamento bem visível e tantas parecem ter optado, com uma convicção desafiante, pela vida de crime, mantém os homens alerta, antevendo duelos ferozes. Mas quando o tempo arrefece e a maioria das armas passa a andar escondida, um tipo relaxa e, de vez em quando, não consegue evitar ser apanhado de surpresa ao descobrir um par de Glocks numa rapariga aparentemente incapaz de matar uma mosca.
1. A lógica dos subsídios complementares ao ordenado é quase sempre absurda mas condiz connosco – adoramos arranjar soluções para problemas que não deviam existir. Os subsídios tendem a ser formas de contornar, ou disfarçar, aumentos salariais. Devia acabar-se com eles, integrando-os no salário. No mínimo, ganhar-se-ia em transparência, simplicidade de processos e receita fiscal. Mas acabe-se com todos. Incluindo o de almoço.*
2. Sem subsídios, a remuneração dos membros do governo é demasiado baixa. Um secretário de Estado não pode ganhar o mesmo que um gerente bancário. É também por isto que, mesmo com a profusão de subsídios, o exercício de cargos políticos se tornou num investimento para medíocres e não num objectivo para gente com valor. Ser ministro ou secretário de Estado tem significado abrir portas para o futuro, à custa do interesse público.
3. Em Portugal, o sistema de pesos e contrapesos não funciona. Nunca funcionou, provavelmente nunca funcionará. Não se trata de uma questão de leis mas do emaranhado de interesses e relações de poder em que o sistema judicial se tornou e da mentalidade geral (protestamos muito mas reelegemos corruptos e incompetentes a cada nova oportunidade; juramos pelas leis num momento, consideramo-las estúpidas e contornáveis no seguinte). Enquanto isto suceder, nada mudará. Subsídios e pensões permanecerão o topo visível do icebergue. Os verdadeiros corruptos agradecem.
4. A revisão constitucional é indispensável, não para impor soluções (essa é a receita da Constituição actual) mas para abrir possibilidades de escolha. Desde logo no modelo do sistema judicial.
5. Uma opinião pública forte é desejável, constituindo provavelmente o único modo de vencer inércias e quebrar interesses. Uma opinião pública incapaz de distinguir o essencial do acessório é perigosa. Foi uma opinião pública deste tipo (mas, ademais, fraca), doutrinada por políticos como os referidos no ponto 2, que nos trouxe à situação actual. Uma opinião pública forte apenas porque encolerizada e incapaz de distinguir o essencial do acessório é uma receita para o populismo.
* Afinal, por que há-de o almoço junto ao local de trabalho ser pago mas o transporte entre a residência e esse mesmo local ou a roupa que se é obrigado a usar para ir trabalhar (em casa até podemos andar nus) já não? No mínimo, dentro da lógica prevalecente nos últimos dias (correcta, não me interpretem mal, absolutamente correcta), não seria de exigir a quem almoça em casa que prescinda do subsídio?
O casal que arrendara o apartamento era simpático mas não se assustava com facilidade. A rapariga, faladora e de cabelo comprido, e o rapaz, alto e muito magro, riam-se sempre que objectos caíam sem motivo aparente, culpavam o vento quando, apesar de nenhuma janela se encontrar aberta, as portas se fechavam com estrondo, atribuíam, com um encolher de ombros e um trejeito de resignação, barulhos esquisitos nas paredes e no tecto à acção de ratos ou dos vizinhos. Mas isso não era o pior. O pior era que passavam horas a ver filmes de terror num televisor enorme. Ele tentava assistir, pairando atrás do sofá, mas nem sempre conseguia porque alguns eram demasiado assustadores. Detestava ficar paralisado de medo enquanto eles reagiam com gritos, risos e abraços aos actos de um louco homicida brandindo uma motosserra. Mas era pior quando os filmes metiam fantasmas. Não o assustavam tanto como os de mortos-vivos, lobisomens ou assassinos sádicos mas deprimiam-no como nada mais o conseguia fazer. Não há pior sensação para um fantasma do que perceber-se um cliché.
(Também aqui.)
If there weren’t some competition between governments, the overreach would be dramatically worse than what we’ve seen. A lot of state governments would like to dramatically increase taxes and increase regulations on businesses, rather than reform their bad ways. But they’re under extraordinary pressure because people may just choose to leave.
Education is a bubble in a classic sense. To call something a bubble, it must be overpriced and there must be an intense belief in it. Housing was a classic bubble, as were tech stocks in the ’90s, because they were both very overvalued, but there was an incredibly widespread belief that almost could not be questioned — you had to own a house in 2005, and you had to be in an equity-market index fund in 1999.
[…]
When parents have invested enormous amounts of money in their kids’ education, to find their kids coming back to live with them — well, that was not what they bargained for. So the crazy bubble in education is at a point where it is very close to unraveling.
[…]
Paradoxically, education has become a way to avoid thinking about your future. Instead of thinking about your future, you go to school and defer thinking about your life.
The Left-versus-Right debate tends to be that the Left argues that the expectations were off because of ruthless lenders who sold a bill of goods to people and pushed all this debt on people, and that it was basically the problem of the creditors. The Right tends to argue that it was a problem with the borrowers, and people were sort of crazy in borrowing all this money. In the Left narrative, it starts with Reagan in the ’80s, when finance became more important. The Right narrative starts in the ’60s when people became more self-indulgent and began to live beyond their means.
My orthogonal take is that the whole thing happened because there was not enough technological innovation. It was not really the fault of the borrowers or the lenders; the problem was that everybody had tremendous expectations that the country was going to be a much wealthier place in 2010 than it was in 1995, and in fact there’s been a lot less progress. The future is fundamentally about technology in an advanced country — it’s about technological progress. So a credit crisis happens when the technological progress is not as good as people expected. That’s not the standard account of the last decades, but that’s the way I would outline it.
Income or wealth inequality is a somewhat different problem. I think it’s probably not right to blame technology or finance of any of the industries that are doing well in the U.S. It’s better to think why a lot of people are not seeing as much progress as they’d like. And that loops in all sorts of things, from the failure of the education system to the lack of technological innovation, to the closing of the frontier.
One of the factors that equalized things in the 19th century was that people could move out to the frontier. Now, the geographic frontier has been closed — outerspace is too far away, cyberspace is not quite real, the oceans may still be not quite there. Then there’s the technological frontier; there are some things there, but it’s more limited. So if you wanted to reduce income inequality in a non-confiscatory way, or in a non-redistributionist way, it has to involve opening up a new frontier.
The idea that societies are less tolerant than people think, that there are truths that cannot be told and people have to disguise what they say. The problem of political correctness is a much deeper and more pervasive problem than is generally believed in the optimistic liberal understanding of the world. Properly understood, the problem of political correctness is our greatest problem — the problem of how people can think in a way that is independent of the mob.
Desta entrevista a Peter Thiel, libertário, co-fundador do PayPal, investidor que permitiu ao Facebook tornar-se um fenómeno global, co-produtor do filme “Thank You For Smoking”, membro do Grupo de Bilderberg, defensor da ideia de criar novas nações em ilhas artificiais instaladas em águas internacionais. Como seria de esperar, algumas ideias são polémicas mas talvez por isso mesmo valha a pena reflectir sobre elas.
(Com um agradecimento a Lucklucky pela sugestão.)
Mas isto não é sobre Nabokov nem sobre ninfitas, tema, aliás, que só poderia meter-me em sarilhos. Talvez ainda valha a pena, antes de o deixar sossegado no cantinho relativamente confortável do Inferno onde estará (haverá ninfitas no Inferno?), referir que Humbert distribuía as raparigas pelas categorias de ninfitas – até aos quinze anos de idade –, jovens e universitárias porque isso ajuda a constatar como todos passamos a vida a arranjar categorias para tudo. Menos elaboradas, ou talvez menos perversas, que o sistema de classificação de Humbert Humbert mas não substancialmente diferentes no seu propósito e alcance. Por exemplo: no instante em que vemos alguém pela primeira vez encaixamo-lo numa prateleira estética (bonito / feio) e, minutos depois, em mais umas quantas (interessante / desinteressante / irritante; simpático / antipático / indiferente). Confesse-o ou não, um homem heterossexual avaliará sempre uma mulher em termos de potencial sexual. Colocará sempre a questão: iria para a cama com ela? (Estando a analisar o interior do cérebro masculino, que ela pudesse desejar tudo menos ir para a cama com ele é nesta fase tão relevante como a marca de pasta dentífrica do Steven Spielberg.) Mas a miúda do cartaz fez-me pensar numa outra classificação, com três categorias: há mulheres que fazem um homem pensar imediatamente em sexo; há as que geram primeiro instintos de protecção e só depois vontade de sexo – eventualmente misturada com uma pitada de vergonha; e há aquelas que não suscitam um segundo olhar. A beleza física das mulheres e as preferências individuais dos homens desempenham um papel crucial na distribuição pelas categorias mas a idade, de umas e de outros, terá igualmente alguma coisa a ver com o assunto. (Nota: não vale a pena chatearem-se, meninas; vocês fazem o mesmo em relação aos homens.) É difícil imaginar uma mulher de trinta anos mantendo o ar inocente da miúda do cartaz. De resto, andava para aí outra publicidade a roupa interior feminina, da Triumph, com três actrizes portuguesas na casa dos vinte e muito ou trinta e poucos e a sensação obtida era totalmente diferente. Puro sexo, digamos, apesar da expressão «puro sexo» ser provavelmente um – quiçá deliberado – oxímoro. As mulheres da Triumph colocavam um desafio aos homens que olhavam o cartaz. Como se dissessem: «Não és homem suficiente para nós» (o que, talvez valha a pena referi-lo, é problemático para muitos homens embora poucos estejam disponíveis para admiti-lo). Nenhum adolescente escreveria «são giras» nesse cartaz. É possível que um adolescente nem sequer escrevesse nesse cartaz. Mulheres de trinta anos são velhas para a maioria dos adolescentes. Mas alguém que escrevesse nesse cartaz seria muito mais explícito. Mais brutal, também, porque a idade e a pose das raparigas da Triumph já não permitiam inocência. E talvez seja este o ponto onde eu queria chegar. Os anúncios para adultos dispensam a inocência. Mesmo anúncios que, chamando embora a atenção dos homens, se destinam acima de tudo ao público feminino. Talvez as marcas, ou os criativos por trás delas, acreditem que as mulheres gostam de ver alguma inocência nas adolescentes mas já pouca ou nenhuma nas mulheres adultas. Encontra-se muito isto, na publicidade actual, e suponho que tenha uma certa lógica. As mulheres querem mostrar-se seguras, auto-suficientes, dominadoras mesmo, e dispensarão ver retratadas algumas características que podem ser confundidas com fragilidades e remetem para outros tempos. Mas também é perturbador. Afinal, por que não podem hoje as mulheres de trinta – ou de quarenta ou de cinquenta – revelar alguma inocência? Porque têm – para além de manter os corpos jovens e atraentes – de parecer sempre confiantes e quase sempre sexualmente seguras de si? A pressão que isto representa. A pressão que a publicidade lhes coloca em cima.
Seja como for, que a miúda é gira, lá isso é. Até se perdoa ao rapaz ter sujado o vidro da paragem de autocarros para escrever o elogio.
De entre os banqueiros nacionais, Ulrich é o que menos urticária me provoca, por ter começado a emitir alertas quando os colegas ainda elogiavam Sócrates e a política de obras públicas. Mas uma declaração destas não pode ficar sem comentário. “Risk free”? Que raio de banqueiros são estes que acham ter direito a produtos sem risco? Nunca nada é “risk free” (já agora, o inglês dispensava-se). “Risk free” para os bancos significa a pagar pelos contribuintes.
Não sou economista e percebo isto-assim-acima-de-nada (estou a indicar a ponta do dedo mindinho) acerca do funcionamento dos mercados financeiros (o que, agora que penso no assunto, me faz ter pelo menos um ponto em comum com muitos economistas) mas deixem-me pegar na nota de dólar que o Luís M. Jorge ontem aqui colocou para uma curta reflexão. Nos EUA, como na Europa, o problema da crescente diferença de rendimentos entre os mais ricos e os mais pobres tem sido motivo frequente de debates. Ainda bem; é uma questão que merece ser debatida. Considerem esta a minha contribuição.
Comecemos pela pergunta: por que têm os ricos ficado cada vez mais ricos? Assim de repente, por três razões: facilidade de (e conhecimentos para) investir em qualquer ponto do globo; empolamento de cotações; capacidade para escapar ao pagamento de impostos através da utilização de mecanismos previstos na lei e de paraísos fiscais. O primeiro ponto não é exclusivo dos ricos: qualquer pessoa com algumas poupanças pode hoje investir no sector metalomecânico chinês ou no sector hortícola da Arábia Saudita (não façam isso). Mas para tal é necessário dinheiro e os ricos têm-no logo à partida em maior quantidade. Dinheiro gera dinheiro, etc., e as diferenças acentuam-se. Para mais, os ricos não têm apenas transferido o dinheiro mas também as unidades produtivas das suas empresas. Isto permite-lhes maximizar os lucros mas leva a que as condições no seu próprio país se degradem: para além do aumento do desemprego causado pela deslocalização das unidades, há a considerar o impacto nos fornecedores (desemprego se também procederam à deslocalização, desemprego e eventual falência se não procederam) e ainda as dificuldades acrescidas para empresas mais pequenas do mesmo sector de actividade, que antes conseguiam concorrer apesar dos problemas de escala mas agora ficam com um diferencial de preço demasiado elevado. Resultado: os ricos ficam mais ricos (caramba, desconfio que este vai ser o meu texto mais à esquerda de sempre), os restantes também não. O que fazer? Deveremos limitar a circulação de bens e capitais, prejudicando os cidadãos dos países emergentes (a que também podemos chamar países competitivos) e aceitando pagar preços mais altos pelos produtos que consumimos? Como fazê-lo sem desencadear retaliações? Como fazê-lo sem prejudicar a competitividade das nossas empresas no mercado global? («Nossas» significa alemãs, francesas e – mas só por causa da Inditex – espanholas.) Temos a certeza de que, no final do processo, ficaremos mais ricos (nós, não os ricos)? Estas são as perguntas-chave da globalização e ainda ninguém lhes respondeu de forma satisfatória. Mas é muito provável que um dia destes, numa caixa de comentários de um blogue qualquer, alguém o faça.
Adiante. O que raio quero dizer com «empolamento de cotações»? Simples: como também tem sido abundantemente referido, os mercados de capitais lidam hoje com montantes muito superiores aos bens físicos que é suposto representarem. Isto ficou evidente aquando da crise do subprime, despoletada precisamente porque os bancos haviam sobreavaliado as propriedades que garantiam os empréstimos concedidos. Ora a riqueza dos estupidamente ricos é avaliada muito mais pela cotação dos títulos que detêm do que pelos bens físicos que possuem ou pelos salários que auferem, por simpáticos (ou obscenos, à escolha consoante o estado de espírito ou a filiação partidária) que uns e outros sejam. Isto é o contrário do que sucede com um cidadão da classe média que, podendo ter uma pequena carteira de títulos, tem essencialmente bens físicos (um apartamento, um carro, uma mão-cheia de electrodomésticos) e rendimentos do trabalho. Já os muito pobres, nem bens físicos possuem. Ou seja: em grande medida, a riqueza dos muito ricos é virtual. (Repare-se como Joe Berardo anda desesperado por dinheiro.) Com isto não pretendo despertar nos infelizes que tiveram o azar de começar a ler este texto (sim, você, e você também – esse penteado é novo, não é?) sentimentos de comiseração pelos muito ricos. Eles não precisam e nós temos alternativas mais rentáveis onde os aplicar. A questão é outra. Aproximar os valores expressos em cotações e balancetes dos valores reais (sendo que em muitos casos o valor real é muito discutível; pense-se em obras de arte ou mesmo na cotação do ouro) faria diminuir a fortuna dos ricos mas teria muito pouco impacto no rendimento disponível dos restantes. Dois exemplos: a implementação de mecanismos de regulação fortes, que exigissem a todas as instituições financeiras rácios (de capitais próprios, de cobertura de créditos concedidos por depósitos conquistados) mais elevados, obrigaria à injecção de capital por parte dos accionistas e levaria os lucros a descerem mas não transferiria dinheiro para os cidadãos mais pobres; a proibição de práticas como o naked short selling (em que se vendem títulos que ainda não se possuem, na esperança de que a cotação desça e se possam depois comprar mais baratos, lucrando a diferença*), o short selling (em que o vendedor usa títulos emprestados) e de outros derivativos financeiros igualmente polémicos, eliminaria parte da famigerada «especulação» (um quarto motivo para os ricos estarem a ficar mais ricos pode ser – um eleitor do Bloco ou do PC resmungará: «É» – a capacidade de manipular o mercado) e diminuiria os lucros dos investidores mas, again, não transferiria dinheiro para os cidadãos mais pobres. Nestes dois casos, os pontos positivos para o cidadão comum seriam outros: no primeiro, garantias acrescidas de que as suas poupanças estão seguras; no segundo, diminuição da volatilidade dos mercados e, por conseguinte, da violência dos movimentos de correcção (embora se deva reconhecer que um elevado número de operações de short selling envolvendo um determinado título também pode ter o aspecto positivo de servir como avisador de que algo não está bem com ele). Estes efeitos são suficientemente benéficos para que as medidas mereçam ser discutidas e, de resto, numa época em que se exige às pessoas que aprendam a viver com os pés assentes na terra, parece justo obrigar as instituições financeiras e os mercados a fazerem o mesmo. Mas nenhuma delas leva ao aumento de rendimento dos mais pobres, apenas à diminuição da riqueza dos mais ricos. E deve acrescentar-se que não se encontram isentas de facetas negativas. Ao retirar dinheiro, ainda que razoavelmente virtual, da economia, esta seria forçada a movimentos de correcção, agravando os que já estamos a sentir (obrigar os bancos a reservas mais elevadas implica ter ainda menos dinheiro disponível para a economia; um mercado de capitais com menos liquidez significa dificuldades acrescidas de financiamento para as empresas; lucros mais baixos dão origem a menor receita fiscal; and so on and so on). Não há almoços grátis.
Chegamos finalmente (eu prometi uma reflexão curta, não foi? Bolas, ainda acabo Primeiro-Ministro) à evasão fiscal. Em muitos países ocidentais, os sistemas fiscais são demasiado complexos e permitem demasiadas excepções. Um sistema simples, com taxas mais baixas e deduções reduzidas ao mínimo, seria uma boa forma de combater o aproveitamento dos buracos deixados inadvertida ou propositadamente na lei. Em teoria, mais impostos cobrados aos ricos (por aumento da matéria colectável, não por aumento de taxas que, convenhamos, já são ridiculamente elevadas) permitiria baixar os impostos ao cidadão comum (dream on) ou, pelo menos, garantir contas públicas mais equilibradas (durante cerca de três semanas), o que possibilitaria manter transferências sociais actualmente em risco. Aumentar a matéria colectável parece assim uma via adequada para conseguir diminuir o tal fosso entre ricos e pobres. Resta saber se o resultado seria significativo. Dos pináculos da minha irrelevância, apoiado nos instintos mais puros (porque sem qualquer sustentação em estudos científicos ou académicos), estou convencido de que apenas o seria com o fim dos paraísos fiscais. E isto cria-nos um problemita apenas ligeiramente menor do que o buraco das contas públicas porque só faz sentido eliminar os paraísos fiscais a nível global (e, ainda assim, restariam diferenças de taxação suficientes no mundo para que parte do capital continuasse a escapar-nos; a concorrência é tramada quando, apanhando-nos acomodados, se vira contra nós). Estando forçados a obter a concordância do mundo, mais vale arranjarmos cadeirinhas confortáveis e esperarmos bem sentados (acomodados por acomodados…). Ou então – já que este é o meu post esquerdista – organizarmos movimentos internacionais com ideias claras, em vez daqueles ajuntamentos de indignados de fim-de-semana que por aí andam.
Adenda 1: Se não percebeu patavina, parabéns. É a reacção certa.
Adenda 2: Nenhuma estatística foi maltratada durante a escrita deste texto. Até porque nenhuma foi usada.
* Vejam Trading Places, de John Landis, para uma versão cómica e benigna do procedimento. E porque vale sempre a pena rever Jamie Lee Curtis, mesmo – ou será especialmente? – fazendo de prostituta.
A uma conclusão já chegámos: os interesses cruzados de governantes, banqueiros e empresas várias (dos ramos da construção civil, do imobiliário, da gestão de infra-estruturas e de resíduos, das energias renováveis, etc.) tiveram um papel crucial na definição do trajecto que nos trouxe à situação de falência. Demorámos a atingi-la mas ainda bem que agora não restam dúvidas. E escrevo «ainda bem» por dois motivos – por em grande medida ser a conclusão certa e porque nos permite chegar a um corolário confortável: as causas da crise estão na ganância e na miopia dos capitalistas, ávidos de lucro mas incapazes de verem para além do curto prazo, e na corrupção dos políticos. Excelente. Ao menos que exista uma explicação fácil e meia dúzia de culpados que possamos apontar.
Quando uma empresa privada se encontra na falência, os funcionários dessa empresa sofrem. Quando um Estado se mostra incapaz de cumprir os seus compromissos financeiros, normalmente sofrem todos os cidadãos. Em parte, isto é compreensível: os trabalhadores do sector privado beneficiam de alguns serviços providenciados pelo sector público, sendo do seu interesse que eles se mantenham. Em parte, não é: uma parcela da população dispõe de garantias especiais, obtidas de forma coerciva. Assim sendo, que o esforço de correcção do problema criado pelo sector público (por elevada que a dívida privada também seja, não foi ela que nos trouxe aqui) seja distribuído por todos os cidadãos mas recaia mais sobre os funcionários públicos e das empresas públicas é um acto de justiça. Ainda que, individualmente, a maioria deles nenhuma culpa tenha. Mas o mesmo se pode dizer dos funcionários de uma têxtil ou de uma fábrica de calçado que enfrente a falência.
Já quanto ao corte nas pensões, a questão é mais delicada.
De acordo, Luís: devemos preocupar-nos exclusivamente com os interesses portugueses. Mas mais importante do que chegar a esta conclusão talvez seja determinar como é que isso se faz. Ignorando as exigências para (em alguns casos, necessidades reconhecidas de) reformar, esperando que as tranches do fundo de resgate continuem ainda assim a chegar? Anunciando o default, total ou parcial, sendo que os bancos portugueses e vários fundos de investimento, entre os quais o da Segurança Social, sofreriam rombos assinaláveis, quiçá incomportáveis? Anunciando um default somente para os créditos detidos por bancos e fundos de investimento estrangeiros, como a tua frase «Talvez por isso fosse altura de o parlamento português se preocupar com os interesses dos nossos cidadãos em vez de tudo fazer para contentar os credores internacionais» parece deixar subentendido? Solicitando apenas ajustes de pormenor ao plano actual? Neste caso, quais? Devem pedir-se já ou mais tarde? Se forem recusados, o que se faz? E poderão ajustes de pormenor representar uma alteração de política como a que o teu texto parece advogar?
Exactamente como é que se defendem os interesses dos «nossos cidadãos»?
Chega a grande velocidade num Audi prateado quarenta e cinco minutos depois da hora marcada. Avança de mão estendida e pede desculpa pela meia hora de atraso. Diz que estava numa reunião mais de cinquenta quilómetros a norte, onde reside e tem a sede do grupo, e que quando nos deixar há-de ir para um local a sul ainda mais distante, onde possui outra empresa.
Esta é antiga. Tem uma parte renovada em que as condições são razoáveis. No resto da área são horríveis. Não para ele. Para ele, as condições são sempre pelo menos adequadas. Máquinas velhas? Melhores, mais resistentes do que as novas. Quadros eléctricos cobertos de pó? Revistos há pouco tempo e, de resto, o pó é inevitável na actividade. Inexistência de sistemas de aspiração em algumas zonas e trabalhadores sem máscaras de protecção? Foram compradas, eles é que não as usam.
Há um odor intenso no ar. A empresa fica numa zona rural mas existem casas nas redondezas. Os moradores queixam-se do cheiro. Ele diz que a situação está a ser resolvida. Segundo parece, começou a dizê-lo há muitos anos.
A cinquenta metros passa uma ribeira. Entre a pequena ETAR da empresa e a ribeira existe um canavial. O homem explica, com um trejeito de cumplicidade, que o canavial está ali para disfarçar a ocasional descarga directa. Frisa que isso acontece muito raramente, apenas quando a ETAR não tem capacidade de resposta.
Para além do homem, acompanha-nos um engenheiro jovem, de bata branca, responsável pelas áreas da Qualidade, Ambiente e Segurança. Mantém-se junto do patrão, o que lhe permite falar pouco. A cada pergunta, espera que o patrão intervenha e dê a resposta que bem entender. O que sucede sempre. O homem gosta de falar e tem resposta para tudo.
Gosta tanto de falar que, acabada a visita, permanece meia hora a conversar, na rua, perto dos carros estacionados. De vez em quando refere que ainda tem muitos quilómetros pela frente, até à tal empresa situada mais a sul, mas não se predispõe a entrar para o Audi. Admite que conduz depressa. Chegou a ter dezoito multas por excesso de velocidade. Ao mesmo tempo. Explica que deu instruções ao advogado para conseguir juntar os processos todos num único porque não tinha tempo nem paciência para andar sempre no tribunal. Pediu ao presidente da Câmara da localidade onde vive (a terra mais a norte, de onde chegou para esta reunião) que fosse sua testemunha. O presidente da Câmara disse-lhe que não ia mentir a tribunal. Respondeu-lhe: «Se tu não vais, alguém há-de ir.» Entre outros, foi um vereador. O juiz até era um gajo porreiro e só lhe tirou a carta por seis meses. Foi mau mas não foi mau de todo. Perguntado se conduziu durante esse período, nega com um sorriso.
É difícil despedirmo-nos mas por fim lá conseguimos, até porque agora ele está mesmo muito atrasado. Deixamo-lo junto ao Audi e ao jovem engenheiro silencioso. Ultrapassa-nos nem um minuto depois, a alta velocidade. Acena.
Meia hora mais tarde, sentados a almoçar, uma das duas pessoas que estão comigo diz: «Eh pá, até gostei do homem.» Mantenho-me em silêncio. Pergunta qual a minha opinião. Respondo: «Acho que tem quase todas as qualidades e quase todos os defeitos do português típico.» Não lhe digo que considero a reacção dele igualmente típica. Prefiro concentrar-me no almoço que, aliás, está excelente.
Ah, provavelmente será irrelevante mas o homem é um socialista convicto. Signifique isso o que significar.
É um erro analisar os resultados eleitorais na Madeira à luz do conceito de eleições do século XXI. Ou até do século XX. Um melhor modelo será o do século XIX. Aquele que encontramos na “Morgadinha dos Canaviais”, por exemplo.
Olhar um cão nos olhos faz-me sentir melhor do que sou. Olhar um gato nos olhos não me faz sentir pior do que sou porque o olhar dos gatos não admite desvios em relação à realidade. O olhar dos gatos é objectivo. Mesmo nas alturas em que contemporizam (e fazem-no por vezes, com as pessoas que lhes merecem alguma consideração) não escondem que o fazem. O olhar de um gato é parecido com o de uma mulher que se sabe extraordinariamente atraente quando perante um homem sem encantos físicos ou materiais mas deixa ainda menos margem para devaneios. Atira-me para o sítio certo, faz-me sentir exactamente como sei que sou. E por muito que alguns humanos tentem depois convencer-me de que sou melhor do que isso, percebo que mentem. Se tivesse filhos pequenos, talvez eles o conseguissem. Ou uma mulher nos primeiros estádios da paixão. Assim, apenas o olhar de um cão é capaz de me enganar novamente.