Armas de fogo


escafandro,

Dirijo-me ao pequeno balcão junto à secção de livros da Fnac do GaiaShopping. Uma rapariga envergando o coletezinho verde e ocre pergunta-me se pode ajudar. É magra e parece cansada mas confesso não prestar muita atenção à sua aparência. Pergunto se têm um livro de Isaac Asimov, recentemente lançado, de que não recordo o título. Ela inclina-se para o computador enquanto eu acrescento que foi editado pela Ulisseia. O colete, talvez um nadinha grande para a compleição franzina dela, afasta-se-lhe ligeiramente do corpo, deixando mesmo à frente dos meus olhos duas mamas empinadas e comprimidas uma contra a outra por um soutien que mal se vê. Apesar de me encontrar naquela idade em que os homens tendem a ficar quase só olhos e sofreguidão, costumo ser um tipo discreto mas aquilo apanha-me de tal forma desprevenido que o meu olhar fica preso durante demasiado tempo e o meu cérebro baralha-se, levando-me a fazer uma pausa entre «pela» e «Ulisseia». A rapariga percebe, claro, mas finge que não e eu faço um esforço titânico para impedir que os meus olhos voltem a focar-se abaixo do nível do pescoço dela. E a vontade nem é tanto ver-lhe as mamas novamente mas tentar compreender como raio é que antes me passaram despercebidas.

 

Um pouco mais tarde, noutra zona da Fnac, remoendo o embaraço, lembro-me do início de O Animal Moribundo, de Philip Roth. Ao descrever a aluna por quem se sente atraído, o professor Kepesch refere que ela tem um corpo magnífico mas que ainda não sabe bem como usá-lo. Que o transporta como um miúdo de uma zona perigosa transporta uma arma de fogo carregada, tendo ainda de decidir se o faz para se proteger, se para iniciar uma vida de crime. E ponho-me a pensar que o modo como, ao longo dos meses de Verão, quase todas as mulheres trazem o armamento bem visível e tantas parecem ter optado, com uma convicção desafiante, pela vida de crime, mantém os homens alerta, antevendo duelos ferozes. Mas quando o tempo arrefece e a maioria das armas passa a andar escondida, um tipo relaxa e, de vez em quando, não consegue evitar ser apanhado de surpresa ao descobrir um par de Glocks numa rapariga aparentemente incapaz de matar uma mosca.

18 comentários em “Armas de fogo”

  1. Muito bom!
    Claro que me refiro ao texto e não propriamente ao par de glocks da magricelas!
    Todavia até pode mesmo ser extensivo às ditas referidas mamas empinadas e comprimidas…
    Mau! Já estou a comentar sobre o que não vi; a culpa é desta imaginação que nunca pára.

    Pronto! Refeito, reafirmo: gostei bastante do texto.
    Cumprimentos.

  2. Obrigado, jaa. Já vivi dezenas de vezes essa situação, e nunca pensei que podia confessá-lo. Você deu-me coragem: confesso – um tanto envergonhado – que nunca fico indiferente a um par de mamas, comprimidas ou não.

      1. “…Al pasar la vista hiere,
        elegante,
        y ha de amarla quien la viere. …”

        ai ai…o discreto encanto da FNAC…

  3. Bem, parece que as minhas irmãs perderam o pio…

    Assim, falo eu: fez-me sorrir e até, no fim, dar uma gargalhadinha. De prazer pela espreitadela inesperada no “outro” planeta, suponho.

    Só tenho um adejctivo: gostei.

  4. Aqui a menina só não se manifestou antes porque tem andado, por razões alheias à sua vontade, arredada do blogue. Mas agora que aqui cheguei, só tenho um comentário para ti: obrigada pela partilha (risinho).
    Agora a sério: está no ponto. Honestidade qb, elegância, como sempre, e um tonzinho confessional irresistível.

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