Chega a grande velocidade num Audi prateado quarenta e cinco minutos depois da hora marcada. Avança de mão estendida e pede desculpa pela meia hora de atraso. Diz que estava numa reunião mais de cinquenta quilómetros a norte, onde reside e tem a sede do grupo, e que quando nos deixar há-de ir para um local a sul ainda mais distante, onde possui outra empresa.
Esta é antiga. Tem uma parte renovada em que as condições são razoáveis. No resto da área são horríveis. Não para ele. Para ele, as condições são sempre pelo menos adequadas. Máquinas velhas? Melhores, mais resistentes do que as novas. Quadros eléctricos cobertos de pó? Revistos há pouco tempo e, de resto, o pó é inevitável na actividade. Inexistência de sistemas de aspiração em algumas zonas e trabalhadores sem máscaras de protecção? Foram compradas, eles é que não as usam.
Há um odor intenso no ar. A empresa fica numa zona rural mas existem casas nas redondezas. Os moradores queixam-se do cheiro. Ele diz que a situação está a ser resolvida. Segundo parece, começou a dizê-lo há muitos anos.
A cinquenta metros passa uma ribeira. Entre a pequena ETAR da empresa e a ribeira existe um canavial. O homem explica, com um trejeito de cumplicidade, que o canavial está ali para disfarçar a ocasional descarga directa. Frisa que isso acontece muito raramente, apenas quando a ETAR não tem capacidade de resposta.
Para além do homem, acompanha-nos um engenheiro jovem, de bata branca, responsável pelas áreas da Qualidade, Ambiente e Segurança. Mantém-se junto do patrão, o que lhe permite falar pouco. A cada pergunta, espera que o patrão intervenha e dê a resposta que bem entender. O que sucede sempre. O homem gosta de falar e tem resposta para tudo.
Gosta tanto de falar que, acabada a visita, permanece meia hora a conversar, na rua, perto dos carros estacionados. De vez em quando refere que ainda tem muitos quilómetros pela frente, até à tal empresa situada mais a sul, mas não se predispõe a entrar para o Audi. Admite que conduz depressa. Chegou a ter dezoito multas por excesso de velocidade. Ao mesmo tempo. Explica que deu instruções ao advogado para conseguir juntar os processos todos num único porque não tinha tempo nem paciência para andar sempre no tribunal. Pediu ao presidente da Câmara da localidade onde vive (a terra mais a norte, de onde chegou para esta reunião) que fosse sua testemunha. O presidente da Câmara disse-lhe que não ia mentir a tribunal. Respondeu-lhe: «Se tu não vais, alguém há-de ir.» Entre outros, foi um vereador. O juiz até era um gajo porreiro e só lhe tirou a carta por seis meses. Foi mau mas não foi mau de todo. Perguntado se conduziu durante esse período, nega com um sorriso.
É difícil despedirmo-nos mas por fim lá conseguimos, até porque agora ele está mesmo muito atrasado. Deixamo-lo junto ao Audi e ao jovem engenheiro silencioso. Ultrapassa-nos nem um minuto depois, a alta velocidade. Acena.
Meia hora mais tarde, sentados a almoçar, uma das duas pessoas que estão comigo diz: «Eh pá, até gostei do homem.» Mantenho-me em silêncio. Pergunta qual a minha opinião. Respondo: «Acho que tem quase todas as qualidades e quase todos os defeitos do português típico.» Não lhe digo que considero a reacção dele igualmente típica. Prefiro concentrar-me no almoço que, aliás, está excelente.
Ah, provavelmente será irrelevante mas o homem é um socialista convicto. Signifique isso o que significar.

Pergunta inocente:
Como bom português que é.. pediu a factura do almoço?
Pedi – até porque quero que mo paguem. 😉
Mais palavras para quê? O que descreve no seu post é o retracto de um verdadeiro “artista portugues”. Às vezes tambem conhecidos por “patos bravos”. E do PS e tudo. É perfeito!
É verdade, Alexandre. Mas confesso que já não encontrava um exemplar tão “perfeito” há uns tempos.
Lamento, mas como esse também há muitos no “partido mais português de Portugal!”.
Claro que sim, Teresa. Mas eu não deixo de achar piada a que alguém assim seja defensor do socialismo. Será uma demonstração de que o conceito lhe é irrelevante mas também de duas outras realidades: que os apoios de PS não estão mais à esquerda do que os do PSD e que o próprio conceito de socialismo anda pelas ruas da amargura.
Então estamos de acordo 🙂
Socialismo é a descricionaridade do Poder. Por isso é que os Socialistas fazem tudo para dar mais poder ao Estado.
Não sei o que é que este comportamento tem contra o Socialismo.
lucklucky: este homem encaixa nessa definição mas ela é a sua definição de socialismo, não a tradicional, em que se mencionam conceitos como igualdade, respeito pelo outro, redistribuição, direitos dos trabalhadores, etc., etc.
Belíssimo post caro Jaa.
Retrata perfeitamente um de muitos labregos que entraram no mundo empresarial com uma mão á frente e outra atrás. Alguém os identifica como “patos bravos” e encaixa perfeitamente naquelas mentes perversas. Cuidado! São homens sem escrúpulos, sem educação egoístas primários que a troco do suborno teem contribuído para atropelar tudo e todos… até a Lei.
Só uma sociedade como a nossa é que consegue albergar este tipo de espécime, e de vez em quando com Pompa e Circunstância até lhes estendem a passadeira vermelha.
Afinal, o que se passa? A promiscuidade entre partidos é evidente.
Obrigado, Filipe. Não sei se só uma sociedade como a nossa consegue albergar espécimes como este – mas que por cá existem uns quantos, lá isso…
“Do chico – espertismo como uma das Belas Artes”.
Chegam , cá no sítio a (primeiros) ministros…
Ou vão fazendo os seus negociozinhos, oferecendo de vez em quando umas caixas de robalos a “amigos” em cargos importantes… 😉
Socialista? Convicto?
Passo desde já a poder considerar-me um trapezista convicto.
Segundo parece, uma eminência do PS lá na terra dele. Convencido de que “estes gajos vão dar cabo de tudo”.
Se se dedicar ao trapezismo, é melhor usar rede, zedeportugal – afinal, estas pessoas também costumam montar uma para as proteger.
É um problema arranjar uma rede decente hoje em dia, meu caro. O Isaltino que o diga…