Outras lições nórdicas


escafandro,

Alexander Stubb, o ministro das Finanças finlandês, esteve em destaque durante a sequência de reuniões do Eurogrupo sobre a questão grega. Interventivo, adepto do Twitter, sem papas na língua a reflectir as reservas dos seus concidadãos (diz-se, ainda assim, ter sido bastante mais comedido nas declarações em inglês do que nas que emitiu em finlandês), merece-me esta nota por algo que pouca atenção despertou em Portugal.

Cai-Göran Alexander Stubb foi deputado ao Parlamento Europeu entre 2004 e 2008, ministro dos negócios estrangeiros entre 2008 e 2011 e ministro dos assuntos europeus e do comércio externo entre 2011 e 2014. Em Junho desse ano, Jyrki Katainen, líder do partido de Stubb e primeiro-ministro, demitiu-se. Stubb assumiu ambos os cargos. Nas eleições de Maio último, o seu partido obteve apenas o segundo lugar no número de votos e o terceiro no número de assentos no Parlamento. Na sequência das negociações que se seguiram para a formação do governo, Stubb transitou do lugar de primeiro-ministro para o de ministro das finanças.

Não estou a ver um político português fazer algo similar. Aceitar este tipo de «despromoção» num país em que até se tornou regra a demissão do líder do principal partido derrotado. Sinais de falta de maturidade democrática, dirão alguns. Certo. Mas não apenas dos políticos e não apenas «democrática»; também «social». O líder derrotado demite-se e nunca faria o que Stubb fez por muito mais do que vaidade pessoal ou crença genuína de ser essa a melhor solução para o país. Fá-lo também porque, de outro modo, perderia o respeito dos portugueses. E isto permite extrapolar para áreas que não a da política. Permite compreender como Passos está certo ao salientar o estigma que, em Portugal, tende a cair sobre os desempregados (sobre quem perde o emprego). Os portugueses gostam de discursos empolgados acerca de respeito e de solidariedade, oferecem empenhadamente um quilo de arroz ou de massa nas campanhas do Banco Alimentar contra a Fome mas, raspada a camada superficial de verniz, estão longe de constituir uma sociedade respeitadora do esforço, do risco pessoal e da consequência mais negativa destes: o ocasional insucesso.

Política-(mau)espectáculo


escafandro,

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De pé em frente a um palanque vazio. Perguntas de eleitores que divagam e se repetem antes de chegarem ao ponto de interrogação. Vídeos e musiquinhas com letras tão profundas quanto aforismos de telenovela. Deslocação do entrevistado para vários pontos do cenário, sem justificação aparente, de que resultam problemas com a iluminação. Bloqueio da imagem do entrevistado por colocação do entrevistador diante da câmara. Acompanhamento do entrevistado «à saída», com mais uma pergunta e uma resposta a meio do caminho, em posição totalmente forçada. Questões extra no cenário habitual dos noticiários, antecedidas da transmissão da entrada do entrevistado no estúdio e da colocação do microfone na sua roupa. Cumprimentos pouco naturais para aqui, despedidas artificiais para ali.

Só me conseguia lembrar do gestor do canal televisivo na série Borgen que insistia em transformar as entrevistas e os debates políticos em espectáculos. Com uma diferença: na ficção dinamarquesa, alguém tinha o bom senso de recusar o ridículo; na realidade portuguesa, ele é abraçado entusiasticamente.

 

(Imagem recolhida no site da TVI24.)

Destes tempos de simplicidade, quiçá de involução linguística


escafandro,

O léxico mingua. Camilo conglobava uma miríade de vocábulos hoje alóctones. Qual filigrana rococó, Aquilino desembuçava concatenações multifárias e buriladas. Hoje, bulhufas. Mas as sarandalhas palmeiam. Pascácios conjecturando-se paladinos do discernimento coagem a aceleração da declividade, assestando vitupérios na Internet sobre almas ensimesmadas que se afoitam à geração de verbetes prenhes de ímprobas lexias. Pelejar é supervacâneo. Antes arriar.

Aplaudem o quê?


escafandro,

14h39 – Alexis Tsipras é recebido “com aplausos” pelos deputados do Syriza em Atenas – incluindo o presidente do Parlamento, que se absteve na votação do pacote de medidas que foi apresentado em Bruxelas – antes da reunião à porta fechada que antecede as votações do pacote de reformas previsto para esta quarta-feira à noite.

14h46 – A Comissão Europeia espera que a Economia da Grécia caia entre 2% e 4% este ano, agravando a queda do PIB face aos 0,5% que eram previstos em Maio, aquando da divulgação das previsões da Primavera [e, acrescento eu, aos 2,9% positivos que o FMI antecipava em Outubro passado]. A confirmar-se, isto significa o regresso da Grécia à recessão depois de em 2014 a Economia ter avançado uns ligeiros 0,8%. O regresso ao crescimento está agora previsto acontecer apenas em 2017, isto diz a Comissão Europeia, “assumindo que a estabilidade política é restaurada em breve” e que vão sendo retiradas as medidas restritivas impostas sobre o sector bancário.

No Económico.

Em quatro frases


escafandro,

O governo grego perdeu porque, na vigésima quinta hora e após cinco meses e meio de um comportamento que, fosse o Syriza de direita, teria levado as mentes bem-pensantes do planeta a despejar sobre ele uma chuva de acusações impregnadas de desprezo e salpicadas de impropérios, renegou todas as promessas que jurara cumprir. O governo alemão perdeu porque não somente foi mais uma vez coagido a manter no euro quem recusa comprometer-se com as regras deste, num processo que tenderá a arrastar a economia alemã para uma lógica terceiro-mundista, como tem de arcar com a imagem de polícia mau. Hollande ganhou porque saiu das negociações como o polícia bom e, mesmo forçado a aceitar o dano colateral (menor) de obrigar Syriza e Grécia a meter o socialismo na gaveta (até ver), atingiu o seu objectivo de conservar o destino da Alemanha preso ao da França. Quanto à União Europeia e, em particular, à Zona Euro, aparentemente ganhou (oxalá), provavelmente perdeu.

Passado recente e futuro – duas notas


escafandro,

1. Por motivos históricos, culturais, geopolíticos e, acima de tudo, porque a maioria dos gregos ainda o parece desejar, seria importante que a Grécia permanecesse na Zona Euro. Infelizmente, a acção do governo grego ao longo dos últimos meses tornou-o difícil, se não impossível. Primeiro, porque agravou significativamente a situação económica e financeira do país, fazendo com que este necessite hoje de muito mais dinheiro do que necessitava em Janeiro. Depois porque, sendo já por si difícil acreditar que um governo eleito com base em promessas de aumento de despesa pública levaria a cabo as reformas eternamente adiadas no sentido da liberalização da economia, destruiu todos os laços de confiança que poderiam garantir-lhe boa vontade junto dos governos e das populações dos restantes países europeus. Pior ainda: não é de excluir que, ao fazê-lo, tenha tornado mais difícil para qualquer outro estado-membro obter compreensão e flexibilidade nos próximos anos.

 

2. Na Grécia como noutros países, os riscos ligados às tensões sociais e aos partidos extremistas – quase inevitáveis em tempos de dificuldades económicas – devem ser levados muito a sério. Mas isso não pode significar continuar a adiar os problemas. Ou as economias são reformadas no sentido da auto-sustentabilidade e da diminuição do nível de endividamento, o que significa austeridade, ou a situação acabará por rebentar, no plano financeiro, económico e social, de modo ainda mais grave. Em tempo de Keynesianistas, talvez seja conveniente lembrar Mises: There is no means of avoiding the final collapse of a boom brought about by credit expansion. The alternative is only whether the crisis should come sooner as a result of a voluntary abandonment of further credit expansion, or later as a final and total catastrophe of the currency system involved. Na verdade, pode já ser demasiado tarde.

Da regulação forte e centralizada


escafandro,

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Depois de cair trinta por cento (o equivalente a quinze Grécias), a bolsa chinesa recuperou cinco. Por lá, ainda que talvez apenas por enquanto, a «regulação» funciona. Pelo menos o estilo de regulação que vai até à proibição de venda de títulos e à ameaça de prisão para quem desobedecer. Vantagens de um sistema político e regulatório com capacidade para impor a sua vontade. Muitos políticos ocidentais, vítimas da «especulação» e dos «mercados», devem sentir inveja. Não podendo recorrer à polícia, resta-lhes tentar obter o mesmo efeito usando os bancos centrais.

 

(Clicando no gráfico e usando a opção «outros tamanhos», é possível aceder a versões maiores. Vale a pena ler as legendas, em especial as mais à direita.)

Meu caro (ficá-lo-á especialmente se ganhar as eleições) Dr. Costa:


escafandro,

Já que, por inexistência de alternativa convincente, promete rever a questão das portagens na Via do Infante, permita-me que lhe pergunte, certo de que tanto o seu conhecimento como a sua experiência extravasarão em muito as ruas de Lisboa e as estradas do Algarve (ou talvez “Allgarve”, como pretendia um seu colega): Conhece a alternativa à A25? E à A28? E à A29?

Muito obrigado. Cumprimentos.

Contraste


escafandro,

No centro comercial: homem e mulher com aspecto gótico levam pela mão uma miúda (quatro, cinco anos no máximo) vestida como uma princesinha de conto de fadas.

Fico a vê-los afastarem-se. Por instantes, sinto estar a observar uma cena de um filme dos bons velhos tempos de Tim Burton. Há ternura no contraste. Como se a miúda lhes tivesse caído no colo de surpresa, vinda de um universo paralelo ao deles, e procurassem ainda a forma adequada de reagir. Ou, melhor, como se tanto ela como eles viessem de universos paralelos a este e se tivessem juntado para tentar navegá-lo.

Depois de abandonarem o meu campo de visão ponho-me a pensar mais a sério. Será possível que uma miúda daquela idade já tenha capacidade para recusar o exemplo dos progenitores e impor um aspecto tão distinto do deles? Neste caso, quão desconcertante (todos os pais se imaginam modelos para os filhos) será para eles? Ou será desejo dos pais mantê-la num mundo de encanto e inocência, em que claramente não acreditam, até tão tarde quanto possível? E constituirá o exagero uma tentativa de compensar essa falta de crença?

Ou então – a minha faceta racional e mais do que um nadinha cínica estraga-me sempre as divagações – são apenas tios e sobrinha.

Os «estímulos» começam a não resultar…


escafandro,

Bolsa chinesa cai mais de 30% em poucos dias, apesar dos esforços do Banco Central lá do sítio. Para além da injecção de paletes de dinheiro acabado de inventar, entre as medidas de revitalização contam-se: cortes da taxa de juro de referência e dos requisitos de reservas de capital que os bancos têm de assumir nos empréstimos; diminuição dos limites a que os fundos de pensões possam investir em acções; suavização das limitações à negociação de acções alavancada em dívida; e a criação de um novo fundo para estabilizar o mercado, alimentado por 21 corretoras locais, a partir de 4 de Julho. Fazendo um esforço para ignorar a falta de clareza e os erros de concordância presentes no texto (diminuição dos limites a que os fundos de pensões possam investir em acções?), são medidas para, a prazo (assumo misericordiosamente que no imediato ainda terão algum efeito), se obterem resultados espectaculares.

Constatações e cenários (todos maus)


escafandro,

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1. O referendo na Grécia vincula o governo grego, não os restantes. Os gregos apenas têm legitimidade para decidir sobre o seu próprio orçamento. Não sobre o português, o espanhol, o alemão ou o eslovaco.

 

2. Mostrar solidariedade com a Grécia não é ajudá-la a manter as distorções que sempre lhe caracterizaram a economia (como, de resto, a Portugal). Não é dar-lhe o peixe (ainda que, provisoriamente, algum deva ser dado), é ensiná-la a pescar (como, de resto, a Portugal).

 

3. Se tal sucedesse, nunca mais seria possível convencer qualquer dos governos do Sul da Europa (começando pelo próprio grego) a efectuar reformas com um mínimo de dificuldade. Aberto o precedente, os referendos ou, onde constitucionalmente proibidos (em grande medida porque, colocadas perante a questão de pagar ou não pagar, as pessoas tendem a escolher não pagar), outras formas de manifestação de desagrado tratariam de o garantir. O resultado? A implosão da UE ou a sua transformação numa Venezuela com 500 milhões de pessoas, onde a riqueza hoje produzida seria rapidamente desbaratada. Outros blocos políticos e económicos agradeceriam. De resto, talvez não por acaso todos pressionam (sem que alguém os acuse de ingerência nos assuntos alheios) no sentido da Grécia obter as condições que pretende.

 

4. O incumprimento da Grécia teria efeitos potencialmente perigosos nas contas públicas dos restantes países (através dos fundos de apoio e da eventual necessidade de recapitalizar o BCE) mas ceder a uma chantagem feita por um governo com as políticas do governo grego (i.e., que nunca colocarão a Grécia a crescer de forma sustentada) apenas adia e agrava o problema. Sendo certo que as instituições europeias têm hoje mais instrumentos para lidar com a saída da Grécia do que há alguns anos, não é líquido que cheguem. Ironicamente, o alargamento de prazos de que a Grécia goza facilitará um pouco a tarefa, adiando a conta e distribuindo-a por mais anos. Mas o efeito de contágio não está afastado e este escalonamento não se aplica à dívida (do Estado e dos bancos gregos) ao BCE. Seja como for, se pode defender-se a tese de que teria sido preferível deixar cair a Grécia em 2010 ou 2012, em vez de continuar a emprestar-lhe dinheiro, mais difícil de entender é prosseguir na mesma via, sem existirem indícios que permitam acreditar que, dentro de dois ou três anos, a situação terá evoluído para melhor. Pelo contrário: tudo indica que a bola de neve aumentará de tamanho.

 

5. O próprio corte de 30% na dívida grega, como exigido por Tsipras, também teria custos para os cidadãos dos restantes países e, acima de tudo, feito desta forma, abriria a porta a outros perdões logo que a dívida atingisse patamares considerados «injustos» (imagine-se Iglesias como primeiro-ministro de Espanha, Berlusconi ou similar à frente de Itália, Le Pen na presidência francesa). A dada altura, este cenário confundir-se-ia com o de default total pois entrar-se-ia numa via de insustentabilidade. Chegaria também o momento em que os contribuintes e/ou depositantes seriam chamados a cobrir as perdas decorrentes do accionamento dos famosos CDS, ou seguros contra incumprimento (a dívida de Itália, de Espanha ou de França encontra-se essencialmente em mãos privadas), que têm potencial para arrasar muitas instituições de crédito.

 

6. Perdoar dívida a uns significa aumentar dívida a outros. E, mesmo no caso dos credores serem privados, toda a gente acaba atingida.

 

7. Muitos na esquerda sabem isto. (O governo grego joga com isto.) Mas que melhor forma de tentar fazer implodir o sistema capitalista, mantendo a retórica de que foi ele próprio o causador da queda? (A acontecer – ver-se-á então o que é recuar dezenas de anos em termos de rendimento disponível -, tê-lo-á sido em parte; governos irresponsáveis fizeram o resto.)

  

8. A situação actual valida a posição dos que, um pouco por toda a Europa, receavam que a compatibilidade entre uma moeda assente na responsabilidade (como as do Norte da Europa tendiam a ser) e políticas centradas na demagogia (como as do Sul da Europa quase sempre foram) se revelasse impossível. Poucos terão hoje mais razões para dizer “bem vos dissemos” do que os cépticos que, na Alemanha, contestaram o abandono do marco. A Alemanha cedeu porque desejava apoio político para a reunificação e a França exigia o euro, invejosa que sempre esteve da força do marco e incapaz de perceber o que ele implicava em termos de contas e políticas públicas. Ilusões da França (e de Espanha, Itália, Portugal e Grécia), ingenuidade da Alemanha (e da Holanda, Áustria, Finlândia e – quão estranho é escrevê-lo – Irlanda). Moral da história: por norma, é preferível considerar como correctos os melhores cenários dos pessimistas – e não misturar mundos incompatíveis.

 

(Fotografia: Alamy Alamy / Alamy, recolhida no Bing.)