A união dos verdadeiros democratas


escafandro,

Eurocépticos espalhados pela UE ficaram em júbilo com a rejeição do que Marine Le Pen, a líder do partido de extrema direita francês Frente Nacional, chamou “a oligarquia da União Europeia”.

“É um voto “não” de liberdade, de rebelião contra os ‘diktats’ europeus daqueles que querem impor a moeda única a qualquer preço, através da mais inumana e contraproducente austeridade”, afirmou ela em comunicado.

Na Grã-Bretanha, Nigel Farage, líder do partido UK Independence Party, anti-EU, elogiou os eleitores gregos por “desafiarem o bluff da UE”.

“O projecto da UE está a morrer. É fantástico ver a coragem do povo grego em face do bullying político e económico de Bruxelas”, disse ele.

Eurocépticos na Holanda e na Itália juntaram-se ao coro de satisfação com a derrota da UE. Em Espanha, o líder do partido de extrema-esquerda Podemos, Pablo Iglesias, próximo de Tsipras, tuítou: “Hoje na Grécia, a democracia venceu”.

Reuters. Tradução minha.

IOUs e notas de 20 euros


escafandro,

Top Syriza officials say they are considering drastic steps to boost liquidity and shore up the banking system, should the ECB refuse to give the country enough breathing room for a fresh talks.

“If necessary, we will issue parallel liquidity and California-style IOU’s, in an electronic form. We should have done it a week ago,” said Yanis Varoufakis, the finance minister.

California issued temporary coupons to pay bills to contractors when liquidity seized up after the Lehman crisis in 2008. Mr Varoufakis insists that this is not be a prelude to Grexit but a legal action within the inviolable sanctity of monetary union.

[…]

Syriza sources say the Greek ministry of finance is examining options to take direct control of the banking system if need be rather than accept a draconian seizure of depositor savings – reportedly a ‘bail-in’ above a threshhold of €8,000 – and to prevent any banks being shut down on the orders of the ECB.

Government officials recognize that this would lead to an unprecedented rift with the EU authorities. But Syriza’s attitude at this stage is that their only defence against a hegemonic power is to fight guerrilla warfare.

Hardliners within the party – though not Mr Varoufakis – are demanding the head of governor Stournaras, a holdover appointee from the past conservative government.

They want a new team installed, one that is willing to draw on the central bank’s secret reserves, and to take the provocative step in extremis of creating euros.

“The first thing we must do is take away the keys to his office. We have to restore stability to the system, with or without the help of the ECB. We have the capacity to print €20 notes,” said one.

Ambrose Evans-Pritchard, The Telegraph.

Tia


escafandro,

«Só tu é que me vens visitar.»

Há seis camas na enfermaria. Desde a primeira visita de Jorge, há cerca de dois meses, o número das ocupadas variou. Hoje são quatro. A tia encontra-se na primeira à esquerda da porta de entrada. Ao lado tem uma senhora com mais de setenta anos, rodeada pela filha e por duas netas. A terceira cama encontra-se vazia. Na outra fila de três, a vazia é a do meio. Já lá teve uma rapariga, vinte e cinco anos, talvez nem tanto. Morreu há uma semana. Nas outras encontram-se duas senhoras de idade. Apenas uma tem companhia – do marido, pelo aspecto.

Jorge tem dificuldade em perceber as palavras da tia. A voz dela é fraca e arquejante. Não admira. Basta ver como está magra e fraca. De tal forma que lhe custa a acreditar que se trata mesmo da sua tia Helena, irmã mais nova da mãe dele. O elemento da família que, em criança, ele preferia. Simpática e sempre disponível mas cuidadosa para não o sufocar com beijos e abraços, como faziam outras mulheres da família. Uma vez (lembra-se sempre daquilo, quando pensa nela), estando Jorge doente (já não recorda qual a doença), passou horas na cama ao lado dele, jogando às cartas e às damas (a cama é um péssimo sítio para jogar damas: a maioria das partidas terminara com peças deslizando pelo tabuleiro e perdendo-se nos lençóis, por entre risos e acusações de batota). A tia era muito mais nova, então (teria pouco mais de vinte anos) e bastante mais atraente. Ainda se pode detectar parte dessa beleza na cara dela, hoje emagrecida pela doença. Desapareceu, contudo, toda a vivacidade que possuía, bem como toda a inconsequência que advém da juventude, de raramente se sentir dor física, do conceito de morte ser tão estranho e distante como a composição da atmosfera de outro planeta (em miúdo, os planetas e as estrelas eram um dos temas favoritos de Jorge). Hoje, a expressão da tia mostra não apenas desespero – expectável – mas um grau de surpresa que deixa Jorge perturbado e lhe torna difícil encará-la.

Sabe que ela fala verdade e que só ele a visita regularmente. Isso sucede porque outros elementos da família já morreram (a mãe dele, por exemplo), porque alguns emigraram (o enteado que ela criou desde muito novo), porque, encontrando-se no país, estão suficientemente longe para que a distância possa servir como desculpa (o ex-marido, o irmão, vários sobrinhos).

«Não precisas de vir tantas vezes. Tens a tua vida.»

«Não me custa nada. Faço-o com prazer.»

Prazer? Jorge fica envergonhado assim que a palavra lhe sai dos lábios.

Como sempre, tem dificuldade em manter a conversa. Esgotadas as frases ocas e, em alguns casos, falsas («Como se sente hoje?»; «Está com melhor aspecto.»; «Não tarda nada sai daqui.»), é-lhe complicado pensar em temas sobre os quais possam conversar. O passado, evidentemente, constitui a excepção. A tia parece apreciar relembrá-lo (até mesmo aquelas épocas nas quais Jorge mal a via e que – pensa ele – não devem ter sido particularmente felizes) mas ele fica desconfortável. Parece-lhe uma solução fácil, cobarde, que implica o reconhecimento de que ela morrerá em breve.

Mas morrerá. É uma questão de semanas, dois meses no máximo. Até já resistiu mais tempo do que os médicos previam no início.

«Cada vez tenho menos razões para permanecer viva.»

Não é a primeira vez que ela diz aquilo. A frase perturba-o. Coloca-lhe sobre os ombros uma responsabilidade à altura da qual teme não se encontrar. Já em várias ocasiões pensou em não vir com tanta frequência. As visitas deixam-no esgotado e, para mais, reside a uma centena de quilómetros, o combustível e as portagens não ficam baratos. Mas como pode fazê-lo? Sabe constituir uma dessas poucas razões – à medida que se torna evidente o desinteresse de outros membros da família, talvez a única. Se estivesse outra pessoa naquela cama, se não soubesse que, de facto, quase mais ninguém a visita, a frase poderia irritá-lo. Fazê-lo sentir-se chantageado. Mas aquela é a tia Lena. A sua tia preferida. Que sempre esteve disponível para ele. Que talvez apenas se mantenha viva para ele. (Valerá a pena? Deverá sentir-se mal por isso?)

Fica com ela até ao fim do horário para visitas. Faz-lhe perguntas sobre as companheiras de enfermaria mas descrever as doenças das outras mulheres e como várias já morreram também é deprimente. Torna claro que daquelas camas apenas se sai para o cemitério. Procura outros assuntos. Inevitavelmente, regressa ao passado.

No final, diz-lhe: «Volto em breve.»

A tia responde que não é preciso mas Jorge sabe que mente. Quando lho disse, perpassou-lhe pelos olhos um indício da antiga vitalidade. Um sinal de prazer.

«Faço-o porque quero.»

Inclina-se e beija-a. As faces encovadas perturbam-no. Difusamente, pensa que já devia estar habituado.

Olha para trás à saída e diz-lhe adeus. Segue pelos corredores e desce as escadas tentando não olhar para os outros visitantes. Não se quer rever neles. Na rua, inspira fundo. Mas o ar está quente e cheira a asfalto e gases de escape.

Estacionara o carro fora do perímetro do hospital. O horário das visitas terminou mas os passeios ainda estão atravancados com veículos. Passa entre uma carrinha branca e um furgão e começa a atravessar a rua. Apercebe-se de uma comoção difícil de definir, depois ouve um ruído de travagem e logo a seguir o automóvel atinge-o do lado esquerdo. Voa meia dúzia de metros. Ao cair, bate com a cabeça no asfalto. Sente o sabor do sangue. Antes da escuridão o envolver, pensa que a tia acabou de morrer.

 

(Também aqui.)

Jornalismo (ou talvez: «jornalismo»)


escafandro,

Por esta razão não houve lugar a réplica ou contraditório, apesar de algumas das afirmações o exigirem. O texto final foi manuscrito por José Sócrates, datilografado fora da cadeia e regressou às suas mãos para sucessivas revisões. A versão definitiva acabou por chegar ontem, ao fim da manhã.

TSF, sobre a «entrevista» a José Sócrates realizada em conjunto com o DN. Duas questões: foi mesmo ele quem escreveu o texto? E quantos exemplares do jornal foram comprados pelos seus amigos e familiares?

As alternativas


escafandro,

Cada uma pode ter ligeiras cambiantes mas, na verdade, só há três vias de lidar com a acumulação de dívida na economia mundial e, em particular, na Europa.

 

1. Especular, especular, especular. Pode parecer contraditório, atendendo a que os seus representantes clamam frequentemente pela «regulação dos mercados», mas, de Tsipras a Galamba, passando por Krugman e Maduro, trata-se da opção preferida da esquerda. Injectar mais e mais dinheiro na economia através dos bancos centrais, da subida de salários e do crédito. Apostar no consumo. Em simultâneo, taxar mais a actividade empresarial, os «ricos» e o capital. Ignorar (apenas na prática; na retórica está bem presente) o carácter aberto da economia mundial. Esquecer os desequilíbrios existentes e o facto desta política os agravar.

 

2. Especular e reformar. Injectar dinheiro na economia mas em simultâneo exigir reformas tendentes a corrigir desequilíbrios e potenciar crescimentos futuros. É o caminho que a Europa tem tentado seguir (pendia para o lado das reformas antes de Draghi assumir a presidência do BCE, inclina-se hoje para o lado da especulação). Riscos? Desde logo, o político: os eleitores detestam reformas e tendem a voltar-se para os defensores da opção nº1. Depois, o inconveniente de todos as soluções que não são carne nem peixe: o compromisso entusiasma poucos e os resultados demoram a aparecer (até mesmo em versões mais radicais, como a japonesa). Finalmente, a circunstância de, em caso de falhanço, as consequências não serem substancialmente diferentes das da opção nº1: a bola de neve apenas cresce mais devagar.

 

3. Assumir perdas. Deixar de alimentar o monstro, permitindo a queda de quem tiver de cair: bancos, empresas, estados, particulares. Compreensivelmente, todos a recusam. Mas é uma inevitabilidade em caso de insucesso de qualquer das vias anteriores. Sendo que a queda será tão mais dolorosa quanto mais tempo se mantiver o esforço para a evitar.

 

Pessoalmente, acho a via nº1 suicidária e, em especial devido aos riscos de carácter político, tenho poucas esperanças na nº2 (veremos até que ponto o caso da Grécia servirá de «vacina» contra os populismos). Quanto à terceira, faço parte do imenso clube que prefere não pensar seriamente nela (de momento, deixo isso para os gregos).

Coerências (auxiliar de memória para os fãs)


escafandro,

Varoufakis afastou a possibilidade de um referendo aos termos do acordo dizendo que seria efectivamente um voto à manutenção do euro como moeda.

«Seria injusto para os cidadãos gregos terem de tomar uma posição sobre o assunto, respondendo com um sim ou um não», disse ele.

19.05.2015. Tradução minha.

Dos encantos de reiterados desequilíbrios orçamentais (outras geografias)


escafandro,

Não foi apenas a Grécia que ficou à beira da insolvência este fim-de-semana. Porto Rico também admitiu oficialmente que não pode pagar as dívidas contraídas nos últimos anos. A culpa, evidentemente, é dos «mercados» que lhe emprestaram os dólares – essa verdadeira moeda que, ao contrário do euro, permite evitar defaults e a necessidade de austeridade.

Pescadinha


escafandro,

Falando acerca disto após o Eurogrupo, o loquaz ministro das finanças da Grécia, Yannis Varoufakis, tombou em incoerências. A recusa dos ministros em aprovar uma extensão do programa, disse ele, causou «danos permanentes à credibilidade da UE». Porquê? Porque havia uma «muito elevada probabilidade» de que os gregos ignorassem o governo e aprovassem a proposta dos credores. A Grécia, parecia estar a argumentar o Sr. Varoufakis, merecia ainda mais uma extensão do programa para dar tempo ao governo para aconselhar os eleitores a rejeitar os seus termos porque esse conselho poderia bem ser rejeitado.

The Economist. Tradução minha.

Timings (e felicitações)


escafandro,

O referendo constituiria uma opção razoável se realizado antes do final de Junho. Para que tal fosse possível, o governo grego não poderia ter queimado meses em manobras dilatórias. Mais: considerando o apelo ao voto no «não» por parte do Syriza, seria de toda a conveniência garantir uma margem de várias semanas, uma vez que a vitória do «sim» deixaria o governo numa posição insustentável, podendo ser necessário realizar eleições antecipadas.

Agora tudo se precipita e, a menos de um golpe de teatro de último instante, o referendo nem sequer faz sentido (no próximo domingo, a proposta terá perdido a validade). Como, de resto, a análise acima também pode não fazer – porque é bem possível que Tsipras tenha conseguido o seu verdadeiro objectivo: retirar a Grécia da zona euro sem, junto dos seus cidadãos e de ingénuos espalhados um pouco por toda a Europa, parecer ter manobrado para o fazer. Caso em que restará dar-lhe os parabéns por um trabalho bem feito.

Geografias do desejo


escafandro,

Os noruegueses eram idolatrados. Mais do que ele realmente queria ser, porque eram idolatrados não pelo seu valor enquanto indivíduos mas pela sua desejada nacionalidade.

Dag Solstad, Novel 11, Book 18. Tradução minha  partir da versão inglesa de Sverre Lyngstad.

 

O narrador do livro refere-se à sensação que encontrou na Lituânia mas julgo que ela pode ser estendida a vários outros países. Sendo que, em pelo menos um deles, quando se debate o assunto é obrigatório esconjurar a ameaça de depressão com um comentário imediato sobre as vantagens do Sol e das temperaturas amenas.

 

 

(A lista mais recente de países felizes demonstra – novamente – que o Sol não apenas não dá felicidade como até pode ter o efeito contrário. Algo que, acrescente-se, não me surpreende.)

Das prioridades no cumprimento das promessas


escafandro,

Nas eleições legislativas portuguesas de 2011, Passos Coelho admitiu que os anos seguintes seriam difíceis mas prometeu não efectuar cortes adicionais aos já anunciados. Quebrou a promessa, com a justificação de que nas contas do Estado existiam buracos escondidos (as empresas públicas, por exemplo) e de que a alternativa seria pior para os portugueses. Apesar das perspectivas serem hoje menos más do que as existentes na altura, é constantemente acusado de ter mentido. Nas eleições legislativas gregas de 2015, Tsipras prometeu repor cortes já efectuados e impedir cortes adicionais, melhorando dessa forma a situação dos gregos. A economia grega está hoje pior do que estava há seis meses (ver relatório do Banco Central da Grécia, que a – mui democrática – presidente do Parlamento devolveu, classificando-o como «inaceitável») e os gregos encontram-se no limiar do colapso financeiro mas muitos dizem que ele falou verdade e cumpriu todas as promessas feitas.

Futebol, esse desporto ignorado


escafandro,

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 Blergh, gajas!

 

O Eurosport está a transmitir o Campeonato do Mundo de Futebol Feminino. Eu, que nem ligo a futebol, fiquei ontem durante algum tempo a ver onze suecas (todas louras, muitas delas giras) enfrentando onze nigerianas (todas negras, várias delas giras). Descontando a inevitabilidade biológica de apresentarem menos poder de fogo do que os homens (no sentido futebolístico da expressão, que noutros até me parece que tinham mais), jogavam bem. Marcaram-se seis golos, três para cada lado. Como tantas vezes sucede no futebol masculino (mas estou em crer que com menor risco de lesões dolorosas), num deles a bola passou entre as pernas da guarda-redes. Igualmente como no futebol masculino, as jogadoras abraçaram-se para celebrar e parece que por vezes fazem questão de levantar a camisola. Como no futebol masculino, várias tinham tatuagens e/ou penteados esquisitos. Como no futebol masculino, algumas eram propensas a fazer faltas e outras a atirarem-se para o chão. Como no futebol masculino, a bola era redonda (no ecrã; ouvi dizer que, na realidade, é esférica), o relvado verde e, nos placards laterais, a FIFA apelava ao fair play. Exactamente como no futebol masculino, há quem diga que no final ganha a Alemanha. Mas a SportTV esteve-se nas tintas para o campeonato (valha-nos isso), nos noticiários nacionais ninguém lhe liga e as audiências não devem ser famosas. Decididamente, custa-me perceber os adeptos do futebol. Muitos andam para aí armados em macho e, no fim de contas, só apreciam homens.

 

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Aqui entre nós, a expressão da guarda-redes sueca é deliciosa mas a silhueta da atacante nigeriana constitui pura poesia.

 

Fotos: Kevin C. Cox/Getty Images North America, pescadas na net.