Beleza interior


escafandro,

Só pode. Montes dela. Um autêntico Hugh Jackman por dentro. Ou, pelo menos, fica a esperança. Porque, exteriormente, trinta graus de temperatura deixam-me com o aspecto (e, suspeito, com o odor) de uma camisola do Benfica logo após um jogo decidido no último minuto do prolongamento. Ainda por cima, o que diabo se passa com o meu cabelo? (Está comprido e tem vontade própria, é isso que se passa.) E por que raio comprei esta roupa?

 

 

(Tanta coisa inconstitucional e temperaturas destas são permitidas…)

 

(Vem um tipo viver para o Porto porque Lisboa é que é quente…)

 

(Quando é que chega o Inverno, carago?)

O preço das coisas


escafandro,

Na semana passada, por entre uma miríade de outras promessas, António Costa garantiu ir colocar os interesses dos inquilinos à frente dos dos senhorios. Nesse sentido, aliciou os primeiros com limitações à subida das rendas e ameaçou os segundos com obras coercivas em caso de degradação dos imóveis. Do ponto de vista eleitoral (diga-se o que se disser, ainda e sempre sinónimo de «os fins justificam os meios»), tem lógica: existem mais inquilinos do que senhorios e parecer defender os pobres contra quem os explora (sim, já vamos aqui: para o PS, os senhorios são oficialmente exploradores capitalistas) é uma atitude que recolhe sempre alguma simpatia instintiva. Na prática, as ideias de Costa são não apenas contraditórias mas contraproducentes: impedido de obter um rendimento adequado, nenhum senhorio se predisporá a manter os imóveis em boas condições. No limite, preferirá mantê-los devolutos. Cai-se desta forma no problema que foi levando à degradação das cidades portuguesas e que apenas este governo atacou, com uma lei das rendas passível de críticas mas ainda assim melhor do que praticamente tudo o que a antecedeu (expressão que define quase toda a acção do actual governo).

Mas pior é o PS não se ficar pelas rendas. Seguindo uma velha tradição socialista (frequentemente reforçada por partidos que se afirmam outras coisas  – entre os quais PSD e CDS), aplica esta lógica e impõe estas consequências a muitas outras áreas. Costa e os socialistas acham mesmo que forçar preços irrealistas, umas vezes pelo lado da limitação administrativa dos mesmos, outras pelo lado da imposição de custos acrescidos (energéticos, salariais, contributivos), outras ainda por ambas as vias em simultâneo (como no caso das rendas), não gera consequências negativas. Obviamente, estão enganados.

E pior ainda é o problema ultrapassar em muito os devaneios populistas de António Costa e as dificuldades de Portugal. A política de juros negativos e de aumento de balanço dos Bancos Centrais (que, no que respeita ao BCE, a esquerda tende a considerar insuficiente) segue a mesma lógica implícita: evitar aquilo que os anglo-saxónicos chamam price discovery, ou seja, a aplicação do preço adequado para cada bem e serviço. O que os Bancos Centrais vêm fazendo, pressionados por governos e partidos variados, é estimular o aumento da dívida numa economia que já está afogada nela e em que, por efeito dos juros absurdamente reduzidos, quase tudo tem um valor altamente «alavancado» (para usar um termo na moda). Torna-se, aliás, curioso seguir a evolução da cotação das principais moedas em relação ao dólar. As variações ocorrem não tanto por existirem dados concretos provindos da economia «real» (se é que o conceito ainda tem razão de ser) mas consoante os comentários de responsáveis da Reserva Federal norte-americana ou do BCE são mais optimistas ou mais cautelosos, num jogo que parece ter feito nascer uma nova categoria de exegetas, permanentemente ocupados a tentar detectar indícios em palavras muitas vezes banais. Mas o modo como a Reserva Federal vem adiando o início do processo de normalização das taxas de juro mostra bem quão armadilhado se encontra o terreno (de vez em quando, alguém até fala na necessidade de um quarto programa de Quantitative Easing nos EUA). De tal modo que alguns bancos comerciais, assustados, já vieram pedir mais regulação, no fundo admitindo que não conseguem travar a bola de neve. E Draghi, por entre profissões de fé na melhoria da situação europeia, vai alertando que nenhum estímulo resultará se não for acompanhado por reformas estruturais da economia.

Nada disso importa. Para Costa e Galamba, para Tsipras, Varoufakis e Iglesias, para Nicolau Santos e Paul Krugman, para, no fundo, todos os que defendem que se continue a subir a parada, inventando ainda mais dinheiro que alguém algum dia terá de pagar, interessam acima de tudo a retórica, a ligeira folga proporcionada pelas taxas de juro negativas e a ilusão de um futuro em que, por magia e contra as evidências (demográficas, por exemplo), tudo se compõe (*). E isto torna ainda mais extraordinário que, em plena pré-campanha eleitoral, Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque não se coíbam de continuar a falar em medidas pouco agradáveis, como o corte de 600 milhões de euros nas despesas da Segurança Social. No Reino Unido, os eleitores preferiram a honestidade. Em Portugal, por muito que clamem contra as mentiras dos políticos, veremos se continuam afinal a preferir acreditar em promessas que só podem ter um de dois destinos: ser renegadas (como Passos Coelho foi forçado a fazer em 2011) ou contribuir para piorar a situação do país.

 

(*) Aquilo que vale para o Syriza vale, sob forma mais suave, para vários outros discursos políticos. Sempre que o apelo ao sonho e à utopia se tornam recorrentes, é sinal que os mecanismos regressivos estão a funcionar. A realidade tende a eclipsar-se ou a dissolver-se no próprio discurso, deixando, em termos práticos, de existir. O discurso basta-se a si mesmo e, por um passe de mágica, pretende ser a prova da sua própria justeza. É regressão mesmo. E é também deprimente.

Paulo Tunhas, no Observador.

O genial plano de Varoufakis


escafandro,

1. Fazer sair a notícia de que está iminente um acordo com as «Instituições»;

2. Assistir à valorização do euro;

3. Trocar os euros disponíveis por dólares (ou recolher os benefícios de apostas no mercado de futuros);

4. Aguardar enquanto os desmentidos e a passagem do tempo mostram a falsidade da notícia;

5. Assistir à desvalorização do euro;

6. Trocar os dólares por euros (ou recolher os benefícios de apostas no mercado de futuros);

7. Voltar a 1.

Depois de meses a lançar rumores falsos, vai-se a ver e o governo grego está a nadar em dinheiro.

Teologia da distância


escafandro,

Há um tema proibido em qualquer reunião da minha família: as peregrinações a Fátima. Inevitavelmente, com a insídia que caracteriza a maioria dos seus membros – provavelmente similar à que caracteriza a maioria dos membros da maioria das famílias – alguém acaba sempre por aproveitar um instante mais calmo nas conversas cruzadas para o abordar, desde que a tia Amélia e a tia Natalina estejam na sala. A discussão teológica que se segue tem tanto de novo como as cenas mais conhecidas dos velhos filmes portugueses mas, como elas, permite o conforto de verificar a constância de certos comportamentos e, ocasionalmente, que se atinjam momentos de surpreendente profundeza (se alguém parasse um pouco para reflectir sobre eles, o que está longe de ser o caso).

Irmãs do meu pai, a tia Amélia e tia Natalina aproximam-se dos setenta anos de idade. Nasceram ambas na velha casa de Vila Verde, vendida depois da morte dos pais. A tia Amélia é a mais velha. Casou há perto de cinquenta anos com um vendedor de tractores e alfaias agrícolas e mudou-se para Vinhais, distante de sete quilómetros. O meu pai, cinco anos mais novo, acabou por segui-la mas a tia Natalina foi parar mais longe. No casamento de um tio encontrou um rapaz da Marinha Grande e, após muitos lamentos da mãe (o rapaz era simpático e parecia de boas famílias mas a Marinha Grande ficava tão longe), casou-se com ele e mudou-se para lá. Apesar da distância, as duas irmãs mantiveram contacto, nas primeiras décadas através de cartas frequentes e telefonemas raros (as chamadas ficavam caras), ultimamente recorrendo ao telemóvel e ao Facebook, de que são fãs incondicionais.

A tia Amélia teve dois filhos, que – refere-o com um sorriso de orgulho, como se nada na vida ficasse a cargo da sorte e, por conseguinte, o mérito fosse todo seu – nunca lhe causaram preocupações. Já a tia Natalina deu à luz três crianças. Até hoje, duas tiveram apenas as doenças normais para qualquer pessoa mas à outra – a minha prima Cristina – foi diagnosticado um cancro há cerca de doze anos. Desesperada, a tia Natalina prometeu ir a Fátima se o tratamento resultasse. Cristina sobreviveu e a mãe cumpriu a promessa logo no mês de Maio seguinte.

A polémica começou num dia de Natal em que a tia Natalina descrevia novamente o quão andara preocupada e como, apesar de ter ficado com os músculos doridos e os pés cheios de bolhas, sentira uma paz imensa ao chegar ao santuário. Pouco impressionada, a tia Amélia resmungou: «Até parece que fizeste um grande esforço.»

Foi o bastante para iniciar uma discussão que se prolongou durante um par de horas, destruindo completamente o espírito natalício, a qual ainda hoje tem sequelas que seguem um guião mais ou menos fixo: a tia Amélia diz que ir da Marinha Grande a Fátima – «São o quê? Quarenta quilómetros?» – não é grande feito; a tia Natalina responde que lá sabe ela, que nunca andou mais de quinhentos metros de cada vez; a tia Amélia diz que andou, sim senhora, e por caminhos bem mais irregulares, além do que pode não ter ido a pé a Fátima mas conhece muita gente que já foi e dali mesmo, de Vinhais, que fica a uns quatrocentos, e que como todos sabem há pessoas que vão de Bragança e do Minho inteiro e certamente também do Algarve, e que essas é que são peregrinações difíceis; a tia Natalina replica que cada um vai de onde mora, que não tem culpa de morar relativamente perto do santuário, que há pessoas que ainda moram mais perto e não merecem ser apoucadas daquela forma, e que, no fundo, o que conta é a intenção; a tia Amélia responde que se contasse apenas a intenção não era preciso fazer a viagem, que também é necessário algum sacrifício concreto para a promessa valer alguma coisa e que, acima de tudo, é um descaramento e um pecado uma pessoa andar depois a gabar-se de ter feito um grande esforço quando na verdade não fez. Esta acusação tira a tia Natalina do sério e, se ninguém as parar (nesta fase é difícil) ficam para ali durante horas a discutir a importância da distância no valor da promessa enquanto os maridos continuam a jogar sueca ou dominó, fingindo não ouvir. Os restantes elementos da família primeiro divertem-se, depois tentam pará-las, por fim desinteressam-se e iniciam conversas paralelas.

É isto uma e outra vez. Entretanto, a minha prima Cristina confidenciou-me que a mãe, recusando embora admiti-lo para não dar o braço a torcer perante a irmã, já percorreu a pé os trinta e tal quilómetros até Fátima mais duas vezes. Para que a Deus não restem dúvidas acerca do seu empenho. Prometi a Cristina manter o segredo mas, a cada nova reunião de família, pergunto-me se não seria mais caridoso – mais cristão, até – deixar escapar a verdade.

 

Também aqui.

Traduções


escafandro,

Ao escrever o texto sobre Linda Fiorentino e The Last Seduction ponderei usar o termo «bitch» em português. Verifiquei traduções possíveis. Como seria de esperar, o Dictionary.com oferece várias hipóteses: a female dog; a malicious, unpleasant, selfish person, especially a woman; a person who is submissive or subservient to someone, usually in a humiliating way. Numa tradução directa para português, o Google escolhe «cadela». Já o Bing… bom, o Bing não está com meias-medidas. Ora façam o teste.

Papéis inesquecíveis quase esquecidos. 3: Linda Fiorentino, em The Last Seduction.


escafandro,

A vítima julga-se o caçador. E depois é tarde.

 

A presença de ‘bitches’ (mais sobre o termo em breve) no cinema americano forma um historial longo e prestigiado. Ficando por algumas das mais conhecidas, Mary Astor, no papel de Brigid O’Shaughnessy, já tentava dar volta ao Sam Spade de Humphrey Bogart em The Maltese Falcon (John Huston, 1941). Falhou (vindo dos livros de Hammett, Spade não deixava a testosterona toldar-lhe o raciocínio) mas abriu o caminho a Phyllis Dietrichson que, três anos depois, levou o agente de seguros Walter Neff (Fred MacMurray) a assassinar-lhe o marido, no que muitos consideram ser o pai do Film Noir: Double Indemnity, de Billy Wilder. Em 1981, Matty Walker (Kathleen Turner) deixou Ned Racine (William Hurt) a transpirar por todos os poros em Body Heat, de Lawrence Kasdan, e uma década mais tarde surgiram duas adaptações do livro As Ligações Perigosas, de Laclos, onde pontificava a sedutora e manipulativa Madame de Meurteil (Glenn Close na versão de Stephen Frears, Annette Benning na de Milos Forman). A última grande ‘bitch’ do cinema americano terá sido Amy Dunne, interpretada pela inglesa Rosamund Pike, que há menos de um ano fez gato-sapato do marido Nick (Ben Affleck) em Gone Girl, de David Fincher (naquele jeito de liberal de Hollywood, incapaz de uma frase politicamente incorrecta, Affleck prestou-se de forma brilhante ao papel). Se me forçassem a ordenar uma lista, contudo, eu talvez atribuísse o papel de ‘ultimate bitch’ do cinema a Bridget Gregory, corpo e voz de Linda Fiorentino, em The Last Seduction, de John Dahl (1994). E ao chamar-lhe ‘bitch’ não estou a fazer uma apreciação de valor externa ao filme: é a própria Bridget quem o assume durante uma cavalgada sexual no interior de um Jeep Cherokee. De resto, que ela o faça torna-se útil para a definição do conceito: ‘bitches’ são mulheres que seduzem e manobram homens de acordo com interesses particulares, levando-os a actos contrários ao seu interesse e – no limite – criminosos; são mulheres que vêem sexo e sentimentos como meios para a obtenção de resultados materiais e se encontram perfeitamente conscientes de possuírem um poder que atira quase todos os homens heterossexuais para um estado de ingenuidade e estupidez atrozes (perdoe-se-me o adjectivo mas sou homem e heterossexual). Qual a diferença para homens atraentes e manipuladores? Apenas que estes, tendo os mesmos objectivos (riqueza, fama, poder), são, quiçá em resultado do condicionamento social e sexual a que as mulheres estiveram sujeitas ao longo dos séculos, que as obrigou a especializarem-se em jogos subtis de manipulação, muito mais lineares na forma como procuram atingi-los. Esse condicionamento (de boa saúde em inúmeras latitudes) também faz com que ainda seja desconfortável para muitos homens (e  algumas mulheres) verem mulheres no papel de predadoras sexuais – algo inerente às ‘bitches’, mesmo que, circunstancialmente, elas adoptem a capa de ‘donzela em apuros’.

No início de The Last Seduction, Bridget abandona o marido (Bill Pullman, hilariante no meio do desespero) e a cidade de Nova Iorque, levando com ela uma mala cheia de dinheiro resultante de uma venda de droga. Obviamente, o cônjuge não fica satisfeito, muito em especial porque tem dívidas a um agiota com tendência para aparar dedos a quem se atrasa nos pagamentos. A caminho de Chicago, Bridget pára na pequena cidade de Beston e conhece Mike (Peter Berg), um tipo bem parecido mas – percebe-se logo – não excessivamente inteligente. Mike recupera de um casamento irreflectido, está desejoso de abandonar Beston e, naturalmente, deixa-se enfeitiçar pela atitude ‘don’t give a shit’ da citadina Bridget. (Há uma cena deliciosa em que ela, estando na rua a ler o jornal e a beber café, acaba por se meter dentro do carro para escapar aos «bons dias» cordatos dos transeuntes.) O resto do filme é um jogo do gato e do rato entre esposos (sendo que nem sempre o rato é quem parece), com Billy apanhado no meio, tentando convencer-se de que Bridget está genuinamente interessada nele quando vai ficando cada vez mais claro que o seu papel é exclusivamente ajudá-la a desfazer-se do marido e ficar com o dinheiro.

O filme tem voltas e reviravoltas suficientes para constituir um excelente thriller mas é mais interessante pela forma como Bridget se mantém uma ‘bitch’ do primeiro ao último fotograma. Quando Phyllis e Walter se confrontam perto do final de Double Indemnity, não é descabido ver tristeza na expressão dela. Também não é descabido pensar que Madame de Meurteil (na versão Glenn Close como na versão Annette Benning) lamenta o destino do Visconde de Valmont. Na última cena de Body Heat, Matty Walker tem uma expressão melancólica, apesar de se encontrar exactamente na situação com que sempre sonhou: rica, apanhando sol numa praia exótica. Bridget Gregory também surge nos últimos instantes de The Last Seduction mas nada na sua expressão permite acalentar a esperança de que lamenta o que quer que seja. Ganhou e é isso que lhe importa. Ainda hoje, Fiorentino confessa ter sido esse um dos pontos que mais a atraiu no papel: a recusa feroz em ‘sentimentalizar’ Bridget. Na verdade, os tradicionais papéis masculino e feminino estão invertidos no filme. Bridget nunca diz claramente a Billy que o ama enquanto este se esforça por acreditar que, traumatizada pelo casamento, ela apenas resiste a admiti-lo. Mais: tirando os momentos em que tal se revela indispensável para a prossecução do seu plano, Bridget mente muito pouco a Billy. Na maior parte do tempo, nem sequer esconde sentir por ele algum desprezo. É uma combinação de desejo e ilusões (ela não pode ser assim tão cabra) que o mantém interessado. O clímax do filme (pun intended) também nos mostra que Billy é uma personagem com mais dúvidas acerca da sua própria sexualidade do que quer fazer crer. E há ainda o facto de vermos quase sempre o homem incontornável na vida de Bridget – o marido – relegado ao apartamento de Nova Iorque, qual esposa impotente, furiosa por desconhecer o paradeiro do cônjuge.

The Last Seduction foi o terceiro de uma sequência de filmes tematicamente similares de John Dahl. O anterior, Red Rock West, com Nicolas Cage, Lara Flynn Boyle e Dennis Hopper também vale muito a pena. Após The Last Seduction, Dahl ainda realizou obras como Rounders, com Matt Damon e Edward Norton, mas depressa saiu de cena, estando hoje relegado à realização de episódios de séries televisivas. The Last Seduction foi «vendido» à produtora como sendo um filme curto, de rodagem rápida, com violência e sexo, mas Dahl e o argumentista, Steve Barancik, sempre tiveram ambições um pouco mais elevadas. Barancik relata que, após terem chegado a uma versão do argumento que ambos consideravam não poder ser mais reduzida, sob pena da lógica narrativa e da definição das personagens se perder, Dahl lhe telefonou, dizendo que a produtora ainda a considerava demasiado longa e exigia o corte de cinco páginas. Contrariado, Barancik meteu as mãos ao trabalho. Enviou o resultado a Dahl, que lhe ligou escandalizado com as alterações. Barancik perguntou-lhe como havia de encurtar o guião em cinco páginas sem cortar ou reescrever cenas. Dahl deu a resposta óbvia: «Reduz nas margens!» Cinco páginas mais ‘curto’, o guião foi aprovado e o financiamento obtido.

Linda (née Clorinda) Fiorentino nunca foi uma actriz de primeiro plano. Creio ter começado por vê-la em After Hours, de Martin Scorsese, depois achei piada a The Moderns, de Alan Rudolph (um realizador quase esquecido), mas foi The Last Seduction que – passe o pleonasmo – verdadeiramente me seduziu. Para o bem e para o mal, o filme marcou os anos seguintes da carreira de Fiorentino: que William Friedkin a tenha escolhido para protagonizar o fraquinho Jade só pode dever-se a ele e à tendência hollywoodesca para o typecasting. Entrou ainda noutro filme de John Dahl (Unforgettable, de 1996, que não fez jus ao título), em Men in Black, de Barry Sonnenfeld (1997), e praticamente não filma desde o início do milénio. Nem todos concordarão mas arrisco afirmar que The Last Seduction marcou o ponto alto das carreiras tanto do seu realizador como da sua actriz principal.

Deixei para o fim a questão mais perturbadora. Bridget é tão honesta na atitude de desinteresse pelas vontades alheias que as ilusões dos homens que encontra – e, em particular, de Billy – podem não decorrer apenas de ingenuidade mas da assumpção (o passo seguinte a uma percepção que se vem tornando cada vez mais evidente) de que, hoje em dia, o papel principal (talvez único) dos homens é servir os propósitos das mulheres (sejam eles reprodutivos, recreativos ou financeiros) e que, tal como o louva-a-deus é consumido após a cópula, constitui sua função (se não objectivo) extinguirem-se após eles serem atingidos. Uma espécie de desejo de morte nos braços (e na vagina) da mulher mais forte e atraente das redondezas. Afinal, não pode ser coincidência que os homens com quem Fiorentino saiu nos anos seguintes a The Last Seduction procurassem nela – confessa-o a própria em entrevistas – Bridget Gregory. E que ficassem desiludidos por não a encontrarem.

Intruso


escafandro,

Não sei quantos anos após a praga começar a alastrar, possuo finalmente um livro editado segundo o Acordo Ortográfico. Ofereceram-mo e não tive coragem para o recusar nem, depois, para o deitar fora. Coloquei-o num cantinho da estante, junto a outros. Inicialmente senti receio de que eles o ostracizassem mas agora estou convencido de que nada acontecerá: os livros são tolerantes (mesmo aqueles cujo conteúdo não o é). Procurei agir com normalidade (até o folheei durante uns instantes) mas desconfio que ele percebeu que nunca o lerei.

O andróide e a maçã


escafandro,

33°30’52.5″N 73°03’33.2″E

 

Façam o favor de introduzir as coordenadas acima no Google Maps. Mas depressa, antes que a Google reaja.

 

(Se encontraram tudo normal, o que se passava era isto.)

Adenda: a Google já resolveu a questão; uns brincalhões puseram nas coordenadas indicadas (algures no Paquistão) o símbolo do sistema operativo andróide a urinar numa maçã.

Caramba, ainda acabo a votar num socialista…


escafandro,

Sublinhando que ainda não analisou ao pormenor o documento dos economistas escolhidos por António Costa, o ex-empresário e ex-deputado socialista Henrique Neto notou ainda que a preferência do PS pelo aumento do consumo privado, através da reposição mais rápida dos cortes salariais, da diminuição da sobretaxa de IRS e da TSU para os trabalhadores, tem um revés: “conduz quase sempre a um aumento das importações”.

E por isso o candidato independente a Belém tem reticências. “Obviamente não tenho nada contra o aumento das medidas a favor do consumo, mas antes disso é preciso medidas de substituição em certos sectores para não corrermos o risco de desequilibrar a balança comercial”, disse.

 

(Desta vez não resisti; passei «setores» a «sectores». Até por estar convencido – sinceramente – de que, ao sair da mente de Henrique Neto e ser atirada – indefesa – para a atmosfera, a palavra vinha com a consoante muda no lugarzinho dela.)

As medidas do PS


escafandro,

Há quem considere este governo incompetente e, em mais aspectos do que seria desejável, talvez seja – mas de vez em quando mostra notável capacidade política. Duas propostas apresentadas pela ministra das Finanças na semana passada (redução da TSU e devolução dos cortes em 4 anos) podiam parecer extemporâneas e prejudiciais para as eleições. Hoje, o PS validou-lhes a lógica.

– Tendo obviamente que prometer devolver os cortes num período mais curto, os socialistas dispunham dos números ‘0’, ‘1’, ‘2’ e ‘3’. Escolheram o ‘2’. Como há uns tempos advogavam o ‘0’, não é de excluir que, se chegarem ao governo, apliquem o ‘4’.

– Mais hilariante, após clamar contra a descida da TSU, alegando que afectaria a sustentabilidade da Segurança Social, o PS também se propõe baixar baixá-la (em 4%). De onde viria o financiamento? De cortes nas pensões dos otários à espera de as receber a partir de 2021 (se votarem no PS, é bem feito) ou de qualquer outra solução que o governo da altura encontrar. É forçoso elogiar-se a coerência: seguindo a forma catita como Sócrates empurrou para o futuro os encargos com as PPP, o objectivo primordial dos socialistas continua a ser proteger votos e interesses instalados (perdão: adquiridos); quem vier depois que se desenrasque. (Eles cá estarão para prometer outras coisas e lixar ainda mais os seguintes.) Há pior, contudo: o PS dispõe-se a fazer incidir o corte na TSU sobre os 11% descontados pelos trabalhadores em vez de sobre sobre os 23,75% suportados pelas empresas. Este ponto autoriza maniqueísmos do género «o PSD alinha com o capital enquanto o PS está ao lado dos trabalhadores», que não deixarão de ser usados em campanha eleitoral, mas mostra também a diferença fundamental entre PS e PSD (não tenho a certeza quanto ao CDS) no que respeita ao modelo de desenvolvimento pretendido para o país. Enquanto o PSD anuncia a intenção de continuar a apostar na captação de investimento e no aumento da competitividade das empresas, de modo a que a actividade destas compense um aumento paulatino do consumo, os socialistas, inamovíveis pelo menos desde Guterres, continuam a acreditar que o simples estímulo ao consumo interno trará crescimento sustentável. Infelizmente, isso revelar-se-á falso (outra vez) e os estímulos apenas farão a balança de transacções pender para o lado errado (outra vez). O anúncio da eliminação da descida gradual do IRC (nascida de um acordo entre o governo e o PS, que os socialistas atiram agora para o lixo) segue exactamente a mesma lógica.

Das restantes medidas anunciadas, várias contêm o inevitável aumento da despesa pública, a compensar com receitas provenientes de um crescimento económico que, após meses a acusar o governo de optimismo descabido, o PS prevê ainda mais forte, e por aumento nos valores previstos para o défice (em comparação com os cenários do governo), mas há duas que me chamaram especialmente a atenção:

– Enquanto o PS de Sócrates garantia ir admitir apenas um funcionário público por cada dois que saíssem, o PS de António Costa promete adoptar a relação de uma entrada para uma saída. Com Costa, portanto, não haverá reduções adicionais de pessoal na função pública. (Se os socialistas governassem tão bem como sabem captar votos, estávamos todos ricos.)

– A intenção de limitar os contratos a prazo é piedosa mas havia de fazer um bem espectacular à taxa de desemprego.

 

Globalmente, as propostas socialistas são menos radicais do que muitos esperariam, podendo até desiludir alguns apaniguados da linha Galamba – Varoufakis. Ainda assim, revelam a incapacidade de sempre: perceber que o país necessita de ir alterando o seu modelo de desenvolvimento económico, sem o que todas as medidas de estímulo serão efémeras e, a prazo, contraproducentes. Mas que o PS não entenda isto dificilmente pode surpreender: afinal, trata-se do partido que, em 2011, levou o país à falência e, em 2015, está ele próprio quase falido.

 

Leitura complementar: Os gatos e os ratos, por Paulo Ferreira, no Observador.

A Finlândia, então


escafandro,

A Finlândia é um país com cerca de 57% do PIB em despesa pública. Nos tempos que correm, pouquíssimas economias suportam valores destes (a Alemanha anda nos 44%, a Holanda nos 46%, a Suécia nos 50%), ainda por cima quando acabaram de sofrer golpes significativos (por exemplo: as sanções à Rússia fizeram cair as exportações, a Nokia entrou em queda e a sua divisão de telemóveis é hoje da Microsoft). Apesar disto, o défice público finlandês tem-se mantido abaixo dos 3%, a dívida  pública está razoavelmente controlada (em 2014 deverá ter ficado em torno dos 60%) e os números do desemprego, não sendo brilhantes, não podem ainda ser considerados catastróficos (abaixo de 9%). Também o nível de poupança dos finlandeses (cerca de 19,5% do PIB) é razoável, apesar de ter vindo a descer. (Em Portugal, o trajecto é o inverso: a poupança subiu de 9% do PIB em 2009/10 para mais de 15% em 2014.) Ou seja: a Finlândia tem margem para reformas e, mais coligação, menos coligação decorrente das eleições de ontem, provavelmente os finlandeses tratarão de as implementar, como fizeram no início da década de 1990. Em Portugal, com um sistema político menos fragmentado, elas têm-se revelado impossíveis – algo que não deixará de irritar os finlandeses, se alguma vez voltarem a ter de enviar dinheiro para cá. 

 

Dados: FMI, World Economic Outlook Database, Abril de 2015.