Encargos e competitividade


escafandro,

O principal problema do país é a economia. Abebe Selassie, representante do FMI na «troika» (por cá ainda lhe chamamos assim?) durante a maior parte do período de resgate, disse-o em pelo menos um par de entrevistas: Portugal até pode ter um modelo de sociedade ao estilo nórdico desde que crie uma economia capaz de o sustentar. Note-se a ordem dos factores: primeiro a economia, depois o modelo social. A esquerda sempre achou que o inverso daria o mesmo resultado. Não dá. Não dá em Portugal, nem na Grécia, nem na Venezuela, nem sequer nos países nórdicos – que, perante quedas da economia, fazem o que nós recusamos fazer: ajustam o modelo social para a estimular (por isso a Suécia tem um sistema de pensões que a esquerda portuguesa recusa, por isso a «flexissegurança» nasceu na Dinamarca, por isso a Finlândia vendeu a maioria dos bancos a estrangeiros há cerca de 20 anos, por isso todos os países nórdicos têm um modelo de sistema de Justiça que a Constituição portuguesa impossibilita).

Como uma recuperação sustentada da economia portuguesa só pode basear-se nas empresas (de modo a – toda a gente o sabe hoje em dia – aumentar as exportações e diminuir as importações de bens e serviços), tudo o que puder fazer-se para lhes aumentar a competitividade é crucial. Daí as declarações de Manuela Ferreira Leite não fazerem qualquer sentido: é evidente que os encargos com o pessoal – e, especificamente, os encargos fiscais e contributivos – são importantes para muitas empresas. Porque, se menores, lhes permitiriam ser mais concorrenciais, ganhando encomendas e quota de mercado, ou até porque lhes possibilitariam aproveitar uma eventual folga para diminuir o nível de endividamento (uma ameaça para o futuro), investir em inovação e design, contratar novos funcionários (para os departamentos de inovação e design, por exemplo) e/ou motivar os existentes através de bónus ou aumentos de salário.

Mais abaixo, num texto intitulado O problema é outro, o Sérgio de Almeida Correia menciona a PT e o BES para defender que existem outros factores com implicação na saúde das empresas. Com certeza que sim. Porém, na actividade, na dimensão, nas margens decorrentes de negócios pouco expostos a concorrência global (ninguém por cá pode usar a rede AT&T e a maioria dificilmente obterá crédito num banco chinês), a PT e o BES não representam a empresa típica portuguesa. E, por importantes que os sectores financeiro e de telecomunicações sejam, também não representam o tipo de empresas em que Portugal necessita de apoiar-se para construir uma economia competitiva. Quanto ao facto de uns conseguirem e outros não, depende – como quase tudo na vida – de capacidades próprias e da conjuntura. Um governo não pode criar melhores empresários por decreto – mas pode e deve tentar melhorar a conjuntura (fiscal, burocrática, judicial) em que os que existem se movimentam.

Pausa no modo campanha


escafandro,
PSD e CDS podem estar em modo eleitoral mas o governo, ainda que forçado pelas regras europeias, parece não ter perdido completamente o sentido da realidade. A oposição aproveitará para cavalgar a onda de desagrado e no início do Outono ver-se-á se a maioria dos portugueses aprendeu a principal lição que pode ser retirada dos últimos anos: quão doloroso é o custo das ilusões. Provavelmente, não. Pelo menos até um governo do PS ser obrigado a estilhaçá-las de novo, implementando medidas similares – ou piores, quiçá após pedir ajuda a um qualquer sucedâneo do «Grupo de Bruxelas».

Papéis inesquecíveis quase esquecidos. 2: Miriam Hopkins, em Trouble in Paradise.


escafandro,

Jean Renoir disse uma vez que Ernst Lubitsch inventara a Hollywood moderna. O «Lubitsch touch», subtileza e elegância assente em elipses (no não-dito e no não-mostrado, forçando o espectador a usar a imaginação para acrescentar grande parte da malícia de que os filmes se alimentam) mas também numa abordagem decididamente arriscada das relações sexuais (de tal modo que Lubitsch teve o cuidado de situar vários filmes na Europa, em vez de nos Estados Unidos), marcaria outros realizadores, com destaque para Billy Wilder. Entre as obras-primas que o alemão realizou em Hollywood conta-se o primeiro musical misturando canções e narrativa (The Love Parade, de 1930) e pelo menos quatro das melhores comédias de sempre: Ninotchka, com Greta Garbo no papel de comissária soviética enviada a Paris para pôr cobro aos desvios capitalistas de um grupo de camaradas, To Be or Not to Be, uma sátira passada durante a Segunda Guerra Mundial, na qual uma companhia de teatro actuando em Varsóvia tenta recuperar um dossier crucial para a resistência fazendo passar por Hitler um dos seus elementos (mais preocupado com as possíveis infidelidades da mulher), Heaven Can Wait, a suave e libertadora história de um homem demasiado interessado em mulheres, ainda que profundamente apaixonado pela sua, e Trouble in Paradise (Ladrão de Alcova), o mais antigo dos quatro (de 1932; Ninotchka é de 1939 e os outros dois da década de 40), a história de dois burlões que, depois de se apaixonarem, começam a trabalhar juntos, enfrentando não apenas o risco de serem presos mas também as tensões inerentes a uma ocupação que inclui a sedução de terceiros. O par é constituído por Gaston Monescu, famoso ladrão internacional (interpretado por Herbert Marshall), e por Lily Vautier, menos célebre mas igualmente ambiciosa (Miriam Hopkins).

Hopkins nasceu em 1902 numa família abastada de Savannah. Foi para Nova Iorque estudar ballet mas deixou-se atrair primeiro pelos musicais da Broadway e depois pelo teatro. Enfrentou críticas pouco lisonjeiras mas persistiu, fez a transição para o cinema e acabou uma das actrizes mais conhecidas e bem pagas da Paramount durante a década de trinta. No final desta, lutou sem sucesso pelo papel principal em E Tudo o Vento Levou e a partir daí a sua carreira no cinema decaiu, tendo voltado aos palcos e, depois, já na década de 50, feito várias incursões pela televisão. Faleceu de ataque cardíaco em Nova Iorque, a poucos dias de fazer 70 anos. Não sendo uma grande actriz, é memorável em pelo menos dois filmes de Lubistsch – Trouble in Paradise e Design for Living. Neste, incapaz de decidir entre Frederic Marsh e Gary Cooper, acabava por ficar com ambos (o filme decorria maioritariamente em França, país que todos os americanos sabiam ter códigos morais muito duvidosos). Em Trouble in Paradise, Hopkins conquista pelo entusiasmo com que aborda o papel, imbuindo-o de uma ambição tão honestamente desmedida (em especial por Gaston e jóias alheias) que acaba entrando no reino da ingenuidade. Acredito que algumas sensibilidades vejam apenas excesso no desempenho – de certa forma, insere-se num estilo comum a muitas comédias da época, portuguesas incluídas, embora atingindo um patamar de subtileza (quiçá graças a Lubitsch) bastante superior – mas tal constituirá acima de tudo indício de embotamento dessas sensibilidades e da tendência blasé da sociedade actual.

A trama é simples. Depois da sequência inicial, passada em Veneza e na qual os dois vigaristas se conhecem e apaixonam, o filme transfere-se para Paris e para o triângulo cujo terceiro vértice é constituído pela rica Madame Colet (Kay Francis), de que Gaston se torna «secretário», planeando roubá-la. Consegue infiltrar Lily em casa da Madame como «assistente» dele (era outra época, também no que se refere à hierarquia de valor destes termos), e Lily rapidamente verifica o modo despudorado como Madame se atira a Gaston. Na primeira conversa entre as duas (perante tantas jóias, Lily passa o tempo sentada sobre as mãos), Madame Colet propõe-se aumentar de 300 para 350 francos o salário (fictício) que Gaston paga à assistente. Mais tarde, ele questiona Lily: «O que é que ela queria?» Ela responde: «Tu. E está disposta a pagar até 50 francos para te obter.»

O filme tem muitas subidas e descidas de escadas (marca registada do «Lubitsch touch»), portas que se fecham mas apenas se trancam depois de ficar claro que ninguém virá bater (e como o som da fechadura é então a mais pura expressão do desapontamento) e vários momentos de tensão. Tem também excelentes personagens secundárias, com destaque para François Filiba (Edward Everett Norton, ubíquo e sempre excelente nas comédias da época), um indivíduo rico e pomposo, muito interessado em Colet, que, sem o saber, possui a chave para desmascarar Gaston (foi ele quem, no hotel em Veneza, perdeu a carteira no quarto two fifty three, five, seven and nine, mencionado no excerto acima, depois de abrir a porta a um «médico» que exigiu ver-lhe as amígdalas). A minha cena favorita, porém, talvez seja aquela em que Lily e Gaston, prestes a serem descobertos, decidem fugir para Berlim. Por telefone, Lily trata de arranjar vistos junto do consulado espanhol para o Sr. e para a Sra. Ignacio Lopez, debitando castelhano a alta velocidade. Após ela desligar, Gaston pergunta-lhe como está o seu alemão e Lily responde nessa língua. Segue-se uma troca de frases (sempre em alemão) em ritmo cada vez mais acelerado, rematada com um «auf wiedersehen» quase gritado por ela, antes de dar um beijo rápido a Gaston e sair disparada porta fora. O entusiasmo é tão contagiante que, por instantes, nos liberta do cinismo com que olhamos o mundo e tão excessivo que se torna irreal e, por isso, cómico. Mas a irrealidade gera também nostalgia por um mundo que não existe, nunca verdadeiramente existiu (em 1932 vivia-se a Grande Depressão, algo que também esquecemos ao ver, por exemplo, A Canção de Lisboa), mas gostaríamos que existisse. Um mundo onde os sentimentos não exigem análises pós-freudianas e podem ser expressos de forma cândida, e onde até os ladrões são encantadores, apaixonados e razoavelmente inofensivos.

Vícios


escafandro,

Não fumo. Não bebo bebidas alcoólicas. Raramente tomo café. Tenho padrões de exigência elevados: faço questão de não ganhar vícios que possam ser admitidos em público.

Por uma vez, concordo com o PS


escafandro,

Marcos Perestrello contesta a reorganização do sector das águas porque «com este sistema, o governo esbulha as câmaras municipais que geriram bem os seus sistemas, integrando o seu património na nova empresa, onde são também integrados os sistemas deficitários em milhões de euros». Passando por cima do excesso de «sistemas», tenho de reconhecer que Perestrello tem razão; é assim como os países que geriram bem as suas economias terem de assumir os prejuízos dos que não souberam ou quiseram fazê-lo.

Jornalista durante duas horas


escafandro,

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Rui Moreira surge apenas para almoçar e é mais alto do que parece na TV. José Alberto Carvalho está na plateia desde o início e é mais baixo do que parece na TV. Na mesa, Nuno Garoupa afiança que «o Porto é o início desta saída de Lisboa», Pedro Magalhães fala no «lado escuro e no lado claro da tecnologia» e David Lopes debruça-se sobre uma das frases expostas nas paredes (Login, logo existo?) enquanto ao seu lado, muito adequadamente, os outros dois usam os smartphones pousados sobre a mesa. No que me diz respeito, não sei bem o que estou aqui a fazer.

 

A culpa é do Pedro Correia. Contactado para saber se o Delito gostaria de estar presente na conferência de imprensa de apresentação do quarto encontro da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), a realizar no Porto no dia 12 de Junho, perguntou-me se estaria disposto a ir. Nos breves e inconsequentes devaneios que em adolescente tive com a profissão de jornalista entravam mais visões de Cary Grant em His Girl Friday (e de súbito apetece-me falar sobre Rosalind Russell mas vou resistir ou não escrevo mais nada sobre a conferência) e de Robert Redford em Os Homens do Presidente (também havia Dustin Hoffman mas eu identificava-me mais com o gajo giro) do que de almas penadas, precárias e mal pagas sentadas em cadeiras desconfortáveis recolhendo informação previamente formatada para lhes evitar esforços cerebrais e – mais inconveniente – assomos de curiosidade. Ainda assim, respondi-lhe que iria. Afinal, respeito o trabalho e as ideias de Nuno Garoupa, de quem li O Governo da Justiça, e de Pedro Magalhães, que costumava ler no Margens de Erro (notícia em primeira mão: ele promete reactivá-lo antes das legislativas). Além disso, haveria almoço.

 

E lá fui então hoje assistir à conferência de imprensa na Casa da Música, no preciso dia em que se iniciam as comemorações dos seus dez anos de actividade (uma «feliz coincidência», segundo David Lopes, da Comissão Executiva da FFMS). O tema do Quarto Encontro da Fundação (o primeiro fora de Lisboa – daí a frase de Garoupa) é: Admirável Mundo Novo: o Futuro Chegou Cedo Demais? Como seria de esperar, no pequeno auditório do espaço CiberMúsica (ciber, estão a ver? Tudo é pensado ao mínimo detalhe) houve referências a Aldous Huxley, que, graças a tecnologias outrora impensáveis mas hoje banais, surgiu mesmo no ecrã (evidentemente, havia um ecrã), no excerto de uma entrevista de 1958. Infelizmente (até a tecnologia comprovada tende a falhar nos momentos mais inconvenientes), a qualidade sonora correspondia mais a uma entrevista efectuada nos tempos da grafonola, quase nada se entendendo, mas Pedro Magalhães prometeu que os problemas estarão resolvidos no encontro, a realizar na maior e – todos o sabem – acusticamente perfeita sala Suggia. Por sorte ou competência (em Portugal, costuma ser a primeira; neste caso, é possível que seja a segunda), na documentação em papel (esse meio obsoleto) a frase lê-se sem problemas e até se encontra traduzida: O que eu acho é que não devemos ser apanhados de surpresa pelo avanço da nossa tecnologia. Isto aconteceu vezes sem conta na História com o avanço tecnológico, que por sua vez muda as condições sociais, e de repente as pessoas encontram-se em situações que não anteciparam e a fazer todo tipo de coisas que, afinal, nunca quiseram fazer. Ou seja, por muito que eu ande para aqui a divagar, o tema é sério e actual. Genericamente, o encontro será constituído por quatro blocos, versando sobre:

– A «pegada digital» que deixamos online, as questões dos comportamentos e da privacidade;

– As consequências das evoluções tecnológicas nas áreas da bioengenharia, da cibernética, da inteligência artificial e da sensorização da realidade;

– Os efeitos na sociedade (e, desde logo, no mercado de trabalho) das mudanças na produção de bens e serviços decorrentes de avanços nos sistemas de informação, na automação e na impressão 3D;

– As implicações das novas tecnologias na cidadania e nos sistemas políticos.

Entre os participantes, contam-se pessoas como David Brin (autor, entre outros, dos livros The Transparent Society e The Postman – o qual, na transposição para o cinema, permitiu novo tour de force a Kevin Costner, sem dúvida um dos melhores actores inexpressivos da história de Hollywood), Evgeny Morozov (redactor da New Republic e autor de livros como To Save Everything Click Here: The Folly of Technological Solutionism), Tyler Cowen (economista, colaborador dos principais jornais americanos e autor do blogue Marginal Revolution), Bruce Sterling (crítico, colaborador da Wired e autor de vários livros, entre os quais alguns dos mais importantes romances de ficção científica das últimas décadas) e, suponho que para demonstrar que a tecnologia não é tema exclusivo do género masculino, cinco – ou seis, que falta anunciar um nome – mulheres (em vinte participantes). Por exemplo, Ellen Jorgenson, directora executiva do Genspace, um laboratório dedicado à promoção da ciência e do acesso dos cidadãos à biotecnologia (aqui numa Ted Talk, apresentando o Genspace). Quem estiver interessado («não é cedo demais para marcar lugar no futuro», alertou David Lopes, usando mais uma das frases publicitárias) pode consultar o programa no site oficial. A inscrição custa 15 euros mas inclui almoço, servido no parque de estacionamento subterrâneo da Casa da Música (Lopes garante que a tecnologia o transformará num local onde os comensais poderão sentir-se na serra ou em frente ao mar mas eu, que conheço o local e também já estive em serras e junto ao mar, permaneço céptico). Extra programa, será possivel assistir à gravação da emissão da semana do Governo Sombra. Quem não quiser – ou não puder – estar presente poderá seguir as intervenções via streaming e a TVI24 providenciará ampla cobertura, sendo José Alberto Carvalho uma espécie de «mestre de cerimónias» do encontro (novamente, David Lopes dixit). 

 

E pronto. Acho que é tudo. Ah, não, também por lá encontrei colaboradores de outros blogues. São detestáveis. Mas o almoço estava óptimo.

Pequeno teste (com consulta)


escafandro,

Considere as seguintes previsões para a variação do PIB da Grécia em 2015:

+ 2,87% (FMI, Outubro de 2014).

+ 2,3% (OCDE, Novembro de 2014).

+ 2,5% (Comissão Europeia, início de Fevereiro de 2015).

+ 1,4% (Governo da Grécia, na lista de ‘medidas’ enviada ao «Grupo de Bruxelas» – ex-Instituições, ex-Troika -, final de Março de 2015).

 

A. O governo grego (que – tenha em atenção – é diferente para melhor de todos os outros, com excepção do cubano e do venezuelano):

1. Devia acreditar mais nas suas capacidades.

2. Embora não o possa admitir, sabe que as perspectivas de crescimento pioraram desde que tomou conta da situação e está a ser realista.

3. Na linha de tantos governos acusados de apresentarem números fantasiosos, está ainda assim a ser optimista.

4. Não faz ideia do que está a fazer nem do que vai acontecer.

 

B. Levando em conta as previsões e sabendo que o PIB da Grécia cresceu 0,8% em 2014, qual será a variação em 2015?

1. Acima de 3% (a austeridade era o problema e a Merkel cederá em toda a linha).

2. Entre 2% e 3%, como previam as instituições internacionais (o Syriza tem estilo mas é irrelevante).

3. Entre 1,4% e 2% (Varoufakis é ainda melhor do que pensa ser).

4. Exactamente 1,4% (Varoufakis é infalível).

5. Entre 0% e 1,4% (a teimosia da União Europeia tem custos).

6. Entre -1 e 0% (a teimosia da União Europeia e do BCE tem custos).

7. Mais negativa do que a temperatura média em Murmansk durante o mês de Janeiro (a Grécia liberta-se do euro e adopta um novo dracma, ligado ao rublo).

 

C. Elabore um texto com não mais de dez linhas sobre a hipótese de Varoufakis chegar um dia a líder do FMI.

Este post não admite comentários


escafandro,

É assim mesmo! Viva a liberdade. (de quem manda)

Lufra a 1 de Abril 2015, 11:21:37

 

E este comentário não suscita respostas.

Paulo Abreu e Lima a 1 de Abril 2015, 11:23:51

 

Este post não admite comentários. Esta é uma mentira de 1 de abril.

Luís Lavoura a 1 de Abril 2015, 12:00:01

 

O Luís Lavoura é muito sagaz.

Paulo Abreu e Lima a 1 de Abril 2015, 12:13:01

 

Seu mentiroso…

anonima a 1 de Abril 2015, 14:48:26

Vermes comandados pelo cérebro que não têm


escafandro,

Os homens são capazes de ignorar a fome e ir à procura de um par. Um novo estudo feito numa espécie de vermes comprovou que a culpa não é propriamente deles, mas sim do seu cérebro.

No Observador, por Carolina Santos.

 

Confesso: a primeira coisa que fiz, ainda antes de ler o artigo, foi verificar se tinha sido escrito por uma mulher. Em primeiro lugar pela deliciosa associação entre homens e vermes (eu sei que o estudo foi mesmo realizado em vermes mas talvez fosse mais correcto e abrangente usar «machos» em vez de «homens»). Depois pela igualmente deliciosa facilidade com que se aceita a extrapolação do comportamento dos referidos vermes para o ser humano, deixando de lado eventuais diferenças a nível de  – sei lá – número de neurónios. Finalmente pelo ainda mais delicioso recurso à velha dicotomia corpo-mente, na tentativa magnânima de desculpar essas criaturas vermiculares e desprovidas de neurónios, os homens (obrigado, Carolina; se vieres ao Porto nos próximos tempos avisa e vamos jantar, OK?; ou então até podemos saltar o jantar, que para mim é secundário). Porque a culpa (e tanto haveria a dizer sobre o facto de, mesmo após a ciência justificar o comportamento, poder continuar a associar-se-lhe o conceito – a ter de culpar-se alguém, que tal escolher Deus?) é do cérebro, não é propriamente dos homens. Só uma mulher podia considerar que quaisquer seres humanos – machos, fêmeas, hermafroditas – se definem por factores externos ao cérebro.

 

Nota 1. Como o meu sentido de humor não é partilhado por alguns leitores do Delito – mas Kafka também se ria ao ler as suas histórias aos amigos e poucos leitores delas fazem o mesmo desde então -, fica o alerta: este texto contém ironia e pretende ser uma provocação benigna.

 

Nota 2. Não, não estou a comparar o que escrevo ao que Kafka escrevia. Em contrapartida, a minha vida é quase tão excitante quanto foi a dele.

 

Nota 3. Agora vou dar descanso aos neurónios que não tenho, parar com estas notas e entreter-me a observar as mulheres que andam por aqui, OK?

 

Nota 4. Estranho. Estou com fome.

Papéis inesquecíveis quase esquecidos. 1: Lee Remick, em Wild River


escafandro,

Há outra presença feminina inesquecível em Wild River, de Elia Kazan: Jo Van Fleet, no papel de Ella Garth, uma mulher íntegra e teimosa que luta pelo direito a permanecer – enquanto viva e também depois de morta – na terra que ela e o marido reclamaram há dezenas de anos e sob a qual ele já se encontra. Mas os olhos azuis, a pele luminosa e a repentina sede de viver de Carol, a personagem interpretada por Lee Remick, ofuscam.

É estranho que Remick esteja mais ou menos esquecida. Depois de vários anos na televisão, começou a carreira cinematográfica em filmes como The Long, Hot Summer, de Martin Ritt, contracenando com Paul Newman (Joanne Woodward tinha o principal papel feminino), e Anatomy of a Murder, de Otto Preminger, ao lado de James Stewart (já como actriz principal). Em 1960 veio Wild River e, ao longo da década seguinte, obras de Blake Edwards, Carol Reed, Arthur Hiller e John Sturges. Nos anos 70 a sua estrela começo a perder brilho (ainda assim, é forçoso mencionar o icónico The Omen, de Richard Donner, com Gregory Peck) e acabou de regresso à televisão, antes de falecer, nova de 55 anos, em 1991.

Wild River (Quando  Rio se Enfurece) é um Kazan ligeiramente menos teatral do que as suas obras da primeira metade da década de 50 (Um Eléctrico Chamado Desejo, Há Lodo no Cais, A Leste do Paraíso). Pode até ser visto como uma primeira versão do filme seguinte, Esplendor na Relva. Inclui, porém, quase todas as suas marcas registadas: method acting, luta entre forças desiguais, preocupações sociais (neste caso, ligadas à questão racial), desejos reprimidos, paixões que se confundem com amor e são sobretudo desejo de escapar à realidade em que se vive. Wild River acompanha os esforços de Chuck Glover, funcionário de uma agência governamental, para convencer Ella Garth a abandonar a sua pequena ilha no rio Tennessee, uma vez que as águas irão subir na sequência da construção de uma barragem. Chuck é Montgomery Clift, em versão pós-acidente de automóvel, que lhe alterou muito mais do que o rosto, como ficaria ainda mais visível no filme seguinte: The Misfits, de John Huston, com Marylin e Clark Gable. (*)

Quando Chuck aparece, Carol, a neta da dona da ilha, está viúva há três anos (desde os 19). Tem dois filhos a cargo e encontra-se resignada ao desencanto e à proposta de casamento de um pretendente local, bastante mais velho. Chuck também é mais velho (Clift fez 40 anos em 1960; Remick, 25) mas vem de fora e, mais importante, não ficará por ali. É uma oportunidade, uma esperança repentina a que por vezes – de modo a evitar desilusões –  ela tenta resistir. A certa altura, diz-lhe que o ama e talvez seja verdade (as circunstâncias desempenham um papel crucial no despoletar das paixões) mas encontra-se acima de tudo a tentar convencê-lo e a tentar convencer-se a si própria, justificando de caminho as traições que sente estar a cometer: à avó, à terra que esta defende com unhas e dentes, ao (surpreendentemente íntegro) pretendente local, a um outro método de arranjar marido. Como em quase todos os filmes de Kazan, a sexualidade é intensa e carnal mas nasce das poses, das hesitações, das palavras ditas e deixadas por dizer, dos gestos e dos olhares, das respirações, muito mais do que de cenas de sexo. Nasce também da beleza física de Remick. Esta, juntamente com o ardor e vergonha que dominam a personagem, constituem um cocktail a que poucos homens (ainda que nada interessados em ver-se de súbito com uma esposa e dois filhos) conseguiriam resistir. Kazan (e Paul Osborn, que escreveu o guião, baseado em livros de William Bradford Huie) sabia-o. Mas também sabia que uma relação assim dá parcas garantias de felicidade. O final parece feliz mas deixa no ar ambiguidade suficiente para o espectador apenas se poder permitir manter uma ligeira esperança de que tudo correrá bem. E fá-lo porque Carol – luminosa Remick – merece-o.

 

(*) Em 1956, Clift embateu com o seu Chevrolet contra uma árvore quando saía de uma festa em casa de Elizabeth Taylor. Conta-se que ela lhe salvou a vida, ao remover dois dentes que lhe bloqueavam a garganta.

 

 

Nota: Os mais perspicazes (vocês sabem quem são; nah, sabem nada) terão depreendido pelo título que é suposto este texto dar início a uma série. Gostaria de informar que não faço promessas quanto à regularidade e duração da mesma. Se conseguir convencer-me a escrever textos mais curtos (facilitam tanto a vida…), talvez saia um por semana. Caso contrário, no Natal isto já deve ter chegado ao nº 2. 

Da indignação


escafandro,

O aspecto mais curioso na sociedade que busca incessantemente motivos para se indignar (aquela onde vivemos) é ser cada vez mais difícil prever quais os temas que gerarão maior desagrado. Como seria de esperar, a política, especialmente em anos de crise, funciona bem. A religião, evidentemente, também é quase sempre óptima a catalisar ódios reprimidos (um paradoxo?). O futebol, claro, permanece excelente a fazer com que opiniões contrárias ou pequenas provocações pareçam ataques pessoais indesculpáveis. Mas existe uma miríade de outros temas que, na sequência de uma piada seca ou de um adjectivo dúbio, têm um inesperado potencial para desencadear fúrias quase homicidas (o advérbio pode não passar de optimismo deslocado). Que num dado momento todos se afirmem Charlie não passa, evidentemente, de reacção condicionada pelo horror, pela força da opinião dominante e por défice de auto-análise. Dias, horas depois, regressa a indignação por tudo aquilo que não parece bem ter sido dito, ou feito, ou até pensado. Na política, isto tem consequências preocupantes: como já foi escrito, Churchill (inconveniente, irónico, fumador, gordo)  nunca seria eleito nos dias que correm. Em contrapartida, Hitler ou Estaline (convictos, sem pinga de humor inconveniente – quase um pleonasmo -, tão indignados quanto a generalidade da população) poderiam muito bem ganhar eleições. Paulo Tunhas escrevia no Observador há um par de semanas: A seguir ao futebol, o desporto da indignação é certamente o desporto mais noticiado em Portugal. É também o mais praticado, mesmo fora das redes sociais e dos meios de comunicação (em ambiente familiar ou laboral, por exemplo). E podia ao menos servir de catarse (J. G. Ballard defendia que não se procurasse eliminar a violência associada ao desporto porque fazê-lo levaria a explosões menos previsíveis) mas creio que nem isso sucede. Revela-se apenas esgotante, para todas as partes envolvidas, e faz com que muitos prefiram não se expor. Subsistem, por um lado, os clichés e, por outro, o ruído e os especialistas no mesmo.