Os homens são capazes de ignorar a fome e ir à procura de um par. Um novo estudo feito numa espécie de vermes comprovou que a culpa não é propriamente deles, mas sim do seu cérebro.
No Observador, por Carolina Santos.
Confesso: a primeira coisa que fiz, ainda antes de ler o artigo, foi verificar se tinha sido escrito por uma mulher. Em primeiro lugar pela deliciosa associação entre homens e vermes (eu sei que o estudo foi mesmo realizado em vermes mas talvez fosse mais correcto e abrangente usar «machos» em vez de «homens»). Depois pela igualmente deliciosa facilidade com que se aceita a extrapolação do comportamento dos referidos vermes para o ser humano, deixando de lado eventuais diferenças a nível de – sei lá – número de neurónios. Finalmente pelo ainda mais delicioso recurso à velha dicotomia corpo-mente, na tentativa magnânima de desculpar essas criaturas vermiculares e desprovidas de neurónios, os homens (obrigado, Carolina; se vieres ao Porto nos próximos tempos avisa e vamos jantar, OK?; ou então até podemos saltar o jantar, que para mim é secundário). Porque a culpa (e tanto haveria a dizer sobre o facto de, mesmo após a ciência justificar o comportamento, poder continuar a associar-se-lhe o conceito – a ter de culpar-se alguém, que tal escolher Deus?) é do cérebro, não é propriamente dos homens. Só uma mulher podia considerar que quaisquer seres humanos – machos, fêmeas, hermafroditas – se definem por factores externos ao cérebro.
Nota 1. Como o meu sentido de humor não é partilhado por alguns leitores do Delito – mas Kafka também se ria ao ler as suas histórias aos amigos e poucos leitores delas fazem o mesmo desde então -, fica o alerta: este texto contém ironia e pretende ser uma provocação benigna.
Nota 2. Não, não estou a comparar o que escrevo ao que Kafka escrevia. Em contrapartida, a minha vida é quase tão excitante quanto foi a dele.
Nota 3. Agora vou dar descanso aos neurónios que não tenho, parar com estas notas e entreter-me a observar as mulheres que andam por aqui, OK?
Nota 4. Estranho. Estou com fome.

este texto pretende ser uma provocação benigna
Benigna, José António? Tem a certeza? E acha que a Carolina merece que você seja benigno?
Eu acho que o seu texto é maligno e que a Carolina não merece outra coisa.
Não, não. Não. Decididamente, não.
talvez fosse mais correcto e abrangente usar «machos» em vez de «homens»
Nor textos em inglês que leio, é costume designar as mulheres por “fêmeas” (females em vez de women). Nunca percebi porque fazem isso, uma vez que nesses mesmos textos os homens não são designados por “machos”.
Morri a rir, com a ironia muito bem empregue! parabéns. 🙂
Obrigado. As extrapolações são claramente abusivas. Ainda por cima usaram vermes-macho que não andam atrás de verdadeiras fêmeas mas de vermes hermafroditas. Se isto não é razão para perder o apetite…
O facto de se insinuar que os homens conseguem ignorar a fome e ir à procura de um par é um tremendo elogio ao género masculino. Eu diria, um salto evolucional, conseguir fazer duas coisas em simultâneo, ter fome e procurar parceira.
Hmmmmmm, grande multitasking (algo em que as mulheres são claramente especialistas – sendo que outra coisa é em fazer elogios dúbios): ter fome e vontade de comer.
😉
conseguir fazer duas coisas em simultâneo, ter fome e procurar parceira
Por algum motivo um homem diz, quando finalmente encontra parceira, “comi-a toda”!
Belo texto
Excelente.Venham daí mais.