Há outra presença feminina inesquecível em Wild River, de Elia Kazan: Jo Van Fleet, no papel de Ella Garth, uma mulher íntegra e teimosa que luta pelo direito a permanecer – enquanto viva e também depois de morta – na terra que ela e o marido reclamaram há dezenas de anos e sob a qual ele já se encontra. Mas os olhos azuis, a pele luminosa e a repentina sede de viver de Carol, a personagem interpretada por Lee Remick, ofuscam.
É estranho que Remick esteja mais ou menos esquecida. Depois de vários anos na televisão, começou a carreira cinematográfica em filmes como The Long, Hot Summer, de Martin Ritt, contracenando com Paul Newman (Joanne Woodward tinha o principal papel feminino), e Anatomy of a Murder, de Otto Preminger, ao lado de James Stewart (já como actriz principal). Em 1960 veio Wild River e, ao longo da década seguinte, obras de Blake Edwards, Carol Reed, Arthur Hiller e John Sturges. Nos anos 70 a sua estrela começo a perder brilho (ainda assim, é forçoso mencionar o icónico The Omen, de Richard Donner, com Gregory Peck) e acabou de regresso à televisão, antes de falecer, nova de 55 anos, em 1991.
Wild River (Quando Rio se Enfurece) é um Kazan ligeiramente menos teatral do que as suas obras da primeira metade da década de 50 (Um Eléctrico Chamado Desejo, Há Lodo no Cais, A Leste do Paraíso). Pode até ser visto como uma primeira versão do filme seguinte, Esplendor na Relva. Inclui, porém, quase todas as suas marcas registadas: method acting, luta entre forças desiguais, preocupações sociais (neste caso, ligadas à questão racial), desejos reprimidos, paixões que se confundem com amor e são sobretudo desejo de escapar à realidade em que se vive. Wild River acompanha os esforços de Chuck Glover, funcionário de uma agência governamental, para convencer Ella Garth a abandonar a sua pequena ilha no rio Tennessee, uma vez que as águas irão subir na sequência da construção de uma barragem. Chuck é Montgomery Clift, em versão pós-acidente de automóvel, que lhe alterou muito mais do que o rosto, como ficaria ainda mais visível no filme seguinte: The Misfits, de John Huston, com Marylin e Clark Gable. (*)
Quando Chuck aparece, Carol, a neta da dona da ilha, está viúva há três anos (desde os 19). Tem dois filhos a cargo e encontra-se resignada ao desencanto e à proposta de casamento de um pretendente local, bastante mais velho. Chuck também é mais velho (Clift fez 40 anos em 1960; Remick, 25) mas vem de fora e, mais importante, não ficará por ali. É uma oportunidade, uma esperança repentina a que por vezes – de modo a evitar desilusões – ela tenta resistir. A certa altura, diz-lhe que o ama e talvez seja verdade (as circunstâncias desempenham um papel crucial no despoletar das paixões) mas encontra-se acima de tudo a tentar convencê-lo e a tentar convencer-se a si própria, justificando de caminho as traições que sente estar a cometer: à avó, à terra que esta defende com unhas e dentes, ao (surpreendentemente íntegro) pretendente local, a um outro método de arranjar marido. Como em quase todos os filmes de Kazan, a sexualidade é intensa e carnal mas nasce das poses, das hesitações, das palavras ditas e deixadas por dizer, dos gestos e dos olhares, das respirações, muito mais do que de cenas de sexo. Nasce também da beleza física de Remick. Esta, juntamente com o ardor e vergonha que dominam a personagem, constituem um cocktail a que poucos homens (ainda que nada interessados em ver-se de súbito com uma esposa e dois filhos) conseguiriam resistir. Kazan (e Paul Osborn, que escreveu o guião, baseado em livros de William Bradford Huie) sabia-o. Mas também sabia que uma relação assim dá parcas garantias de felicidade. O final parece feliz mas deixa no ar ambiguidade suficiente para o espectador apenas se poder permitir manter uma ligeira esperança de que tudo correrá bem. E fá-lo porque Carol – luminosa Remick – merece-o.
(*) Em 1956, Clift embateu com o seu Chevrolet contra uma árvore quando saía de uma festa em casa de Elizabeth Taylor. Conta-se que ela lhe salvou a vida, ao remover dois dentes que lhe bloqueavam a garganta.
Nota: Os mais perspicazes (vocês sabem quem são; nah, sabem nada) terão depreendido pelo título que é suposto este texto dar início a uma série. Gostaria de informar que não faço promessas quanto à regularidade e duração da mesma. Se conseguir convencer-me a escrever textos mais curtos (facilitam tanto a vida…), talvez saia um por semana. Caso contrário, no Natal isto já deve ter chegado ao nº 2.

Pois venha o próximo !
Sou apreciador de cinema, embora os conhecimentos sejam (muito) limitados, mas sempre vi alguns Westerns e filmes de época com bastante agrado quando a RTP ainda os passava nos longínquos anos 80/90.
Hoje em dia estou como muitas outras pessoas, não vejo televisão, aparte de um ou outro programa no cabo que possa apanhar a “dar”.
Ainda se vão fazendo hoje em dia alguns bons filmes, mas até esses têm de ter uma base comercial muito forte para terem algum publico, sejam remakes ou sequelas / prequelas ” e com um naipe de actores / actrizes famosos / famosas para que possam ser vistos e eventualmente compreendidos.
Felizmente ainda sou do tempo do cinema sem “pipocas” e em que era impossível ir a uma sessão deserta (já me aconteceu ser a única pessoa na sala)
e enquanto me lembrar guardarei para sempre essas boas recordações.
Também foi na RTP, no final da década de 70 e na primeira metade da de 80, que tomei contacto com o cinema clássico americano, inglês, italiano (os filme do Totó…) e francês (enfim, com o menos clássico também porque, crescendo perto da Serra de Estrela, as salas de cinema não abundavam nas redondezas – nem o dinheiro para esses luxos). Lembro-me de passar tardes dos períodos de férias a ver westerns e musicais e comédias das décadas de 30, 40 e 50. Infelizmente, hoje a RTP só passa cinema dessa altura na RTP Memória e creio que pouco. Também é verdade que muita gente já se recusa a ver filmes a preto e branco e/ou ritmo inferior ao de jogos de vídeo (e eu gosto de jogos de vídeo) e/ou efeitos especiais ‘artesanais’.
Vá, não sejas preguiçoso. Gostei muito.
A preguiça deve ser combatida quando é um traço de carácter aparentemente inato? Às vezes penso que o meu nome do meio devia ser “Garfield”…
E obrigado.
(Agora vou estender-me no sofá.)
Grande série que inicias aqui, José António. Serei leitor e comentador assíduo.
É uma série que entronca de algum modo com uma que me anda há uns anos a ruminar-me nos neurónios: Filmes Esquecidos. Pode ser que arranque finalmente neste Verão.
Lee Remick é uma das minhas deusas do cinema. Gostei dela particularmente num drama de Blake Edwards, ao lado de Jack Lemmon, intitulado ‘Days of Wine and Roses’ (1962), que em português se chamou ‘Escravos do Vício’.
Era linda e talentosa. Ténue e fugaz. Infeliz. Uma figura trágica, embora tocada pelo brilho solar como poucas. Efémera e eterna.
Houve outras. A Jean Seberg, a Natalie Wood, a Grace Kelly. Mas não quero meter foice na tua seara. Vou tentar lavrar a minha.
Eu acho que vi “Days of Wine and Roses” mas deve ter sido há tantos anos que já nem me lembro. Quanto à série, vamos ver no que dá. Alguns casos serão mais idiossincrasias minhas do que interpretações inatacáveis. Em grande medida, é por isso que, após muitas hesitações, optei por usar no título o termo “papéis” em vez de, por exemplo, “desempenhos”.