A sina da modéstia


escafandro,

Agora já bem entrado nos setenta, o mestre da Morávia sentia-se mais divertido do que intimidado pela cultura dos festivais; gostava de contar a história de como, ao tentar encontrar o caminho do palco para agradecer os aplausos no festival ISCM de 1925, abrira a porta errada e achara-se na rua.

Alex Ross, em The Rest is Noise, sobre o compositor checo Leoš Janáček (há uns anos escrevi um texto acerca dele). Edição Farrar, Strauss and Giroux, tradução minha.

Listas VIP dos tempos de Sócrates e Pinto Monteiro


escafandro,

«No tempo do Dr. Pinto Monteiro, quem tinha processos mediáticos, como regra, acabava com um processo disciplinar», afirma. «Com este tipo de atitude não havia grande incentivo para investigar pessoas poderosas.»

António Ventinhas, presidente do sindicato do Ministério Público. Noutros tempos – desculpem-me o trocadilho primário -, iam-lhe às ventinhas.

Notas rápidas


escafandro,

Estamos em tempo de invenção de polémicas. Qualquer dia, basta um ministro espirrar mais intempestivamente (o que me recorda algo). Agora foi a expressão «cofres cheios», de Maria Luís Albuquerque. Felizmente Tsipras e Varoufakis continuam por aí, chamando-nos a atenção para o quão preferível é tê-los vazios.

 

O socialista Henrique Neto avança para uma candidatura à presidência. Costa diz que lhe é indiferente, o que já significa muito. Vários apoiantes de Costa (e de Sócrates) são menos subtis. Augusto Santos Silva, sempre elegante, apelida Neto de «bobo». José Lello prefere chamar-lhe «Beppe Grillo» (nas entrelinhas, «palhaço», mostrando existir um elevado grau de coordenação no PS oficial, pelo menos em relação a certos temas). As reacções entendem-se: concorde-se ou não com todas as suas ideias (eu não aprecio uma certa visão dirigista que ele tem do Estado), Henrique Neto nunca se coibiu de criticar as políticas dos governos Sócrates. Para este PS, é bom que o presidente seja socialista – mas não que tenha ideias próprias e, pior, topete suficiente para as exprimir (algo que Guterres, lá do seu cargo dourado, nunca fez, e Vitorino – bom, fiquemos pelo «habituem-se» de 2005).

 

António Costa está claramente em modo de campanha, aparecendo um pouco por todo o país. Suponho que, para além de se gerir sozinha, a Câmara de Lisboa continua a pagar-lhe o salário. Fosse Costa líder do PSD ou do CDS e estaria a ser crucificado pelas mentes bem-pensantes que infestam as televisões.

 

Entretanto, Carlos César garante que um governo do PS compensará os lesados do BES. Enternece ver socialistas prometerem pagar prejuízos privados com dinheiros públicos. Mas não surpreende: já o fizeram no caso do BPN. Quaisquer esperanças de que tivessem aprendido a lição acabam de se esfumar. Uma das maiores mágoas de Ricardo Salgado só pode ser não ter encontrado António Costa como primeiro-ministro quando precisou de dinheiro público para salvar o grupo.

Uma diferença


escafandro,

Há muitas, nem todas confinadas ao plano político. Várias são importantes. Uma é fundamental. José Sócrates conduziu o país exactamente para onde os seus críticos afirmavam que ia conduzir: o limiar da bancarrota. Por muitos erros que lhe possam – e devam – ser imputados, Passos Coelho desmentiu os críticos: não houve espiral recessiva, nem segundo resgate, nem saída do euro. Evidentemente, isto também diz algo sobre a qualidade dos críticos – e as lições que, por incapacidade, conveniência ou má vontade, não se aprendem.

A retórica do crescimento


escafandro,

Independentemente das diferenças de riqueza e de cultura, há contudo semelhanças decisivas entre os países de mais lento crescimento, incluindo o Japão. São três os traços comuns mais importantes: a demografia (elevada longevidade e baixa fecundidade); o consequente peso das reformas e das despesas de saúde, seja qual for o sistema de segurança social; e a melhor protecção ambiental do mundo (Portugal é, segundo o Eurostat, o 6º país da UE com maior peso das energias renováveis). É isto que se pretende trocar pelo crescimento do antigo «terceiro mundo»? Ou é por isto que a Europa tem os custos acrescidos e as dificuldades de crescimento que conhecemos?

Excerto de texto de Manuel Villaverde Cabral, no Observador.

O plural majestático


escafandro,

Hesito sempre que escrevo um texto sobre Portugal e os portugueses. Estando ciente de que Portugal e os portugueses são muitas coisas, há momentos (aqueles em que se mencionam estatísticas, por exemplo) em que ou se escreve como se perante uma entidade homogénea (e não, vá lá, com tendências aparentemente homogéneas) ou não se escreve. E é nesses momentos que surge o problema do plural majestático. «Não podemos fazer isto», «devíamos fazer aquilo», «somos assim ou assado» transmite a ideia de que me arrogo o direito de falar por todos. Mas escrever «Portugal é isto» ou «os portugueses fazem aquilo» causa-me outro problema. Por muito que frequentemente me sinta deslocado, sou português. E se o plural majestático pode indiciar presunção, as outras formas parecem-me ainda piores. É como se procurasse saltar fora do barco. Evitar dizer «nós» equivale a dizer «vocês».