Estamos em tempo de invenção de polémicas. Qualquer dia, basta um ministro espirrar mais intempestivamente (o que me recorda algo). Agora foi a expressão «cofres cheios», de Maria Luís Albuquerque. Felizmente Tsipras e Varoufakis continuam por aí, chamando-nos a atenção para o quão preferível é tê-los vazios.
O socialista Henrique Neto avança para uma candidatura à presidência. Costa diz que lhe é indiferente, o que já significa muito. Vários apoiantes de Costa (e de Sócrates) são menos subtis. Augusto Santos Silva, sempre elegante, apelida Neto de «bobo». José Lello prefere chamar-lhe «Beppe Grillo» (nas entrelinhas, «palhaço», mostrando existir um elevado grau de coordenação no PS oficial, pelo menos em relação a certos temas). As reacções entendem-se: concorde-se ou não com todas as suas ideias (eu não aprecio uma certa visão dirigista que ele tem do Estado), Henrique Neto nunca se coibiu de criticar as políticas dos governos Sócrates. Para este PS, é bom que o presidente seja socialista – mas não que tenha ideias próprias e, pior, topete suficiente para as exprimir (algo que Guterres, lá do seu cargo dourado, nunca fez, e Vitorino – bom, fiquemos pelo «habituem-se» de 2005).
António Costa está claramente em modo de campanha, aparecendo um pouco por todo o país. Suponho que, para além de se gerir sozinha, a Câmara de Lisboa continua a pagar-lhe o salário. Fosse Costa líder do PSD ou do CDS e estaria a ser crucificado pelas mentes bem-pensantes que infestam as televisões.
Entretanto, Carlos César garante que um governo do PS compensará os lesados do BES. Enternece ver socialistas prometerem pagar prejuízos privados com dinheiros públicos. Mas não surpreende: já o fizeram no caso do BPN. Quaisquer esperanças de que tivessem aprendido a lição acabam de se esfumar. Uma das maiores mágoas de Ricardo Salgado só pode ser não ter encontrado António Costa como primeiro-ministro quando precisou de dinheiro público para salvar o grupo.