Suponho que os apreciadores da seita lhe chamarão «negociação musculada» ou algo similar
escafandro,
A mulher sai de uma loja quando estou quase a passar junto à porta. Acabamos praticamente lado a lado. Vinte graus, céu limpo e – presumo – vontade de libertar atributos que a chuva, o frio e o vento oprimem (em mais do que um sentido, o Inverno é a estação dos encantos ocultos) levaram-na a envergar um vestido curto e um casaco leve, complementados por uns sapatos cujos saltos me provocam vertigens (as pernas que levam a eles também podem desempenhar um papel na sensação). Deve ser seis ou sete anos mais nova do que eu mas suspeito que qualquer pessoa lhe daria menos uns quinze, constituindo a diferença tanto um elogio à boa forma em que ela se encontra como uma crítica aos efeitos da minha inércia. Ainda assim, pergunto-me se o vestido curto não será da filha de quinze anos. Seguimos a par durante vários metros no passeio estreito. A certa altura, começa a ser-me difícil ignorar a situação. Pergunto-me se devo acelerar e deixá-la para trás, se abrandar e deixá-la adiantar-se (a minha faceta competitiva faz-me pender para a primeira hipótese, o aspecto dela para a segunda). Outra opção, claro, seria meter conversa. Abrando ligeiramente mas ainda não tomei uma decisão definitiva quando chegamos à esquina. Ela vai dois palmos à minha frente, do lado da parede, mas não está com meias medidas: vira à esquerda para atravessar a rua na passadeira (o semáforo está verde) e faz-me travar a fundo. Depois de a evitar, recrimino-me. Tamanha desconsideração (será possível que não tenha reparado em mim?) justificava que não tivesse parado. Mas depois digo-me quão chato seria fazê-la cair do alto daqueles sapatos e esfolar os joelhos, ademais quando ontem até foi Dia da Mulher. Arriscava-me a ser abertura de noticiários. De resto, estou consciente de que nunca faria tal coisa. Por um lado, seria como vandalizar uma obra de arte (não sei se é necessário acrescentar que também não o faria se ela fosse menos atraente porque, nesse caso – é mesmo preciso explicá-lo? -, doeria menos que ela me tivesse ignorado); por outro, até estou habituado a que as mulheres mudem de direcção sem sinalizarem a intenção – mas quando se encontram ao volante. Fico parado um instante, observando-a a atravessar a rua, e depois viro à direita e sigo pelo passeio, ponderando esta coisa dos encontros fortuitos que por vezes não passam de fantasias na cabeça de uma única pessoa e recordando uma cena do início de Vivement Dimanche, o último filme de François Truffaut. Nela, a personagem interpretada por Fanny Ardant segue pelo passeio (vestindo uma saia de cabedal não particularmente curta, uma blusa escura e um casaco branco às bolinhas pretas de estilo muito parisiense) quando um homem se coloca ao seu lado. Ele nada diz mas mantém-se junto dela, claramente a apreciá-la. No momento em que ela se desvia para atravessar a rua, ele pára, surpreendido, e pergunta: «Então, vai por aí?». Ela roda e sorri. «Sim, vou por aqui.» «É pena», diz ele. O sorriso dela alarga-se (e como é largo o sorriso de Ardant). Responde: «Oui, c’est la vie!» Não obstante levar ao mesmo resultado (a personagem interpretada por Ardant não volta a encontrar o homem durante o resto do filme), lembrar-me da cena apenas torna a minha falta de capacidade de interacção mais evidente. Mas depois penso que, não obstante poderem conter o todo o simbolismo do mundo, cenas nas quais as pessoas se comportam com esta leveza irresistível não passam de tentativas dos argumentistas reescreverem – e assim esconjurarem – os seus próprios desencontros e oportunidades perdidas. C’est la vie.
1. Não abordei até agora o caso da falta de pagamento das contribuições devidas por Passos Coelho à Segurança Social entre 1999 e 2004 porque não vejo razões para defender quem não cumpre as suas obrigações nem para atacar quem, apesar de tudo, incorreu no que classifico como um delito menor, partilhado por muitos milhares de portugueses (desconhecendo a obrigação, eu próprio andei uns meses sem pagar as contribuições em 1993/94 e conheço várias pessoas que fizeram o mesmo, uma das quais durante dois anos – sem que nenhuma tenha sido alertada para a falha pelos serviços da Segurança Social).
2. Não, não é necessário ter um passado impoluto para, sendo governante, exigir um módico de cumprimento aos restantes cidadãos – até porque ninguém o tem. É necessário assumir os erros cometidos e mostrar que se aprendeu algo com eles. A reacção de Passos, atabalhoada, revela uma de duas coisas: ou está convencido de que reacções sinceras, não preparadas por spin doctors, o beneficiam (até por contraponto às contínuas encenações do primeiro-ministro que o antecedeu) ou necessita de despedir os spin doctors actuais e arranjar outros (melhores; muito, muito melhores). A reacção pública aconselha a segunda via.
3. Que muitas almas tenham visto na defesa de Passos Coelho uma alusão a Sócrates é normal. Que, por Sócrates estar preso, Passos estivesse impedido de afirmar nunca ter usado o cargo para benefício pessoal seria aberrante. Passos terá culpas pela situação em que se encontra mas não pelo facto do Ministério Público estar precisamente a acusar Sócrates de usar o cargo para, beneficiando empresas, ganhar milhões.
4. A discussão tem pelo menos dois méritos que ultrapassam a simples questão dos actos passados de um cidadão que chegou a primeiro-ministro. Um deles é permitir um princípio de debate em torno da hemorragia legislativa nacional (que potencia falhas e litígios), bem como da relação dos serviços do Estado com os cidadãos (antes, errática e autoritária; hoje, assertiva e autoritária). Que o governo apenas tenha executado mudanças superficiais nestas áreas (redução dos escalões do IRS, reforma do IRC, corte de subsídios) deveria dar azo a crítica. É, porém, necessário reconhecer que nem o aperto orçamental dos últimos anos nem a circunstância de, durante eles, ter ficado provado ser apenas constitucional aumentar taxas e impostos propicia abertura para tentar uma relação mais adulta com os cidadãos.
5. O outro mérito é invalidar o argumento de que há uma relação directa entre os descontos que se fazem e a pensão que se recebe, expresso frequentemente na ideia de que «a minha pensão não pode ser cortada porque o dinheiro é meu». Se assim fosse, ninguém para além do próprio seria penalizado pela falha de Passos Coelho e ela seria vista como pouco grave. Fica pois assumido que a lógica da Segurança Social não é particularmente diferente da que rege o sistema fiscal: as pessoas são forçadas a contribuir por razões comunitárias e até distributivas (se não entre escalões sociais, pelo menos entre as gerações no activo – sem garantias quanto aos valores que receberão – e as não activas – que beneficiam mais do esforço das activas do que da contribuição efectivamente realizada). É uma noção importante, a manter presente quando se voltar a discutir a reforma do sistema – e o Tribunal Constitucional tiver de se pronunciar sobre o assunto.
6. Finalmente, desejo exprimir solidariedade para com o PS. Não deve ser fácil ter o líder na prisão.
Sou um fã DESTE TAMANHO de Laura Darling. Marling. Laura Marling. Sou fã de mais duas Lauras (a do Preminger e a que costumava escrever aqui no Delito, hoje tão desaparecida – e tão saudável, espero – como a do Preminger) mas esta é a que me acompanha mais frequentemente. O novo álbum chama-se Short Movie e sai no dia 23 de Março. A avaliar pelas amostras (está disponível uma segunda), é mais rock do que folk, tendo o intimismo e a sonoridade acústica do anterior dado lugar a energia e electricidade. Parece-me bem. Deve-se variar. O corte de cabelo (visível no link do segundo tema) é que talvez fosse dispensável. Faz com que, nesse campo, a minha Laura favorita seja a do Preminger (obviamente, apenas por nunca ter visto a do Delito). Mas isso é pouco relevante – um tipo que começa a ficar com entradas nem sequer pode ser exigente a respeito de cabelo.
Os partidos populistas, baseando a conquista de votos não apenas em promessas impossíveis de concretizar mas na denúncia da promiscuidade entre os governos dos partidos «tradicionais» e o sector privado, caem numa aparente contradição quando exigem uma moeda – seja esta um euro fraco ou novas-velhas moedas nacionais – capaz de a disfarçar. Uma moeda fraca está inextricavelmente ligada a regimes mais corruptos e a menores níveis de riqueza geral. Compare-se outro Sul com o Norte de sempre. Os países da América Latina têm tradicionalmente moedas que acomodam a corrupção e os exageros populistas dos políticos – até ao momento em que mesmo isso deixa de ser possível. Os países do Centro e do Norte da Europa favorecem tradicionalmente moedas fortes e estáveis, que obrigam os empresários a apostar na competitividade e os políticos a justificarem opções perante o eleitorado. Por não disfarçar os problemas, a moeda forte torna os eleitores mais exigentes e dificulta a realização de promessas vãs. Ou seja, dificulta os populismos. É por isso que a contradição não passa de aparência e é também por isso que os políticos minimamente honestos enfrentam enormes dificuldades em épocas de crise.
Acontece que para os gregos, o euro não é apenas uma moeda a que a sua economia esteja mais ou menos adaptada. É um projecto político, um ideal: é a possibilidade de, um dia, viverem num país onde o Estado, dominado por interesses de todo o tipo (sindicais, empresariais, corporativos, clientelares, etc.), não abuse da moeda para servir esses interesses à custa de todos os outros cidadãos. É isso que os exercícios de análise económica não apanham, nem o discurso corrente da integração europeia, que reduz tudo a uma questão técnica: como conter, numa união monetária, economias divergentes e políticas contraditórias.
Não somente para os gregos. Para os portugueses também. De resto, não será apenas coincidência que, em Portugal, não obstante as incapacidades próprias do governo, as mil e uma obstruções que enfrentou e os interesses corporativos dos partidos que o formam, os últimos anos tenham revelado uma progressiva «limpeza» na relação entre o Estado e outras entidades. A forma como não se salvou o grupo Espírito Santo, a profusão de casos judiciais contra políticos e empresários, a limitação do (ou, pelo menos, a pressão pública contra o) poder discricionário de conceder favores (veja-se a polémica actual sobre o planeado perdão da autarquia de Lisboa a uma entidade com tantos fãs como o Benfica) são também efeitos de uma moeda que deixou de ser um fantoche nas mãos dos políticos.
Como ainda não está em francês pós-acordo ortográfico, permito-me comprar a Photo de Janeiro com as fotos enviadas pelos leitores. E confirmo novamente. O digital fez com que criar imagens perfeitas se tornasse irresistível. Apagam-se linhas eléctricas cruzando o céu e pacotes de batatas fritas caídos no chão, torna-se o céu mais azul, eliminam-se (ou amplificam-se) rugas e sinais. Porém, a realidade não é perfeita. Nela, as linhas, os pacotes de batatas fritas e as rugas existem, o céu nem sempre está azul. Não interessa. A realidade é uma maçada. Na fotografia, como em tudo o resto (até na política), já só apreciamos a perfeição. Por isso, corta-se, apaga-se, alisa-se. E a realidade torna-se-nos cada vez mais insatisfatória.
O governo grego compromete-se a:
– Pagar a dívida pública;
– Manter as privatizações feitas e em curso; avaliar a melhor altura para executar as restantes;
– Combater a evasão fiscal;
– Reduzir a despesa pública;
– Aumentar impostos;
– Cortar pensões, poupando as mais baixas.
– Rever o código laboral e não aumentar para já o salário mínimo;
– Aumentar o nível de concorrência na economia;
– Liberalizar o enquadramento de profissões reguladas;
– Estudar medidas de apoio social que não tenham impacto negativo nas contas públicas.
E ainda se dizia que não existiam alternativas.
Identificar medidas de poupança de custos através de uma exaustiva revisão dos gastos de cada Ministério e da racionalização das despesas não relacionadas com salários e pensões, que actualmente representam uns assombrosos 56% do total da despesa pública.
Da carta enviada pelo governo grego ao Eurogrupo. Tradução minha.
A carta está cheia de propostas vagas, sem quantificação de resultados previstos, mas tem no mínimo uma utilidade: demonstra que a Grécia precisa menos de perdões de dívida do que de uma gestão minimamente competente. Tomara o governo português ter disposto de uma margem como a revelada no trecho acima.
Versão original do parágrafo traduzido:
Identify cost saving measures through a thorough spending review of every Ministry and rationalisation of non-salary and non-pension expenditures which, at present, account for an astounding 56% of total public expenditure.
Elemento do Syriza no Porto, em mensagem a Passos Coelho: Aprende a nadar, que a maré se vai levantar. Porque, mais cedo ou mais tarde, a liberdade vai passar por aqui.
Há pouco mais de uma hora, no Jornal da Tarde, a TVI noticiou que Fernando Alonso sofreu um acidente esta manhã, nos treinos para o Grande Prémio de Espanha. Isto quando o campeonato de Fórmula 1 ainda nem começou (trata-se de uma sessão de testes de pré-temporada). Talvez seja preferível os canais de televisão generalistas limitarem-se a falar de futebol, tema para o qual parecem dispor de várias centenas de especialistas.
Tenho navegado pouco na blogosfera. Descobri o Ordet (como ando a lutar para não pré-encomendar esta edição de filmes de Dreyer…) há pouco mais de uma semana, quando o Pedro Correia destacou um texto sobre o filme Birdman. Ainda dou por lá os primeiros passos mas não hesito em escolhê-lo já para blogue da semana.
Negativos
Governos da Zona Euro ver-se-ão obrigados a apresentar orçamentos rectificativos para acomodar aumento de despesas com viagens. O anúncio gerará contestação na Bélgica, levando à demissão do governo (seguindo tradição local, as perspectivas de desempenho da economia melhorarão de imediato).
Positivos
Companhias aéreas europeias comunicarão ter tido o melhor mês de Fevereiro do milénio. Aeroporto de Bruxelas ocupará lugar entre os mais concorridos do planeta. Governo português anunciará que as receitas previstas com a privatização da TAP foram revistas em alta, devendo permitir eliminar a sobretaxa do IRS antes das eleições legislativas. Lufthansa anunciará instalação de um lugar para atracagem de cadeiras de rodas em todos os aviões (responsável afirmará: «Para além de ser positivo para a nossa imagem, julgamos que é rentável e evita que as assistentes de bordo tenham que andar todos os dias com o ministro das finanças ao colo»).