‘Destroikando’ em miúdos


escafandro,

Quem ganhou? Acima de tudo, a Grécia perdeu. O governo aceitou quase todas as exigências e o país está hoje pior do que estava há três meses. Sobra a retórica imbatível de Varoufakis, o sexy e sincero, que conseguiu uma provável descida do objectivo para o excedente primário e que «a Troika» fosse substituída no léxico oficial por «as Instituições».

O acordo é para levar a sério? Sem sombra de dúvida, talvez. Para já, é preciso concluí-lo e para isso as medidas a apresentar pelo governo grego na próxima segunda-feira têm de ser credíveis (nada menos certo). Depois, ninguém estranhará se for desrespeitado nos meses seguintes, através da aplicação de medidas não previstas ou da recusa em corrigir eventuais desvios orçamentais. Hipótese mais divertida: não passar de um estratagema para ganhar tempo e preparar a saída do euro.

Porquê quatro meses e não seis? Porque em Julho e Agosto a Grécia tem de efectuar pagamentos de quase 7 mil milhões de euros e um bocadinho de pressão extra sobre Tsipras e Varoufakis só pode ajudar nas negociações para um novo plano de financiamento. Porque Portugal e Espanha têm eleições antes do fim do ano e convém ter o governo grego domesticado – ou a Grécia fora do euro – a tempo dos eleitores perceberem a inutilidade que é votar em Syrizas.

E por cá? Tem piada ver bloquistas a comemorar.

Das culpas e exigências dos prestamistas


escafandro,

Há uma versão dos acontecimentos segundo a qual a culpa das dívidas dos Estados é de quem lhes emprestou o dinheiro. No fundo, uma acusação na linha das feitas aos bancos durante a crise do subprime, por – teoricamente escudados em produtos derivados – terem concedido empréstimos a pessoas sem rendimentos suficientes para pagar as prestações das casas que desejavam adquirir. Nesta linha de raciocínio, a Grécia, como Portugal, foi empurrada para o crescimento insustentável da sua dívida pública por todos aqueles – primeiro entidades privadas, depois as instituições constituintes da Troika – que lhe foram emprestando dinheiro. Pelo que – continuam os defensores desta teoria – é bem feito que tais prestamistas – usurários, mesmo – encaixem perdas pelo erro cometido. Não tenho problemas especiais em aceitar esta versão dos acontecimentos: a gestão do risco deve ser uma preocupação fundamental de qualquer empresa ou entidade, especialmente no sector financeiro (algo que a maioria das pessoas esquece quando confrontada com simulações pouco simpáticas de créditos ou seguros). No entanto, fazê-lo só pode levar a uma conclusão: não se deve emprestar a quem não tem (ou parece não ter) capacidade para pagar. Como – assumia-o a própria há um par de semanas e, de forma mais convoluta, assume-o ainda hoje  – é o caso da Grécia. Como – alguém duvida? – é o caso da Ucrânia. Como – houve um manifesto ainda há menos de um ano – muitos dizem ser o caso de Portugal. Vamos, pois, implementar proibições de concessão de crédito a países com dívidas públicas elevadas (digamos acima de 100% do PIB), de modo a limitar a acção dos especuladores? Vamos extinguir a Troika – e, de caminho, o FMI, inventado precisamente para emprestar dinheiro a países em situação crítica -, deixando cair (e desenrascar-se sozinho) quem tem de cair? Expurgado de exigências por parte de credores interessados em recuperar o dinheiro, o mundo ficará indubitavelmente um lugar muito mais bonito.

Mascaradas


escafandro,

 

De certa forma, porém, o teatro avant-garde e as operetas tinham uma coisa em comum para ela, nomeadamente que o conteúdo significava nada, a mascarada tudo.

Dag Solstad, Novel 11, Book 11. Tradução minha a partir da versão inglesa de Sverre Lyngstad.

Ressaca do vitorianismo


escafandro,

 

Lytton Strachey, o amigo de Woolf com quem ela esteve comprometida a certo ponto, teve numerosas relações homossexuais, muito embora também ele tenha assentado num arranjo de longa duração, no seu caso com Dora Carrington, uma jovem mulher que o adorava, e o marido dela, Ralph Partridge, que ele adorava.

Sandra M. Gilbert, introdução a Orlando, de Virginia Woolf, edição Penguin Classics. Tradução minha.

 

Resta a questão: quem adorava a Dora? Desde que Ralph a adorasse, era o triângulo perfeito.

DRH


escafandro,

Bate à porta duas vezes, com pouca força, e depois entreabre-a.

«Dá licença?»

«Ah, entre, João. Como está?»

«Bem, obrigado.»

Ela não se levanta. A mão que lhe estende é longa e magra e tem um anel com uma pedra azul no dedo médio. João aperta-a com cuidado. O toque é firme e suave, exactamente como esperava que fosse, mas ainda assim deixa-o perturbado. A mão dela está fria. Pensa em retê-la um pouco no interior da sua, para a aquecer, mas ela puxa-a. Ele segue a mancha azul com os olhos.

«Sente-se, João.»

Obedece. A cadeira é dura e baixa. João sabe ser quase dez centímetros mais alto do que ela mas naquele gabinete, sentados ela atrás da secretária e ele à frente, são da mesma altura. Repara no pequeno sinal castanho que ela tem junto ao olho esquerdo – e depois desvia o olhar.

«Anda tudo bem consigo, João?»

O tom de voz é neutro, impessoal, mas ainda assim ele sente um frémito. Hesita. Ela fez a pergunta a olhar para baixo, para os papéis em cima da secretária. Não estará verdadeiramente interessada na resposta, pensa João. Diz: «Dentro do possível.»

«Ainda bem, João.»

«A minha mulher morreu.»

Ela nem sequer ergue os olhos.

«Mas já foi há uns tempos, não foi?»

A reacção dela fá-lo arrepender-se de ter mencionado o assunto. Claro que ela tinha de saber. É directora de pessoal.

«Há oito meses. Quase nove.»

Ela levanta finalmente a cabeça. João repara que tem outro sinal, mais pequeno, do lado direito da testa, quase na têmpora. Não se vê bem porque às vezes o cabelo tapa-o.

«Ainda lhe sente a falta?»

Ele não sabe que resposta dar. Não quer mentir mas dizer que quase já não pensa na mulher, ainda por cima depois de ter puxado o assunto, vai parecer mal.

«Tento não pensar nisso.»

Ela continua a olhá-lo durante mais um instante. Depois diz: «É capaz de ser o melhor» e volta a baixar os olhos para os papéis. João sente desvanecer-se o orgulho de ter conseguido uma resposta inteligente.

João não apenas pensa pouco na falecida mulher como já nem se lembra bem dela. Houve um par de ocasiões em que tentou recordar-se das suas feições e não conseguiu obter uma imagem precisa. Mas recorda-se de muitas outras coisas. Recorda-se, por exemplo, de quando a directora de pessoal chegou à empresa, três anos antes, tinha ele já vinte e seis de casa. Disse-se que vinha de outra empresa do mesmo sector. Que nessa outra empresa liderara um processo de despedimento colectivo e depois fora também mandada embora. Claro que pode não ter passado de um boato. Uma forma de a diminuir e fragilizar logo à partida. João também trabalhara noutra empresa antes – mas há uma eternidade, entre os quinze e os vinte e um. Depois viera para esta. A constatação de que haviam decorrido vinte e nove anos (quase trinta, na verdade) deixa-o confuso e indisposto. Especialmente por isso o lembrar de que está a chegar aos cinquenta anos de idade. E sente-os. Gostaria de não sentir, por vezes tenta convencer-se de que não sente, mas sente.

A directora de pessoal deve ter trabalhado em mais empresas, não apenas na anterior e nesta. Ou então passou muitos anos na anterior. No início, quando ela chegara, João tivera dificuldades em determinar-lhe a idade. Magra, elegante, bem vestida, quase sempre de saltos altos, parecia não ter mais de trinta e cinco. Mas depois observava-se-lhe a cara e ficava-se na dúvida se a maquilhagem não servia para disfarçar os efeitos de um número de anos mais elevado. João perguntara a alguns colegas e fora gozado por isso mas acabara por descobrir: quarenta e um. Isto há três anos. Agora andará pelos quarenta e quatro. João pensa que ela não os parece. E depois, como em inúmeras ocasiões nos três anos anteriores, que é apenas seis anos mais nova do que ele.

Ao chegar à empresa era casada mas entretanto divorciara-se. Tinha um filho, que João vira apenas uma vez, logo no primeiro Natal. Nessa altura a empresa ainda fazia uma festa, com distribuição de presentes às crianças dos trabalhadores. O filho dela andaria agora pelos oito ou nove anos, o que significava que ela o tivera por volta dos trinta e cinco. João sabe que hoje em dia poucas mulheres têm filhos antes dos trinta e cinco. A carreira é mais importante. Ele também tem um filho. E uma filha. Mas ambos já acima dos vinte. Haviam nascido, com menos de dois anos de intervalo, numa época em que tanto João como a mulher andavam pelos vinte e cinco – praticamente a idade que o filho tem agora. Estão fora de casa, ele numa empresa de metalomecânica na Alemanha, ela a acabar o curso de assistente social no Porto. Espera-a o desemprego, é o que todos dizem, mas João tenta não pensar nisso. Desde que ficou sozinho em casa esforça-se por não pensar no futuro. A mulher é que fazia questão de estar sempre antecipar o futuro – constantemente cheio ameaças.

Ela fala de novo: «João, não sei se desconfia da razão por que quis falar consigo.»

No decurso daqueles três anos João vira-a poucas vezes. Apesar de ser directora de recursos humanos, raramente vai à fábrica. Mas ele lembra-se de que houve uma época em que andava abatida. Foi antes e logo depois do divórcio que – João ouviu-o não sabe a quem – coincidiu com a morte da mãe. Um dia, por volta das três e meia da tarde, João ia a sair, depois de concluir o turno, quando a viu dirigir-se para o carro. Parou. Trabalhando em horários desencontrados, nunca tinha oportunidade de falar com ela. Mas agora ali estava, saindo mais cedo por qualquer razão. Começou a caminhar na direcção do carro dela, tentando lá chegar ao mesmo tempo que ela. Estavam ambos a cerca de dez metros quando ela o viu. João notou as olheiras e o ar cansado e ficou sem coragem para meter conversa. Disse «Boa tarde» ao passar por ela e continuou a caminhar. Que se lembre, ela não falou. João só olhou para trás quando ouviu o carro arrancar. Depois foi para casa.

Apercebe-se de que ela disse qualquer coisa que lhe escapou.

«Desculpe, o quê?»

Ela olha-o rapidamente e depois desvia os olhos.

«A empresa não faz isto com agrado, João, mas os tempos estão complicados e é necessário reduzir os custos.»

«Vou ser despedido?»

«Não tome isto como uma questão pessoal, João. A empresa precisa de reduzir o pessoal. Vai ser cortado um turno e vão ser dispensados alguns elementos da área administrativa.»

João consegue agora perceber que o sinal mais pequeno não é bem preto. É escuro mas ligeiramente rosado. Ou talvez fique assim quando ela está nervosa.

«Evidentemente, serão pagas todas as indemnizações devidas. Tenho aqui o valor da sua.»

Mas é difícil ter certeza de que está nervosa. Parece mais cansada do que nervosa. E aborrecida – ou talvez farta. João pensa que não deve ser fácil ter de dar aquelas notícias. Pega no papel que ela lhe estende.

«Porquê eu?»

«Você está no sector onde temos mais excesso de capacidade. E depois não tem família a seu cargo.»

«A minha filha ainda está a estudar. Sou eu que lhe pago os estudos.»

Ela olha para os papéis.

«Deve estar a acabar o curso, não deve? E você vai ter subsídio de desemprego. De qualquer forma, a maioria dos seus colegas tem filhos mais novos.»

É verdade. Não obstante a empresa ter muitos trabalhadores com idade parecida com a dele, raros foram pais antes dos trinta ou trinta e cinco anos. Toda a gente tem filhos mais tarde, hoje em dia.

João não tem vontade de discutir a situação. Olha para o papel. Ela diz: «Não é um valor baixo. Você já cá trabalha há muitos anos.»

Ele não sabe o que dizer. Não lhe apetece discutir. Não com ela, pelo menos. Ficam assim, em silêncio, durante vários segundos que parecem acabar por ser mais desconfortáveis para ela.

«Quer fazer alguma pergunta, João, ou dizer alguma coisa?»

Está a olhar para ele, agora. Mas neste momento é a João que apetece desviar os olhos. Perpassa-lhe pela mente a ideia de que a comunicação dela e o papel que tem na mão são provas do seu falhanço. Em vinte e nove anos de serviço (falhará os trinta por dois meses) não conseguira tornar-se importante para a empresa. Pelo contrário: é dos menos importantes. E é ela quem lhe comunica o facto.

«Não.»

«Não leve isto pessoalmente. Não deixe que o afecte. E, se precisar de falar comigo outra vez, esteja à vontade.»

Estende-lhe a mão. João levanta-se da cadeira e aperta-a. Continua fria.

«Boa sorte, João», diz ela.

«Obrigado.»

João roda e dirige-se para a porta. Pára junto dela e roda outra vez.

«Talvez volte. Vou pensar no assunto e depois talvez volte.»

«Claro, João. Mas marque primeiro, está bem? Se aparecer sem avisar pode estar cá alguém e eu não o poder atender.»

João faz que sim com a cabeça. Abre a porta e sai. Enquanto a fecha, aproveita para a olhar uma última vez. Está de novo a prestar atenção aos papéis.

 

(Também aqui.)

Metamorfose da revolução


escafandro,

Agora foi a surpresa, os trabalhadores não apareceram na rua de punho ao alto para esmagar a reacção. As 200 famílias, quando não estão em tribunal por qualquer vigarice comum, continuam em casa. A doença infantil do esquerdismo acabou por se instalar no Governo da Grécia e viaja por aí freneticamente de avião. E a grande força do progresso passou agora a ser o imenso proletariado do funcionalismo e dos subsídios do Estado. O manifesto obrigatório da “inteligência”, assinado pelas luminárias do costume, é dirigido ao pobre dr. Passos Coelho, que certamente ficou atarantado com a sua súbita importância histórica. De resto, por razões que se compreendem, nem Sartre, nem Beauvoir se deram ao trabalho de ir deixar uma frase em Atenas, coisa que não nos faltou em Lisboa.

Não interessa. Nada disto diminui o Syriza, porque o Syriza encenou a sua erupção na consciência das massas para o tempo da televisão e da Internet; e aí foi, reconheçamos, magistral. A ideia de não pôr gravata não ocorreria a Lenine. O nacionalismo e o justo ódio aos mercados do capital oligárquico e especulativo não se vêem e não ganham com a alta definição o Facebook ou o Twitter. Em contrapartida, o couro preto não engana ninguém e não há ninguém que não conheça a sua ilustre linhagem: os comissários do Exército Vermelho, os generais do Führer, os super-homens da SS. O couro preto e o pormenor moderno da fralda de fora indicam agressivamente o macho Alfa, a sua virilidade e a sua vontade de domínio. Características que, se não comovem a sra. Merkel, intimidam os burocratas da economia e arrasam as feministas de serviço. A velha Europa precisava desta metamorfose da revolução.

Parte da coluna de Vasco Pulido Valente, hoje no Público.

O mundo está mesmo perdido ou coisas que me fazem sentir uma relíquia arcaica


escafandro,

Entro numa casa de banho usada quase exclusivamente por um rapaz de vinte e três anos de idade. Enquanto lavo as mãos (com sabonete em barra) conto os frascos, as bisnagas e os boiões que se alinham junto ao lavatório e à banheira: vinte e três. Mesmo admitindo que algumas embalagens contêm o mesmo tipo de produtos, não consigo perceber como se pode usar tanta coisa. Entre o fascínio e a repulsa, suspiro e saio.

(A sério: sabonete líquido, champô, amaciador, creme da barba, after shave, desodorizante, água de colónia, gel para o corpo, gel para o cabelo, creme para as mãos… Raios, ainda nem cheguei a metade!)

O mercado interno, o euro e os encantos do passado


escafandro,

Resumindo, não é possível um mercado interno com união aduaneira, a funcionar correctamente – e durante muito tempo –, num ambiente de distintas moedas. Não é possível na União e não foi nunca em parte alguma do Mundo. É bom que os detractores do euro pensem nisso quando pensam nisso: sem moeda única, não há mercado interno.

[…]

Duas coisas me irritam, confesso, nos cépticos do euro: a constante referência à soberania nacional e o apelo ao regresso ao tempo do escudo, quando o mel e o leite corriam abundantes pelas doces encostas pátrias, concedendo a todos o benefício do progresso e do bem-estar. Quanto à soberania, lamento, não sei do que falam: há quanto tempo não é Portugal verdadeiramente soberano nas matérias que transferiu para a União e cuja recuperação formal não serviria de qualquer modo para nada? Num Mundo global, países da nossa dimensão e com os nossos recursos têm pouca soberania – sustento aliás que Portugal ganha soberania na condição de membro da União. Quanto ao argumento do passado, de um tempo em que um escudo pujante nos garantia um lugar cimeiro entre as nações ricas do Mundo: quando foi isso? Portugal tinha em 1985, ano anterior à adesão, um PIB per capita pouco superior a 50% da média comunitária, tendo crescido desde então acima dos 70%. Querem comparar o país com escudo com o Portugal de hoje? Era melhor em quê? Havia desemprego, inflação, juros altos, salários em atraso. Melhor em quê? E ao que voltaremos no dia em que, recuperado o amado (e não assim tão velhinho) escudo, sucessivas desvalorizações empobrecerem o país como fizeram tantas vezes ao longo da nossa História, pondo-nos ainda mais longe dos tais países ricos que alegadamente nos exploram dentro da UE (coisa que não farão quando estivermos fora, claro – isto é uma ironia)?

[…]

E não sendo novidade, também é facto que está feita boa parte do caminho da integração, logo da resolução dos defeitos da concepção da zona euro. Como escreveu Alberto Gallo do Bank of Scotland, a zona euro está cada vez mais unida, com união bancária (ainda incompleta, é certo), união financeira (a meio caminho), união orçamental (a fazer-se) e até com a prometida compra de títulos da dívida soberana e sua mutualização (parcial, nos 20% assumidos pelo BCE do Quantitative Easing). Pediam solidariedade europeia? Pediam injecções de dinheiro “à americana”? Pediam a diminuição do preço do euro para beneficiar os deficitários? Check, check, check. Quando a crise começou e sobretudo a partir daquilo a que chamo o tempo dos resgates (2011), nada do que desde então se fez era previsível. Muitos eurocépticos (contra o euro, pelo menos), previram então a saída da Grécia – e de Portugal – e a desagregação iminente da zona euro e da própria União. Já lá vão 4 anos, eles continuaram a prevê-la a cada sinal de crise, muito mudou mas a união não se desagregou. A Europa, quer queiram quer não, está unida. A Alemanha, tão e sempre odiada e apontada como responsável pela crise, continua a ser o travão contra os excessos e as euforias induzidas pelos Syrizas do dia, ainda que continue a ceder sempre que é preciso – sempre que a Europa precisa.

 

Paulo de Almeida Sande, no Observador. Há muito mais no artigo, sobre passado, presente e eventual futuro. O risco não abordado – com potencial para tornar excessivo o optimismo revelado no final do texto – é que os populismos destruam um processo forçosamente lento, pela necessidade de efectuar reformas difíceis em alguns países (que lhes permitam não constituir um peso excessivo e permanente) e de levar outros a aceitar uma progressiva união fiscal e orçamental (através de um orçamento comunitário reforçado, por exemplo).

A primeira barricada do imobilismo


escafandro,

Sem as chamadas “reformas”, o dinheiro, só por si, nunca será mais do que um paliativo temporário, tal como os perdões de dívida, porque a economia da Grécia não é capaz de usar os recursos de outra maneira. Muito provavelmente, serviria apenas para aumentar as importações com origem na Alemanha, como já está a acontecer em Portugal. Ora, ao eleger o governo do Syriza e da extrema-direita, o eleitorado grego sinalizou que não quer adaptar a sua economia para funcionar dentro da zona Euro. É este o problema que não cabe na análise de Vítor Bento.

Neste ponto, chegámos ao maior erro da zona Euro, e que, esse sim, é o erro fatal: a ideia de que o enquadramento e a pressão externa bastariam para provocar mudanças na Grécia e em outros países, independentemente das configurações de forças políticas internas. Bem apertados, os gregos arranjar-se-iam para resolver o problema. Não se arranjaram. Pelo contrário: a pressão externa serviu apenas para fazer os partidos europeístas parecerem agentes de um castigo estrangeiro, e deu a bandeira da soberania aos populismos da extrema-esquerda e da extrema-direita. Mais: o enquadramento do Euro criou a expectativa de que, para preservar a união monetária, toda a UE acabaria por submeter-se ao Syriza, cujo despesismo pareceu assim credível aos eleitores gregos. Ironia da história: o Euro, que se julgava fosse o instrumento de transformação do sul, funciona agora como a primeira barricada do imobilismo.

Rui Ramos, no Observador. Convém ler o resto.

Não desperdiçar capital em negociações


escafandro,

Por isso, é defensável que Portugal tenha uma posição clara e inflexível sobre o assunto: queremos exatamente as mesmas condições que forem oferecidas aos gregos. Se quiserem usar esquemas que só se apliquem a eles, estamos contra, em nome da igualdade na Europa. Se as negociações não forem a lado nenhum, não temos problema com isso. Não defendemos as propostas gregas, não temos de concordar com elas, nem podemos ser contados como aliados de ninguém nas negociações ou gastar qualquer capital em nenhuma negociação. Entramos nas reuniões mudos e saímos calados.

Ricardo Reis, no Dinheiro Vivo. Vale a pena ler o resto do artigo, no qual se abordam as questões da conversão da dívida grega em perpetuidades e do pagamento indexado à taxa de crescimento da economia.

Instituições


escafandro,

Ele pedia a Deus que os ateus estivessem certos. Porque a existir uma vida para além da morte seria institucional porque alguém teria de a gerir e ele não conseguia passar por aquilo outra vez. E a única coisa pior seria a reencarnação e o regresso ao oceano de instituições humanas.

Norman Rush, Mortals. Edição Jonathan Cape. Tradução minha.