Sublinhando que ainda não analisou ao pormenor o documento dos economistas escolhidos por António Costa, o ex-empresário e ex-deputado socialista Henrique Neto notou ainda que a preferência do PS pelo aumento do consumo privado, através da reposição mais rápida dos cortes salariais, da diminuição da sobretaxa de IRS e da TSU para os trabalhadores, tem um revés: “conduz quase sempre a um aumento das importações”.
E por isso o candidato independente a Belém tem reticências. “Obviamente não tenho nada contra o aumento das medidas a favor do consumo, mas antes disso é preciso medidas de substituição em certos sectores para não corrermos o risco de desequilibrar a balança comercial”, disse.
(Desta vez não resisti; passei «setores» a «sectores». Até por estar convencido – sinceramente – de que, ao sair da mente de Henrique Neto e ser atirada – indefesa – para a atmosfera, a palavra vinha com a consoante muda no lugarzinho dela.)

Aqui, no DdO, o do costume não gosta que se citem os outros…
Concordo, o Henrique Neto já declarou o que pensava sobre o acordo da treta.
E HN tem toda a razão ao duvidar que o Estado tenha capacidade para contribuir para a “inovação” das empresas, falando ele por experiência própria…
E o Costa pretender que o Estado tenha capacidade de dispensar o outsourcing e que exista por parte dos seus funcionários capacidade de fazer tudo é viver longe da realidade. Poderá haver exageros e mesmo negociatas no que é dado a fazer “fora” (muitas vezes, a firmas dos próprios técnicos), mas os conhecimentos deles na generalidade dos assuntos puramente técnicos limitam-nos, naturalmente, à possibilidade de contribuir para as especificidades e à aplicação local do que empresas especializadas fornecem. Que se aumentasse a transparência, a agilidade dos mecanismos de adjudicação e se limitasse severamente o ajuste directo já não seria mau. Gostava de saber, por exemplo, o que lá pela CML (ou pelo Largo do Rato) se passa em termos de informática. Isto para não mencionar assuntos como conhecimentos de línguas, por exemplo, ou o funcionamento da segurança ou o fornecimento de refeições…
Refiro-me a estas declarações de A. Costa:
“Como pode o Estado ter um efeito na inovação se ele próprio não for capaz de ser inovador?”, interrogou-se António Costa, numa intervenção em que voltou a criticar o recurso excessivo pelo Estado ao ‘outsourcing’, sobretudo nos últimos dez anos, desprotegendo o Estado em termos de recursos humanos qualificados.
“Um dos maiores desafios que se coloca a Portugal passa pela requalificação dos quadros da administração pública. Durante muitas décadas, na verdade, a administração pública foi um centro de referência de competências, mas foi perdendo – e isso desarmou o Estado em desfavor do setor privado. Por isso, a recuperação da inovação no setor público é absolutamente essencial”, acrescentou o secretário-geral do PS.
Não é forçosamente correcta a análise que HN faz sobre a matéria. O défice da balança comercial baixará por via da redução do preço de petróleo. E as medidas de estímulo não estão aí para a compra de artigos de luxo e /ou de bens duradouros.
Que tipo de aumento nas importações se refere Henrique Neto que possam desequilibrar a balança?
As medidas de substituição em certos sectores só poderão ocorrer no mínimo numa década, se existir capacidade de absorção em outros mercados. Afinal a parte produtiva, de bens transaccionáveis, foi praticamente desmantelada. Que medidas, então, de substituição?
Por onde se deve optar. Pela estagnação? Pelo aumento da dívida e consequente aumento dos encargos como tem vindo a suceder?
Estamos a decidir sobre uma medida que deve ser tomada face à realidade ou sobre o que se deseja vir a ter?
Uma vez que publicou o post e parece entender melhor o que Henrique Neto reflecte, pode o José explicar-me o que eu possa não ter não entendido?
Sim, demorará tempo. Teria sido mais fácil há vinte anos. Infelizmente, apostou-se no consumo e no investimento público desenfreado. O efeito do preço do petróleo só compensará até certo ponto, até porque a evolução dele é incerta – e se o efeito ainda se sentirá em 2015 (só começou a descer em meados de 2014), dificilmente compensará aumentos no consumo em 2016. A menos que acredite que este ano o saldo será extraordinariamente positivo…
“E as medidas de estímulo não estão aí para a compra de artigos de luxo e /ou de bens duradouros.” esas/automovel/detalhe/2015_teve_o_melho r_marco_para_venda_de_automoveis_desde_a ntes_da_troika.html
A venda de automóveis já está a subir 33,1% em 2015:
http://www.jornaldenegocios.pt/empr
Não me diga que o PS vai impor regras para utilização do dinheiro… 🙂
Antes de tudo não me faça perguntas sobre as decisões do PS. Eu não hipotequei minha vida e minha consciência. Pergunte-me o que eu penso sobre as medidas. ao-automovel-cai-quase-10_215789.html
Curioso, afinal o aumento dessas compras de automóveis ocorre mesmo sem que as medidas de estudo do PS tenham efeito. O que poderá estar a indicar este aumento? A renovação de frotas de aluguer com a Primavera e o Verão à porta? Talvez. O turismo aumentou, apesar da situação caótica das unidades hoteleiras também fruto do que são espremidas pelos operadores. E eu sei o que escrevo.
Nota: Nenhuma empresa compra em Março podendo comprar no ano anterior para poder abater fiscalmente essas aquisições.
No entanto registemos outro facto que ocorre após a data da notícia que anexou:
http://economico.sapo.pt/noticias/produc
Sobre o petróleo, falamos sobre a realidade e o efeito que vai ter efectivamente sobre as contas. O que é reserva é reserva e não afecta as flutuações. Estamos perante uma realidade de facto.
Estou errado?
Do mesmo modo, não me faça perguntas sobre a lógica profunda do Henrique Neto (ou do pessoal do governo, já agora). 🙂
Creio – mas não encontro links que o comprovem porque os jornalistas hoje só sabem fazer ‘copy/paste’ dos comunicados e não procuram mais informação – que, como diz um comentador no Económico, embora num português difícil de entender, a Autoeuropa prepara uma alteração de modelo e as variações significativas na produção de automóveis na fábrica da PSA em Mangualde se devem a também estar a produzir plataformas. (Se alguém tiver informação mais exacta, é favor adiantá-la.)
Eu não economista, por isso vamos lá devagarinho:
Se o petróleo foi comprado a 100 em 2014 e é comprado a 50 em 2015, poupa-se 50% e isso permite compensar aumentos nas importações de outros produtos. Se em 2016 continuar a comprar-se o petróleo a 50 já não se poupa em relação a 2015. No caso de as importações continuarem a subir, será necessário encontrar outras formas de as compensar – ou aceitar o desequilíbrio.
Falta o “sou” em “Eu não sou economista”. Deve ter sido uma coisa freudiana. Ou talvez shakespeariana.
Quanto ao número de anos, depende do ritmo de crescimento das exportações. Entre 2010 e 2015, cresceram 30% – e quase sem medidas de ordem fiscal. Representam hoje muito mais no PIB (42% contra cerca de 30%; ou 25% após descontar as importações para os produtos exportados), embora isto também se deva ao facto de ele ter caído.
Também lhe posso dizer – mas é uma opinião subjectiva, embora de ‘terreno’ – que, ao contrário do que se passava há dois, três anos, existem hoje imensas empresas a planear aumentar produção e exportações. Sendo que – é uma realidade ligeiramente cruel, que os governos socialistas têm dificuldade em perceber (e aplicar, inclusive no sector público) – a necessidade aguça o engenho: muitas delas estavam confortáveis até terem necessidade de agir.
José, vamos lá ver se nos entendemos. O aumento das exportações sobem por via da descida das importações. Desculpe, não pretendo ofendê-lo desenhando a situação.
Ex: Se antes importava 1 milhão e exportava 500.000 constato um défice de 50% face ao volume em ambos os sentidos. Se eu passo a importar 400.000 e mantenho os 500.000 de exportação o défice já se torna favorável e posso concluir que aumentei em 25% a taxa de exportação.
Mas a realidade revela-me que o que baixou foi a importação. E Indica-me isto, tendo em conta a particularidade de nossa economia, que a actividade económica se agravou no mercado interno.
É básico este entendimento, não obstante uma ligeira melhoria das exportações em dado momento e do sector turístico ter contribuído para esta melhoria nas exportações. Turismo é exportação.
Por outro lado surgem os indicadores da quebra na actividade exportadora e as flutuações do défice, aqui: omercial-portugues-aumenta-quase-mil-mil hoes-de-euros_211661.html
http://economico.sapo.pt/noticias/defice-c
O que nós devemos debater, José, são AS ALTERNATIVAS em FACE da situação mundial e não só interna.
É NESTE NECESSÁRIO, só e somente NESTE CENÁRIO, que devemos analisar a proposta a debate do partido socialista. Da parte do PSD já sabemos que não vem nada de novo , e nós temos mais de dois milhões de pobres com carências alimentares e a sua grande maioria com qualificações profissionais.
O que fazer com isto? Como criar um estímulo para o consumo interno? Alguma coisa terá de ser sacrificada. Qual o mal menor?
José, é do interesse de todos produzir opinião que contribua para um bem comum. E, neste momento, foi o PS que deu o pontapé de saída para que isto ocorra. É mentira o que dizem de isto ser uma proposta. É um guião em debate com todos os parceiros e com a opinião pública. Já apontei alguns pensamentos, e acrescentei no post do Sérgio a minha opinião sobre a TSU e o que deve acompanhá-la; e parece-me que continuam todos barricados em paróquias. Também disse que aquele crescimento é um preciosismo.
José, é óbvio que todos desejam planear exportações. Precisamente por não terem mercado interno. Mas, como referi, o mercado externo também não dá segurança.
Votei sempre em branco nas eleições para presidente. Vou votar em Henrique Neto: conhece a realidade do país – e não uma imagem dele -, conhece o mundo da economia, em que foi um inovador, tem um passado político e cívico, é culto.
Não há nenhum outro que reúna estas condições.
O título não é apenas ironia. Pondero seriamente fazê-lo. Em especial se a alternativa à direita for Santana Lopes. De momento, o único cenário em que não votaria nele seria a esquerda ter um candidato forte que pudesse vencer à primeira volta e as sondagens mostrassem que Neto não tinha hipóteses. E, ainda assim, se o candidato da direita fosse Santana Lopes e o da esquerda alguém como Guilherme d’Oliveira Martins, provavelmente votaria Neto na mesma. Mas é demasiado cedo para estar a elaborar tantas hipóteses… 🙂
Pois eu, quando vejo escrito «sectores», apresso-me a corrigir esse erro ortográfico.
Temos de dar o beneficio da dúvida ao PS….
Eles nunca governaram o país. É altura de mudança! sangue jovem … como o que corre na primeira fila do hemiciclo.
Não é verdade MS ?
Tirando a parte das promessas que animam as almas, onde as coisas se complicam para acreditar no enredo, é que não vai ser possivel fazer fabricas a mata cavalos, pelo estado e os privados não embarcam em promessas eleitorais para caçar votos.
Tenhamos esperança que sempre se conseguem levar os crentes(fatima é um ex.) mesmo com promessas vagas.
O Henrique Neto tem toda a razão e subscrevo o título do post do JAA.
No entanto o que mais me agrada no programa apresentado pelo PS é, de facto, a coragem de pegar o boi pelos cornos e baixar a TSU em 8%. Ora uma baixa da TSU (e não do IRC) favorece as empresas exportadoras, que são mais intensivas em pessoal do que os serviços. Mais, ao baixar um custo directo em vez de um imposto, ajuda empresas em situação mais periclitante e conserva os postos de trabalho. Uma empresa com lucros nulos ou mesmo ligeiro prejuízo quer lá saber do IRC para nada.
Obviamente que aumentar o rendimento disponível aumenta as importações (basta ver o disparate com os carros mal a coisa deu sinais de alívio) – mas isso não é culpa do Governo. É nossa, de cada um de nós.
Se há medida que dá o sinal errado neste programa do PS é a descida do IVA da restauração.